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← Vamos tornar o mundo selvagem novamente

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Showing Revision 20 created 05/29/2020 by Carolina Aguirre.

  1. Meus irmãos e eu crescemos
    na fazenda do nosso bisavô
  2. na Califórnia.
  3. Aquelas eram as terras
    da nossa família e a nossa casa.
  4. Quando ficou claro
    que ninguém da nossa geração
  5. queria assumir o fardo pesado
    de cuidar da fazenda,
  6. ela foi vendida a um vizinho.
  7. A âncora de nossa vida foi cortada
  8. e nos sentimos à deriva
    na ausência daquelas terras.
  9. Pela primeira vez, pude entender
  10. que algo valioso pode ser melhor entendido
  11. não por sua presença,
  12. mas por sua ausência.
  13. Na época, era impossível saber
  14. o poderoso impacto que a ausência
    daquilo que amamos
  15. teria no meu futuro distante.
  16. Por 23 anos, minha vida profissional
    aconteceu ao lado de Yvon Chouinard.

  17. Começou quando ele projetava
    e fabricava equipamento técnico
  18. para escalada em rocha e gelo,
  19. num barracão de zinco perto
    dos trilhos da ferrovia em Ventura.
  20. E quando Yvon decidiu começar
    a confeccionar roupas para alpinistas
  21. e deu ao negócio o nome de Patagônia,
  22. me tornei uma dos seis
    primeiros funcionários,
  23. mais tarde me tornando CEO
  24. e ajudando a construir uma empresa
  25. na qual criar os melhores produtos
    e fazer o bem pelo mundo
  26. era mais do que apenas um slogan.
  27. Doug Tompkins, que se tornaria
    meu marido anos depois,

  28. era um velho amigo e companheiro
    de escalada de Yvon
  29. e também era empreendedor.
  30. Ele cofundou as empresas
    The North Face e a Esprit.
  31. Essas três empresas foram criadas
    por pessoas que cresceram nos anos 60,
  32. moldados pelos direitos civis,
    e os movimentos antiguerra,
  33. feminista e a favor da paz.
  34. E esses valores foram
    assimilados naqueles anos
  35. e encorporados em todo
    os valores dessas empresas.
  36. No final dos anos 1980, Doug decidiu
    deixar completamente os negócios

  37. e comprometer o último terço
    de sua vida ao que ele chamou
  38. de "pagar o aluguel por viver no planeta".
  39. Quase ao mesmo tempo,
    quando cheguei aos 40,
  40. estava pronta para fazer algo
    totalmente novo na minha vida.
  41. Um dia depois de me aposentar
    da empresa Patagonia,
  42. voei 9,6 mil quilômetros para a Patagônia
  43. e me juntei ao Doug, quando ele começou
    o primeiro projeto de conservação
  44. daquele terço da vida dele.
  45. Lá estávamos nós,
    refugiados do mundo corporativo,

  46. escondidos numa cabana
    na costa sul do Chile,
  47. cercados por floresta tropical primitiva,
  48. onde árvores alerces podem viver
    por milhares de anos.
  49. Nós estávamos no meio
    de um grande cenário selvagem
  50. que forma uma das únicas duas lacunas
    na estrada pan-americana,
  51. entre Fairbanks, no Alasca e Cabo Horn.
  52. Uma mudança radical em nossa vida diária,
    estimulada ao começamos a reconhecer
  53. como beleza e diversidade
    estavam sendo destruídas
  54. praticamente em todo canto.
  55. Os últimos lugares selvagens protegidos
    do planeta mantinham-se selvagens
  56. principalmente porque as linhas de frente
    implacáveis do desenvolvimento imobiliário
  57. não haviam chegado lá ainda.
  58. Doug e eu estávamos numa das áreas
    mais remotas da Terra,

  59. e, ainda assim, ao redor dos limites
    do Parque Pumalín,
  60. nosso primeiro esforço de conservação,
  61. a aquicultura industrial crescia
    como uma malignidade.
  62. Em pouco tempo, outras ameaças
    chegaram à região da Patagônia.
  63. Mineração de ouro, projetos
    de barragens em rios intocados
  64. e outros conflitos crescentes.
  65. A vibração do estrondoso
    crescimento econômico mundial
  66. podia ser ouvida mesmo
    nas mais altas latitudes do Cone Sul.
  67. Sei que o progresso é visto,
    num geral, em termos muito positivos,

  68. como um tipo de evolução esperançosa.
  69. Mas de onde estávamos,
  70. víamos o lado sombrio
    do crescimento industrial.
  71. E quando visões do mundo industrial
    são aplicadas a sistemas naturais
  72. que apoiam todo tipo de vida,
  73. começamos a tratar a Terra
  74. como uma fábrica que produz tudo
    aquilo que achamos que precisamos.
  75. Como todos dolorosamente sabemos,
  76. as consequências dessa visão de mundo
    são destrutivas para o bem-estar humano,
  77. os nossos sistemas climáticos
    e a vida selvagem.
  78. Doug chamou isso
    de "o preço do progresso".
  79. Foi assim que vimos isso
  80. e queríamos fazer parte da resistência,
  81. indo contra todas essas tendências.
  82. A ideia de comprar terras
    particulares e depois doá-las

  83. para criar parques nacionais
    não é necessariamente nova.
  84. Quem já apreciou as vistas
    do Parque Nacional de Teton em Wyoming
  85. ou acampou no Parque Nacional Acadia,
  86. em Maine,
  87. já se beneficiou dessa grande ideia.
  88. Usando a fundação de nossa família,
    passamos a adquirir habitats selvagens
  89. no Chile e Argentina.
  90. Com a nossa crença
    na biologia da conservação,
  91. íamos investir em áreas grandes,
    selvagens e conectadas,
  92. que fossem primitivas, em alguns casos,
  93. e outras que precisariam
    de tempo para se recuperar
  94. e voltar a ser selvagens.
  95. Por fim, compramos
    mais de 2 milhões de acres
  96. de vendedores dispostos,
  97. e os transformamos em áreas protegidas
    com gerenciamento fechado,
  98. enquanto construíamos
    a infraestrutura do parque
  99. como áreas de acampamento e trilhas
    para uso futuro do público em geral.
  100. Todos seriam bem-vindos.
  101. Nosso objetivo era doar toda essa terra
    como novos parques nacionais.

  102. Podemos descrever isso como um tipo
    de movimento de jujitsu capitalista.
  103. Posicionamos riqueza particular
    de nossa vida nos negócios
  104. e a usamos para proteger a natureza
  105. das garras devoradoras da economia global.
  106. Tudo parecia bem,
  107. mas no início dos anos 1990 no Chile,
    onde a filantropia das terras selvagens,
  108. como é chamada,
  109. era totalmente desconhecida,
  110. enfrentamos uma tremenda suspeita,
  111. e hostilidade ferrenha
    vinda de muitas partes.
  112. Com o tempo,
  113. principalmente agindo de acordo
    com o que dissemos que estávamos fazendo,
  114. passamos a conquistar as pessoas.
  115. Nos últimos 27 anos,
  116. temos protegido permanentemente
    quase 15 milhões de acres
  117. da floresta temperada,
  118. pradarias na Patagônia,
  119. áreas costeiras,
  120. pantanais de água doce,
  121. e criamos 13 novos parques nacionais.
  122. Tudo parte de nossas doações de terras
  123. e terras federais adjacentes
    a esses territórios.
  124. Após a morte de Doug, há quatro anos,
    causada por um acidente de caiaque,

  125. o poder da ausência nos assolou novamente.
  126. Mas, nós da Tompkins Conservation,
    nos inclinamos na nossa perda
  127. e aceleramos nossos esforços.
  128. Entre eles, em 2018, a criação
    de novos parques nacionais marinhos,
  129. cobrindo cerca de 25 milhões de acres,
    no sul do Oceano Atlântico.
  130. A pesca comercial ou extração
    de qualquer tipo são proibidas.
  131. Em 2019, finalizamos a maior doação
    de terras particulares da história,
  132. quando nosso último milhão de acres
    de terras de conservação no Chile
  133. foi passado ao governo.
  134. Uma parceria público-privada que criou
  135. cinco novos parques nacionais
    e expandiu outros três,
  136. o que se compara a uma área
    maior do que a Suíça.
  137. Todos os nossos projetos
    são resultados de parcerias,

  138. principalmente com os governos
    do Chile e Argentina.
  139. E isso requer uma liderança
  140. que entenda o valor de proteger
    as joias de seu país,
  141. não apenas para os dias de hoje,
    mas por muito tempo no futuro.
  142. Parcerias com filantropos
    dedicados à conservação
  143. também desempenharam um papel
    em tudo o que fizemos.
  144. Quinze anos atrás, nos perguntamos:

  145. "Além de proteger as terras,
  146. o que mais precisamos fazer para criar
    ecossistemas em pleno funcionamento?"
  147. E começamos a nos questionar,
    onde quer que estivéssemos atuando,
  148. quem estava faltando,
  149. que espécies haviam desaparecido
  150. ou quais encontravam-se
    em números baixos e frágeis.
  151. Também tivemos que nos perguntar
    como eliminar o próprio motivo
  152. que causou inicialmente
    a extinção dessas espécies.
  153. O que parece tão óbvio agora,
  154. foi uma total revelação para nós.
  155. E isso mudou a natureza
    de tudo o que fazemos,
  156. completamente.
  157. A menos que todos os membros da comunidade
    estejam presentes e prosperando,
  158. é impossível para nós ignorarmos
    ecossistemas em pleno funcionamento.
  159. Desde então, conseguimos reintroduzir
    várias espécies nativas ao Pantanal Iberá:
  160. tamanduás gigantes,
  161. cervo dos pampas,
  162. queixadas
  163. e, finalmente, um dos mais difíceis,
  164. as araras de asas verdes,
  165. que desapareceram por mais
    de 100 anos daquele ecossistema.
  166. E hoje, elas estão de volta,
    voando livre, distribuindo sementes,
  167. vivendo a vida delas como deveriam viver.
  168. O ponto crucial desses esforços em Iberá

  169. é o de devolver o máximo de carnívoros
    para o seu devido lugar.
  170. Onças-pintadas no solo, ariranhas na água.
  171. Vários anos de tentativa e erro
    produziram filhotinhos
  172. que serão libertados
  173. pela primeira vez em mais de meio século
    nos pântanos de Iberá,
  174. e agora, o Parque Iberá
    de 1,7 milhão de acres
  175. irá nos fornecer espaço suficiente
    para recuperar populações de onças,
  176. com um baixo risco de conflito
    com fazendeiros vizinhos.
  177. Nossos projetos de restaurar
    a vida selvagem no Chile
  178. estão aumentando nos baixos números
    de várias espécies-chave
  179. na região da Patagônia:
  180. o cervo huemul que está quase extinto,
  181. as emas menores,
  182. e as populações do puma
    e das raposas que estão voltando.
  183. O poder da ausência não pode nos ajudar

  184. se isso apenas nos leva
    à nostalgia ou desespero.
  185. Pelo contrário,
  186. a ausência só é útil se nos motivar
  187. no sentido de trabalhar para trazer
    de volta aquilo que ficou faltando.
  188. Obviamente, o primeiro passo
    para recuperar a vida selvagem
  189. é poder acreditar que isso é possível.
  190. Que a abundância de vida selvagem
    registrada em periódicos
  191. não são apenas histórias tiradas
    de alguns livros velhos e empoeirados.
  192. Consegue imaginar isso?
  193. Você acredita que o mundo
    poderia ser mais bonito,
  194. mais justo?
  195. Eu acredito,
  196. porque eu já vi isso.
  197. Eis um exemplo.
  198. Quando compramos uma das maiores fazendas
    no Chile e Patagônia, em 2004,

  199. ela era assim.
  200. Por um século, essa terra
    tinha sido exaurida pela pastagem,
  201. como a maioria dos pastos
    ao redor do mundo.
  202. A erosão do solo era galopante,
  203. centenas de quilômetros cercados
  204. mantinham a vida selvagem
    e seu fluxo encurralado.
  205. E isso acontecia com a pequena
    vida selvagem que restou.
  206. Os leões da montanha e as raposas locais
    tinham sido perseguidos por décadas,
  207. o que reduziu seu número drasticamente.
  208. Essas terras hoje incluem os 763 mil acres
    do Parque Nacional da Patagônia,
  209. e ficaram assim.
  210. E Arcelio, o ex-peão,
  211. cujo trabalho era encontrar e matar
    leões da montanha no passado,
  212. hoje é o principal rastreador
    da equipe de vida selvagem do parque,
  213. e a história dele fascina a imaginação
    de pessoas ao redor do mundo.
  214. O que é possível.
  215. Divido esses pensamentos e essas imagens
    não para me parabenizar,

  216. mas para levantar uma simples questão
  217. e propor um desafio urgente.
  218. Se a questão é sobrevivência,
  219. a sobrevivência da diversidade da vida
    e da dignidade humana,
  220. comunidades humanas saudáveis,
  221. então a resposta deve incluir
    a recuperação da vida selvagem na Terra.
  222. O quanto mais e o mais rápido possível.
  223. Todos temos um papel a desempenhar,
  224. mas especialmente
    aqueles de nós com privilégio,
  225. com poder político,
  226. com riqueza,
  227. e vamos assumir isso:
    seja por bem ou por mal,
  228. é aí que a partida de xadrez
    do nosso futuro está sendo jogada.
  229. E isso nos leva ao cerne da questão:
  230. "Estamos preparados pra fazer o que é
    preciso pra mudar o final desta história?"

  231. As mudanças que o mundo fez
    nos últimos meses
  232. para impedir a propagação da COVID-19
    são muito promissoras para mim,
  233. porque mostram que podemos unir forças
    em circunstâncias desesperadoras.
  234. O que estamos vivenciando agora,
    poderia ser um precursor
  235. ao dano potencial mais amplo
    causado pela crise climática.
  236. Mas sem alarde, estamos aprendendo
    globalmente a trabalhar juntos
  237. de maneiras que nunca poderíamos imaginar.
  238. Observar jovens do mundo inteiro
  239. se manifestando e saindo às ruas
  240. para nos lembrar da nossa culpabilidade
    e nos castigar por nossa inação
  241. é o que realmente me inspira.
  242. Sei que você já ouviu tudo isso antes.

  243. Mas se já houve um momento
    para despertarmos para a realidade
  244. de que tudo está conectado,
  245. esse momento é agora.
  246. Toda vida humana é afetada pelas ações
  247. de qualquer outra vida humana mundo afora.
  248. E o destino da humanidade
    está ligado à saúde do planeta.
  249. Temos um destino comum.
  250. Nós podemos prosperar
  251. ou podemos sofrer.
  252. Mas vamos fazer isso juntos.
  253. Então aqui está a verdade.

  254. Estamos muito distantes do ponto
    no qual a ação individual é eletiva.
  255. Na minha opinião, é um imperativo moral
  256. que cada um de nós
  257. se posicione para reimaginar
    nosso lugar no círculo da vida.
  258. Não no centro,
    mas como parte do todo.
  259. Precisamos nos lembrar
  260. de que o que fazemos
    reflete quem escolhemos ser.
  261. Vamos criar uma civilização
  262. que honre o valor intrínseco de toda vida.
  263. Não importa quem você seja,
  264. nem qual é o seu trabalho:
  265. saia da cama todas as manhãs
  266. e faça algo que não tem
    nada a ver com você,
  267. mas sim tudo a ver
    com as coisas que você ama,
  268. com o que você sabe que é verdadeiro.
  269. Seja alguém que imagina
    que o progresso humano
  270. é algo que nos move
    em direção à totalidade.
  271. Rumo à saúde
  272. e à dignidade humana.
  273. E sempre,
  274. e para sempre,
  275. rumo à beleza selvagem.
  276. Obrigada.