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← Para transformarem o bem-estar infantil, tirem a etnia da equação.

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Showing Revision 10 created 11/12/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Imaginem que são funcionários
    da Comissão de Proteção às Crianças.
  2. E têm de averiguar uma
    denúncia de abuso infantil.
  3. Entram numa casa, sem aviso prévio,
    inesperadamente e certamente sem convite.
  4. A primeira coisa que veem
    é um colchão no chão, no meio da sala.
  5. Três crianças deitadas nele a dormir.
  6. Há uma mesinha ao pé
    com uns cinzeiros,
  7. e latas de cerveja vazias.
  8. Há ratoeiras grandes
    armadas a um canto,
  9. não muito longe do sítio
    onde as crianças estão a dormir.
  10. Então, vocês tomam notas.
  11. Uma parte do vosso trabalho
    é percorrer a casa toda.
  12. Começam pela cozinha,
    onde há muito pouca comida.
  13. Percebem que há outro colchão
    no chão do quarto,
  14. que a mãe divide com o seu bebé.
  15. Geralmente, nesta altura,
    podem acontecer duas coisas.
  16. As crianças serão consideradas
    em perigo e afastadas de casa,

  17. e colocadas sob custódia do Estado
    durante um determinado tempo.
  18. Ou as crianças permanecerão
    com a família
  19. e o sistema de proteção às crianças
    fornecerá ajuda e apoio.
  20. Quando eu pertencia
    à Comissão de Proteção às Crianças
  21. via coisas destas imensas vezes.

  22. Umas melhores, outras muito piores.
  23. Eu pedi para vocês se
    imaginarem naquela casa,
  24. porque gostava de saber
    o que passou pelo vosso espírito.
  25. O que guiou a vossa decisão?
  26. O que vai ter impacto
    na vossa opinião sobre aquela família?
  27. A que etnia acharam
    que aquela família pertencia?
  28. Eu quero que vocês percebam
    que, se aquelas crianças fossem brancas,
  29. era muito provável que aquela família
    ficasse junta depois dessa visita.

  30. Uma investigação realizada
    na Universidade da Pensilvânia
  31. descobriu que as famílias brancas,
    em média,
  32. têm mais acesso à ajuda e ao apoio
    da Comissão de Proteção às Crianças.
  33. E os casos são menos prováveis
    de passar por uma investigação completa.
  34. Mas, por outro lado,
    se essas crianças forem negras,
  35. há quatro vezes maior probabilidade
    de elas serem afastadas,
  36. de passarem mais tempo
    em famílias de acolhimento ou orfanatos.
  37. e é mais difícil encontrarem
    um lar adotivo estável.
  38. O orfanato deve ser um
    abrigo imediato de proteção
  39. para crianças que estão em alto risco.

  40. Mas também é um período
    confuso e traumático para toda a família.
  41. A investigação
    da Universidade de Minnesota
  42. mostrou que as crianças
    que passaram por acolhimento familiar
  43. tinham mais problemas
    de comportamento e doenças psicológicas
  44. do que as crianças que permaneceram
    com a família e receberam apoio.
  45. O cenário mencionado
    anteriormente não é incomum.
  46. Uma mãe solteira, a viver
    num alojamento de baixa renda

  47. com quatro filhos.
  48. Os ratos tornam quase impossível
    manter comida em casa,
  49. muito menos comida fresca.
  50. Aquela mãe merece
    que lhe retirem os filhos?
  51. Emma Ketteringham,
    uma advogada de família, disse:
  52. "Se vivem num bairro pobre,

  53. "é melhor que sejam pais perfeitos."
  54. Ela diz que estabelecemos padrões
    injustos, muitas vezes inatingíveis,
  55. para pais que criam os filhos
    com muito pouco dinheiro.
  56. E o bairro e a etnia
  57. influenciam se as crianças
    serão ou não afastadas.
  58. Nos anos que passei na linha da frente
    da proteção às crianças,
  59. tomei decisões de alto risco.
  60. E vi como os meus valores pessoais
    afetavam o meu trabalho.
  61. Hoje, como professora de serviço social
    na Universidade Estatal da Flórida,
  62. chefio um instituto que realiza
    a investigação mais inovadora e eficaz

  63. especializada no bem-estar infantil.
  64. A investigação mostra que há o dobro
    de crianças negras em acolhimento familiar
  65. — 28% —
  66. do que crianças
    da população em geral — 14%.
  67. Mesmo que existam muitas razões,
  68. vou analisar uma em particular:
  69. o preconceito implícito.
  70. Comecemos pelo termo "implícito".
  71. Ele está no subconsciente,
    não damos pela sua presença.

  72. Preconceitos — esses estereótipos
    e julgamentos
  73. que todos temos sobre
    certos grupos de pessoas.
  74. O preconceito implícito
    é o que se esconde
  75. por detrás de todas as decisões
    que tomamos.
  76. Mas, como podemos remediar isso?
  77. Eu tenho uma solução promissora
    que quero partilhar.
  78. Em quase todos os estados,

  79. há muitas crianças negras
    em acolhimento familiar.
  80. Mas os dados revelaram
    que o condado de Nassau,
  81. uma comunidade de Nova Iorque,
  82. conseguiu diminuir a taxa de
    crianças negras afastadas dos seus lares.
  83. Em 2016, juntamente com a minha equipa,
    fui àquela comunidade
  84. e liderei uma investigação
  85. em que descobrimos a existência
    de reuniões de afastamento às cegas.
  86. Funciona desta forma:
  87. Um assistente social responde
    a uma denúncia de abuso infantil.

  88. Vai a essa casa
  89. mas, antes de afastar a criança,
  90. o assistente social
    tem de voltar ao escritório
  91. e apresentar o que encontrou
    naquela casa.
  92. Mas a diferença é esta:
  93. Quando apresenta
    o processo à comissão,
  94. apaga os nomes, a etnia, o bairro,
  95. todo o tipo de informações identificáveis.
  96. Concentram-se no que aconteceu,
  97. nos laços familiares,
    na história relevante
  98. e na capacidade dos pais
    de protegerem a criança.
  99. Com essas informações,
    a comissão faz uma recomendação,
  100. sem nunca saber a etnia da família.
  101. O afastamento às cegas tem tido
    um grande impacto naquela comunidade.
  102. Em 2011, 57% das crianças
    em acolhimentos eram negras.
  103. Mas cinco anos depois
    da utilização deste método,
  104. o índice baixou para 21%.
  105. (Aplausos)
  106. Isto foi o que aprendemos após conversar
    com os assistentes sociais:

  107. "Quando uma família tem um histórico
    no departamento,

  108. "muitos de nós usamos
    esse histórico contra ela,
  109. "mesmo que estejam a tentar melhorar."
  110. "Quando eu vejo um caso
    de um determinado prédio,
  111. "de um bairro ou de um código postal,
  112. "automaticamente penso no pior."
  113. "A assistência infantil é subjetiva,
    porque é uma área muito sentimental.

  114. "Não há ninguém que não sinta emoções
    com este tipo de trabalho.
  115. "É muito difícil deitar tudo
    para trás das costas
  116. "quando se está a fazer
    este tipo de trabalho.
  117. "Então, vamos tirar a subjetividade
    da etnia e da residência,
  118. "e talvez tenhamos finais diferentes."
  119. Os afastamentos às cegas
    parecem levar-nos para mais perto
  120. de resolver o preconceito implícito
    nas decisões de acolhimento.

  121. O meu próximo passo é descobrir
  122. como usar a inteligência artificial
    e a aprendizagem de máquinas
  123. para aumentar a escala do projeto
  124. e torná-lo acessível
    a outros estados.
  125. Eu sei que podemos transformar
    o bem-estar infantil.
  126. As organizações devem
    ter a responsabilidade
  127. de desenvolverem a consciência social
    dos seus empregados.
  128. Nós temos a responsabilidade
  129. de ter a certeza de que as nossas decisões
    são guiadas pela ética e pela segurança.
  130. Vamos imaginar um sistema
    de proteção às crianças
  131. que se concentre em ajudar os pais,
  132. dando poder às famílias
  133. e deixando de ver a pobreza
    como um fracasso.
  134. Vamos trabalhar juntos
    para construir um sistema
  135. que deseje manter as famílias
    mais fortes, em vez de as separar.
  136. Obrigada.
  137. (Aplausos)