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← Para transformar o cuidado com a criança, retire a raça da equação

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Showing Revision 12 created 08/27/2018 by Carolina Aguirre.

  1. Quero que imagine que você trabalhe
    para o Serviço de Proteção à Criança,
  2. e você tem que atender
    a uma queixa de abuso infantil.
  3. Você entra numa casa, sem avisar,
    inesperadamente e sem ser convidado.
  4. A primeira coisa que vê é um colchão
    no chão, no meio da sala.
  5. Três crianças dormindo nele.
  6. Uma pequena mesa está próxima,
    com alguns cinzeiros,
  7. e latas de cerveja vazias.
  8. Ratoeiras estão armadas no canto,
  9. não muito distante
    de onde as crianças dormem.
  10. Você faz uma anotação.
  11. Parte do seu trabalho
    é andar por toda a casa.
  12. Então você começa pela cozinha,
    onde há pouca comida.
  13. Você percebe outro colchão
    no chão do quarto,
  14. o qual a mãe compartilha
    com o filho pequeno dela.
  15. Geralmente, neste momento,
    duas coisas podem acontecer:

  16. as crianças são consideradas inseguras
    e serão removidas da casa
  17. e colocadas sob a custódia do estado
    por um tempo específico.
  18. Ou as crianças permanecem com a família
  19. e o sistema de bem-estar infantil
    fornece ajuda e suporte.
  20. Quando trabalhava para
    o Serviço de Proteção à Criança,

  21. via esse tipo de coisa o tempo todo.
  22. Algumas bem melhores, algumas bem piores.
  23. Pedi que se imaginassem nessa casa,
  24. porque quero saber o que passou
    pela cabeça de vocês.
  25. O que orienta suas decisões?
  26. O que impactará a sua opinião
    sobre essa família?
  27. Qual era a raça e etnia
    dessa família pra vocês?
  28. Quero que percebam
    que se essas crianças fossem brancas,

  29. é mais provável que essa família
    permaneceria junta depois dessa visita.
  30. Uma pesquisa feita
    na Universidade da Pensilvânia
  31. mostra que as famílias brancas, em média,
    têm acesso a mais ajuda e mais suporte
  32. do sistema do bem-estar infantil.
  33. E os casos delas têm menos chances
    de passar por uma investigação completa.
  34. Mas por outro lado,
    se essas crianças forem negras,
  35. elas têm quatro vezes
    mais chances de serem removidas
  36. e de passar períodos de tempo
    mais longos num lar adotivo,
  37. e é mais difícil encontrar
    um lar adotivo estável para elas.
  38. O lar adotivo destina-se a ser
    um abrigo imediato de proteção

  39. para as crianças em alto risco.
  40. Mas também é uma ruptura
    confusa e traumática da família.
  41. Uma pesquisa feita
    na Universidade de Minnesota
  42. mostra que as crianças
    que passaram por um lar adotivo
  43. tiveram mais problemas
    comportamentais e internalizados
  44. do que as que permaneciam com sua família
    enquanto recebiam ajuda e suporte.
  45. O cenário que acabei de mencionar
    não é incomum.

  46. Uma mãe criando seus quatro filhos
    sozinha, numa moradia de baixa renda.
  47. E fica quase impossível manter
    comida em casa por causa dos ratos,
  48. muito menos alimentos frescos.
  49. Essa mãe merece que seus filhos
    sejam tirados dela?
  50. Emma Ketteringham,
    advogada do tribunal de família,

  51. diz que se você mora num bairro pobre,
  52. então é melhor que seja
    um pai ou mãe perfeitos.
  53. Ela diz que impomos padrões
    injustos, muitas vezes inacessíveis,
  54. a pais que criam seus filhos
    com pouquíssimo dinheiro.
  55. E a vizinhança e a etnia
  56. causará impacto na decisão
    de remover as crianças ou não.
  57. Nos dois anos trabalhando
    na linha de frente do bem-estar infantil,
  58. tomei decisões de alto risco.
  59. E vi em primeira mão como meus valores
    pessoais impactaram meu trabalho.
  60. Agora, como docente da assistência social
    na Universidade Estadual da Flórida,

  61. lidero um instituto que promove a pesquisa
    mais inovadora e eficaz sobre bem-estar.
  62. E pesquisas nos mostram que há duas vezes
    mais crianças negras num lar adotivo,
  63. 28%
  64. do que há na população em geral, 14%.
  65. E apesar de existirem várias razões,
  66. quero discutir uma delas hoje:
  67. preconceito implícito.
  68. Vamos começar pelo "implícito".

  69. É subconsciente,
    algo do qual não estamos cientes.
  70. Preconceito: esses estereótipos e atitudes
  71. que todos nós temos
    sobre certos grupos de pessoas.
  72. Então, preconceito implícito
    é o que espreita no pano de fundo
  73. de cada decisão que tomamos.
  74. Então, como podemos corrigir isso?
  75. Tenho uma solução promissora
    que gostaria de compartilhar.

  76. Em quase todos os estados,
  77. há um grande número de crianças negras
    ingressando num lar adotivo.
  78. Mas os dados revelaram
    que o município de Nassau,
  79. uma comunidade em Nova York,
  80. tinha conseguido diminuir o número
    de crianças negras sendo removidas.
  81. E em 2016, visitei essa comunidade
    com a minha equipe
  82. e liderei um estudo de pesquisa,
  83. e descobrimos o uso
    de reuniões de remoção às cegas.
  84. Funciona assim.

  85. Uma assistente social responde
    a uma queixa de abuso infantil.
  86. Ela vai até a casa,
  87. mas antes que as crianças sejam removidas,
  88. a assistente social
    deve voltar para o escritório
  89. e apresentar o que encontrou.
  90. Mas aqui está a distinção:
  91. quando apresenta os dados ao comitê,
  92. nomes, etnia, bairro e raça são apagados,
  93. todas as informações identificáveis.
  94. Eles se concentram no que aconteceu,
    na força da família, história relevante,
  95. e a capacidade dos pais
    de proteger a criança.
  96. Com essa informação,
    o comitê faz uma recomendação,
  97. sem saber a respeito da raça da família.
  98. Remoções às cegas tiveram um impacto
    drástico naquela comunidade.
  99. Em 2011, 57% das crianças que entraram
    em lares adotivos eram negras.
  100. Mas depois de 5 anos de remoções
    às cegas, o número caiu para 21%.
  101. (Aplausos)

  102. Isso foi o que aprendemos ao falar
    com algumas das assistentes sociais.

  103. "Quando uma família tem uma história
    com o Serviço Social,
  104. muitos de nós usamos
    essa história contra ela,
  105. mesmo que esteja tentando
    fazer tudo de modo diferente."
  106. "Quando vejo um caso de um certo
    prédio de apartamentos,
  107. vizinhança ou código postal,
  108. automaticamente penso o pior."
  109. "Bem-estar infantil é muito subjetivo,
    pois é um campo emocional.
  110. Não há ninguém que não se emocione
    fazendo este trabalho.
  111. E é muito difícil deixar
    suas emoções de fora
  112. quando você faz este trabalho.
  113. Então, vamos deixar a subjetividade
    de raça e vizinhança de fora,
  114. e poderemos obter resultados diferentes."
  115. Remoções às cegas parecem
    estar nos aproximando

  116. da resolução do problema do preconceito
    implícito nas decisões de lares adotivos.
  117. Meu próximo passo é descobrir
  118. como usar inteligência artificial
    e aprendizado de máquina
  119. para trazer equilíbrio a este projeto
  120. e torná-lo mais acessível
    em outros estados.
  121. Sei que podemos transformar
    o bem-estar infantil.
  122. Podemos responsabilizar as organizações
  123. para desenvolver a consciência social
    de seus funcionários.
  124. Podemos nos responsabilizar
  125. para garantir que nossas decisões
    sejam movidas pela ética e segurança.
  126. Almejemos um sistema de bem-estar infantil
    concentrado na parceria com os pais,
  127. empoderando famílias,
  128. e deixando de enxergar
    a pobreza como um fracasso.
  129. Vamos trabalhar juntos
    para construir um sistema
  130. que queira fortalecer as famílias
    em vez de separá-las.
  131. Obrigada.

  132. (Aplausos) (Vivas)