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← Medicamento de emergência para a febre do planeta

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Showing Revision 20 created 10/13/2020 by TED Translators admin.

  1. Estou aqui para falar de algo importante
    que pode ser novo para vocês.
  2. Os governos mundiais
  3. estão prestes a fazer
    uma experiência involuntária
  4. no nosso clima.
  5. Em 2020, novas regras irão exigir
  6. que os navios diminuam
    as suas emissões de enxofre
  7. mantendo limpos os tubos de escape
  8. ou mudando para combustíveis limpos.
  9. Para a saúde humana, isso é muito bom,
  10. porém, as partículas de enxofre
    emitidas pelos navios
  11. também afetam as nuvens.
  12. Esta é uma imagem de satélite
    de nuvens marinhas
  13. na costa ocidental do Pacífico nos EUA.
  14. Os riscos nas nuvens são criadas
    pelos escapes dos navios.
  15. As emissões dos navios incluem gases
    que geram o efeito de estufa,
  16. que retêm o calor durante longos períodos,
  17. e partículas de sulfatos
    que se introduzem nas nuvens
  18. e as tornam mais claras temporariamente.
  19. As nuvens mais claras refletem
    mais luz do sol para o espaço,
  20. arrefecendo o clima.
  21. Então, de facto,
  22. os seres humanos estão a fazer
    duas experiências involuntárias
  23. no nosso clima.
  24. Na primeira, aumentamos a concentração
    de gases com efeito de estufa,

  25. e a aquecer gradualmente
    o sistema terrestre.

  26. Isto funciona quase
    como a febre no corpo humano.
  27. Se a febre continua baixa,
    os seus efeitos são ligeiros,
  28. mas à medida que a febre sobe,
    os danos tornam-se mais graves
  29. e por fim tornam-se devastadores.
  30. Nós já temos hoje um vislumbre disso.
  31. Na outra experiência,

  32. estamos a planear remover
    uma camada de partículas
  33. que clareiam as nuvens e nos protegem
    um pouco desse aquecimento.
  34. O efeito é mais acentuado
    nas nuvens oceânicas como estas,
  35. e os cientistas esperam que a redução
    das emissões de enxofre dos navios,
  36. no próximo ano,
  37. produza um aumento significativo
    no aquecimento global.
  38. Estão chocados?

  39. De facto, a maior parte das emissões
    contém sulfatos que clareiam as nuvens:
  40. carvão, resíduos de diesel,
    incêndios florestais.
  41. Os cientistas estimam que o arrefecimento
    total causado pelas partículas emitidas
  42. — a que eles chamam aerossóis
    quando estão na atmosfera —
  43. pode ser tão grande quanto o aquecimento
    a que temos assistido até agora.
  44. Há muita incerteza quanto a este efeito,
  45. e esse é um dos principais motivos
    da dificuldade em prever o clima,
  46. mas é um arrefecimento que iremos perder
    à medida que as emissões diminuam.
  47. Então, para ser clara, os seres humanos
    estão atualmente a arrefecer o planeta
  48. ao emitirem partículas para a atmosfera
    numa escala astronómica.
  49. O efeito ainda não está quantificado
    e estamos a provocá-lo involuntariamente.
  50. É um motivo para preocupação,
  51. mas significa que possuímos um método
    rápido para reduzir o aquecimento,
  52. um medicamento de emergência
    para a febre atmosférica, se necessário,
  53. e é um medicamento
    cujas origens estão na Natureza.
  54. Esta é uma simulação da NASA
    da atmosfera terrestre,

  55. mostrando nuvens e partículas
    em movimento sobre o planeta.
  56. A claridade é a luz solar
    das partículas refletida nas nuvens,
  57. e este escudo de reflexão
    é um dos métodos principais
  58. da Natureza para manter o planeta
    suficientemente fresco para os humanos
  59. e para toda a vida que conhecemos.
  60. Em 2015, os cientistas
    avaliaram as possibilidades
  61. para o arrefecimento rápido do clima.
  62. Puseram de lado ideias
    como espelhos no espaço,
  63. bolas de pingue-pongue no oceano,
    placas de plástico no Ártico,
  64. e descobriram que
    as abordagens mais viáveis
  65. envolviam um aumento ligeiro
    neste reflexo atmosférico.
  66. O aumento do reflexo
    da luz solar da atmosfera
  67. em 1% ou 2%
  68. talvez possa provocar a diminuição
    de dois ou mais graus Celsius.
  69. Eu sou diretora da área tecnológica,
    não sou uma cientista.

  70. Há cerca de uma década,
    preocupada com o clima,
  71. comecei a falar com cientistas
  72. sobre possíveis medidas
    de combate ao aquecimento.
  73. Essas conversas transformaram-se
    em cooperações
  74. que deram origem ao Projeto
    de Clareamento das Nuvens Marinhas
  75. — tema que irei explorar
    dentro de instantes —
  76. e na organização sem fins lucrativos
    SilverLining, onde estou hoje.
  77. Eu trabalho com políticos,
    com investigadores,
  78. com membros do setor tecnológico e outros
  79. para falar sobre algumas dessas ideias.
  80. Conversei com o cientista
    atmosférico britânico, John Latham,
  81. que propôs arrefecer o clima
    do mesmo modo que os navios fazem,
  82. mas com uma fonte natural de partículas:
  83. um "spray" de sal marinho
    feito com água do mar
  84. borrifado pelos navios nas áreas
    de nuvens oceânicas de fácil acesso.
  85. O método ficou conhecido
    pelo nome que eu lhe dei,
  86. "clareamento das nuvens marinhas"
  87. Os estudos dos modelos iniciais
    sugeriam que aplicar este método
  88. apenas em 10% a 20%
    de nuvens oceânicas,
  89. poderá diminuir o aquecimento
    até dois graus Celsius.
  90. Poderá até mesmo clarear nuvens
    de áreas específicas
  91. para reduzir os impactos causados
    pelo aquecimento de superfícies oceânicas.
  92. Por exemplo, regiões
    como o Golfo Atlântico
  93. poderão ser arrefecidas
    antes da época de furacões
  94. para reduzir a força das tempestades.
  95. Ou talvez seja possível arrefecer
    as águas dos recifes de corais
  96. danificados pelo calor,
  97. por exemplo, na Austrália,
    a Grande Barreira de Coral.
  98. Mas essas ideias são apenas teóricas,

  99. e o clareamento de nuvens marinhas
    pode não ser a única maneira
  100. de aumentar a capacidade atmosférica
    de reflexo da luz solar.
  101. Pode ocorrer também quando
    grandes vulcões libertam matéria
  102. com força suficiente
    para atingir a estratosfera
  103. — a camada superior da atmosfera.
  104. Quando o Monte Pinatubo
    entrou em erupção, em 1991,
  105. libertou matéria na estratosfera,
  106. incluindo sulfatos que se misturam
    com a atmosfera e refletem a luz solar.
  107. Este material permaneceu na atmosfera
    e circulou pelo planeta.
  108. Foi o suficiente para arrefecer
    a temperatura em mais de meio grau
  109. durante cerca de dois anos.
  110. Esse arrefecimento resultou no aumento
    da cobertura de gelo no Ártico em 1992,
  111. que diminuiu nos anos seguintes
    quando as partículas saíram da atmosfera.
  112. Mas o fenómeno vulcânico levou
    Paul Crutzen, vencedor do prémio Nobel,
  113. a propor a ideia de dispersar
    partículas na estratosfera,
  114. de maneira controlada, para tentar
    reduzir o aquecimento global.
  115. Porém, essa ideia apresenta riscos
    que ainda não conhecemos,
  116. incluindo o aquecimento da estratosfera
  117. ou os danos na camada de ozono.
  118. Os cientistas acreditam que poderá haver
    um modo seguro de colocar isto em prática,
  119. mas haverá mesmo?
  120. Vale a pena considerar estas teorias?
  121. Esta é uma simulação

  122. do Centro Nacional de Pesquisa
    Atmosférica dos EUA
  123. de um modelo do clima global,
  124. que mostra a temperatura
    da superfície terrestre até 2100.
  125. O globo da esquerda representa
    a nossa trajetória atual
  126. e o da direita, um planeta onde se injetam
    partículas na estratosfera
  127. gradualmente em 2020,
  128. e de modo constante até 2100.
  129. A intervenção mantém as temperaturas
    da superfície perto das que temos hoje,
  130. enquanto, sem ela, as temperaturas
    aumentam mais de três graus.
  131. Esta poderá ser a diferença
    entre um mundo seguro e um perigoso.
  132. Então, se há alguma hipótese
    de estas previsões se confirmarem,

  133. isto deverá ser seriamente considerado?
  134. Hoje, não temos condições
  135. e o nosso conhecimento científico
    é extremamente limitado.
  136. Não sabemos se estes tipos
    de intervenções são viáveis
  137. ou como caracterizar os seus riscos.
  138. Os investigadores esperam poder explorar
    algumas questões básicas
  139. que poderão ajudar-nos a descobrir
    se estas são ou não opções reais
  140. ou se devemos pô-las de lado.
  141. São necessários diversos métodos
    para estudar o sistema climático,
  142. inclusive modelos computacionais
    para prever mudanças,
  143. técnicas de análise
    como aprendizagem de máquina
  144. e vários tipos de métodos de observação.
  145. Mesmo sendo controverso,
  146. é crucial que os investigadores
    desenvolvam tecnologias nucleares
  147. e pratiquem, em escala pequena,
    experiências no mundo real.
  148. Há mais dois programas que propõem
    experiências como esta.

  149. Em Harvard, a experiência SCoPEx
    libertará quantidades muito pequenas
  150. de sulfatos, carbonato de cálcio e água
    na estratosfera, por meio de um balão,
  151. para estudar os efeitos
    químicos e físicos.
  152. Em que quantidade?
  153. Uma quantidade menor que
    a que é libertada num minuto de voo
  154. por um avião comercial.
  155. Então, certamente, isso não seria perigoso
  156. e pode nem mesmo ser assustador.
  157. Na Universidade de Washington,

  158. os cientistas esperam poder borrifar
    um leve "spray" de água marinha em nuvens,
  159. numa série de testes
    em terra e no oceano.
  160. Caso obtenham sucesso,
    isto poderá culminar em experiências
  161. para clarear significativamente
    uma área de nuvens sobre o oceano.
  162. Este esforço de clareamento de nuvens
    é o primeiro a desenvolver uma tecnologia
  163. para gerar aerossóis para reflexo
    atmosférico da luz solar.
  164. Isso requer a produção
    de partículas minúsculas
  165. — imaginem a névoa que sai
    de um inalador para a asma —
  166. em grande escala — então imaginem
    olhar para uma nuvem no céu.
  167. É um complicado problema de engenharia.
  168. Esta mangueira que desenvolveram

  169. gera três biliões
    de partículas por segundo,
  170. medindo 80 nanómetros,
  171. de água salgada muito corrosiva.
  172. Foi desenvolvida por engenheiros
    aposentados em Silicon Valley
  173. — aqui estão eles —
  174. que trabalharam a tempo inteiro
    durante seis anos, sem pagamento,
  175. pensando nos seus netos.
  176. Serão necessários uns milhões de dólares
    e mais um ou dois anos
  177. para desenvolver todo o sistema
    de "spray" preciso para as experiências
  178. Noutras partes do mundo, estão
    a surgir os esforços de investigação,
  179. incluindo pequenos programas modelos
  180. na Universidade Normal
    de Pequim, na China,
  181. no Instituto Indiano de Ciências,
  182. num futuro centro para reparação climática
  183. na Universidade de Cambridge,
    no Reino Unido,
  184. e no Fundo DECIMALS,
  185. que patrocina investigadores
    em países do hemisfério sul
  186. para estudarem os possíveis impactos
    dessas intervenções na luz solar,
  187. nas suas partes do mundo.
  188. Mas todos estes programas,
    inclusive os experimentais,
  189. têm falta significativa de financiamento.
  190. E entender essas intervenções
    é um grande problema.
  191. A Terra é um sistema vasto e complexo
  192. e precisamos de grandes investimentos
    em modelos climáticos,
  193. observações e ciência básica
  194. para conseguirmos prever o clima
    com maior precisão do que hoje
  195. e gerir as nossas intervenções
    acidentais e involuntárias.
  196. Isto pode ser urgente.

  197. Recentes relatos científicos preveem
    que nas próximas décadas,
  198. a febre da Terra estará
    numa via para a ruína:
  199. calor extremo e incêndios,
  200. perda significativa de vida oceânica,
  201. colapso do gelo ártico
  202. deslocação e sofrimento de centenas
    de milhões de pessoas.
  203. A febre poderá até alcançar níveis
    em que o aquecimento seja irreversível
  204. e os esforços humanos
    já não sejam suficientes
  205. para conter as mudanças
    aceleradas na Natureza.
  206. Para impedir estas circunstâncias,

  207. o Painel Intergovernamental
    sobre Mudanças Climática da ONU
  208. prevê que precisamos parar
    e inverter as emissões até 2050.
  209. Como? Transformando rápida e radicalmente
    os principais setores económicos
  210. como a energia, a construção,
    a agricultura, os transportes e outros.
  211. É imperativo que façamos isso
    quanto antes.
  212. Mas a nossa febre está tão alta agora
  213. que os especialistas dizem
    que temos de eliminar
  214. quantidades enormes de CO2
    da atmosfera,
  215. possivelmente 10 vezes o total
    das emissões mundiais anuais,
  216. de modos que ainda não deram provas.
  217. Neste momento,
    as nossas soluções são lentas

  218. para um problema que piora rapidamente.
  219. Mesmo com as previsões mais otimistas,
  220. a nossa exposição aos riscos
    nos próximos 10 a 30 anos
  221. é inaceitavelmente alta, na minha opinião.
  222. Intervenções como estas serão
    um remédio ágil, se precisarmos,

  223. para reduzir a febre do planeta
    enquanto abordamos as suas causas diretas?
  224. Há preocupações reais quanto a esta ideia.
  225. As pessoas receiam
    que a investigação nestas intervenções

  226. possa servir de desculpa para atrasar
    os esforços para reduzir as emissões.
  227. Chamamos a isto um "risco moral".
  228. Mas como qualquer remédio,
  229. quanto mais intervenções fazemos
    mais perigosas elas são,
  230. por isso a investigação
    tende a realçar o facto
  231. de que é totalmente impossível
    continuarmos a encher a atmosfera
  232. com gases com efeito de estufa,
  233. que estas alternativas são arriscadas
  234. e que, se as usarmos,
  235. devemos usá-las o menos possível.
  236. Mas mesmo assim,

  237. será que aprendemos o suficiente
    sobre essas intervenções
  238. para conseguirmos gerir os riscos?
  239. Quem decidirá quando e como intervir?
  240. E se as pessoas forem prejudicadas
  241. ou apenas pensarem que são?
  242. Estes são problemas difíceis.
  243. O que realmente me preocupa é que,
    quando o impacto climático piore,
  244. os líderes serão obrigados a reagir,
    por quaisquer meios disponíveis.
  245. Eu não quero que eles ajam
    sem informações reais
  246. e sem melhores opções.
  247. Segundo os cientistas, é necessária
    uma década de investigação

  248. para avaliar estas intervenções,
  249. antes de podermos
    desenvolvê-las ou usá-las.
  250. Mas hoje, o investimento global
    nestas intervenções
  251. é praticamente zero.
  252. Então, precisamos de agir rapidamente
  253. se queremos que os governos
    tenham informações reais
  254. sobre este tipo de remédio de emergência.
  255. Ainda há esperança!

  256. Já passámos por este tipo de problema.
  257. Nos anos 70, identificámos
    uma ameaça existencial
  258. à nossa camada protetora de ozono.
  259. Nos anos 80, os cientistas,
    os políticos e a indústria
  260. uniram-se para substituir os químicos
    que causavam esse problema.
  261. Eles conseguiram isso
    com o único acordo ambiental vinculativo
  262. assinado por todos os países do mundo:
  263. o Protocolo de Montreal.
  264. Ainda hoje em vigor,
  265. resultou na recuperação
    da camada de ozono
  266. e é o esforço de maior sucesso
    em proteção ambiental da História.
  267. Temos hoje uma ameaça muito maior,

  268. mas temos a capacidade
    para desenvolver soluções
  269. para proteger as pessoas
  270. e recuperar o nosso clima.
  271. Isso pode significar segurança,
  272. refletimos a luz solar
    durante algumas décadas,
  273. enquanto as nossas indústrias
    se tornam sustentáveis
  274. e removemos o CO2.
  275. Isso certamente significa
    que temos de trabalhar hoje
  276. para entender as nossas opções
  277. para este tipo de medicamento
    de emergência.

  278. Obrigada.

  279. (Aplausos)