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← Medicamento de emergência para a febre do nosso clima

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Showing Revision 136 created 09/07/2019 by Maricene Crus.

  1. Quero falar de um assunto importante
    que talvez seja novidade para vocês.
  2. Os governos do mundo
  3. estão prestes a conduzir
    uma experiência involuntária
  4. em nosso clima.
  5. Em 2020, novas regras exigirão
    que navios reduzam a emissão de enxofre,
  6. com a limpeza de seus escapamentos sujos
    ou mudança para combustíveis mais limpos.
  7. Para a saúde humana, isso é muito bom,
  8. no entanto, as partículas de enxofre
    da emissão dos navios
  9. também têm um efeito nas nuvens.
  10. Esta é uma imagem de satélite
    de nuvens marinhas
  11. da Costa do Pacífico dos Estados Unidos.
  12. As estrias nas nuvens são criadas
    pelas descargas dos navios.
  13. As emissões dos navios
    incluem tanto gases de efeito estufa,
  14. que armazenam calor por muito tempo,
  15. quanto partículas, como sulfatos,
    que se misturam às nuvens,
  16. e as deixam temporariamente mais claras.
  17. Nuvens mais claras refletem
    de volta mais luz solar ao espaço,
  18. refrescando mais o clima.
  19. Então na verdade,
  20. os seres humanos estão conduzindo
    duas experiências involuntárias
  21. com nosso clima.
  22. Na primeira, estamos aumentando
    a concentração de gases de efeito estufa

  23. e gradualmente aquecendo
    o sistema terrestre.
  24. Funciona como uma febre no corpo humano.
  25. Quando a febre é baixa,
    seu efeito também é,
  26. mas conforme a febre aumenta,
    os danos se tornam mais graves
  27. e, por fim, devastadores.
  28. Nós já vemos um pouco disso.
  29. Em nossa outra experiência

  30. estamos planejando retirar
    uma camada de partículas
  31. que clareiam as nuvens e nos protegem
    de parte desse aquecimento.
  32. O efeito é maior
    em nuvens marinhas como essas.
  33. Cientistas esperam que no ano que vem,
    a redução de emissão de enxofre dos navios
  34. produza um aumento significativo
    no aquecimento global.
  35. Estão surpresos?

  36. A maior parte das emissões contém sulfatos
    que clareiam as nuvens:
  37. carvão, diesel, incêndios florestais.
  38. Cientistas estimam que o efeito
    de resfriamento por emissão de partículas,
  39. chamadas por eles de aerossóis
    quando relacionadas ao clima,
  40. pode ser igual ao aquecimento total
    que tivemos até agora.
  41. Existe muita dúvida em torno desse efeito,
  42. e ele é um dos maiores responsáveis
    por nossa dificuldade para prever o clima,
  43. mas é um resfriamento importante
    que perderemos com a queda das emissões.
  44. Só para ficar claro, os seres humanos
    estão atualmente resfriando o planeta
  45. com a dispersão de partículas na atmosfera
    em uma escala gigantesca.
  46. Só não sabemos quanto,
    e estamos fazendo isso de forma acidental.
  47. É preocupante,
  48. mas pode significar que temos
    uma maneira ágil de baixar o aquecimento,
  49. um medicamento de emergência
    para a febre do nosso clima,
  50. e que vem de fontes naturais.
  51. Essa é uma simulação, feita pela NASA,
    da atmosfera da Terra,

  52. que mostra nuvens e partículas
    se movendo sobre o planeta.
  53. A claridade representa a luz do sol
    sendo refletida das partículas nas nuvens,
  54. e essa barreira refletiva
    é uma das principais maneiras
  55. com a qual a natureza mantém o planeta
    fresco o suficiente para seres humanos
  56. e todas as formas de vida.
  57. Em 2015, os cientistas estudaram maneiras
    para resfriar o clima rapidamente.
  58. Eles descartaram coisas
    como espelhos no espaço,
  59. bolas de pingue-pongue no oceano,
    ou lâminas de plástico sobre o Ártico,
  60. e viram que quase todos os métodos viáveis
  61. implicavam aumentar ligeiramente
    essa refletividade atmosférica.
  62. Aliás, é possível que o aumento
    de apenas 1% ou 2%
  63. do reflexo de luz solar da atmosfera
  64. possa compensar 2° C ou mais
    de aquecimento.
  65. Sou executiva de tecnologia,
    não cientista.

  66. Há cerca de uma década,
    preocupada com o clima,
  67. comecei a conversar com cientistas
    sobre medidas viáveis para o aquecimento.
  68. As conversas evoluíram para colaborações,
  69. que se transformaram
    no "Marine Cloud Brightening Project",
  70. do qual falarei em um instante,
  71. e na "SilverLining", a ONG
    na qual me encontro hoje.
  72. Trabalho com políticos, pesquisadores,
  73. membros da indústria tecnológica e outros
  74. para conversar sobre essas ideias.
  75. Logo no início, conheci John Latham,
    meteorologista inglês,
  76. que propôs resfriar o clima
    da mesma maneira que é feita pelos navios,
  77. mas com partículas de fontes naturais:
  78. névoa de sal marinho
  79. pulverizada dos navios
    para áreas com nuvens acima do oceano.
  80. Esse método ficou conhecido
    pelo nome que criei para ele na época:
  81. "Marine Cloud Brightening".
  82. Estudos iniciais de modelagem apontaram
    que o clareamento das nuvens marinhas,
  83. em apenas 10% ou 20%
    em nuvens marinhas suscetíveis,
  84. poderá gerar uma redução
    no aquecimento em até 2° C.
  85. Talvez seja possível até clarear
    as nuvens em zonas isoladas,
  86. reduzindo assim o impacto causado
    pelo aquecimento da superfície do oceano.
  87. Por exemplo, áreas como o Golfo do México
  88. poderiam ser resfriadas nos meses
    antes da temporada de furacões,
  89. para reduzir a força das tempestades.
  90. Ou, seria talvez possível resfriar a água
    que corre pelos recifes de coral
  91. afetados pelo calor,
  92. como a Grande Barreira de Coral,
    localizada na Austrália.
  93. Essas ideias ainda são apenas teorias,

  94. e o clareamento de nuvens marinhas
    não é a única maneira
  95. de aumentar o reflexo de luz da atmosfera.
  96. Outra maneira é quando grandes vulcões
    emitem material com força suficiente
  97. para alcançar a estratosfera,
    a camada superior da atmosfera.
  98. Quando o Monte Pinatubo
    entrou em erupção em 1991,
  99. lançou para a estratosfera sulfatos
    que se misturam à atmosfera
  100. para refletir a luz solar.
  101. Esse material se manteve por lá
    e circulou o planeta.
  102. Foi o suficiente para resfriar o clima
    em mais de 0.5° C por cerca de dois anos.
  103. Esse resfriamento gerou um grande aumento
    da camada de gelo do Ártico em 1992,
  104. mas diminuiu nos anos seguintes,
    conforme as partículas desceram à Terra.
  105. Esse fenômeno levou Paul Crutzen,
    ganhador de Prêmio Nobel, a propor
  106. a ideia de que dispersar partículas
    para a estratosfera de modo controlado,
  107. possa ser uma maneira
    de combater o aquecimento global.
  108. Existem riscos que ainda não conhecemos,
  109. como o aquecimento da estratosfera,
  110. ou danos à camada de ozônio.
  111. Cientistas acreditam que há
    maneiras seguras de fazer isso,
  112. mas será que já estamos prontos?
  113. Vale a pena considerar isso?
  114. Essa é uma simulação
    do modelo climático global

  115. do "US National Center
    for Atmospheric Research",
  116. que mostra a temperatura
    da superfície da Terra em 2100.
  117. O globo da esquerda
    mostra nosso trajeto atual.
  118. O da direita mostra o mundo
  119. com a introdução gradual
    de partículas na estratosfera,
  120. de 2020 até 2100.
  121. Com a intervenção, a temperatura
    se mantém como a de hoje,
  122. e sem ela, a temperatura
    sobe mais do que 3° C.
  123. Isso pode ser o fator determinante
    entre um mundo seguro ou não.
  124. Mesmo que haja apenas uma chance
    disso se tornar realidade,

  125. devemos ainda assim considerá-la?
  126. Hoje não há recursos,
  127. e o conhecimento científico
    ainda é muito limitado.
  128. Nós nem sabemos
    se esse tipo de intervenção é viável,
  129. ou como caracterizar seus riscos.
  130. Pesquisadores esperam poder explorar
    algumas questões básicas
  131. que poderão nos ajudar a determinar
    se essas opções são realmente possíveis
  132. ou se devemos descartá-las.
  133. Precisamos de diversas maneiras
    para estudar o sistema climático,
  134. incluindo modelos computadorizados
    para prever mudanças,
  135. técnicas analíticas
    como aprendizado de máquina,
  136. e muitas outras considerações.
  137. Mesmo sendo algo controverso,
  138. é importante que os pesquisadores
    desenvolvam tecnologias cruciais
  139. e conduzam experiências reais
    em menor escala.
  140. Existem dois programas de pesquisa
    propondo experiências como essas.

  141. Em Harvard, a experiência "SCoPEx"
    lançaria quantidades muito pequenas
  142. de sulfatos, carbonato de cálcico e água
    na estratosfera por um balão,
  143. para estudar efeitos químicos e físicos.
  144. Quanto material?
  145. Menos do que a quantidade emitida
    por uma aeronave comercial
  146. em um minuto de voo.
  147. Não é nada perigoso,
  148. e talvez nem seja assustador.
  149. Na Universidade de Washington,

  150. cientistas pretendem conseguir pulverizar
    uma névoa fina de água com sal nas nuvens
  151. numa série de testes na terra e no mar.
  152. Se esses testes forem bem-sucedidos,
    eles culminarão em experiências
  153. para clarear efetivamente
    as nuvens sobre o oceano.
  154. O método de clareamento de nuvens marinhas
    foi o primeiro a criar uma tecnologia
  155. para gerar aerossóis
    para refletir luz solar da atmosfera.
  156. É necessário a criação
    de partículas minúsculas.
  157. Imaginem a névoa que sai
    dos inaladores de asma,
  158. porém na escala de uma nuvem real.
  159. É um problema complicado de engenharia.
  160. Esse pulverizador que desenvolveram
    gera 3 trilhões de partículas por segundo,

  161. 80 nanômetros em tamanho,
  162. a partir de água salgada muito corrosiva.
  163. Foi desenvolvido por uma equipe
    de engenheiros aposentados
  164. do Vale do Silício.
  165. Aqui estão eles,
  166. trabalhando em tempo integral
    e sem remuneração, para seus netos.
  167. Precisaremos de alguns milhões de dólares
    e de mais um ou dois anos
  168. para desenvolver o sistema de pulverização
    necessário para fazer essas experiências.
  169. Trabalhos de pesquisa estão surgindo
    em outras partes do mundo,
  170. incluindo programas menores de modelagem
    na Universidade Normal de Pequim, China,
  171. no Instituto de Ciência da Índia,
  172. no centro dedicado à reparação do clima
    na Universidade de Cambridge, Reino Unido,
  173. e na "DECIMALS Fund",
  174. que patrocina pesquisadores
    dos países do Sul global
  175. para estudarem o efeito potencial
    dessas intervenções na luz solar
  176. na parte deles do mundo.
  177. O problema é que todos esses programas,
    incluindo os experimentais,
  178. carecem de financiamento.
  179. É também complicado
    entender essas experiências.
  180. A Terra é um sistema grande e complexo,
  181. e nós precisamos de muito investimento
    em modelos de clima, observações e ciência
  182. para conseguirmos entender o clima
    muito melhor do que conseguimos hoje
  183. e gerir tanto as intervenções acidentais,
    como as intervenções intencionais.
  184. Pode ser que isso seja urgente.

  185. Relatórios científicos recentes
    preveem que nas próximas décadas,
  186. a febre da Terra atingirá um estado grave:
  187. calor extremo e incêndios,
  188. grande perda da vida marinha,
  189. o derretimento do gelo do Ártico,
  190. o desalojamento e sofrimento
    de centenas de milhares de pessoas.
  191. A febre poderá até chegar a um ponto
    em que o aquecimento será tão forte
  192. que não haverá mais nenhuma solução humana
  193. para reverter as mudanças rápidas
    nos sistemas naturais.
  194. Para prevenir essa situação,

  195. o "International Panel on Climate Change"
    das Nações Unidas prevê
  196. que precisamos parar,
    e até reverter as emissões, até 2050.
  197. Como?
  198. Com uma mudança rápida e radical
    dos grandes setores econômicos,
  199. como os de energia, construção,
    agricultura, transporte, entre outros.
  200. É crucial que façamos isso
    o mais rápido possível.
  201. Nossa febre atual é tão alta
  202. que especialistas do clima afirmam
    que também temos que remover
  203. quantidades enormes de CO2 da atmosfera,
  204. possivelmente dez vezes
    a emissão total do mundo por ano,
  205. de maneiras que ainda não conhecemos.
  206. Hoje, temos soluções lentas
    para um problema com evolução rápida.

  207. Mesmo com as suposições mais otimistas,
  208. nossa exposição ao risco
    nos próximos 10 a 30 anos
  209. é inaceitavelmente alta, na minha opinião.
  210. Será que intervenções assim poderiam
    fornecer medicamento de emergência

  211. para diminuir a febre da Terra enquanto
    estudamos suas causas subjacentes?
  212. Há muita preocupação com isso.
  213. Algumas pessoas estão preocupadas
    que até o estudo sobre essas intervenções
  214. poderá ser usado como pretexto
    para atrasar esforços de reduzir emissões.
  215. Isso também é chamado de risco moral.
  216. Como a maioria dos medicamentos,
  217. quanto mais usamos as intervenções,
    mais perigosas elas se tornam.
  218. A pesquisa então costuma mostrar
  219. que nós certamente não podemos continuar
  220. enchendo nossa atmosfera
    com gases de efeito estufa,
  221. que essas alternativas são perigosas,
  222. e caso tenhamos que usá-las,
    que seja o mínimo possível.
  223. Mesmo assim,

  224. será que entenderemos o suficiente
    sobre essas intervenções
  225. para conseguir controlar seus riscos?
  226. Quem decidiria quando e como interferir?
  227. E se algumas pessoas
    estiverem em situações piores
  228. ou apenas acharem que estão?
  229. Esses problemas são muito complicados.
  230. O que me preocupa é que,
    se esse impacto no clima piorar,
  231. os dirigentes serão forçados a tomar
    qualquer medida que estiver disponível.
  232. Eu não quero que eles ajam
    sem terem nenhuma verdadeira informação
  233. e melhores opções.
  234. Cientistas acham que pode levar uma década

  235. para apenas avaliarmos essas intervenções,
    antes de podermos desenvolver ou usá-las.
  236. Mas hoje, o nível de investimento global
    nessas intervenções
  237. é praticamente zero.
  238. Precisamos agir rápido
  239. se quisermos que os dirigentes
    tenham informação real
  240. sobre esse tipo
    de medicamento de emergência.
  241. Há esperança!

  242. O mundo já solucionou
    esse tipo de problema antes.
  243. Na década de 1970,
    detectamos uma ameaça existencial
  244. à nossa camada de ozônio.
  245. Na década de 1980, cientistas,
    políticos e a indústria
  246. se uniram num esforço para substituir
    materiais químicos causadores do problema.
  247. Conseguiram isso com o único
    acordo ambiental juridicamente vinculativo
  248. assinado por todos os países do mundo,
  249. o Protocolo de Montreal.
  250. Ele está em vigor até hoje,
  251. é responsável pela recuperação
    da camada de ozônio
  252. e é a medida de proteção ambiental
    mais bem-sucedida
  253. da história da humanidade.
  254. Hoje temos uma ameaça bem maior,

  255. mas temos a habilidade para desenvolver
    e concordar com soluções
  256. para proteger as pessoas
    e restaurar a saúde do nosso clima.
  257. Isso significa que para
    nos mantermos seguros,
  258. teremos que refletir a luz solar
    por algumas décadas
  259. enquanto nossas indústrias
    se tornam mais verdes e retiram o CO2.
  260. Significa que precisamos trabalhar agora
  261. para conhecer nossas opções
    para esse tipo de medicamento emergencial.
  262. Obrigada.

  263. (Aplausos)