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Showing Revision 10 created 11/03/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Há muito tempo,
    existia um Gigante,
  2. um Gigante Egoísta, cujo deslumbrante
    jardim era o mais bonito na terra.
  3. Uma noite, o Gigante regressou a casa
  4. e, ao encontrar crianças
    a brincar no jardim,
  5. ficou enfurecido.
  6. "O meu jardim é o meu jardim!"
  7. disse o Gigante.
  8. E construiu um muro alto
    à volta dele.
  9. O autor Oscar Wilde escreveu a história
    "O Gigante Egoísta" em 1888.

  10. Quase cem anos depois,
  11. o Gigante mudou-se para Brooklyn,
    na minha infância
  12. e nunca mais a deixou.
  13. Fui criada numa família religiosa,
  14. e cresci a ler a Bíblia e o Alcorão.
  15. As horas de leitura,
    tanto religiosas como recreativas,
  16. superavam bastante as horas de televisão.
  17. Fosse em que dia fosse, encontravam-me
    a mim e aos meus irmãos
  18. enroscados em qualquer quarto
    do nosso apartamento a ler,
  19. às vezes infelizes,
  20. porque nos dias de verão em Nova Iorque,
    as bocas de incêndio rebentavam,
  21. e para nossa inveja, ouvíamos
    os nossos amigos lá em baixo
  22. a brincar nos jorros de água,
  23. a imensa alegria deles subia
    até às nossas janelas abertas.
  24. Mas eu aprendi que, quanto mais
    profundamente me envolvia nos livros,
  25. mais tempo levava em cada frase,
  26. cada vez menos ouvia
    o barulho do mundo exterior.
  27. E, ao contrário dos meus irmãos,
    que aceleravam pelos livros,
  28. eu lia devagar,
  29. muito, muito devagar.
  30. Eu era aquela criança que seguia
    as palavras com o dedo,

  31. até me dizerem para não o fazer;
  32. diziam que as crianças grandes
    não usavam o dedo.
  33. No terceiro ano, tínhamos de nos sentar
    com as mãos cruzadas sobre a secretária,
  34. descruzando-as apenas para virar páginas,
    e voltando depois à mesma posição.
  35. A nossa professora não estava a ser cruel.
  36. Era a década de 70,
  37. e o objetivo dela era que nós não
    lêssemos apenas ao nível do ensino
  38. mas a um nível muito mais alto.
  39. Nós estávamos sempre a ser levados
    a ler cada vez mais rápido.
  40. Mas, na calma do meu apartamento,
    longe do olhar da minha professora,
  41. eu deixava o dedo seguir as palavras.
  42. E aquele Gigante Egoísta
    contava-me outra vez a sua história,
  43. como se tinha sentido traído pelas
    crianças que se esgueiraram no seu jardim,
  44. como construíra o muro alto,
  45. para manter as crianças longe dele
  46. mas caíra no seu jardim um inverno chuvoso
  47. que nunca mais desaparecera.
  48. Em cada nova leitura, aprendi algo novo
  49. sobre as estradas de pedras duras
    onde as crianças tiveram de brincar
  50. quando foram expulsas do jardim,
  51. sobre a gentileza de um rapazinho
    que apareceu um dia,
  52. e até sobre o próprio Gigante.
  53. Talvez as suas palavras
    afinal não fossem furiosas.
  54. Talvez fossem um apelo à empatia,
  55. à compreensão.
  56. "O meu jardim é o meu jardim."
  57. Alguns anos depois,
    conheci um autor chamado John Gardner

  58. que se referia a isto como
    o "sonho fictício,"
  59. ou o "sonho de ficção,"
  60. e eu apercebi-me de que aquilo era
    onde eu estava dentro daquele livro,
  61. a passar o tempo com as personagens
    e com o mundo que o autor criara
  62. e onde me convidara a entrar.
  63. Enquanto criança eu sabia que
    as histórias deviam ser saboreadas,
  64. que as histórias se queriam devagar,
  65. e que um autor passara meses,
    talvez até anos, a escrevê-las.
  66. E a minha função enquanto leitora
  67. — especialmente a leitora que
    queria tornar-se escritora um dia —
  68. era respeitar essa narrativa.
  69. Muito antes de haver cabo
    ou Internet ou até telefone,

  70. havia pessoas a partilhar ideias,
  71. informações e memórias
    através da história.
  72. É uma das nossas formas mais antigas
    de tecnologia conectiva.
  73. Foi a história de algo melhor
  74. que levou os egípcios
    a descerem o Nilo,
  75. uma história de uma melhor forma
    de preservar os mortos
  76. que trouxe os restos do Rei Tut
    até ao século XXI.
  77. E há mais de dois milhões de anos,
  78. quando os primeiros seres humanos
    começaram a fazer ferramentas de pedra,
  79. alguém deve ter dito: "E se?"
  80. E alguém lembrou-se da história.
  81. E independentemente de a terem contado
    por palavras, gestos ou desenhos,
  82. a história foi passada; relembrada:
  83. "bata num martelo e ouça a sua história".
  84. O mundo está a tornar-se mais barulhento.

  85. Passámos das rádios portáteis
  86. ao rádio e aos leitores de CD portáteis
  87. aos iPods
  88. a qualquer música que quisermos,
    quando quisermos.
  89. Passámos da televisão
    com quatro canais, na minha infância,
  90. para a aparente infinidade
    de TV por cabo e por Internet.
  91. Enquanto a tecnologia nos move cada vez
    mais rápido através do tempo e espaço,
  92. parece que a história está
    a ser afastada do nosso caminho,
  93. ou seja, literalmente
    afastada da narrativa.
  94. Mas mesmo quando o nosso
    envolvimento com as histórias muda,
  95. ou as armadilhas ao redor se transformam
    do livro para áudio, Instagram e Snapchat,
  96. devemos lembrar o nosso dedo
    por baixo das palavras.
  97. Recordar aquela história que,
    independentemente do formato,
  98. sempre nos levou a lugares
    onde nunca pensámos ir,
  99. apresentou-nos a pessoas
    que nunca pensámos conhecer
  100. e mostrou-nos mundos
    que poderíamos ter perdido.
  101. Portanto, enquanto a tecnologia
    continua a andar cada vez mais rápido,
  102. eu sou boa com algo mais lento.
  103. O meu dedo por baixo das palavras
    levou-me a escrever livros
  104. para pessoas de todas as idades,
  105. livros feitos para serem lidos devagar,
  106. para serem saboreados.
  107. O meu amor por olhar profundamente
    e de perto para o mundo

  108. por colocar todo o meu ser nisto,
    e ao fazê-lo,
  109. ver as várias possibilidades
    de uma narrativa,
  110. acabou por ser um dom,
  111. porque tomar o meu tempo
  112. ensinou-me tudo o que eu
    precisava de saber sobre a escrita.
  113. Escrever ensinou-me tudo o que eu
    precisava de saber sobre criar mundos
  114. onde as pessoas pudessem
    ser vistas e ouvidas,
  115. onde as suas experiências
    pudessem ser legitimadas,
  116. e onde a minha história,
    lida ou ouvida por outra pessoa,
  117. inspirasse ago nelas que
    se tornasse numa ligação entre nós,
  118. numa conversa.
  119. E não é disto que se trata
  120. encontrar uma forma de não
    nos sentirmos sozinhos neste mundo,
  121. e uma forma de sentirmos que mudámos
    alguma coisa antes de partirmos?
  122. De pedra para martelo,
    de homem para a múmia,
  123. de ideia para uma história
    — e tudo isto, recordado.
  124. Às vezes nós lemos
    para entender o futuro.

  125. Às vezes lemos para entender o passado.
  126. Lemos para nos perdermos, para esquecer
    os maus momentos que estamos a viver,
  127. e lemos para lembrar
    os que vieram antes de nós,
  128. os que passaram por algo mais difícil.
  129. Eu escrevo por essas mesmas razões.
  130. Antes de Brooklyn, eu e a minha família
    vivíamos em Greenville, Carolina do Sul,

  131. numa comunidade segregada
    chamada Nicholtown.
  132. Todos nós éramos
    a descendência de um povo
  133. que não foi autorizado
    a aprender a ler ou a escrever.
  134. Imaginem isto:
  135. o perigo de entender
    como as letras formam palavras,
  136. o perigo das palavras em si,
  137. o perigo de um povo alfabetizado
    e das suas histórias.
  138. Mas, mesmo com este enquadramento
    de sermos ameaçados de morte
  139. por nos agarrarmos a uma narrativa,
  140. as nossas histórias não morreram,
  141. porque há uma outra história
    por detrás desta.
  142. E foi assim que sempre funcionou.
  143. Desde que comunicamos,
  144. tem havido camadas na narrativa,
  145. histórias por baixo de histórias
    e outras por baixo dessas.
  146. É assim que a história tem sobrevivido
    e que irá continuar.
  147. Quando eu comecei a ligar os pontos
    comecei a entender como escrever
  148. e como ler
  149. para pessoas quase silenciadas,

  150. eu apercebi-me que a minha história
    era maior, mais velha e mais profunda
  151. do eu que alguma vez serei.
  152. Por causa disso, continuará a ser.
  153. Entre estas pessoas quase silenciadas
  154. houve aquelas
    que nunca aprenderam a ler
  155. Os seus descendentes,
    agora gerações livres da escravidão,

  156. se eram abastados,
  157. foram para a universidade,
    fizeram mestrados, e por aí fora.
  158. Alguns, como a minha avó e os meus irmãos,
    parece que nasceram a ler,
  159. como se a história
    tivesse saído do caminho deles.
  160. Alguns, como a minha mãe,
    foram com o vagão da Grande Migração
  161. — que não foi bem um vagão —

  162. e despediram-se do Sul.
  163. Mas há a história dentro dessa história:
  164. os que foram e os que ficaram
  165. carregaram com eles
    a história de uma narrativa.

  166. Sabiam que escrever não era
    a única forma de se segurarem a isso,
  167. sabiam que se podiam sentar nos seus
    alpendres no fim de um longo dia
  168. e contar um lento conto aos seus filhos.
  169. Eles sabiam que podiam cantar as suas
    histórias no calor da colheita do algodão
  170. e na colheita do tabaco,
  171. sabiam que podiam ensinar histórias
    e cosê-las em colchas,
  172. transformar as mais dolorosas
    em algo risonho
  173. e, através desse riso,
    expirar a história de um país
  174. que tentou, tantas vezes,
  175. roubar-lhes o corpo,
  176. o espírito
  177. e a sua história.
  178. Enquanto criança,
    aprendi a imaginar um dedo invisível
  179. a levar-me de palavra em palavra,
  180. de frase para frase,
  181. da ignorância para o entendimento.

  182. Portanto, enquanto a tecnologia
    nos continua a apressar
  183. eu continuo a ler devagar,
  184. sabendo que estou a respeitar
    o trabalho do autor
  185. e o poder duradouro da história.

  186. Eu leio devagar para afogar o barulho
  187. e recordar aqueles
    que vieram antes de mim,
  188. que foram provavelmente os primeiros
    que aprenderam a controlar o fogo
  189. e rodearam o seu novo poder
  190. de chamas e luz e calor.
  191. Eu leio devagar para lembrar
    o Gigante Egoísta,
  192. como ele conseguiu finalmente
    deitar aquele muro abaixo
  193. e deixou as crianças correrem
    livremente no seu jardim
  194. Eu leio devagar para homenagear
    os meus antepassados,
  195. que foram impedidos de aprender a ler.
  196. Também eles devem ter
    estado à volta de fogueiras,
  197. falando baixinho dos seus sonhos,
  198. das suas esperanças, dos seus futuros.
  199. Cada vez que lemos, escrevemos
    ou contamos uma história,
  200. nós entramos no círculo deles,
  201. e isso mantém-se intacto.
  202. O poder das histórias continua a viver.
  203. Obrigada.
  204. (Aplausos)