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← O que ler lentamente me ensinou sobre a escrita

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Showing Revision 12 created 10/20/2019 by Elena Crescia.

  1. Muito tempo atrás, havia um Gigante,
  2. um Gigante Egoísta, cujo belíssimo jardim
    era a coisa mais bonita de toda a região.
  3. Numa noite esse Gigante voltou pra casa
  4. e encontrou um monte de crianças
    brincando no seu jardim
  5. e ficou furioso.
  6. "O meu jardim é o meu jardim!"
  7. disse o Gigante.
  8. E construiu um muro
    bem alto ao redor dele.
  9. Oscar Wilde escreveu a história
    "O Gigante Egoísta" em 1888.

  10. Quase cem anos depois, esse Gigante
    foi morar na minha infância no Brooklyn
  11. e nunca mais foi embora.
  12. Eu fui criada numa família religiosa,
  13. e cresci lendo a Bíblia e o Alcorão.
  14. As horas de leitura,
    tanto religiosa quanto recreativa,
  15. de longe ultrapassavam as horas
    em frente à televisão.
  16. Num dia qualquer, vocês
    encontrariam meus irmãos e eu
  17. lendo em algum canto do apartamento,
  18. às vezes contrariados,
  19. porque no verão em Nova York
    os hidrantes explodiam,
  20. e, para nossa grande inveja,
    dava pra ouvir nossos amigos lá embaixo
  21. brincando na água que jorrava,
  22. a alegria imensa deles
    entrando pelas nossas janelas.
  23. Mas eu aprendi que, quanto mais fundo
    eu mergulhasse nos meus livros,
  24. quanto mais eu me demorasse
    em cada frase,
  25. menos eu ouvia o barulho do mundo externo.
  26. Então, ao contrário dos meus
    irmãos, que liam depressa,
  27. eu lia devagar,
  28. bem, bem devagar.
  29. Eu era aquela criança que passava
    os dedos pelas palavras,

  30. até que me disseram para não fazer isso;
    crianças grandes não usam os dedos.
  31. No terceiro ano, nos mandaram sentar
    com as mãos cruzadas sobre a mesa,
  32. descruzá-las apenas para virar as páginas
    e voltar para a mesma posição.
  33. Nossa professora não estava sendo cruel.
  34. Era a década de 70,
  35. e seu objetivo não era que lêssemos
    apenas no nível da classe,
  36. mas muito avançado.
  37. E sempre éramos
    estimulados a ler mais rápido.
  38. Mas no silêncio do meu apartamento,
    longe do olhar da professora,
  39. eu passava meu dedo pelas palavras.
  40. E aquele Gigante Egoísta
    me contou novamente sua história,
  41. como ele tinha se sentido traído
    pelas crianças invadindo seu jardim,
  42. como ele tinha construído um muro alto,
  43. que manteve mesmo as crianças
    do lado de fora.
  44. Mas um inverno cinzento
    baixou sobre seu jardim
  45. e não ia mais embora.
  46. Com cada releitura eu aprendia algo novo
  47. sobre as duras pedras das ruas
    onde as crianças tinham que brincar
  48. quando foram expulsas do jardim,
  49. sobre a doçura de um menino
    que apareceu um dia,
  50. e até mesmo sobre o próprio Gigante.
  51. Talvez suas palavras não fossem
    cheias de fúria afinal.
  52. Talvez fossem um apelo por empatia,
  53. por compreensão.
  54. "O meu jardim é o meu jardim."
  55. Anos depois, fiquei sabendo
    de um escritor chamado John Gardner

  56. que se referia a isso
    como o "sonho fictício"
  57. ou o "sonho da ficção",
  58. e percebi que era ali
    que eu estava dentro do livro,
  59. passando tempo com os personagens
    e com o mundo que o autor criou
  60. e ao qual me convidou.
  61. Quando criança, eu sabia que histórias
    tinham que ser saboreadas,
  62. que elas queriam ir devagar,
  63. e que um escritor havia passado meses,
    talvez anos, escrevendo-as.
  64. E meu dever enquanto leitora,
  65. especialmente uma que queria
    se tornar escritora um dia,
  66. era respeitar essa narrativa.
  67. Muito antes da TV a cabo,
    da Internet ou mesmo do telefone,

  68. pessoas já compartilhavam ideias,
  69. informações e memórias
    através de histórias.
  70. É uma das formas mais antigas
    de tecnologia de conectividade.
  71. Foi a história de algo melhor Nilo abaixo
  72. que fez os egípcios navegarem por ele,
  73. a história de uma forma melhor
    de preservar os mortos
  74. que trouxe os restos mortais
    de Tutancâmon ao século 21.
  75. E mais de 2 milhões de anos atrás,
  76. quando os primeiros humanos começaram
    a criar ferramentas de pedra,
  77. alguém deve ter dito: "E se?"
  78. E outra pessoa se lembrou da história.
  79. E não importa se foi contada
    com palavras, gestos ou desenhos,
  80. mas ela foi passada adiante, lembrada:
  81. bata um martelo e ouça sua história.
  82. O mundo está ficando mais barulhento.

  83. Passamos de caixas de som
  84. para Walkmans, para CD players portáteis,
  85. para iPods,
  86. para qualquer música
    que quisermos, quando quisermos.
  87. Passamos dos quatro canais
    de televisão da minha infância
  88. para a aparente infinidade
    da TV a cabo e do streaming.
  89. Enquanto a tecnologia nos leva
  90. cada vez mais rápido
    através do tempo e do espaço,
  91. temos a sensação de que a história
    está sendo deixada de lado,
  92. digo, literalmente
    sendo deixada de fora da narrativa.
  93. Mas mesmo com a mudança
    do nosso engajamento com histórias,
  94. ou com a evolução de sua representação
  95. desde livros até áudios,
    Instagram e Snapchat,
  96. temos que nos lembrar
    do nosso dedo nas palavras.
  97. Lembrar-nos de que histórias,
    independente do formato,
  98. sempre nos levaram a lugares
    que nunca imaginamos ir,
  99. nos apresentaram pessoas
    que nunca imaginamos encontrar
  100. e nos mostraram mundos
    que podíamos ter deixado passar.
  101. E à medida que a tecnologia
    avança cada vez mais rápido,
  102. eu me dou bem com algo mais lento.
  103. Meu dedo nas palavras me proporcionou
    uma vida escrevendo livros
  104. para gente de todas as idades,
  105. livros que devem ser lidos devagar,
  106. ser saboreados.
  107. Minha paixão por olhar o mundo
    profunda e intimamente,

  108. por dar tudo de mim e ao fazer isso,
  109. ver as tantas possibilidades
    de uma narrativa,
  110. mostrou-se ser um dom,
  111. porque fazer as coisas no meu tempo
  112. me ensinou tudo o que eu
    precisava saber sobre escrever.
  113. E escrever me ensinou tudo
    o que precisava saber sobre criar mundos
  114. em que as pessoas pudessem
    ser vistas e ouvidas,
  115. e suas experiências
    pudessem ser legitimadas,
  116. e minha história, lida ou ouvida
    por uma outra pessoa,
  117. pudesse inspirar algo nela
    que se tornasse uma conexão entre nós,
  118. uma conversa.
  119. E não é disso que se trata,
  120. achar um jeito, no final das contas,
    de não se sentir sozinho nesse mundo,
  121. e um jeito de se sentir
    que mudamos algo antes de partir?
  122. De pedra a martelo, de homem a múmia,
  123. de ideia a história,
    e tudo isso, lembrado.
  124. Às vezes nós lemos para entender o futuro.

  125. Às vezes nós lemos
    para entender o passado.
  126. Lemos para nos perder, para esquecer
    as dificuldades que passamos,
  127. e lemos para nos lembrar
    daqueles que vieram antes de nós,
  128. que viveram dias mais difíceis.
  129. Eu escrevo por essas mesmas razões.
  130. Antes de vir para o Brooklyn,

  131. minha família vivia em Greenville,
    na Carolina do Sul
  132. Num bairro segregado chamado Nicholtown.
  133. Todos nós lá éramos
    descendentes de um povo
  134. que não tinha tido permissão
    para aprender a ler ou escrever.
  135. Imaginem isso:
  136. o perigo de entender
    como letras formam palavras,
  137. o perigo das próprias palavras,
  138. o perigo de um povo alfabetizado
    e suas histórias.
  139. Mas na contramão desse quadro
    de ser ameaçado de morte
  140. por manter uma narrativa,
  141. nossas histórias não morreram,
  142. porque ainda há uma outra história
    por debaixo dessa.
  143. E foi assim que as coisas sempre foram.
  144. Desde que começamos a nos comunicar,
  145. houve a criação
    de camadas para a narrativa,
  146. as histórias debaixo das histórias
    e outras debaixo dessas.
  147. É assim que a história sobreviveu
    e continuará sobrevivendo
  148. Quando comecei a ligar os pontos
    que ligaram como aprendi a escrever

  149. e como aprendi a ler
  150. a um povo quase silenciado,
  151. eu percebi que minha história
    era maior e mais antiga e mais profunda
  152. do que eu jamais seria.
  153. E por isso eu continuarei.
  154. Em meio a esse povo quase silenciado

  155. havia aqueles que nunca aprenderam a ler.
  156. Seus descendentes,
    agora gerações depois da escravidão,
  157. com condições suficientes,
  158. fizeram faculdade, pós-graduação, e mais.
  159. Alguns, como minha avó e meus irmãos,
    parece que já nasceram lendo,
  160. como se a história saísse de seu caminho.
  161. Alguns, como minha mãe, pegaram carona
    no bonde da Grande Migração;
  162. que não era exatamente um bonde;
  163. e se despediram do Sul.
  164. Mas eis a história dentro dessa história:

  165. aqueles que se foram e aqueles que ficaram
  166. tinham consigo
    a história de uma narrativa,
  167. sabiam realmente que escrevê-la
    não era o único jeito de mantê-la,
  168. sabiam que podiam
    sentar-se em sua varanda,
  169. ou nos degraus ao fim de um longo dia
  170. e desenrolar devagar
    um conto para seus filhos.
  171. Sabiam que podiam cantar suas histórias
    durante o calor da colheita do algodão
  172. e do tabaco,
  173. sabiam que podiam pregar suas histórias
    e costurá-las em colchas
  174. transformando as mais dolorosas
    em algo que provocasse o riso,
  175. e com esse riso,
    exalar a história a um país
  176. que tentou repetidamente
  177. roubar seus corpos,
  178. seu espírito
  179. e sua história.
  180. Assim quando criança, eu aprendi
    a imaginar um dedo invisível

  181. que me levava de palavra em palavra,
  182. de frase em frase,
  183. da ignorância ao entendimento.
  184. E à medida que a tecnologia
    continua acelerando,

  185. eu continuo lendo lentamente,
  186. sabendo que estou respeitando
    o trabalho do escritor
  187. e o poder duradouro da história.
  188. E eu leio devagar para abafar o ruído
  189. e lembrar-me dos que vieram antes de mim,
  190. que provavelmente foram o primeiro povo
    que enfim aprendeu a controlar o fogo
  191. e rodearam seu novo poder
  192. de chamas, luz e calor.
  193. E eu leio lentamente
    para lembrar do Gigante Egoísta,
  194. como ele finalmente derrubou aquele muro
  195. e deixou que as crianças
    corressem livres pelo seu jardim.
  196. E leio lentamente para prestar homenagem
    aos meus antepassados
  197. que sequer tinham permissão para ler.
  198. Eles, também, devem ter rodeado fogos,
  199. murmurando sobre seus sonhos,
  200. suas esperanças, seus futuros.
  201. Cada vez que nós lemos, escrevemos
    ou contamos uma história,
  202. nós entramos nesse círculo,
  203. e ele se mantém ininterrupto.
  204. E o poder da história segue existindo.
  205. Obrigada.

  206. (Aplausos)