YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese subtitles

← Tempos perigosos pedem mulheres perigosas

Get Embed Code
20 Languages

Showing Revision 8 created 01/24/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Recentemente,
  2. tenho declarado
    para quem quiser ouvir
  3. que sou uma mulher perigosa.
  4. (Aplausos)

  5. Agora, fazer uma declaração
    assim tão ousada

  6. ainda é um pouco perigoso,
  7. mas também sinto ser a coisa certa.
  8. Neste momento da minha vida,
  9. prestes a completar 77 anos,
  10. Eu tenho...
  11. (Aplausos)

  12. Adoro quando nos aplaudem pela idade.

  13. (Risos)

  14. mas vou aceitar.

  15. (Aplausos)

  16. Prestes a completar 77, percebi
    que não tenho mais nada a provar,

  17. muito menos a perder,
  18. e estou mais impaciente
    em relação a tudo.
  19. O ritmo lento e verdadeiro
    em direção à igualdade,
  20. o aumento do machismo, do racismo,
  21. a violência contra mulheres e raparigas...
  22. E estou zangada também
  23. com os que negam a mudança climática
    que estão a roubar o futuro
  24. dos nossos filhos e netos.
  25. Amigos, estamos a viver tempos perigosos.
  26. E esses tempos forçam-nos
    a sermos mais perigosas.
  27. O que eu quero dizer com isso?

  28. Não é para terem medo de nós.
  29. Não é esse tipo de perigo.
  30. Quero dizer sermos mais destemidas.
  31. Dizermos a verdade
  32. quando o silêncio é mais seguro.
  33. Falarmos por aqueles
    que não estão presentes,
  34. principalmente nos locais
    onde pessoas tomam decisões
  35. sobre a nossa vida e o nosso corpo.
  36. Precisamos de estar nesses lugares,
  37. sermos solidários,
  38. desafiarmos o conceito cultural
  39. que nos encoraja,
    principalmente às mulheres e raparigas,
  40. a competir, a comparar,
  41. a criticar.
  42. Temos de parar com isso.
  43. E também falar contra a política
    e as políticas que nos dividem
  44. e diminuem o nosso poder coletivo
  45. como uma comunidade global
    de mulheres e de homens
  46. e dos aliados que estão lá connosco.
  47. Ser perigosa também significa
    abraçar os riscos necessários

  48. para criar um mundo
    onde mulheres e raparigas estejam seguras
  49. em casa e no trabalho,
  50. onde todas as vozes
    estejam representadas e respeitadas,
  51. todos os votos façam a diferença,
  52. o planeta seja protegido.
  53. E tudo isso é possível.

  54. Porque estamos prontas.
  55. Estamos mais bem preparadas
    do que qualquer geração antes de nós,
  56. temos mais recursos,
    estamos mais interligadas.
  57. Em muitas partes do mundo,
    viver mais tempo do que nunca.
  58. A parte da população
    que mais depressa cresce no mundo
  59. é a de mulheres com mais de 65 anos
  60. com o potencial também
    de se tornar a mais poderosa.
  61. (Aplausos)

  62. Que mudança isso representa!

  63. As mulheres após a menopausa, como eu,
  64. ainda há pouco tempo,
    eram consideradas inúteis
  65. ou malucas.
  66. Só servíamos para cuidadoras,
    ou para sermos avós.
  67. e eu gosto muito dessa parte.
  68. Mas éramos postas de lado
  69. e esperavam que ficássemos
    nas nossas cadeiras de baloiço.
  70. As mulheres, com mais de 60 anos
  71. não estão a reformar-se.
  72. Estamos a reprogramar-nos.
  73. (Aplausos)

  74. agarrando em tudo o que sabemos
    e fizemos — e é muita coisa —

  75. para redefinir o que é a idade,
  76. o que podemos fazer,
    o que podemos realizar.
  77. Mas tornar-se perigosa não tem a ver
    com chegar a certa idade
  78. porque, em qualquer idade,
  79. as mulheres e as raparigas
    estão a manifestar-se,
  80. a arriscar-se para provocar a mudança.
  81. Eu comecei a correr riscos
    ainda muito nova.

  82. Tive de fazer isso,
  83. ou ter a minha vida
    definida pelas limitações
  84. para uma rapariga da área rural do Sul,
  85. sem dinheiro, sem conexões,
  86. sem influência.
  87. Mas o que não tinha limites
  88. era a minha curiosidade pelo mundo
    para além daquela pequena cidade,
  89. para além das mentes tacanhas
    de um Sul ainda segregacionista,
  90. um mundo que eu entrevia nos filmes
  91. no único cinema da cidade,
  92. e um mundo que começou
    a ficar mais perto
  93. quando conheci Shirley Rountree,
    a minha professora de inglês do 8.º ano.
  94. No instante em que ela entrou na sala,

  95. com os seus saltos altos,
  96. ela era uma mulher no comando,
  97. com um cabelo perfeito,
    o batom vermelho,
  98. as cores combinadas,
    da cabeça aos pés.
  99. Eu quis ser ela.
  100. Ela foi a minha primeira mentora
    e ajudou-me a tornar-me em quem sou.
  101. Com o apoio dela,
    consegui uma bolsa para a faculdade

  102. — a primeira na família —
  103. e fui para uma boa universidade estatal,
  104. bem no meio de dois
    grandes movimentos de justiça social:
  105. os direitos civis para afro-americanos
  106. e direitos iguais para mulheres.
  107. Participei dos dois com entusiasmo,
  108. e descobri que o meu ativismo
    recém-descoberto
  109. e o meu feminismo em fermentação
  110. iam entrar em conflito direto
  111. com a minha necessidade
    de agradar e ser popular.
  112. No meu primeiro emprego como professora
    na faculdade, quebrei as regras

  113. e encorajei os alunos
    a irem comigo a manifestações.
  114. E quando descobri que o meu colega
  115. que tinha a mesma experiência
    e formação académica que eu
  116. ganhava mais do que eu,
  117. preparei um protesto pessoal.
  118. Quando me recusaram um aumento,
  119. com a desculpa que ele tinha
    uma família para sustentar,
  120. eu também tinha, porque era mãe solteira.
  121. Mas desisti do protesto
    para manter meu emprego.
  122. Hoje, milhões de mulheres
    estão fazendo esse tipo de concessão

  123. ficando nos seus empregos
    sem salários iguais
  124. pelo mesmo trabalho.
  125. E como uma das primeiras mulheres
    na televisão nos anos 70,

  126. avisaram-me que, se me concentrasse
    em histórias de mulheres
  127. limitaria minhas oportunidades
    de carreira
  128. e talvez tenha mesmo limitado.
  129. Mas eu produzi e apresentei
    uma programação inovadora para mulheres.
  130. embora, simultaneamente,
  131. me tenha mantido silenciosa
    sobre o assédio sexual.
  132. Tive de ouvir os consultores
    que foram contratados
  133. para me aconselhar quanto ao meu aspeto:
  134. "Pinte o cabelo de louro."
  135. Eu pintei.
  136. "Abaixe o tom da voz."
  137. Eu tentei.
  138. "Aumente o decote."
  139. Não aumentei.
  140. (Risos)

  141. Mas usei aqueles fatos horríveis
    de apresentadora,

  142. com echarpes
    que mais pareciam gravatas.
  143. Mais tarde, em posição de poder
    nos "media",
  144. quase sempre a primeira
    ou única mulher,
  145. ciente de estar a ser julgada
    pelas lentes do sexo,
  146. várias vezes lutei
  147. para encontrar equilíbrio
    entre ser uma líder para mulheres
  148. e não ser definida apenas
    como uma mulher líder.
  149. Mas hoje tenho orgulho
    de ser conhecida como uma mulher líder.
  150. (Aplausos)

  151. Como ativista, porta-voz, feminista

  152. e recentemente afirmada
    como mulher perigosa,
  153. preocupo-me menos
    com o que os outros dizem
  154. e digo mais claramente
    o que acho e sinto.
  155. E vou ser muito clara:
  156. Reconheço o privilégio
    de poder fazer isso,
  157. de contar a minha verdade.
  158. E estar aqui hoje,
  159. com esta oportunidade
  160. de falar com vocês
    sobre mulheres e poder
  161. — reparem que não disse
    "empoderada".
  162. Acho que não estamos à espera
    de conquistar poder.
  163. Acho que temos poder.
  164. (Aplausos)

  165. Mas precisamos de mais oportunidades
    de o reivindicar, de o usar,

  166. e de partilhar esse poder.
  167. Sim, eu sei.

  168. Há mulheres com poder
    que não o usam com sensatez
  169. e que não o partilham.
  170. Já ouvi, e vocês certamente também,
  171. histórias que começam assim:
  172. "O pior chefe que tive foi uma mulher..."
  173. E podemos falar de várias líderes
    de que não nos orgulhámos.
  174. Mas podemos mudar tudo isso

  175. com uma ideia simples, mas brilhante
  176. que eu ouvi a uma perigosa congressista
    de Nova Iorque,
  177. chamada Bella Abzug.
  178. Ela disse: "No século XXI,
  179. "as mulheres mudarão
    a natureza do poder
  180. "mais do que o poder mudará
    a natureza das mulheres."
  181. Desde que ouvi isso...
  182. (Aplausos)

  183. pensei: "Esta é a nossa chamada à ação.

  184. "Esta é nossa maior oportunidade."
  185. E como jornalista e ativista,

  186. tenho visto esta ideia em ação,
  187. documentando histórias de mulheres
    nos dois lados de longos conflitos,
  188. unindo-se e desafiando o poder oficial
  189. para formar alianças e encontrar caminhos
    para dar fim à violência nas comunidades.
  190. E como ativista, viajei a lugares
  191. onde é perigoso nascer mulher,
  192. como o leste do Congo,
  193. onde há uma guerra travada
    contra os corpos das mulheres.
  194. Lá, num centro de cura e liderança
    chamado City of Joy,
  195. corajosas mulheres congolesas
    transformam a dor em poder
  196. dando formação a sobreviventes
    de agressão sexual
  197. para voltarem a suas aldeias
    como líderes.
  198. E em conferências climáticas recentes,
  199. observei mulheres líderes
    a trabalhar nos bastidores,
  200. longe da atenção do público,
  201. certificando-se que as negociações
    para um acordo mundial sobre o clima
  202. sigam em frente.
  203. Então, à medida que avançamos
    na vida e no trabalho

  204. e temos mais poder e mais influência,
  205. toca a mudar a natureza do poder
  206. derrubando barreiras ainda existentes
    para quem nos segue,
  207. protestando e agitando,
  208. por uma representação
    mais justa, verdadeira e igual,
  209. em todos os lugares
    e em todas as mesas de discussão.
  210. Mas atenção:

  211. se vocês defenderem uma mulher
  212. para um cargo ou promoção,
  213. podem ser confrontados com:
  214. "Você está a usar a carta das mulheres"
  215. ou "a carta racial"
  216. se estiverem a defender
    uma mulher de cor.
  217. Eu já passei por isso,
    e tenho certeza que vocês também.
  218. "Você está a fazer um programa
    de ação afirmativa aqui na PBS?"
  219. foi a pergunta de um membro do conselho
    quando, enquanto nova presidente,
  220. eu anunciei a primeira contratação
    de cinco mulheres qualificadas.
  221. A minha ação afirmativa tinha sido pedir
  222. que a firma de pesquisa
    me levasse uma lista de candidatos
  223. que incluísse os nomes
    de mulheres e de pessoas de cor
  224. que também fossem, no meu ponto de vista,
  225. os melhores candidatos
    para os cargos também.
  226. E digo às mulheres perigosas
    e aos nossos aliados:
  227. está na hora de jogar
    a carta das mulheres,
  228. de jogar a carta racial,
  229. de jogar todas as nossas cartas.
  230. (Aplausos)

  231. Não para ganhar no jogo do poder,

  232. mas para chegar a melhores resultados
  233. para todos.
  234. Está na hora também

  235. de pôr de lado a teoria da escassez,
  236. aquela que diz
  237. que só há espaço
    para uma de nós no topo.
  238. E, por isso, proteger o território,
  239. e não fazer amigos nem aliados.
  240. Mudar a natureza do poder
  241. transforma o "protejer o território"
    em "partilhar o território",
  242. isso encoraja coligações
  243. constrói alianças,
  244. fortalece e mantém amizades.
  245. As minhas amigas são
    a minha fonte de energia renovável.
  246. (Aplausos)

  247. Tal como as minhas mentoras
    as minhas defensoras,

  248. as minhas apoiantes,
    as minhas patrocinadoras,
  249. de todas as maneiras que podemos
    ajudar-nos umas às outras.
  250. Podemos tornar-nos
    fontes de poder renovável
  251. umas das outras.
  252. E ao longo desse caminho,

  253. precisamos de nos cuidar mais,
  254. e nisso, não sou o melhor modelo.
  255. Não faço meditação.
  256. Não faço exercício regularmente.
  257. Mas vivo aerobicamente.
  258. (Risos)

  259. (Aplausos)

  260. Porque acredito
    que não podemos ser perigosas

  261. só marginalmente
  262. e há muito a fazer.
  263. Então vamos usar nosso poder.

  264. E o poder do dinheiro?
  265. Toca a atribuir
    mais dólares filantrópicos,
  266. das nossas campanhas de doação,
  267. dos nossos fundos de investimento,
  268. para fomentar a igualdade
    económica e política.
  269. E toca a alavancar o poder
    dos "media" e da tecnologia
  270. que temos em nossas mãos,
    literalmente,
  271. para promover
    as nossas histórias e ideias;
  272. para praticar a civilidade;
  273. para procurar a verdade,
  274. que está a diminuir
  275. e a ameaçar as sociedades
    livres e abertas.
  276. Sim, temos tudo o que precisamos
    para fazer avançar as nossas comunidades.

  277. E a melhor coisa que temos,
  278. e que nunca podemos esquecer
  279. é estarmos presentes
    umas para as outras.
  280. Seguiremos em frente juntas,
  281. preparadas para correr mais riscos,
  282. sermos mais destemidas,
  283. manifestarmo-nos, falar claramente
  284. e estarmos presentes
  285. umas para as outras.
  286. George Bernard Shaw escreveu

  287. que acreditava que a sua vida
    pertencia à comunidade,
  288. que quanto mais ele trabalhasse,
    mais ele viveria
  289. e que queria estar bem gasto
    quando morresse.
  290. Ele escreveu:
  291. "A vida não é uma vela efémera
  292. "mas uma tocha esplêndida
  293. "que eu uso por um instante
  294. "antes de passá-la
    para gerações futuras."
  295. Eu também não vejo a minha vida
    como uma vela efémera,
  296. apesar de me queimar dos dois lados.
  297. (Risos)

  298. E quero que ela, e eu,

  299. estejamos bem gastos quando eu morrer.
  300. Mas neste ponto do percurso da minha vida,

  301. não estou a passar a minha tocha.
  302. Estou a segurá-la mais alto do que nunca,
  303. com orgulho, com coragem,
  304. e convido-vos a juntarem-se a mim
    nesta luz perigosa.
  305. Obrigada.

  306. (Aplausos)