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← De volta para o fogão | Bela Gil | TEDxLaçadorSalon

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Showing Revision 49 created 02/01/2018 by Claudia Sander.

  1. Boa noite.
  2. Eu sempre gostei muito de comer,
    mas eu nunca fui de cozinhar.
  3. Quando era pequena, eu adorava ver
    minha avó cozinhar e trabalhar na cozinha.
  4. Ela que tomava conta das ceias
    de Natal, Ano Novo e Páscoa.
  5. E ela fazia tudo com muito amor e carinho.
  6. Quem gostava de botar a mão na massa
    junto com ela era o meu irmão.
  7. Tanto que até hoje ela me pergunta
  8. como, quando e por que
    eu fui parar na cozinha.
  9. E essa é a resposta
    que eu quero dar pra vocês hoje.
  10. Porque se tem alguma coisa
    que pode mudar o futuro da alimentação,
  11. é o ato de cozinhar.
  12. Na adolescência, mais precisamente
    quando eu tinha 14 anos,
  13. eu comecei a praticar ioga.
  14. E a ioga me transformou.
  15. Transformou a minha vida completamente.
  16. Mudou a minha visão de mundo,
    mudou a minha alimentação
  17. e com ela eu percebi
  18. que os alimentos tinham poderes,
  19. digamos assim.
  20. Eu decidi também estudar
    filosofias alimentares
  21. que utilizassem o alimento
    como forma de prevenção,
  22. cura e tratamento de doenças,
  23. como forma de remédio mesmo.
  24. Eu resolvi então estudar um pouco
    sobre a ayurveda e a macrobiótica.
  25. Porque essas filosofias
    resgataram em mim uma coisa
  26. que eu acho que a modernização
    tirou de muitos de nós, jovens,
  27. que é o zelo, o cuidado
    e o respeito pela natureza.
  28. Então, eu decidi que a gente poderia mudar
  29. o jeito que a gente
  30. constrói o sistema alimentar
    através da alimentação.
  31. Eu acredito que um dos efeitos
    colaterais da modernização
  32. é o afastamento do homem com a natureza,
  33. o afastamento da vida
    urbana e da vida rural.
  34. Acredito que se a gente trouxer
  35. um pouco da vida rural pra cidade,
  36. a gente pode fortalecer os laços
    entre o homem e a natureza.
  37. Por exemplo, plantando hortas urbanas.
  38. É um jeito pelo qual a gente
    pode se reconectar com a natureza.
  39. E anos depois, já com 18 anos,
  40. eu fui morar fora e lá aprendi a cozinhar.
  41. Eu me apaixonei pela culinária,
    me apaixonei pela cozinha
  42. e entendi que a gente podia usar a comida,
    a alimentação, como uma ferramenta,
  43. não só pra melhorar a qualidade
    de vida em termos de saúde,
  44. mas também usar como uma ferramenta
  45. política, econômica, social e ambiental,
  46. e com isso conseguir
    reestruturar o sistema alimentar,
  47. mudar a dinâmica da alimentação
    e o processo de produção,
  48. distribuição e consumo dos alimentos.
  49. Eu vou dar um exemplo
    do processo de produção de carne.
  50. Existem dois princípios que conduzem
    a produção de carne em escala industrial:
  51. a quantidade e a velocidade.
  52. Quanto mais se produz,
    quanto mais barato se produz,
  53. pior é a qualidade e maior é o custo
    pro meio ambiente e pra nossa saúde.
  54. Em termos de velocidade,
  55. o ciclo do animal
    é acelerado artificialmente,
  56. o ciclo de vida do animal
    é acelerado artificialmente,
  57. e ele começa a crescer
    e produzir de uma maneira
  58. que chega uma hora
    que seus corpos não aguentam,
  59. e ele começa a diminuir drasticamente
  60. a sua qualidade de vida,
  61. a sua saúde e o seu tempo de vida.
  62. Acredito que a gente pode e deve mudar
  63. esse sistema alimentar.
  64. Eu estava outro dia
    passando no supermercado,
  65. e percebi que o quilo do frango
    estava mais barato que o quilo do tomate.
  66. Eu falei: "Gente, como pode?"
  67. Isso é muito complexo.
  68. Como pode custar tão pouco
  69. você criar um animal
    desde o nascimento até o abate?
  70. Isso não entrava na minha cabeça.
  71. Em termos de legumes e verduras,
  72. o processo de produção
    em escala industrial
  73. também é muito, digamos assim,
    danoso pra nossa vida,
  74. pra nossa saúde e pro meio ambiente,
  75. porque hoje em dia o Brasil é o maior
    consumidor de agrotóxicos do mundo.
  76. Cada brasileiro consome em média
    cinco quilos de agrotóxicos por ano.
  77. É uma quantidade exorbitante.
  78. E as pessoas sabem
    dos malefícios dos agrotóxicos,
  79. mas mesmo assim elas continuam tolerando
    esse abuso no uso e no consumo.
  80. E eu queria entender por quê.
  81. Mas a resposta é porque
    a nossa sociedade atual
  82. tem os valores invertidos.
  83. Há uma inversão de valores.
  84. Por que uma pessoa se preocupa
    em não comprar um perfume falsificado
  85. porque acha que vai ter alguma reação
    alérgica, porque não sabe a procedência,
  86. ou não sabe que tipo
    de química tem ali dentro,
  87. e não se preocupa em comer
    um vegetal intoxicado?
  88. Por que isso?
  89. Eu queria entender e descobri
    que é essa mudança de valores.
  90. E a gente precisa ensinar as pessoas
    a valorizar os produtos orgânicos,
  91. porque quando você compra,
    por exemplo, um pé de alface orgânico,
  92. você está pagando...
  93. não só você está investindo na sua saúde,
  94. mas você está pagando
    pelo bem-estar do produtor,
  95. que é uma coisa que muitas vezes
    as pessoas não pensam,
  96. não sabem que por trás daquela alface teve
    alguém que cuidou com todo amor e carinho
  97. e levou essa alface até você.
  98. Então a gente paga
    pelo bem-estar do produtor,
  99. a gente investe na saúde
    e a gente respeita a natureza.
  100. Por isso eu acho que me apaixonei
  101. pela culinária e pela nutrição.
  102. Em termos de distribuição,
    também não é eficiente.
  103. Eu acho que vocês devem saber
    que a gente produz muita comida.
  104. Um terço da comida que a gente produz
    é simplesmente desperdiçado, jogado fora.
  105. E a gente se pergunta
    por que ainda tem gente passando fome.
  106. E o motivo é uma má
    política de distribuição.
  107. A gente tem que rever isso.
  108. Em termos de consumo,
  109. o modo que a gente consome
    os alimentos hoje é assustador.
  110. A minha avó é paulista.
    Ela mora em São Paulo.
  111. Se eu pegasse ela e a colocasse
    no meio da Avenida Paulista,
  112. eu tenho certeza que ela
    ia ficar muito assustada,
  113. vendo aqueles executivos
    ou aquelas pessoas apressadas,
  114. andando na rua, falando no celular,
    engolindo um pedaço de pizza, por exemplo.
  115. Porque também mastigar é uma coisa
    que as pessoas acham que é perda de tempo,
  116. mas que, na verdade, é muito importante.
  117. Enfim, ela ia ter quase uma síncope,
  118. porque ela não reconhece aquilo
    como uma forma de refeição,
  119. como uma forma de se nutrir
    e de se alimentar.
  120. Esses fast-foods, essas comidas rápidas,
    foram feitas pra isso mesmo,
  121. pra gente poder comer
    em conjunto com outra atividade,
  122. ou falando no celular,
    teclando, ou assistindo TV.
  123. Isso faz com que a gente
    perca a noção de saciedade.
  124. A gente acaba abrindo espaço pra gula,
  125. que é muito danosa
    e prejudicial pra nossa saúde.
  126. Então, a gente precisa rever o modo
    como a gente consome os alimentos.
  127. E esses salgadinhos, biscoitinhos e tal,
    também têm muitos aditivos químicos
  128. e um nível exagerado de sal, gordura
    e açúcar, que é o trio viciante.
  129. Principalmente os realçadores de sabor
    acabam destruindo o nosso paladar,
  130. eles degeneram o nosso sistema nervoso
    e eles acabam criando uma dependência,
  131. não só física, mas também
    uma dependência mental,
  132. uma dependência psicológica
    e uma dependência fisiológica.
  133. Ou seja, os produtos industrializados
    em excesso são muito prejudiciais.
  134. Eu nem chamo eles de comida.
  135. Pra mim são comidas maquiadas de alimento,
  136. porque você pode até
    consumir e se satisfazer,
  137. mas ele não vai ter nutrir
    e não vai te alimentar.
  138. E quem é que ainda faz pipoca de panela?
    Pipoca de panela em lugar de micro-ondas?
  139. Olha! Metade e metade. (Risos)
  140. Quem ainda faz bolo em vez de comprar
    aquele bolinho pronto de pacotinho?
  141. Oh! Também metade e metade. (Risos)
  142. Essas duas perguntas
    podem parecer um pouco inofensivas
  143. e não querer dizer nada, mas,
    na verdade, querem dizer muito.
  144. Só de você trocar a pipoca de panela
    pela pipoca de micro-ondas
  145. você já está causando
    um dano pra sua saúde,
  146. porque você vai estar consumindo químicos
  147. que você não colocaria,
    tenho certeza, na sua pipoca de panela,
  148. e você também está poluindo
    com a embalagem da pipoca de micro-ondas.
  149. É uma embalagem extra que poderia ser
    um lixo a menos no mundo.
  150. Então, eu acho que o consumo excessivo
    de produtos industrializados
  151. é muito prejudicial mesmo.
  152. Pra resumir
  153. essa questão do processo
    de produção de comida,
  154. eu acho que essa dinâmica alimentar,
    esse sistema alimentar
  155. não é nada sadio.
  156. Não está funcionando.
  157. E a gente deve mudar. Mas como mudar?
  158. A principal resposta é voltando pro fogão.
  159. Cozinhar é sinônimo de arte,
    cultura, lazer, saúde.
  160. Cozinhar traz independência,
    traz autoconhecimento, traz autonomia,
  161. traz segurança, traz liberdade.
  162. Cozinhar é a arte fundamental da vida.
  163. Se a gente não cozinha,
    alguém vai cozinhar pela gente.
  164. Eu espero que não seja a indústria.
  165. Porque a indústria não cozinha,
    ela simplesmente processa os alimentos.
  166. Se você deixar a indústria te alimentar,
  167. ela vai escolher pra você
    o que você vai ter pro jantar:
  168. lasanha congelada, batata frita,
    hambúrguer, cachorro quente.
  169. Que tal uma pizza?
  170. E dá-lhe o Disk Pizza! Porque
    nem pizza a gente sabe fazer mais.
  171. Eu acredito que a gente...
  172. Ah, não! Espera aí! Cadê o arroz e feijão?
  173. Cadê o arroz e feijão de cada dia
    que enchia a nossa barriga e a nossa alma?
  174. Eu acho que muita gente que não tem
    interesse e nem apreço pela cozinha,
  175. deve pensar que fazer comida
    é muito trabalhoso,
  176. é antiprático e uma perda de tempo.
  177. Mas, se você deixar o feijão
    de molho da noite pro dia,
  178. acorda de manhã, em 20 minutos você tem
    o feijão pronto na panela de pressão.
  179. Ou você pode simplesmente
    pegar um dia, fazer o feijão,
  180. e deixar congelado pro resto da semana.
  181. Juntando com arroz fresquinho
    que você faz em 20 ou 30 minutos,
  182. e mais os legumes que você já deixou
    cortados e lavados na geladeira
  183. quando você chegou da feira,
    em meia hora você tem a refeição pronta.
  184. Esse seria talvez o mesmo tempo
    que levaria para esperar a pizza chegar,
  185. esperar o "delivery" de pizza.
  186. Então, eu acredito que a gente deve mudar
  187. a maneira como a gente enxerga a cozinha,
  188. como a gente enxerga o ato de cozinhar.
  189. Todo mundo pode e deve cozinhar.
  190. Homem, mulher, menino,
    menina, criança, adulto, idoso.
  191. Não tem idade, não tem sexo
    e não tem gênero.
  192. Todo mundo pode cozinhar.
    Todo mundo deve cozinhar.
  193. Mudando a educação,
    a gente ensinando as crianças,
  194. levando as crianças à feira pra escolher
    o legume que vai ter pro jantar,
  195. botando as crianças pra descascar
    uma batata, lavar a louça,
  196. coisas simples do dia a dia,
  197. a gente pode construir um futuro melhor.
  198. Essas crianças vão crescer
    com uma visão holística de mundo.
  199. Elas vão saber de onde vem a comida,
  200. que muita gente acha que vem
    da prateleira do supermercado.
  201. As crianças vão crescer independentes
    da indústria alimentícia,
  202. porque elas vão saber cozinhar.
  203. Elas vão crescer independentes
    da indústria farmacêutica,
  204. porque elas vão ficar muito menos doentes,
  205. crescendo e comendo uma comida
    caseira, uma comida saudável.
  206. Eu acredito que a gente tem que mudar
    a dinâmica da alimentação.
  207. A gente tem que mudar
  208. a valorização que a gente
    tem com a comida.
  209. A gente tem que valorizar mais a comida,
    valorizar o ato de comer e de cozinhar.
  210. Educação não é só falar
    "por favor", "obrigado" e "dá licença".
  211. Educação não significa
  212. entender que hospital
    é sinônimo de saúde.
  213. Eu acho que ter uma qualidade de vida,
    um estilo de vida saudável
  214. e uma alimentação saudável
    pra que a gente tenha menos hospitais,
  215. isso sim é educação.
  216. É educação e prevenção.
  217. Então, o futuro da comida
  218. vai decidir o futuro da humanidade.
  219. Cozinhar e escolher bem os alimentos
  220. são escolhas que a gente pode fazer
    pra mudar o mundo pra melhor.
  221. Obrigada.
  222. (Aplausos)