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← O impacto psicológico de separar crianças na fronteira entre EUA e México

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Showing Revision 13 created 11/16/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Há mais de 40 anos
    que sou assistente social
  2. e psicólogo de desenvolvimento.
  3. Parece-me quase natural
    ter ido para profissões de ajuda.
  4. Os meus pais ensinaram-me
    a fazer o bem aos outros.
  5. Assim, dediquei a minha carreira
  6. a trabalhar com famílias em algumas
    das mais duras circunstâncias:
  7. a pobreza, a doença mental,
  8. a imigração, os refugiados.
  9. Durante todos esses anos, eu tenho
    trabalhado com esperança e otimismo.
  10. Contudo, nos últimos cinco anos,

  11. a minha esperança e o meu otimismo
    foram colocados à prova.
  12. Fiquei profundamente desapontado
    com a forma com o governo dos EUA
  13. está a tratar famílias que estão
    a chegar à nossa fronteira do Sul,
  14. a solicitar asilo
  15. — pais desesperados com crianças,
  16. vindos de El Salvador,
    da Guatemala e das Honduras
  17. que apenas querem trazer os seus filhos
    para um lugar protegido e seguro.
  18. Estão a fugir de algumas
    das piores violências no mundo.
  19. Foram atacados por gangues,
  20. por assaltos, violações,
    extorsão, ameaças,
  21. Enfrentaram a morte.
  22. Não podem recorrer à polícia
    porque a polícia é cúmplice,
  23. corrupta, ineficiente.
  24. Então, eles chegam à nossa fronteira,
  25. e nós colocamo-los
    em centros de detenção,
  26. em prisões, como se eles
    fossem criminosos comuns.
  27. Em 2014, eu conheci algumas
    das primeiras crianças

  28. em centros de detenção.
  29. E chorei.
  30. Sentei-me no meu carro
    depois de tudo e chorei.
  31. Eu estava a ver o pior
    do sofrimento que já tinha visto,
  32. que era contra tudo
    o que eu acreditava no meu país,
  33. contra o estado de direito
  34. e contra tudo o que os meus pais
    me haviam ensinado.
  35. A forma como os EUA
    tem lidado com os imigrantes

  36. que procuram asilo no nosso país
    nos últimos cinco anos
  37. é errado, simplesmente errado.
  38. Esta noite, quero dizer que as crianças
    em detenção de imigração.
  39. estão a ser traumatizadas.
  40. E somos nós que estamos
    a causar esses traumas.
  41. Nós, nos Estados Unidos da América
  42. — os que estamos aqui esta noite —
  43. não estaremos todo de acordo
    em relação à imigração.
  44. Discordaremos em como
    vamos lidar com todas essas pessoas
  45. que querem vir para o nosso país.
  46. Francamente, não me interessa
    se são Republicanos ou Democratas
  47. liberais ou conservadores.
  48. Eu quero fronteiras seguras.
  49. Também quero manter de fora
    as pessoas ruins.
  50. Quero segurança nacional.
  51. E claro, vocês também terão
    as vossas ideias sobre estes tópicos.
  52. Mas acho que podemos concordar
  53. que os EUA não deviam
    estar a causar danos.
  54. O governo, o estado,
    não devia estar a magoar crianças,
  55. devia estar a protegê-las,
  56. quaisquer que sejam essas crianças:
  57. os vossos filhos, os meus netos
  58. e as crianças de famílias que
    estão apenas a procurar asilo.
  59. Eu podia contar-vos
    história atrás de história

  60. de crianças que assistiram
    a algumas das piores violências do mundo
  61. e agora estão detidas.
  62. Mas há dois rapazinhos que não saem
    da minha cabeça nos últimos cinco anos.
  63. Um deles é o Danny.
  64. Danny tinha sete anos e meio quando
    eu o conheci no centro de detenção
  65. na cidade de Karnes, Texas, em 2014.
  66. Estava ali com a mãe e o irmão.
  67. Tinham fugido das Honduras.
  68. Danny é um desses miúdos
    que amamos instantaneamente.
  69. É engraçado, é inocente,
  70. é encantador e muito expressivo.
  71. Estava a fazer desenhos para mim,
  72. e um dos quadros que desenhou
    para mim foram os Revos Locos.
  73. Os Revos Locos: este é o nome
  74. que eles deram ao gangue
    na cidade onde ele morava.
  75. Eu disse ao Danny:
  76. "Danny, porque é que eles são maus?"
  77. Danny olhou para mim com perplexidade.
  78. Quero dizer, o olhar era mais como:
  79. "Tu és ignorante ou és só estúpido?"
  80. (Risos)

  81. Ele inclinou-se e suspirou:

  82. "Não vês?
  83. "Eles fumam cigarros."
  84. (Risos)

  85. "E bebem cerveja."

  86. Danny tinha aprendido, claro,
    os males de beber e fumar.
  87. Depois disse:
    "E têm armas."
  88. Num dos desenhos,
  89. os bonecos desenhados dos Revos Locos
    estão a atirar a pássaros e a pessoas.
  90. Danny contou-me o dia em que o tio dele
    foi morto por um daqueles Revos Locos
  91. e como ele correu da casa dele
    para a quinta do tio,
  92. apenas para ver o cadáver do tio,
  93. com o rosto desfigurado pelas balas.
  94. Danny contou-me que viu os dentes
    do tio a sair por detrás da cabeça.
  95. Tinha só seis anos nessa altura.
  96. Algum tempo depois disso,
  97. um daqueles Revos Locos espancou
    o pequeno Danny gravemente
  98. e foi aí que os pais dele disseram:
  99. "Temos de fugir senão eles matam-nos."
  100. Então, organizaram tudo.

  101. Mas o pai de Danny era amputado
    de uma perna e usava uma muleta,
  102. e não podia caminhar
    por terreno acidentado.
  103. Então, ele disse à mulher:
  104. "Vai sem mim. Leva os rapazes.
  105. "Salva os nossos rapazes."
  106. Então, a mãe e os rapazes partiram.
  107. Danny contou que olhou para trás,
    disse adeus ao pai,
  108. olhou para trás algumas vezes
    até perder o pai de vista.
  109. Na detenção, não tinha notícias do pai.
  110. E é bem provável que o pai dele
    tenha sido morto pelos Revos Locos,
  111. porque tentou fugir.
  112. Eu não consigo esquecer o Danny.
  113. O outro rapazinho chamava-se Fernando.

  114. Fernando estava
    no mesmo centro de detenção.
  115. Era aproximadamente
    da mesma idade do Danny.
  116. Fernando contou-me as 24 horas
    que passara em isolamento com a mãe
  117. no centro de detenção.
  118. Foi lá colocado porque a mãe
    tinha liderado uma greve da fome
  119. entre as mães no centro de detenção,
  120. e agora ela estava a sofrer
    a pressão dos guardas
  121. que a estavam a ameaçar e a ser
    muito abusivos com ela e com o Fernando.
  122. Enquanto o Fernando e eu conversávamos
    no pequeno escritório,
  123. a mãe dele entrou de rompante e disse:
  124. "Eles estão a ouvir-te!
    Estão a escutar-te."
  125. Pôs-se de gatas no chão
  126. e começou a espreitar por baixo da mesa,
    a apalpar por baixo das cadeiras.
  127. Verificou as tomadas elétricas
  128. os cantos da sala,
  129. o chão, os cantos do teto,
  130. o candeeiro, as saídas de ar, à procura
    de microfones e de câmaras escondidas.
  131. Eu observei o Fernando
    enquanto ele observava a mãe
  132. naquela espiral de estado de paranoia.
  133. Olhei-o nos olhos e vi um total terror.
  134. Afinal, quem tomaria
    conta dele, se ela não pudesse?
  135. Eram só os dois.
    Só se tinham um ao outro.
  136. Eu podia contar-vos
    história atrás de história,
  137. mas não esqueço o Fernando.
  138. E eu sei algo sobre o que
    este tipo de trauma, de "stress",
  139. de adversidade, faz às crianças.
  140. Vou ser clínico convosco por um momento,
  141. e vou ser o professor que sou.
  142. Sob um "stress" prolongado e intenso,

  143. traumas, dificuldades, adversidade,
    condições extremas,
  144. o cérebro em desenvolvimento
    é prejudicado,
  145. pura e simplesmente.
  146. As suas conexões e a sua arquitetura
    são danificadas.
  147. O sistema de resposta natural
    ao "stress" da criança é afetado.
  148. Os seus fatores protetores enfraquecem.
  149. As regiões do cérebro que estão
    associadas à cognição,
  150. às capacidades intelectuais,
  151. ao julgamento, à confiança,
    à autorregulação, à interação social
  152. são enfraquecidas,
    às vezes permanentemente.
  153. Isso prejudica o futuro da criança.
  154. Também sabemos que sob "stress",
  155. o sistema imunitário
    da criança é suprimido
  156. tornando-a suscetível a infeções.
  157. Doenças crónicas, como diabetes,
    asma, doenças cardiovasculares,
  158. acompanharão as crianças até à fase adulta
    e, possivelmente, encurtarão a vida delas.
  159. Problemas de doenças mentais
    estão ligadas ao colapso do corpo.

  160. Tenho visto crianças em detenção
  161. que têm pesadelos
    recorrentes e perturbadores,
  162. terrores noturnos,
  163. depressão e ansiedade,
  164. reações dissociativas,
  165. desespero, pensamentos suicidas
  166. e transtorno pós-traumático.
  167. Regridem no seu comportamento,
  168. como um rapaz de 11 anos
  169. que começou a urinar na cama
    depois de anos de continência.
  170. E uma rapariga de nove anos
    que estava a sucumbir à pressão
  171. e insistia para que a mãe a amamentasse.
  172. É isto que a detenção faz às crianças.
  173. Vocês podem perguntar:

  174. O que é que havemos de fazer?
  175. O que é que o nosso governo devia fazer?
  176. Eu sou apenas um profissional
    de saúde mental,
  177. Conheço bastante bem
    a saúde e o desenvolvimento das crianças.
  178. Mas tenho algumas ideias.
  179. Primeiro, precisamos de reformular
    as nossas práticas.

  180. Precisamos de substituir
    o medo e a hostilidade
  181. por segurança e compaixão.
  182. Precisamos de derrubar
    as paredes das prisões,
  183. o arame farpado, retirar as grades.
  184. Em vez de prisão ou prisões,
  185. devíamos criar, ordenadamente,
    centros de processamento de asilo,
  186. comunidades como acampamentos
  187. onde crianças e famílias
    possam viver juntas.
  188. Podemos usar velhos motéis,
    quartéis antigos de militares,
  189. reequipá-los para as crianças e os pais
    poderem viver como unidades familiares
  190. com alguma segurança e normalidade.
  191. em que as crianças possam correr.
  192. Nesses centros de processamento,
  193. pediatras, médicos de família,
  194. dentistas e enfermeiras,
  195. fariam triagens, examinariam,
  196. tratariam e vacinariam as crianças,
  197. criando registos que as acompanhassem
    aos seus futuros médicos.
  198. Assistentes sociais realizariam
    avaliações de saúde mental
  199. e proveriam o tratamento
    aos que precisassem.
  200. Esses assistentes sociais
    ligariam as famílias
  201. aos serviços de que viessem a precisar,
    em qualquer lugar para onde fossem.
  202. E professores estariam a ensinar
    e a avaliar as crianças
  203. e a documentar a sua aprendizagem,
  204. de modo que os professores
    nas suas futuras escolas
  205. pudessem continuar
    o ensino dessas crianças.
  206. Podemos fazer muito mais
    nos centros de processamento.
  207. Muito mais.
  208. Provavelmente, vocês estão a pensar:

  209. "Isso é uma utopia".
  210. Não posso culpar-vos.
  211. Mas deixem que vos diga
    que, no mundo inteiro,
  212. há campos de refugiados
    que contêm famílias
  213. como as que temos
    nos nossos centros de detenção,
  214. e alguns desses campos de refugiados
    estão a funcionar bem,
  215. muito melhor do que os nossos.
  216. Os EUA têm emitido relatórios
    a descrever campos de refugiados
  217. que protegem a saúde
    e o desenvolvimento das crianças.
  218. As crianças e os pais
    vivem em unidades familiares
  219. e os agregados familiares
    são alojados juntos.
  220. Os pais recebem permissão para trabalhar
    e assim podem ganhar dinheiro,
  221. recebem vales para ir às lojas locais
    e comprar comida.
  222. As mães agrupam-se para cozinhar
    refeições saudáveis para as crianças,
  223. e as crianças vão para a escola
    todos os dias e são ensinadas.
  224. Depois da escola, vão para casa
    e andam de bicicleta,
  225. passam tempo com os amigos,
    fazem os trabalhos de casa
  226. e exploram o mundo
  227. — todas as coisas essenciais
    para o desenvolvimento das crianças.
  228. Nós podemos fazer o que está certo.
    Temos os recursos para o fazer.
  229. Do que nós precisamos é a vontade
    e a insistência dos americanos
  230. para tratarmos as crianças humanamente.
  231. Eu não consigo esquecer
    o Danny e o Fernando.

  232. Pergunto-me onde eles estarão hoje,
  233. e rezo para que eles estejam
    saudáveis e felizes.
  234. Eles são só duas das muitas
    crianças que conheci
  235. e dos milhares que sabemos
    que estão em detenção.
  236. Posso estar entristecido
  237. por causa do que está
    a acontecer com as crianças,
  238. mas sou inspirado por elas,
  239. Posso chorar, como chorei,
  240. mas admiro a força daquelas crianças.
  241. Elas mantêm viva a minha esperança
    e o meu otimismo no meu trabalho.
  242. Mesmo que discordemos
    quanto à abordagem à imigração,

  243. devíamos estar a tratar as crianças
    com dignidade e respeito.
  244. Devíamos fazer
    o que está certo por causa delas.
  245. Se o fizermos,
  246. podemos preparar as crianças
    que permanecerem nos EUA,
  247. para se tornarem produtivas,
    membros empenhados na nossa sociedade.
  248. E aquelas que regressarem ao seu país,
    voluntariamente ou não,
  249. estarão preparadas para se tornarem
    professores, comerciantes, líderes
  250. nos seus países.
  251. Eu espero que, em conjunto,
    todas essas crianças e pais
  252. possam dar testemunho ao mundo
    sobre a bondade do nosso país.
  253. e dos nossos valores.
  254. Mas temos de fazer o que está certo.
  255. Podemos concordar
    em discordar sobre a imigração,

  256. mas espero que concordemos numa coisa:
  257. que nenhum de nós quer olhar
    para este momento da nossa história,
  258. quando soubemos que infligimos traumas,
    para a vida toda, nestas crianças,
  259. e que nos sentámos e não fizemos nada.
  260. Esta seria a maior tragédia de todas.
  261. Obrigado.

  262. (Aplausos)