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← O impacto psicológico da separação de crianças na fronteira Estados Unidos-México

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Showing Revision 21 created 10/21/2019 by Elena Crescia.

  1. Por mais de 40 anos, fui assistente social
    e psicólogo do desenvolvimento.
  2. Parecia quase natural para mim
    ingressar nas profissões de ajuda.
  3. Meus pais haviam me ensinado
    a fazer o bem aos outros.
  4. Por isso, dediquei minha carreira
  5. a trabalhar com famílias em algumas
    das circunstâncias mais difíceis:
  6. pobreza, doença mental,
  7. imigração, refugiados.
  8. Por todos esses anos,
    trabalhei com esperança e otimismo.
  9. Nos últimos cinco anos, porém,

  10. minha esperança e meu otimismo
    foram postos à prova.
  11. Fiquei profundamente decepcionado
  12. com a maneira como
    o governo dos Estados Unidos
  13. está tratando as famílias
    que chegam à nossa fronteira do sul
  14. para solicitar asilo,
  15. pais desesperados com filhos,
    de El Salvador, Guatemala e Honduras,
  16. que só querem dar a eles
    segurança e proteção.
  17. Estão fugindo de algumas
    das piores violências do mundo.
  18. Foram atacadas por gangues,
  19. agredidas, estupradas,
    extorquidas, ameaçadas.
  20. Enfrentaram a morte.
  21. E não podem recorrer à polícia
    porque ela é cúmplice, corrupta, ineficaz.
  22. Então, elas chegam à nossa fronteira,
  23. e nós as colocamos em centros de detenção,
  24. prisões, como se fossem criminosos comuns.
  25. Em 2014, conheci algumas das primeiras
    crianças nos centros de detenção.

  26. E chorei.
  27. Sentei depois no meu carro e chorei.
  28. Eu estava vendo alguns dos piores
    sofrimentos que já pude presenciar,
  29. e ia contra tudo
    o que eu acreditava em meu país,
  30. o império da lei
  31. e tudo o que meus pais
    haviam me ensinado.
  32. O modo como os Estados Unidos
    vêm tratando os imigrantes

  33. que buscam asilo em nosso país
    nos últimos cinco anos
  34. é errado, simplesmente errado.
  35. Hoje quero dizer que as crianças
    em detenção de imigração
  36. estão sendo traumatizadas.
  37. E nós estamos causando esse trauma.
  38. Nós, nos Estados Unidos,
  39. na verdade, nós aqui esta noite,
  40. não estaremos necessariamente
    na mesma página em relação à imigração.
  41. Discordaremos sobre como trataremos
  42. todas as pessoas que querem
    vir ao nosso país.
  43. Sinceramente, não me importa
    se você é republicano ou democrata,
  44. liberal ou conservador.
  45. Quero fronteiras seguras.
  46. Também quero manter
    as pessoas ruins no lado de fora.
  47. Quero segurança nacional.
  48. É claro que vocês também terão
    suas ideias sobre esses assuntos.
  49. Mas acho que podemos concordar
  50. que os Estados Unidos
    não deveriam estar fazendo mal.
  51. O governo, o Estado, não deveria
    estar no negócio de ferir crianças.
  52. Deveria protegê-las,
  53. não importa de quem sejam as crianças:
  54. seus filhos, meus netos
  55. e os filhos de famílias
    que apenas procuram asilo.
  56. Eu poderia lhes contar
    uma história após a outra

  57. de crianças que testemunharam
    algumas das piores violências do mundo
  58. e agora estão nos centros de detenção.
  59. Mas dois garotinhos ficaram comigo
    nos últimos cinco anos.
  60. Um deles era Danny.
  61. Danny tinha sete anos e meio
    quando o conheci em um centro de detenção
  62. em Karnes City, no Texas, em 2014.
  63. Ele estava lá com a mãe e o irmão,
    e eles haviam fugido de Honduras.
  64. Danny é uma dessas crianças
    pelas quais você se apaixona na hora.
  65. Ele é engraçado, inocente,
  66. encantador e muito expressivo.
  67. Ele desenhava para mim,
  68. e um dos desenhos que ele fez
    foi dos Revos Locos.
  69. Os Revos Locos: esse é o nome
  70. que eles deram às gangues
    da cidade em que ele morava.
  71. Perguntei a Danny:
  72. "Danny, o que os torna bandidos?"
  73. Danny olhou perplexo para mim.
  74. O olhar dele era mais do tipo:
  75. "Você é desinformado ou só idiota?"
  76. (Risos)

  77. Ele se inclinou e sussurrou:

  78. "Você não vê?
  79. Eles fumam cigarros".
  80. (Risos)

  81. "E bebem cerveja."

  82. Danny tinha aprendido, é claro,
    sobre os males de beber e fumar.
  83. Então, ele disse: "E eles carregam armas".
  84. Em um dos desenhos,
  85. as figuras dos Revos Locos
    estão atirando em pássaros e pessoas.
  86. Danny me contou sobre o dia
    em que o tio foi morto pelos Revos Locos
  87. e como ele fugiu de casa
    para a casa de fazenda do tio,
  88. só para ver o corpo dele
  89. e o rosto desfigurado por balas.
  90. Danny me disse que viu os dentes do tio
    saindo pela parte de trás da cabeça.
  91. Ele só tinha seis anos na época.
  92. Algum tempo depois,
  93. um daqueles Revos Locos
    espancou o pequeno Danny gravemente,
  94. e foi quando os pais dele disseram:
  95. "Temos que partir,
    ou eles irão nos matar".
  96. Eles partiram.

  97. Mas o pai de Danny era amputado
    de uma perna com uma muleta
  98. e não conseguia andar
    no terreno acidentado.
  99. Então, ele disse à esposa:
  100. "Vá sem mim.
  101. Leve nossos meninos.
  102. Salve nossos meninos".
  103. A mãe e os meninos partiram.
  104. Danny me disse que olhou para trás,
    disse adeus ao pai,
  105. olhou para trás algumas vezes
    até que perdeu o pai de vista.
  106. Na detenção, ele não tinha
    notícias do pai.
  107. É muito provável que o pai
    tenha sido morto pelos Revos Locos,
  108. porque ele havia tentado fugir.
  109. Não consigo me esquecer de Danny.
  110. O outro garoto era Fernando.

  111. Fernando estava
    no mesmo centro de detenção,
  112. mais ou menos da mesma idade que Danny.
  113. Fernando me contou sobre as 24 horas
    que passou isolado com a mãe
  114. no centro de detenção,
  115. colocado lá porque a mãe dele
    havia liderado uma greve de fome
  116. entre as mães no centro de detenção,
  117. e agora sofria um colapso nervoso
    sob a pressão dos guardas,
  118. que ameaçavam e eram muito agressivos
    com ela e com Fernando.
  119. Enquanto Fernando e eu
    conversávamos no pequeno escritório,
  120. a mãe dele entrou arrebatadamente
  121. e disse: "Eles te ouvem!
    Estão te ouvindo".
  122. E caiu de mãos e joelhos
  123. e começou a olhar embaixo da mesa,
    tateando sob todas as cadeiras.
  124. Examinou as tomadas elétricas,
  125. o canto da sala,
  126. o chão, o canto do teto,
  127. o abajur, a entrada de ar,
  128. procurando microfones
    e câmeras escondidos.
  129. Observei Fernando
  130. enquanto ele observava a mãe
    entrar num estado paranoico.
  131. Olhei nos olhos dele e vi absoluto terror.
  132. Afinal, quem cuidaria dele
    se ela não pudesse?
  133. Eram apenas os dois.
  134. Eles só tinham um ao outro.
  135. Eu poderia contar uma história após outra,
  136. mas não me esqueci de Fernando.
  137. Sei o que esse tipo de trauma,
  138. estresse e adversidade causa às crianças.
  139. Serei objetivo com vocês por um momento
  140. e serei o professor que sou.
  141. Sob estresse prolongado e intenso,

  142. trauma, privação, adversidade,
    condições cruéis,
  143. o cérebro em desenvolvimento
    é prejudicado,
  144. simplesmente.
  145. Os neurônios e a estrutura dele
    são prejudicados.
  146. O sistema natural da criança
    de resposta ao estresse é afetado.
  147. É enfraquecido pelos fatores
    de proteção dele.
  148. As regiões do cérebro
    associadas à cognição,
  149. capacidades intelectuais,
  150. julgamento, confiança,
    autorregulação, interação social
  151. são enfraquecidas,
    às vezes, de modo permanente.
  152. Isso prejudica o futuro das crianças.
  153. Também sabemos que, sob estresse,
  154. o sistema imunológico
    da criança enfraquece,
  155. tornando-a suscetível a infecções.
  156. Doenças crônicas, como diabetes,
    asma e doenças cardiovasculares
  157. irão acompanhar essas crianças
    até a idade adulta
  158. e é provável que encurtem a vida delas.
  159. Problemas de saúde mental
    estão associados ao esgotamento do corpo.

  160. Vi crianças no centro de detenção
  161. que têm pesadelos recorrentes
    e perturbadores,
  162. noites de terror,
  163. depressão e ansiedade,
  164. reações dissociativas,
  165. falta de esperança, pensamentos suicidas
  166. e transtornos do estresse pós-traumático.
  167. Elas regridem no comportamento,
  168. como o menino de 11 anos
  169. que começou a molhar a cama de novo
    após anos de continência.
  170. E a menina de oito anos
    que cedia sob a pressão
  171. e insistia para que a mãe a amamentasse.
  172. Isso é o que a detenção faz às crianças.
  173. Agora, vocês devem se perguntar:

  174. "O que fazemos?
  175. O que nosso governo deveria fazer?"
  176. Bem, sou apenas um profissional
    de saúde mental.
  177. Tudo o que sei realmente
    é sobre saúde e desenvolvimento infantil.
  178. Mas tenho algumas ideias.
  179. Primeiro, precisamos
    reformular nossas práticas.

  180. Precisamos substituir
    o medo e a hostilidade
  181. por segurança e compaixão.
  182. Precisamos derrubar as paredes da prisão,
  183. o arame farpado, tirar as jaulas.
  184. Em vez de prisão... ou prisões,
  185. devemos criar centros ordenados
    de processamento de asilo,
  186. comunidades semelhantes a campi
  187. onde crianças e famílias
    possam viver juntas.
  188. Poderíamos pegar hotéis antigos,
    quartéis antigos do exército,
  189. reformá-los para que crianças e pais
    possam viver como unidades de família
  190. com alguma segurança e normalidade,
  191. onde as crianças possam brincar.
  192. Nesses centros de processamento,
  193. pediatras, médicos de família,
  194. dentistas e enfermeiros
  195. examinariam, tratariam
    e imunizariam crianças,
  196. criariam registros que as acompanhariam
    ao próximo prestador de serviços médicos.
  197. Assistentes sociais realizariam
    avaliações de saúde mental
  198. e forneceriam tratamento
    para aqueles que precisam.
  199. Esses assistentes sociais
    relacionariam famílias
  200. a serviços de que necessitem,
    seja para onde forem.
  201. E professores ensinariam
    e avaliaram crianças
  202. e documentariam
    o aprendizado dessas crianças
  203. para que os professores da escola seguinte
    possam continuar a educação delas.
  204. Há muito mais que poderíamos fazer
    nesses centros de processamento.
  205. Muito mais.
  206. E vocês devem estar pensando:

  207. isso é pura fantasia.
  208. Não posso culpá-los.
  209. Deixem-me dizer que campos de refugiados
    em todo o mundo mantêm famílias
  210. como as de nossos centros de detenção,
  211. e alguns desses campos de refugiados
    estão fazendo do jeito certo,
  212. bem melhor do que nós.
  213. As Nações Unidas publicaram relatórios
    que descrevem campos de refugiados
  214. que protegem a saúde
    e o desenvolvimento infantil.
  215. As crianças e os pais
    vivem em unidades de família,
  216. e grupos de famílias são alojados juntos.
  217. Os pais têm permissão
    para trabalhar e ganhar dinheiro,
  218. recebem vale-alimentação
    para poderem ir às lojas e fazer compras.
  219. As mães são reunidas para cozinhar
    refeições saudáveis para os filhos,
  220. e as crianças vão à escola
    todos os dias e recebem educação.
  221. Depois da escola, elas vão para casa
    e andam de bicicleta,
  222. saem com os amigos,
  223. fazem a lição de casa e exploram o mundo,
  224. todos os elementos essenciais
    para o desenvolvimento infantil.
  225. Nós podemos fazer direito;
    temos os recursos para isso.
  226. Precisamos da vontade e da insistência
    dos norte-americanos
  227. de tratarmos as crianças de modo humano.
  228. Não consigo me esquecer
    de Danny ou Fernando.

  229. Eu me pergunto onde eles estão hoje
  230. e rezo para que estejam
    saudáveis e felizes.
  231. São só duas das muitas
    crianças que conheci
  232. e das milhares que conhecemos
    que estiveram em centros de detenção.
  233. Posso ficar triste
  234. com o que aconteceu com as crianças,
  235. mas sou inspirado por elas.
  236. Posso chorar, como chorei,
  237. mas admiro a força dessas crianças.
  238. Elas mantêm viva minha esperança
    e meu otimismo no trabalho que faço.
  239. Embora possamos discordar
    de nossa abordagem sobre a imigração,

  240. devemos tratar as crianças
    com dignidade e respeito.
  241. Devemos fazer o certo por elas.
  242. Se fizermos,
  243. podemos preparar essas crianças
    que permanecem nos Estados Unidos
  244. para se tornarem membros produtivos
    e engajados de nossa sociedade.
  245. E aquelas que voltarem ao país de origem,
    de modo voluntário ou não,
  246. estarão preparadas para se tornarem
    os professores, comerciantes e líderes
  247. no país delas.
  248. E espero que juntos,
    todas essas crianças e pais,
  249. possam testemunhar ao mundo
    sobre a bondade de nosso país
  250. e nossos valores.
  251. Mas temos que fazer direito.
  252. Podemos concordar
    em discordar sobre a imigração,

  253. mas espero que possamos
    concordar com uma coisa:
  254. que nenhum de nós quer olhar para trás
    neste momento de nossa história,
  255. quando soubemos que infligimos um trauma
    para a vida toda dessas crianças
  256. e que nos sentamos e não fizemos nada.
  257. Essa seria a maior tragédia de todas.
  258. Obrigado.

  259. (Aplausos)