YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese, Brazilian subtitles

← Como melhorar a saúde materna - antes, durante e depois da gravidez

Get Embed Code
29 Languages

Showing Revision 43 created 07/29/2019 by Raissa Mendes.

  1. Estava um caos quando saí do elevador.
  2. Eu era uma médica residente
    voltando ao serviço
  3. para dar cobertura à unidade de parto.
  4. E eu só conseguia ver um enxame
    de médicos e enfermeiras
  5. em cima de uma paciente na sala de parto.
  6. Eles estavam em desespero
    tentando salvar a vida dela.
  7. A paciente estava em choque.
  8. Ela deu à luz um menino saudável,
    horas antes de eu chegar.
  9. Então, ela desmaiou, ficou inconsciente
  10. e teve um sangramento uterino intenso.
  11. Quando cheguei ao quarto,
  12. havia vários médicos e enfermeiras,
    e a paciente estava sem vida.
  13. A equipe de ressuscitação
    estava tentando reanimá-la,
  14. mas, apesar do esforço
    de todo mundo, ela havia morrido.
  15. O que eu mais me lembro desse dia
    foi do choro cortante do pai.
  16. Ele penetrou o meu coração
    e o de todo mundo naquele andar.
  17. Era para ser o momento
    mais feliz da vida dele,
  18. mas se transformou no seu pior dia.
  19. Eu gostaria de dizer
    que se trata de um caso isolado,

  20. mas, infelizmente, não é.
  21. Todo ano, nos Estados Unidos,
  22. cerca de 700 a 900 mulheres morrem
  23. de causas relacionadas à gravidez.
  24. A parte chocante da história
  25. é que a nossa taxa de mortalidade materna
    é a mais alta de todos os países ricos,
  26. e ela é ainda pior
    para as mulheres negras.
  27. Nossa taxa de mortalidade materna
    aumentou durante a última década,
  28. enquanto a de outros países diminuiu.
  29. E o maior paradoxo de todos?
  30. Gastamos mais em saúde
    do que qualquer outro país.
  31. Por volta do mesmo período
    em que aquela mãe perdeu sua vida,

  32. eu me tornei uma.
  33. E, apesar de todo meu histórico
    e treinamento na área,
  34. fiquei espantada como pouca atenção é dada
  35. à qualidade da saúde materna no parto.
  36. E eu pensei no que isso significaria,
    não apenas para mim,
  37. mas para tantas outras mulheres.
  38. Talvez seja porque o meu pai era
    um advogado de direitos civis,
  39. e meus pais eram socialmente conscientes
  40. e exigiam que defendêssemos
    nossas crenças.
  41. Ou o fato de os meus pais
    terem nascido na Jamaica,
  42. vindo para os Estados Unidos
  43. e realizado o sonho norte-americano.
  44. Ou talvez por causa da residência médica,
  45. onde vi por experiência própria
  46. como tantas mulheres negras de baixa renda
    são maltratadas pelo sistema de saúde.
  47. Qualquer que seja o motivo,
    senti a responsabilidade de defender,
  48. não apenas por mim,
  49. mas por todas as mulheres,
  50. especialmente por todas que são
    marginalizadas pelo sistema de saúde.
  51. E decidi focar a minha carreira
    em melhorar o cuidado com a saúde materna.
  52. Mas o que está matando as mães?

  53. Doenças cardiovasculares, hemorragia,
  54. pressão alta, que causa
    convulsões e derrames,
  55. coágulos sanguíneos e infecção
  56. são algumas das maiores causas
    da mortalidade materna neste país.
  57. Mas a morte de uma mãe
    é só a ponta do iceberg.
  58. Para cada morte, mais de 100 mulheres
    sofrem uma complicação grave
  59. relacionada à gravidez ou ao parto,
  60. resultando em mais de 60 mil mulheres,
    todos os anos, tendo um desses casos.
  61. Essas complicações, conhecidas
    como morbidade materna grave,
  62. estão em ascensão nos Estados Unidos,
    e elas mudam a vida da pessoa.
  63. Estima-se que entre 1,5% e 2%
  64. dos 4 milhões de partos
    realizados anualmente neste país
  65. estão associados a um desses eventos.
  66. Isto são cinco ou seis mulheres por hora
  67. tendo um coágulo sanguíneo,
    uma convulsão, um derrame,
  68. recebendo uma transfusão de sangue,
  69. tendo algum dano num órgão-alvo,
    como insuficiência renal,
  70. ou algum outro evento trágico.
  71. Agora, a parte imperdoável da história

  72. é o fato de que 60% das mortes
    e das complicações graves
  73. são consideradas evitáveis.
  74. Quando digo que 60% são evitáveis,
  75. quero dizer que há passos concretos
    e procedimentos padrões
  76. que poderiam ser implementados
  77. para evitar que maus resultados ocorram,
  78. e para que vidas sejam salvas.
  79. E isso não exige
    nenhuma tecnologia sofisticada.
  80. Nós só temos que aplicar o que sabemos
  81. e garantir padrões iguais nos hospitais.
  82. Por exemplo, se uma mulher em trabalho
    de parto está com pressão muito alta

  83. e a tratamos com a medicação
    anti-hipertensiva certa,
  84. em tempo hábil,
  85. podemos evitar um derrame.
  86. Se localizarmos com precisão
    a perda de sangue durante o parto,
  87. podemos detectar uma hemorragia
    mais cedo e salvar a vida de uma mulher.
  88. Poderíamos diminuir as taxas
    desses eventos catastróficos amanhã,
  89. mas isso exige que valorizemos
    a qualidade dos cuidados
  90. que damos à mulher grávida,
  91. antes, durante e depois da gravidez.
  92. Se elevarmos o nível da qualidade
    dos cuidados ao padrão esperado,
  93. poderemos diminuir as taxas
    das mortes e das complicações graves.
  94. Bem, pelo menos alguma notícia é boa.

  95. Há algumas histórias de sucesso.
  96. Certos lugares adotaram esses padrões,
    e isso está fazendo toda a diferença.
  97. Alguns anos atrás, o Colégio Americano
    de Obstetras e Ginecologistas
  98. somou forças com outras
    organizações de saúde,
  99. pesquisadores como eu
    e organizações comunitárias.
  100. Eles queriam implementar
    práticas de cuidado padronizadas
  101. em hospitais e sistemas de saúde do país.
  102. E o veículo que eles usam
    é um programa chamado
  103. Alliance for Innovation
    in Maternal Health, o programa AIM.
  104. O objetivo é diminuir a taxa
    de mortalidade e morbidade materna
  105. através de iniciativas de segurança
    e qualidade pelo país.
  106. O grupo desenvolveu medidas de segurança
  107. que têm como alvo as causas
    mais evitáveis da morte materna.
  108. O programa AIM tem atualmente
    o potencial de atingir
  109. mais de 50% dos nascimentos nos EUA.
  110. E quais são essas medidas de segurança?

  111. Práticas conhecidas,
    protocolos, procedimentos,
  112. medicações, equipamento
  113. e outros itens que visam essas condições.
  114. Vejamos as medidas de segurança
    em caso de hemorragia.
  115. Para uma hemorragia, um carrinho precisa
    ter tudo que um médico ou uma enfermeira
  116. possa precisar em uma emergência:
  117. sistema de administração IV,
    máscara de oxigênio, medicamentos,
  118. listas de verificação
    e outros equipamentos.
  119. Para medir a hemorragia:
  120. esponjas e gazes.
  121. E, em vez de apenas medir no olho,
  122. os médicos e as enfermeiras
    coletam as esponjas e gazes
  123. e pesam cada uma delas,
  124. ou usam tecnologia mais recente
    para medir a quantidade perdida de sangue.
  125. Essa medida de segurança
    também inclui protocolos de crise
  126. para tratar a hemorragia
    e treinamentos regulares.
  127. A Califórnia é líder no uso
    desses tipos de medidas

  128. e é por isso que aquele estado
    teve uma redução de 21%
  129. em quase morte por hemorragia
  130. já no primeiro ano
    da implementação em hospitais.
  131. No entanto, o uso dessas medidas
    pelo país ainda é inconsistente.
  132. Assim como as práticas conhecidas
  133. e o ênfase em segurança
  134. diferem de um hospital para outro,
  135. a qualidade também difere.
  136. E difere também para as mulheres
    negras nos Estados Unidos.

  137. A mulher negra que dá à luz neste país
  138. tem de 3 a 4 vezes mais chance de morrer
    de causas relacionadas à gravidez
  139. do que uma mulher branca.
  140. Essa estatística inclui todas as mulheres
    negras grávidas nos EUA,
  141. sejam nascidas aqui
  142. ou em outro país.
  143. Muitos acreditam que a renda
    provoca essas diferenças,
  144. mas isso vai além da posição social.
  145. Uma mulher negra com ensino superior
  146. tem quase o dobro de chance de morrer
  147. comparada a uma mulher branca
    com o ensino médio incompleto.
  148. E ela tem de duas a três vezes mais chance
    de sofrer uma complicação grave
  149. durante o parto.
  150. Sempre ensinei a pensar
    que a educação é a salvação,

  151. mas, nesse caso, não é verdade.
  152. A desigualdade entre negros e brancos
  153. é a maior entre toda a população
    em termos de cuidado perinatal
  154. segundo o CDC.
  155. E essa desigualdade se intensifica
  156. em algumas das nossas cidades.
  157. Por exemplo, em Nova York,
  158. uma mulher negra tem de 8 a 12 vezes
    mais chances de morrer
  159. de causas relacionadas à gravidez
    do que uma mulher branca.
  160. Acho que muitos de vocês conhecem

  161. a história comovente
    da Dra. Shalon Irving,
  162. uma epidemiologista
    que morreu após o parto.
  163. A história dela foi noticiada
    pela ProPublica e NPR
  164. há menos de um ano atrás.
  165. Recentemente fui a um congresso
  166. e tive o privilégio
    de ouvir a mãe dela falar.
  167. Ela fez todo mundo chorar.
  168. Shalon era uma epidemiologista brilhante,
  169. comprometida com estudar
    a desigualdade racial e étnica na saúde.
  170. Ela tinha 36 anos, era o seu primeiro bebê
  171. e ela era afro-americana.
  172. Shalon teve uma gravidez complicada,

  173. mas ela deu à luz uma menina
    saudável e recebeu alta do hospital.
  174. Três semanas depois, ela morreu
    de complicações causadas por pressão alta.
  175. Shalon se consultou quatro ou cinco vezes
    com profissionais de saúde
  176. naquelas três semanas.
  177. Ela não foi ouvida,
  178. e a gravidade da sua condição
    não foi reconhecida.
  179. A história da Shalon é uma de muitas

  180. sobre a desigualdade
    social e étnica na saúde
  181. nos Estados Unidos,
  182. e há um crescente reconhecimento
    de que os determinantes sociais
  183. como racismo, pobreza,
    educação e segregação
  184. contribuem para essas desigualdades.
  185. Mas a história da Shalon sublinha
    uma causa subjacente adicional:
  186. a qualidade dos cuidados.
  187. A falta de padronização
    no cuidado pós-parto.
  188. Shalon foi vista diversas vezes
    por clínicos naquelas três semanas,
  189. e, mesmo assim, ela morreu.
  190. A qualidade dos cuidados durante o parto
  191. é uma das causas subjacentes
    da desigualdade social e étnica
  192. da mortalidade materna
    e da morbidade materna grave
  193. nos Estados Unidos,
  194. e é algo que podemos combater agora.
  195. Pesquisas do nosso time e de outros

  196. comprovou que, por várias razões,
  197. mulheres negras tendem a fazer
    o parto em hospitais específicos
  198. que muitas vezes têm os piores resultados
    para ambas as mulheres negras e brancas,
  199. independentemente dos fatores de riscos.
  200. Isso é verdade para todo
    os Estados Unidos,
  201. onde cerca de três quartos
    das mulheres negras
  202. fazem o parto em hospitais específicos,
  203. enquanto menos de um quinto das mulheres
    brancas fazem o parto nesses hospitais.
  204. Em Nova York, o risco de uma mulher
    ter uma complicação potencialmente fatal
  205. durante o parto pode ser seis vezes
    maior num hospital do que em outro.
  206. Nenhuma surpresa, mas mulheres negras
    tendem a fazer o parto
  207. em hospitais com resultados piores.
  208. Na verdade, essas diferenças explicam
  209. quase metade da desigualdade
    entre negros e brancos.
  210. Temos que combater
    os determinantes sociais da saúde

  211. se quisermos um sistema de saúde
    igualitário neste país,
  212. muitos dos quais estão enraizados demais
    para serem solucionados facilmente.
  213. Enquanto isso, podemos lidar
    com a qualidade dos cuidados.
  214. Fornecer alta qualidade
    de cuidados continuamente
  215. significa fornecer acesso
    à contracepção segura e confiável
  216. ao longo da vida reprodutiva da mulher.
  217. Antes da gravidez, significa
    fornecer cuidados de preconcepção,
  218. para que possamos controlar doenças
    crônicas e otimizar a saúde.
  219. Durante a gravidez, inclui pré-natal
    de qualidade e cuidados no parto,
  220. para que tenhamos mães e bebês saudáveis.
  221. E, depois da gravidez, inclui cuidados
    pós-parto e entre uma gravidez e outra,
  222. para que possamos preparar as mães
    para ter seu próximo bebê
  223. e uma vida saudável.
  224. E isso pode significar
    a diferença entre a vida e a morte,

  225. como no caso da Maria,
  226. que deu entrada no hospital
    após sinais de pressão de alta
  227. durante uma visita pré-natal.
  228. Maria tinha 40 anos,
    e era sua segunda gravidez.
  229. Durante a sua primeira gravidez,
    que tinha acontecido dois anos antes,
  230. ela também não tinha se sentido bem
    nas últimas semanas da gravidez,
  231. e ela teve sinais de pressão alta,
  232. mas ninguém prestou atenção nisso.
  233. Eles disseram: "Maria, você vai ficar bem.
  234. É a sua primeira gravidez.
  235. Você está um pouco nervosa".
  236. Mas não terminou nada bem para Maria.
  237. Ela teve uma convulsão durante o parto.
  238. Dessa vez, ela foi ouvida.

  239. Eles fizeram perguntas inteligentes.
  240. O médico a informou sobre os sinais
    e os sintomas da pré-eclâmpsia
  241. e explicou que, se ela não
    se sentisse bem, precisaria voltar.
  242. Dessa vez, Maria voltou,
  243. e o médico imediatamente
    a mandou para o hospital.
  244. No hospital, o médico pediu
    exames de laboratório urgentes.
  245. Eles a conectaram a diferentes monitores
  246. e deram atenção especial
    à sua pressão sanguínea,
  247. à frequência cardíaca fetal
  248. e lhe deram medicação intravenosa
    para prevenir convulsões.
  249. Quando a pressão sanguínea de Maria
    aumentou a ponto de ter um derrame,
  250. os médicos e as enfermeiras
    entraram em ação.
  251. Eles mediram sua pressão
    de novo em 15 minutos
  252. e declararam uma emergência hipertensiva.
  253. Eles lhe deram a medicação intravenosa
    de acordo com o último protocolo correto.
  254. Eles trabalharam juntos
    calmamente como uma equipe
  255. e conseguiram diminuir
    sua pressão sanguínea.
  256. Como resultado, o que poderia ser
    uma tragédia se tornou uma vitória.

  257. Os sintomas de Maria foram controlados,
  258. e ela deu à luz uma menina saudável.
  259. E, antes de receber alta do hospital,
  260. o médico lhe informou os sinais
    e os sintomas da pré-eclâmpsia,
  261. a importância de checar
    a pressão sanguínea,
  262. especialmente na primeira
    semana pós-parto,
  263. e a orientou sobre o que é
    normal na saúde pós-parto.
  264. E, nas semanas e nos meses seguintes,
  265. Maria visitou o pediatra regularmente
  266. para checar a saúde do seu bebê.
  267. Mas, tão importante quanto,
  268. ela visitou um médico especialista
  269. para checar sua saúde, sua pressão
  270. e suas preocupações como mãe.
  271. Isso é alta qualidade de cuidados
    oferecida continuamente,

  272. e é assim que ela pode ser.
  273. Se toda mulher grávida em cada comunidade
  274. recebesse esse tipo de cuidado
  275. e fizesse o parto em instalações
    com práticas de cuidado padronizadas,
  276. as taxas de mortalidade materna
    e morbidade materna grave despencariam.
  277. A nossa classificação internacional
    não seria mais uma vergonha.
  278. Mas a verdade é que há décadas
    temos taxas inaceitáveis

  279. de mortalidade materna e complicações
    potencialmente fatais durante o parto,
  280. consequências devastadoras
    para mães, bebês e famílias,
  281. e não tomamos uma atitude.
  282. A recente atenção da mídia
    ao nosso fraco desempenho

  283. ajudou o público a entender:
  284. a qualidade da saúde materna
    está ao nosso alcance.
  285. A pergunta é:
  286. como sociedade, estamos prontos
    para valorizar as grávidas
  287. de todas as comunidades?
  288. Da minha parte, estou fazendo tudo
    para garantir que, ao fazermos isso,

  289. tenhamos as ferramentas
    e a base de evidências prontas
  290. para seguirmos em frente.
  291. Obrigada.

  292. (Aplausos)