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← Porque é que a violência forma grupos nas cidades — e como reduzi-la

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Showing Revision 7 created 07/27/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Vocês são um cirurgião de traumas,
  2. que trabalham no turno da meia-noite,
    num serviço de urgências da cidade.
  3. Aparece-vos um jovem
  4. inconsciente numa maca.
  5. Levou um tiro na perna e está
    a sangrar abundantemente.
  6. A julgar pela ferida de entrada e saída,
  7. e pela quantidade da hemorragia,
  8. a bala provavelmente
    atingiu a artéria femoral
  9. um dos maiores vasos sanguíneos do corpo.
  10. Enquanto médico do jovem,
    o que é que devem fazer?
  11. Ou mais precisamente
    o que devem fazer primeiro?
  12. Vocês olham para a roupa do jovem
    e percebe que elas são velhas e usadas.

  13. Ele pode estar sem trabalho, sem casa,
  14. sem uma educação decente.
  15. Começam o tratamento
    arranjando-lhe um emprego,
  16. arranjando-lhe um apartamento
  17. ou ajudando-o a acabar
    o ensino obrigatório?
  18. Por outro lado,
  19. o jovem pode estar envolvido
    nalgum tipo de conflito
  20. e pode ser perigoso.
  21. Será que, antes de ele acordar,
  22. lhe colocam algemas,
  23. e avisam a segurança do hospital
    ou ligam para polícia?
  24. A maioria de nós não iria fazer
    nenhuma dessas coisas.
  25. Em vez disso, agiríamos do único modo
  26. sensato e humano possível
    naquele momento.
  27. Primeiro, faríamos parar a hemorragia.
  28. Porque, se a hemorragia não parasse,
  29. nada mais importaria.
  30. O que é verdade na sala de urgências,
    é verdade para as cidades de todo o país.

  31. Quando se trata de violência urbana,
    a prioridade é salvar vidas.
  32. Tratar essa violência com a mesma urgência
  33. com que trataríamos uma ferida de bala
    no serviço de urgências.
  34. Do que é que estamos a falar
    quando falamos em "violência urbana"?
  35. A violência urbana é a violência letal
    ou potencialmente letal
  36. que acontece nas ruas das nossas cidades.
  37. Usam-se muitos nomes:
  38. violência de rua, violência juvenil,
  39. violência de gangues, violência armada.
  40. A violência urbana acontece
  41. entre os mais desfavorecidos
    e destituídos de privilégios entre nós.
  42. Na maioria das vezes são jovens
  43. sem muitas opções ou esperança.
  44. Eu passei centenas
    de horas com esses jovens.

  45. Ensinei-os no ensino secundário
    em Washington, DC,
  46. onde um dos meus estudantes
    foi assassinado.
  47. Eu fiquei do lado deles,
    nas salas de audiência em Nova Iorque,
  48. onde trabalhava como promotor.
  49. E finalmente,
  50. fui de cidade em cidade, como formulador
    de políticas e como investigador,
  51. encontrando esses jovens
  52. e trocando ideias de como tornar
    o nosso país mais seguro.
  53. Porque é que devia importar-me
    com esses jovens?
  54. Porque é que é importante
    a violência urbana?
  55. A violência urbana é importante

  56. porque é a maior causa
    de mortes aqui nos EUA
  57. do que qualquer outra forma de violência.
  58. A violência urbana também é importante
  59. porque todos nós podemos
    fazer algo sobre ela
  60. Controlá-la não é o problema
    impossível, intratável
  61. que muitos acreditam que seja.
  62. Na verdade, existem hoje
    várias soluções possíveis
  63. que já deram provas de funcionarem.
  64. O que essas soluções têm em comum
    é um ingrediente chave.
  65. Todas elas reconhecem
    que a violência urbana é pegajosa,
  66. ou seja, ela forma grupos
  67. num número surpreendentemente
    pequeno de pessoas e lugares.
  68. Em Nova Orleães, por exemplo,

  69. uma rede de menos de 700 pessoas,
  70. é responsável pela maior parte
    da violência da cidade.
  71. Alguns chamam a esses indivíduos
    "pessoas quentes."
  72. Aqui em Boston,
  73. 70% dos tiroteios
  74. estão concentrados
    em quarteirões e esquinas
  75. que cobrem apenas 5% da cidade.
  76. Essas localizações são conhecidas
    por "lugares quentes".
  77. Em cidade após cidade,
  78. um pequeno número de pessoas
    quentes e lugares quentes
  79. representam a clara maioria
    da violência letal.
  80. De facto, esta conclusão
    repetiu-se tantas vezes
  81. que os investigadores
    chamam a esse fenómeno
  82. a lei de concentração do crime.
  83. Quando olhamos para a ciência,

  84. vemos que as soluções pegajosas
    funcionam melhor.
  85. Para ser sincero,
  86. não podemos parar com os tiroteios
    se não lidarmos com os atiradores.
  87. E não podemos parar com os assassínios
    se não formos onde eles estão a ocorrer.
  88. Há quatro anos,

  89. os meus colegas e eu
    realizámos uma revisão sistemática
  90. das estratégias anti violência,
  91. resumindo os resultados de mais de 1400
    avaliações de impacto individual.
  92. O que encontrámos, repetidamente,
  93. foi que as estratégias
    que foram mais focadas,
  94. mais direcionadas,
  95. as estratégias mais pegajosas,
  96. eram as de maior sucesso.
  97. Vimos que a criminologia
  98. nos estudos da polícia,
    da prevenção e reentrada de gangues.
  99. Mas também vimos o mesmo
    na saúde pública,
  100. onde o alvo terciário
    e a prevenção secundária
  101. tiveram um desempenho melhor
  102. do que a prevenção primária
    mais generalizada.
  103. Quando os políticos se concentram
    nas pessoas e nos lugares mais perigosos,
  104. conseguem melhores resultados.
  105. Vocês podem perguntar:
    "Então e a substituição e a deslocação?"

  106. A investigação mostra que,
    quando os traficantes estão presos,
  107. há novos traficantes
    que substituem os anteriores.
  108. Alguns consideram que, quando a polícia
    se concentra em certas localidades,
  109. o crime desloca-se,
  110. descendo a rua ou virando a esquina.
  111. Felizmente, sabemos que, por causa
    desse fenómeno pegajoso,
  112. são mínimos os efeitos
    de substituição e deslocação
  113. associados a estas estratégias difíceis.
  114. É precisa uma vida inteira de traumas
    para criar um atirador
  115. e décadas de desinvestimento
    para criar um lugar quente.
  116. Então, essas pessoas e esses lugares
    não se movem muito facilmente.
  117. E quanto à causa raiz?

  118. Não será acabar com a pobreza,
    com a desigualdade
  119. ou com a falta de oportunidade
  120. a melhor maneira de evitar a violência?
  121. Bom, de acordo com a ciência,
  122. sim e não.
  123. Sim, as altas taxas de violência
    estão claramente associadas
  124. a várias formas de desvantagem
    social e económica.
  125. Mas não, isso não muda os fatores
  126. e não muda necessariamente a violência.
  127. especificamente não a curto prazo.
  128. Pensem na pobreza, por exemplo.
  129. Um progresso significativo na pobreza
    levará décadas a alcançar,
  130. embora as pessoas pobres mereçam
    um descanso da violência já hoje.
  131. As causas de raiz
    também não podem explicar
  132. o fenómeno da viscosidade
  133. Se a pobreza levasse sempre à violência,
  134. devíamos esperar ver a violência
    em todos os pobres.
  135. Mas não vemos isso.
  136. Em vez disso, podemos observar
    empiricamente que a pobreza se concentra,

  137. e o crime se concentra ainda mais
  138. e a violência se concentra mais que tudo.
  139. É por isso que as soluções
    pegajosas funcionam.
  140. Funcionam porque lidam primeiro
    com as primeiras coisas.
  141. E isto é importante,
  142. porque, enquanto a pobreza
    pode levar à violência,
  143. há fortes indícios que mostram
    que a violência pode perpetuar a pobreza.
  144. Este é um exemplo de como isso acontece.

  145. Como documentado por Patrick Sharkey,
  146. um sociólogo,
  147. quando pessoas pobres
    são expostas à violência,
  148. isso traumatiza-as.
  149. Tem impacto na capacidade de dormirem,
  150. de prestarem atenção,
    de se comportarem e aprenderem.
  151. Se as crianças pobres
    não puderem aprender,
  152. não podem ir bem na escola.
  153. E. por fim, causa impacto em como
    vão ganhar um salário na sua vida.
  154. que seja suficiente para fugir da pobreza.
  155. Infelizmente, numa série
    de estudos de referência

  156. pelo economista Raj Chetty,
  157. é exatamente isso que vimos.
  158. As crianças pobres expostas à violência
    têm menor mobilidade de receitas
  159. do que as crianças pobres
    que crescem pacificamente.
  160. A violência amarra
    as crianças pobres à pobreza.
  161. Por causa disso, é muito importante
  162. concentrarmo-nos incansavelmente
    na violência urbana.
  163. Aqui vão dois exemplos de como,
  164. aqui em Boston, nos anos 90,

  165. uma parceria entre polícias
    e membros da comunidade
  166. atingiu uns impressionantes 63%
    de redução no homicídio juvenil.
  167. Em Oakland, a mesma estratégia
  168. reduziu 55% de roubos.
  169. Em Cincinnati, em Indianapolis
    e em New Heaven,
  170. reduziu a violência armada
    em mais de um terço.
  171. Na sua forma mais simples,
  172. a estratégia simples identifica
  173. aqueles que são
    os mais propensos a disparar
  174. ou a levar um tiro,
  175. e confronta-os com uma mensagem dupla
  176. de empatia e responsabilidade:
  177. "Sabemos que é você que está a disparar.
  178. "Isso precisa de parar.
  179. "Se nos deixar, iremos ajudá-lo.
  180. "Se nos ignorar, vamos impedi-lo. "
  181. Estas são mudanças simples
    que oferecem serviços e apoio.
  182. Os que persistem
    no seu comportamento violento
  183. são apresentados à justiça
    por ação direcionada da aplicação da lei.
  184. Em Chicago, há outro programa
    que usa a terapia comportamental

  185. que ajuda jovens adolescentes
  186. a gerir pensamentos e emoções difíceis
  187. ensinando-os a evitar
    ou atenuar conflitos.
  188. Esse programa reduziu para metade
  189. prisões por crimes violentos
    entre os participantes.
  190. Estratégias similares reduziram
    a reincidência criminal
  191. de 25% a 50%,
  192. Chicago experimentou
    uma tentativa diferente,
  193. usando as mesmas técnicas,
  194. mas com os que corriam
    maior risco com a violência armada.
  195. O programa está a mostrar
    resultados promissores.
  196. Mais ainda,
  197. como essas estratégias
    são muito focadas, muito direcionadas,
  198. habitualmente não custam muito
    em termos absolutos.
  199. E trabalham com as leis
    que já estão hoje nos livros.
  200. Isso é uma boa notícia.

  201. Podemos ter paz nas nossas cidades,
  202. neste momento,
  203. sem grandes orçamentos
  204. e sem novas leis.
  205. Então, porque é que isso
    ainda não aconteceu?
  206. Porque é que essas soluções
  207. ainda estão limitadas
    a um pequeno número de cidades
  208. e porque é que tem havido dificuldades
    mesmo quando há êxito,
  209. em manterem o apoio?
  210. Bom, esta é a má noticia.
  211. A verdade é que não temos sido muito bons
    a organizar os nossos esforços
  212. em torno desse fenómeno pegajoso.
  213. Há pelo menos três razões
    para não seguirmos os indícios

  214. quando se trata da redução
    da violência urbana.
  215. O primeiro, como é de esperar,
    é a política.
  216. A maioria das soluções pegajosas
  217. não se conforma com uma
    qualquer plataforma política.
  218. Em vez disso, eles oferecem
    cenouras e chicotes.
  219. equilibrando a promessa de tratamento
    com a ameaça de prisão,
  220. combinando o investimento
  221. com base em locais com policiamento
    de pontos quentes.
  222. Por outras palavras,
  223. essas soluções são fracas e duras
    ao mesmo tempo.
  224. Como não se alinham ordenadamente
  225. com os pontos de discussão
    típicos da direita ou da esquerda,
  226. os políticos não irão adotar
    essas ideias sem formação
  227. e talvez até sem um pouco de pressão.
  228. Não será fácil,
  229. mas podemos mudar os políticos
    em relação a esses problemas
  230. reafirmando apenas que a violência
    é um problema para ser resolvido,
  231. não uma discussão para ser ganha.
  232. Nós devíamos destacar
    a evidência sobre a ideologia
  233. e o que funciona contra o que parece bom.
  234. A segunda razão por que não seguimos
    sempre as evidências

  235. é a natureza um tanto complicada
    dessas soluções.
  236. Há aqui uma ironia.
  237. Qual é o modo mais fácil
    de reduzir a violência?
  238. Mais polícias.
  239. Mais empregos.
  240. Menos armas.
  241. Estes são muito fáceis de escrever,
  242. mas não funcionam
    lá muito bem na prática.
  243. Enquanto, por outro lado,
  244. as soluções com base na investigação
    são mais difíceis de explicar
  245. mas têm melhores resultados.
  246. Neste momento, temos muitos professores
  247. que escrevem sobre a violência
    em revistas académicas.
  248. Temos muitas pessoas
    que nos mantêm a salvo nas ruas.
  249. Mas não temos muita comunicação
    entre esses dois grupos.
  250. Não temos uma forte ponte
    entre investigação e prática.
  251. e quando a investigação
    finalmente informa a prática,
  252. a ponte não é construída por acaso.
  253. Acontece quando alguém tem tempo
  254. para explicar o que significa
    a investigação
  255. porque é que é importante
  256. e como pode fazer a diferença no terreno.
  257. Nós passamos muito tempo
    a fazer investigação,
  258. mas não tempo suficiente
    a reparti-la em pedaços pequenos
  259. que um polícia atarefado
    ou um assistente social
  260. possa digerir facilmente.
  261. Isso pode ser difícil
    de aceitar e reconhecer.

  262. A raça é a terceira e final razão
  263. por que nada tem sido feito
    para reduzir a violência.
  264. A violência urbana concentra-se
    em comunidades pobres e de cor.
  265. Para aqueles que não vivem
    nessas comunidades
  266. é fácil ignorar o problema ou fingir
    que não é problema seu para resolver.
  267. Isso é errado, claro.
  268. A violência urbana
    é um problema de todos.
  269. Direta ou indiretamente,
  270. todos nós pagamos o preço
    pelos tiroteios e assassínios
  271. que acontecem nas nossas cidades.
  272. É por causa disso
    que precisamos de achar
  273. uma forma de motivar mais pessoas
  274. a cruzar as linhas de classe e de cor
    para se juntaram nessa luta.
  275. Como estas estratégias
    não consomem muitos recursos,
  276. não precisamos de motivar
    muitos novos aliados.
  277. Precisamos de poucos.
  278. E precisamos que eles sejam barulhentos.
  279. Se conseguirmos superar esses desafios

  280. e espalhar essas soluções pegajosas
    pelos bairros que precisam delas,
  281. nós salvaremos milhares de vidas.
  282. Se essas estratégias
    que analisámos aqui hoje
  283. fossem implementadas agora
    nas 40 cidades mais violentas da nação.
  284. podíamos salvar mais de 12 000 almas
  285. nos próximos oito anos.
  286. Quanto é que isso iria custar?

  287. Mais ou menos 100 milhões por ano.
  288. Isso pode parecer muito,
  289. mas na verdade, esse número
    representa menos de 1%
  290. do 1% do orçamento federal anual.
  291. O Departamento de Defesa
    gasta isso num jato F-35
  292. Metaforicamente,
    o tratamento é o mesmo,

  293. quando é um jovem a sofrer
    de uma ferida de bala,
  294. uma comunidade cheia de feridas de bala,
  295. ou uma nação cheia dessas comunidades.
  296. Em cada caso, o tratamento,
    em primeiro lugar,
  297. é parar a hemorragia.
  298. Eu sei que isso pode funcionar.
  299. Eu sei porque já vi.
  300. Já vi atiradores abaixarem
    as suas armas
  301. e dedicarem a vida
    para outros fazerem o mesmo.
  302. Eu andei por projetos habitacionais
    que eram conhecidos por tiroteios,
  303. e por crianças que a eles assistiam
    a brincar do lado de fora.
  304. Eu já reuni com polícias
    e membros das comunidades
  305. que se odiavam uns aos outros
    e agora trabalham juntos.
  306. Eu já vi pessoas de todos
    os tipos de vida,
  307. pessoas como vocês,
  308. que finalmente decidiram
    envolver-se nessa luta.
  309. É por isso que eu sei que, em conjunto,
  310. podemos e iremos terminar
    com essa matança sem sentido.
  311. Obrigado.

  312. (Aplausos)