Portuguese, Brazilian subtitles

← Por que a violência se aglomera nas cidades, e como reduzi-la.

Get Embed Code
33 Languages

Showing Revision 35 created 07/28/2020 by Raissa Mendes.

  1. Você é cirurgião do trauma,
  2. trabalhando no turno da meia-noite
    num pronto-socorro do interior.
  3. Um jovem, deitado inconsciente numa maca,
  4. é entregue a você.
  5. Ele levou um tiro na perna
    e está sangrando profusamente.
  6. Julgando pelo local da ferida,
  7. e também pelo volume da hemorragia,
  8. a bala provavelmente
    perfurou a artéria femoral,
  9. um dos maiores vasos sanguíneos do corpo.
  10. Como um jovem médico, o que fazer?
  11. Ou melhor, o que fazer primeiro?
  12. Você olha para as roupas do jovem,
    que parecem velhas e gastas.

  13. Ele pode ser desempregado, sem-teto,
  14. sem uma escolaridade decente.
  15. Será que começamos o tratamento
    dando a ele um emprego,
  16. um apartamento
  17. ou um diploma de supletivo?
  18. Por outro lado, esse jovem
    esteve envolvido em algum tipo de conflito
  19. e pode ser perigoso.
  20. Antes que ele acorde,
  21. será que você deveria algemá-lo,
  22. alertar a segurança
    hospitalar ou a polícia?
  23. A maioria de nós não faria nada disso,
  24. mas sim tomaria a única decisão sensata
  25. e o único curso de ação humano do momento.
  26. Primeiro, pararíamos o sangramento.
  27. Porque, se não fizermos isso,
  28. nada mais importa.
  29. Não só nas salas de emergência,
    mas também em cidades de todo o país,

  30. quando se trata de violência urbana,
    a prioridade é salvar vidas.
  31. Tratar essa violência com a mesma urgência
  32. que tratamos no pronto-socorro
    alguém que levou um tiro.
  33. Sobre o que estamos falamos
    quando dizemos "violência urbana"?
  34. É a violência letal,
    ou potencialmente letal,
  35. que ocorre nas ruas das nossas cidades.
  36. Ela tem muitos nomes:
  37. violência de rua, violência juvenil,
  38. violência de gangue, violência armada.
  39. A violência urbana ocorre
  40. entre os mais desfavorecidos
    e marginalizados entre nós.
  41. Em sua maioria, homens jovens
  42. sem muitas opções ou esperança.
  43. Eu já passei centenas
    de horas com esses jovens.

  44. Dei aulas para eles num colégio
    em Washington, D.C.,
  45. onde um de meus estudantes foi morto.
  46. Já estive com eles
    em tribunais em Nova Iorque,
  47. onde trabalhei como promotor.
  48. Por fim, trabalhei de cidade em cidade
  49. como formulador de políticas
    e pesquisador,
  50. reunindo-me com esses jovens
  51. e trocando ideias sobre como tornar
    nossas comunidades mais seguras.
  52. Por que deveríamos nos importar com eles?
  53. Por que a violência urbana importa?
  54. A violência urbana importa

  55. porque ela causa mais mortes
    aqui nos Estados Unidos
  56. que qualquer outra forma de violência.
  57. Outro motivo dela importar
  58. é porque nós podemos
    fazer algo a respeito.
  59. Controlá-la não é o desafio impossível
  60. que muitos acreditam ser.
  61. Na verdade, hoje em dia,
    existem soluções disponíveis
  62. que provaram ser funcionais.
  63. O que essas soluções têm
    um comum é um ingrediente-chave:
  64. todas reconhecem que a violência
    urbana é pegajosa,
  65. ou seja, ela se aglomera
  66. entre um número pequeno
    de pessoas e locais.
  67. Em Nova Orleans, por exemplo,

  68. uma rede de menos de 700 indivíduos
  69. é responsável pela maioria dos casos
    de violência letal da cidade.
  70. Alguns os chamam de "pessoas quentes".
  71. Aqui em Boston,
  72. 70% dos tiroteios
  73. ocorrem em blocos e esquinas
    que cobrem apenas 5% da cidade.
  74. Esses locais são conhecidos
    como "pontos quentes".
  75. Cidade após cidade,
  76. um número pequeno
    de pontos e pessoas quentes
  77. é responsável por quase
    toda a violência letal.
  78. Essa conclusão se repetiu tantas vezes
  79. que o fenômeno passou a ser chamado
    de lei da concentração do crime.
  80. Observando os dados, vemos
    que as soluções pegajosas são as melhores.

  81. Sendo direto:
  82. não podemos parar os tiroteios
    se não lidarmos com os atiradores,
  83. e não podemos parar a matança
    se não formos onde as pessoas são mortas.
  84. Há quatro anos,

  85. minha equipe e eu fizemos
    uma revisão sistemática
  86. de estratégias de antiviolência,
    sintetizando os resultados
  87. de 1,4 mil análises de impacto individual.
  88. O que encontramos de novo e de novo
  89. foi que as estratégias mais focadas,
  90. mais direcionadas,
  91. mais pegajosas
  92. foram as mais bem-sucedidas.
  93. Vimos isso em criminologia,
  94. e em estudos de policiamento
    prevenção de gangues, reincidência.
  95. Também vimos isso na saúde pública,
  96. em que prevenções terciárias e secundárias
  97. alcançaram mais do que a prevenção
    primária, mais generalizada.
  98. Quando formuladores de políticas
    focam pessoas e lugares perigosos,
  99. alcançam melhores resultados.
  100. Você pode estar se perguntando
    sobre substituição e deslocamento.

  101. Pesquisas mostram que,
    quando traficantes são presos,
  102. novos aparecem, substituindo os antigos.
  103. Alguns se preocupam, pensando
    que, se a polícia focar certos locais,
  104. o crime vai se deslocar,
  105. mudando de rua ou virando a esquina.
  106. Felizmente sabemos que,
    por causa de sua consistência,
  107. as estratégias pegajosas causam
    uma substituição e um deslocamento
  108. que são mínimos.
  109. Leva uma vida toda de traumas
    para criar um atirador,
  110. e décadas de desinvestimento
    para criar um "ponto quente".
  111. Por isso, essas pessoas e locais
    não se deslocam facilmente.
  112. E a raiz do problema?

  113. Enfrentar a pobreza, desigualdade
    ou falta de oportunidade não seria
  114. a melhor forma de prevenir a violência?
  115. Bem, de acordo com a ciência,
  116. sim e não.
  117. Sim, no sentido que altos índices
    de violência são associados
  118. com a desvantagem social e econômica.
  119. Mas não, no sentido
    de que mudar tais fatores
  120. não causa necessariamente
    mudanças na violência,
  121. especialmente a curto prazo.
  122. Na pobreza, por exemplo,
  123. leva décadas para alcançar
    um progresso significativo,
  124. enquanto pessoas pobres precisam
    e merecem um alívio para a violência hoje.
  125. Essas raízes também
    não explicam o fator pegajoso.
  126. Se a pobreza sempre trouxesse violência,
  127. esperaríamos violência
    entre todas as pessoas pobres.
  128. Não é isso que vemos.
  129. Em vez disso, observamos de forma
    empírica que a pobreza se concentra,

  130. o crime se concentra mais ainda
  131. e acima de tudo temos
    a concentração da violência.
  132. Por isso que soluções pegajosas funcionam.
  133. Porque dão prioridade
    aos fatores mais concentrados.
  134. E isso é importante,
  135. porque, enquanto a pobreza
    pode levar à violência,
  136. fortes evidências mostram
    que a violência perpetua a pobreza.
  137. Aqui vai um exemplo,

  138. documentado por Patrick Sharkey,
  139. um sociólogo.
  140. Ele mostrou que, ao ser expostas
    à violência, crianças pobres
  141. são traumatizadas.
  142. O que afeta sua capacidade de dormir,
  143. prestar atenção, se comportar e aprender.
  144. E, se elas não conseguem aprender,
  145. não podem ir bem na escola.
  146. O que impacta profundamente sua chance
    de, no futuro, receber um bom salário,
  147. o suficiente para sair da pobreza.
  148. Infelizmente, numa série
    de estudos pioneiros

  149. do economista Raj Chetty,
  150. é exatamente isso que temos visto.
  151. Crianças pobres expostas à violência
    têm menos mobilidade de renda
  152. que crianças pobres que crescem em paz.
  153. A violência literalmente prende
    as crianças pobres na pobreza.
  154. Por isso é que é importante focar
    incessantemente a violência urbana.
  155. Dois exemplos de como:
  156. aqui em Boston, nos anos 1990,

  157. uma parceria entre policiais
    e membros da comunidade
  158. alcançou uma impressionante redução
    de 63% dos homicídios entre jovens.
  159. Em Oakland, a mesma estratégia
  160. recentemente reduziu em 55%
    os assaltos à mão armada não fatais.
  161. Em Cincinnati, Indianápolis e New Haven
  162. a violência armada foi reduzida
    em mais de um terço.
  163. Simplificando,
  164. essa estratégia identifica
    aqueles que são propensos a atirar
  165. ou levar tiros,
  166. e os confronta com uma mensagem dupla
  167. de empatia e responsabilidade.
  168. "Sabemos que é você quem está atirando.
  169. Isso tem de parar.
  170. Se você permitir, vamos ajudá-lo.
  171. Se você insistir, vamos detê-lo".
  172. Suporte é oferecido
    àqueles que queiram mudar.
  173. Aqueles que persistem na violência
  174. são trazidos à justiça
    através da aplicação da lei.
  175. Em Chicago, outro programa usa
    a terapia cognitivo-comportamental

  176. para ajudar garotos adolescentes
  177. a lidar com pensamentos
    e emoções difíceis,
  178. ensinando-lhes a evitar
    ou mitigar conflitos.
  179. Entre os participantes, a taxa
    de criminalidade foi reduzida
  180. pela metade.
  181. Estratégias similares têm
    reduzido a reincidência
  182. em 25% a 50%.
  183. Agora, Chicago iniciou um novo esforço,
    utilizando as mesmas técnicas
  184. com aqueles que vivem
    sob risco de violência armada.
  185. O programa tem sido promissor.
  186. Além disso,
  187. essas estratégias são
    tão focadas, tão direcionadas
  188. que tendem a não custar muito.
  189. E funcionam com as leis que já existem.
  190. Essa é a boa notícia.

  191. Podemos ter paz em nossas cidades,
  192. agora mesmo,
  193. sem grandes verbas
  194. e sem novas leis.
  195. Então por que isso ainda não aconteceu?
  196. Por que essas soluções
    são limitadas a poucas cidades,
  197. e por que elas encontram dificuldade,
    mesmo quando funcionam,
  198. para manter apoio?
  199. Bem, essa é a má notícia.
  200. A verdade é que não temos sido bons
    em organizar nossos esforços
  201. para com esse problema.
  202. Existem ao menos três motivos
    para não seguirmos a evidência

  203. para reduzir a violência urbana.
  204. O primeiro, como você deve imaginar,
  205. é a política.
  206. A maioria dessas soluções não se encaixa
    em uma plataforma política ou outra.
  207. Elas oferecem incentivos e sanções,
  208. equilibrando a promessa de tratamento
    e a ameaça de prisão,
  209. combinando investimento
    local com o policiamento.
  210. Em outras palavras,
  211. são soluções brandas e severas
  212. ao mesmo tempo.
  213. Por elas não se alinharem
  214. com o típico pensamento
    da esquerda ou da direita,
  215. políticos não se interessam,
    senão quando bem informados
  216. ou quando estão sob pressão.
  217. Não será fácil,
  218. mas podemos mudar as políticas
    quanto a esse problema
  219. apresentando a violência
    como um problema a ser resolvido,
  220. e não uma discussão a ser ganha.
  221. Devemos enfatizar
    evidência sobre ideologia,
  222. e o que funciona sobre o que soa bem.
  223. O segundo motivo
    para ignorarmos a evidência

  224. é a natureza complicada dessas soluções.
  225. Há aqui uma ironia.
  226. Quais são as formas
    mais simples de reduzir a violência?
  227. Mais policiais.
  228. Mais empregos.
  229. Menos armas.
  230. Isso é fácil de falar,
  231. mas, na prática, não funciona bem.
  232. Por outro lado,
  233. soluções baseadas em pesquisas
    são difíceis de se explicar,
  234. mas têm resultados melhores.
  235. Hoje, temos muitos estudiosos
  236. escrevendo sobre violência
    em revistas acadêmicas.
  237. E temos pessoas
    que mantêm as ruas seguras.
  238. Mas o que não temos
  239. é uma comunicação entre esses dois grupos,
  240. uma ponte entre pesquisa e prática.
  241. Quando a pesquisa informa a prática,
  242. a ponte não é criada por acaso.
  243. Ela surge quando alguém toma o tempo
  244. para explicar o que a pesquisa significa,
  245. sua importância
  246. e como pode fazer uma diferença no setor.
  247. Passamos muito tempo criando pesquisas,
  248. mas não as detalhamos
    em informações simples,
  249. que possam ser digeridas por policiais
    ocupados ou assistentes sociais.
  250. Pode ser difícil reconhecer ou aceitar,

  251. mas raça é o terceiro e último motivo
  252. pelo qual pouco tem sido
    feito para reduzir a violência.
  253. A violência urbana se concentra
    em comunidades pobres de cor.
  254. Isso faz com que seja fácil para nós
    que não vivemos nessas comunidades
  255. ignorarmos o problema
    ou fingir que não é nosso.
  256. O que com certeza é errado.
  257. A violência urbana é um problema de todos.
  258. Direta ou indiretamente,
  259. pagamos um preço
    pelos tiroteios e matanças
  260. que ocorrem em nossas ruas.
  261. É por isso que precisamos encontrar
    novas formas de motivar pessoas
  262. a quebrar barreiras
    de classe e cor e se juntar à luta.
  263. Por causa do baixo custo
    dessas estratégias,
  264. não precisamos de muitos aliados,
  265. só de alguns.
  266. Alguns aliados que falem alto.
  267. Se pudermos superar os desafios

  268. e espalhar as soluções pegajosas
    nas vizinhanças necessitadas,
  269. salvaremos milhares de vidas.
  270. Se as estratégias aqui discutidas
  271. fossem implementadas agora mesmo
    nas 40 cidades mais violentas do país,
  272. salvaríamos mais de 12 mil pessoas
  273. ao longo dos próximos 8 anos.
  274. Quanto custaria?

  275. Por volta de US$ 100 milhões por ano.
  276. Pode até parecer muito,
  277. mas na verdade isso representa menos de 1%
  278. de 1% do orçamento federal anual.
  279. O Ministério da Defesa dos EUA
    gasta esse valor
  280. em um único jato de caça F-35.
  281. Metaforicamente, o tratamento é o mesmo,

  282. seja um jovem sofrendo
    com a ferida de um tiro,
  283. uma comunidade cheia dessas feridas
  284. ou uma nação cheia dessas comunidades.
  285. Em cada um desses casos,
    o primeiro passo do tratamento
  286. é parar o sangramento.
  287. Eu sei que isso pode funcionar.
  288. Sei porque já vi acontecer.
  289. Já vi atiradores baixarem suas armas
  290. e dedicarem suas vidas a converter outros.
  291. Já passei por projetos habitacionais
    que eram famosos pelos tiroteios
  292. e vi crianças brincando na rua.
  293. Já conheci policiais
    e membros da comunidade
  294. que se odiavam, e agora trabalham juntos.
  295. E já vi todo tipo de pessoa,
  296. pessoas como você,
  297. decidirem se envolver nessa luta.
  298. E é por isso que eu sei que, juntos,
  299. nós podemos e terminaremos
    esse massacre sem sentido.
  300. Obrigado.

  301. (Aplausos)