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← A vida é desprovida de sentido? E outras questões absurdas — Nina Medvinskaya

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Showing Revision 7 created 10/10/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Albert Camus cresceu rodeado de violência.
  2. A sua terra natal, a Argélia,
    estava mergulhada em conflitos
  3. entre os nativos da Argélia
    e os colonizadores franceses.
  4. Camus perdera o pai
    na Primeira Guerra Mundial,
  5. e foi considerado inapto
    para combater na Segunda.
  6. Ao lutar contra a tuberculose em França
  7. e ao enfrentar a devastação da guerra
    enquanto jornalista de resistência,
  8. Camus foi tomado pelo desânimo.
  9. Não conseguia encontrar qualquer sentido
  10. por detrás de toda aquela matança
    e sofrimento intermináveis.
  11. Interrogou-se: "Se o mundo
    é desprovido de sentido,
  12. "as nossas vidas individuais
    mesmo assim poderão ter valor?
  13. Muitos dos contemporâneos de Camus
    estavam a explorar questões semelhantes

  14. sob o estandarte de uma nova filosofia
    chamada existencialismo.
  15. Os existencialistas acreditavam
    que as pessoas nasciam como tábuas rasas
  16. e eram responsáveis por dar sentido
    à sua vida num mundo caótico.
  17. Mas Camus rejeitava
    esta escola de pensamento.
  18. Argumentava que todas as pessoas
    partilhavam a mesma natureza humana
  19. que as unia para atingirem
    objetivos comuns.
  20. Um desses objetivos
    era procurar o sentido da vida
  21. apesar da crueldade arbitrária do mundo.
  22. Camus considerava que a procura
    de sentido da humanidade
  23. e a indiferença silenciosa do universo
  24. eram como duas peças incompatíveis
    de um "puzzle",
  25. e considerava a tentativa de as encaixar
    como sendo fundamentalmente absurda.
  26. Esta tensão tornou-se o âmago
    da Filosofia do Absurdo de Camus,
  27. que defendia que a vida
    é inerentemente fútil.
  28. Explorar como viver sem sentido
  29. tornou-se a questão orientadora
    da obra inicial de Camus,
  30. a que ele chamou o seu "ciclo do absurdo".
  31. A estrela deste ciclo,
    e o primeiro romance publicado de Camus,

  32. oferece uma resposta bastante desoladora.
  33. "O Estrangeiro" acompanha Meursault,
    um jovem emocionalmente distante
  34. que não atribui muito significado a nada.
  35. Não chora no funeral da mãe,
  36. apoia o plano do vizinho
    destinado a humilhar uma mulher,
  37. e até comete um crime violento —
    mas Meursault não sente remorsos.
  38. Para ele, o mundo é desprovido de sentido
    e os julgamentos morais não têm lá lugar.
  39. Esta atitude cria hostilidade entre ele
    e a sociedade ordeira em que vive,
  40. ampliando lentamente a sua alienação
    até ao climax explosivo do romance.
  41. Ao contrário do seu protagonista relegado,

  42. Camus foi aplaudido
    pela sua filosofia honesta.
  43. "O Estrangeiro" catapultou-o para a fama,
  44. e Camus continuou a produzir obras
    que exploravam o valor da vida
  45. por entre o absurdo,
  46. muitas das quais regressavam em círculos
    à mesma questão filosófica:
  47. se a vida é verdadeiramente
    desprovida de sentido,
  48. o suicídio será
    a única resposta racional?
  49. A resposta de Camus
    foi um categórico "não".

  50. Pode não haver qualquer explicação
    para o nosso mundo injusto,
  51. mas escolher viver, apesar disso,
  52. é a mais profunda expressão
    da nossa genuína liberdade.
  53. Camus explica isto
    num dos seus ensaios mais famosos,
  54. que se centra no mito grego de Sísifo.
  55. Sísifo era um rei que intrujou os deuses,
  56. e foi condenado a empurrar uma pedra
    por uma colina acima, interminavelmente.
  57. A crueldade deste castigo
    reside na sua singular futilidade,
  58. mas Camus defende que toda
    a humanidade está na mesma posição.
  59. E só quando aceitamos
    a falta de sentido das nossas vidas
  60. é que podemos enfrentar o absurdo
    de cabeça erguida.
  61. Como diz Camus, quando o rei escolhe
    recomeçar a sua tarefa inexorável,
  62. "Há que imaginar Sísifo feliz."
  63. Os contemporâneos de Camus
    não aceitavam tão bem a futilidade.

  64. Muitos existencialistas eram defensores
    de uma revolução violenta
  65. com vista a derrubar os sistemas
    que, segundo julgavam,
  66. estavam a privar as pessoas
    de capacidade de ação e propósito.
  67. Camus respondeu com o seu segundo
    conjunto de trabalhos: o ciclo da revolta.
  68. Em "O Rebelde", explora a rebelião
    como um ato criativo,
  69. em vez de um ato destrutivo.
  70. Camus acreditava que inverter
    a dinâmica do poder
  71. só levava a um ciclo de violência sem fim.
  72. Em vez disso, a forma de evitar
    um banho de sangue desnecessário
  73. é estabelecer um entendimento público
    da nossa natureza humana partilhada.
  74. Ironicamente, foi este ciclo
    de ideias relativamente pacíficas
  75. que despoletou a sua desavença
    com muitos escritores e filósofos.
  76. Apesar da controvérsia,

  77. Camus começou a trabalhar no seu romance
    mais longo e pessoal até aí:
  78. uma obra autobiográfica
    intitulada "O Primeiro Homem."
  79. O romance era para ser a primeira peça
    de uma nova direção esperançosa:
  80. o ciclo do amor.
  81. Mas, em 1960, Camus morreu de repente,
    na sequência de um acidente de carro

  82. que só pode ser descrito
    como desprovido de sentido e absurdo.
  83. Embora o mundo nunca tenha visto
    o seu ciclo de amor,
  84. os seus ciclos de revolta e de absurdo
    continuam a ressoar com os leitores hoje.
  85. O seu conceito de absurdo passou
    a fazer parte da literatura mundial,
  86. da filosofia do século XX
    e até da cultura popular.
  87. Hoje, Camus continua a ser um guia
    de confiança para momentos de incerteza;
  88. com as suas ideias desafiadoras
    a imbuir um mundo sem sentido
  89. de inspiração em vez de derrota.