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← "A vida não tem sentido?" e outras perguntas absurdas - Nina Medvinskaya

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Showing Revision 13 created 10/06/2020 by Maricene Crus.

  1. Albert Camus cresceu
    cercado por violência.
  2. A Argélia, sua terra natal,
    estava envolta em conflitos
  3. entre os argelinos
    e os colonizadores franceses.
  4. Ele perdeu o pai
    na Primeira Guerra Mundial
  5. e foi considerado inapto
    para lutar na Segunda.
  6. A batalha contra a tuberculose na França
  7. e o enfrentamento da devastação da guerra
    como jornalista da Resistência
  8. desencorajaram Camus.
  9. Ele não conseguia
    depreender nenhum sentido
  10. por trás da carnificina
    e do sofrimento incessantes.
  11. Ele indagava:
  12. "Se o mundo não tem sentido,
  13. a vida de cada um de nós
    ainda poderia ter valor?"
  14. Muitos dos contemporâneos de Camus
    exploravam perguntas parecidas

  15. sob a bandeira de uma filosofia
    chamada "existencialismo".
  16. Os existencialistas acreditavam
    que nascemos como uma folha em branco:
  17. cada um é responsável por criar o sentido
    da vida em meio aos caos do mundo.
  18. Mas Camus rejeitava
    essa escola de pensamento.
  19. Ele alegava que todas as pessoas nasciam
  20. com uma natureza humana partilhada
    que as unia em prol de metas comuns.
  21. Uma dessas metas era a busca de sentido
  22. a despeito da crueldade
    arbitrária do mundo.
  23. Camus via o anseio
    da humanidade por sentido
  24. e a indiferença silenciosa do universo
  25. como duas peças
    de quebra-cabeça incompatíveis,
  26. e achava que tentar uni-las
    era fundamentalmente absurdo.
  27. Essa tensão se tornou o centro
    da "filosofia do absurdo" de Camus,
  28. que afirmava que a vida
    era essencialmente fútil.
  29. Explorar como viver sem significado
  30. se tornou a pergunta norteadora
    da primeira obra de Camus,
  31. a qual ele chamou de "ciclo do absurdo".
  32. O ponto central deste ciclo e primeiro
    romance publicado de Camus

  33. oferece uma resposta um tanto sombria.
  34. Em "O Estrangeiro", Meursault,
    um jovem emocionalmente indiferente,
  35. não atribui muito sentido a nada.
  36. Ele não chora no funeral da mãe,
  37. apoia o plano de um vizinho
    para humilhar uma mulher
  38. e até comete um crime violento,
  39. mas não sente nenhum remorso.
  40. Para ele, o mundo é insensato
  41. e não há lugar para o julgamento moral.
  42. Tal atitude gera hostilidade
  43. entre Merusault e a sociedade
    metódica em que vive,
  44. o que aos poucos alimenta sua alienação
    até o clímax do romance.
  45. Ao contrário do protagonista execrado,

  46. Camus foi celebrado
    por sua filosofia honesta.
  47. O Estrangeiro o lançou à fama,
    e Camus continuou a produzir obras
  48. que exploravam o valor da vida
    em meio ao absurdo,
  49. muitas das quais giravam em torno
    da mesma pergunta filosófica:
  50. "Se a vida realmente não tem sentido,
  51. a única resposta racional
    é cometer suicídio?"
  52. A resposta de Camus é um enfático "não".

  53. Talvez não exista explicação
    para o nosso mundo injusto,
  54. mas ainda assim escolher viver
  55. é a mais profunda expressão
    da nossa liberdade genuína.
  56. Camus explica isso em um de seus
    ensaios mais famosos,
  57. baseado no mito grego de Sísifo.
  58. Sísifo foi um rei que enganou os deuses
  59. e foi condenado a empurrar uma pedra
    montanha acima eternamente.
  60. A crueldade da punição reside
    em sua futilidade singular,
  61. mas Camus afirma que toda
    a humanidade está na mesma posição.
  62. E somente quando aceitarmos
    a falta de sentido de nossa vida,
  63. poderemos enfrentar
    o absurdo de cabeça erguida.
  64. Como Camus diz quando o rei decide
    começar a incessante tarefa mais uma vez:
  65. "É preciso imaginar Sísifo feliz".
  66. Os contemporâneos de Camus
    não aceitavam a futilidade muito bem.

  67. Muitos existencialistas defendiam
    a revolução violenta
  68. para subverter sistemas que privavam
    as pessoas da iniciativa e do propósito.
  69. Camus respondeu com o segundo
    conjunto de seu trabalho:
  70. o "ciclo da revolta".
  71. Em "O Homem Revoltado",
  72. ele explorou a revolta como
    um ato criativo ao invés de destrutivo.
  73. Camus acreditava
    que a inversão da dinâmica do poder
  74. apenas levava a um ciclo
    infinito de violência.
  75. Ao contrário, o modo de evitar
    a carnificina desnecessária
  76. é estabelecer um entendimento público
    da nossa natureza humana partilhada
  77. Ironicamente, foi esse ciclo
    de ideias relativamente pacíficas
  78. que lhe gerou desavenças
    entre muitos escritores e filósofos.
  79. Apesar da controvérsia,

  80. Camus começou a escrever
    seu romance mais longo e pessoal:
  81. uma obra autobiográfica
    intitulada "O Primeiro Homem".
  82. Esperava-se que o romance
    fosse a primeira parte
  83. de uma nova direção esperançosa:
  84. o "ciclo do amor".
  85. Mas, em 1960, Camus faleceu
    de repente em um acidente de carro,

  86. que pode apenas ser descrito
    como "sem sentido e absurdo".
  87. Embora o mundo nunca
    tenha conhecido o ciclo do amor,
  88. os ciclos da revolta e do absurdo
    continuam a influenciar os leitores hoje.
  89. Seu conceito do absurdo se tornou
    uma parte da literatura mundial,
  90. da filosofia do século 20
    e até da cultura popular.
  91. Hoje, Camus continua a ser
    um guia confiável
  92. para os momentos de incerteza.
  93. Suas ideias audaciosamente
    enchem esse mundo insensato
  94. de inspiração em vez de derrota.