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← O mundo invisível oculto por baixo do gelo da Antártida

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Showing Revision 14 created 08/22/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Sabem o que é isto?
  2. E se eu disser que há um lugar
    onde as criaturas são feitas de vidro?
  3. Ou que há formas de vida
    que são invisíveis para nós
  4. mas que os astronautas veem o tempo todo?
  5. Essas criaturas de vidro invisíveis

  6. não são alienígenas
    de um exoplaneta distante.
  7. São diatomáceas:
  8. algas unicelulares e fotossintéticas
    que produzem oxigénio,
  9. e ajudam à formação de chuvas
    a uma escala planetária
  10. com os seus exoesqueletos
    complexos e geométricos, feitos de...
  11. sim, de vidro.
  12. Podemos vê-las em redemoinhos coloridos
    sobre o oceano visto do espaço.
  13. Quando morrem,
  14. afundam-se nas profundezas dos oceanos,
  15. retirando carbono do ar
  16. e levando-o para o túmulo,
  17. contribuindo para boa parte
    da absorção de carbono dos oceanos.
  18. Vivemos num planeta alienígena.

  19. Há muitos seres estranhos
    para estudar na Terra
  20. e muitos deles vivem
    afastados do nosso mundo
  21. fora da nossa visão
    e do nosso conhecimento.
  22. Um desses locais afastados é a Antártida.
  23. Em geral, quando pensamos na Antártida,

  24. imaginamos um lugar estéril e sem vida...
  25. exceto quanto a alguns pinguins.
  26. Mas a Antártida devia ser conhecida
    como um oásis de vida polar,
  27. o lar de inúmeras criaturas
    incrivelmente fascinantes.
  28. Então porque é que não vemos
    isso nos documentários?
  29. É que eles espreitam sob a neve e o gelo,
  30. virtualmente invisíveis para nós.
  31. São micróbios:
  32. pequenas plantas e animais
    que vivem dentro de glaciares,
  33. sob o gelo do mar
  34. e nadam em lagoas subglaciais.
  35. E não são menos carismáticos
    que os grandes animais
  36. que estamos acostumados
    a ver nos documentários.
  37. Mas como incentivar as pessoas
    a explorar o que não podem ver?

  38. Liderei uma expedição recente
    de cinco semanas à Antártida
  39. para me tornar realizadora
    da Natureza à escala microbiana.
  40. Com 85 quilos de equipamento,
  41. embarquei num avião militar
  42. e levei microscópios para o terreno
  43. para filmar e investigar
    estes extremófilos microscópicos,
  44. para podermos conhecer melhor
    um ecossistema quase desconhecido
  45. com que vivemos aqui na Terra.
  46. Para filmar essas criaturas invisíveis
    em ação,

  47. tive de visitar o seu "lar",
  48. precisei de me aventurar
    por baixo do gelo.
  49. Todos os anos, o gelo do mar
    quase duplica o tamanho da Antártida.
  50. Para dar uma olhadela por baixo
    do gelo com três metros de espessura,
  51. desci por um longo tubo de metal
    introduzido no gelo do mar
  52. para testemunhar um ecossistema
    oculto, mas cheio de vida,
  53. suspensa entre o leito do mar
    e o iluminado teto de gelo.
  54. Esta era o aspeto visto pelo lado de fora.
  55. Era absolutamente mágico.
  56. Alguns dos bichos que encontrei
    eram coisinhas lindas como ostracodes
  57. e muitas mais diatomáceas
    belas e geométricas.
  58. Depois fui ainda mais longe,
    acampar nos Vales da Morte

  59. durante umas semanas.
  60. A Antártida está 98% coberta de gelo
  61. e os Vales da Morte são a maior área
    da Antártida em que podemos ver
  62. o aspeto do continente
    por baixo de todo esse gelo.
  63. Fiz colheitas de amostras
    nas Cachoeiras de Sangue,
  64. um fenómeno natural de um lago subglacial
    de onde jorra óxido de ferro,
  65. considerado sem qualquer tipo de vida
    até há pouco mais de 10 anos.
  66. Escalei um glaciar para perfurá-lo,
  67. revelando inúmeros bichos resistentes
    que vivem confortavelmente
  68. inseridos nas camadas de gelo.
  69. Conhecidos por buracos de crioconita
  70. formam-se quando pedaços minúsculos
    de poeiras escuras
  71. são atirados pelos ventos
    para os glaciares
  72. e começam a derreter-se nos buracos
    cheios de água que depois congelam,
  73. preservando centenas de discos de poeira
    no interior do glaciar,
  74. como pequenos universos em ilhas
  75. cada um com o seu próprio ecossistema.
  76. Talvez reconheçam
    alguns dos bichos que encontrei,

  77. como este encantador tardígrado
    — adoro-os.
  78. São como ursinhos de gelatina com garras.
  79. Também conhecidos como ursos-d'água,
  80. são famosos por possuírem superpoderes
  81. que lhes permitem sobreviver
    em condições extremas,
  82. incluindo o vácuo do espaço.
  83. Mas não é preciso viajar pelo espaço
    ou ir à Antártida para os encontrar.
  84. Eles vivem em musgos por todo o planeta,
  85. em frestas nos passeios, em parques.
  86. Provavelmente passamos por toneladas
    destes bichinhos invisíveis todos os dias.
  87. Outros podem parecer familiares,

  88. mas são ainda mais estranhos,
    como os nematódeos.
  89. Não são cobras nem minhocas
  90. os nematódeos são criaturas à parte.
  91. Não se regeneram como uma minhoca
    nem rastejam como as cobras,
  92. mas têm minúsculas agulhas
    afiadas como adagas, na boca
  93. que utilizam para caçar a presa
    e sugar as suas entranhas.
  94. Para cada pessoa no planeta,
  95. há 57 000 milhões de nematódeos.
  96. Talvez não reconheçam alguns dos bichos

  97. que também têm vidas fascinantes,
  98. como os rotíferos com coroas incríveis
    que parecem bocas robóticas,
  99. ciliados com corpos tão transparentes
    que é quase informação demais,
  100. e cianobactérias que parecem "confettis"
    espalhados numa placa de Petri.
  101. Muitas vezes o que vemos
    nos "media" populares

  102. são imagens de microscópio eletrónico
    de microrganismos
  103. que parecem monstros assustadores.
  104. Como não os vemos a moverem-se,
    não damos pela existência deles
  105. apesar de eles viverem
    em quase todos os locais que pisamos.
  106. Como é a vida quotidiana deles?
  107. Como é que interagem com o seu ambiente?
  108. Se só víssemos uma foto
    de um pinguim num jardim zoológico,
  109. e nunca o víssemos a bambolear-se
    e depois a deslizar pelo gelo,
  110. não entenderíamos
    totalmente os pinguins.
  111. Ao vermos os micróbios em movimento,
  112. temos uma visão melhor da vida
    do que era invisível para nós.
  113. Sem documentar a vida invisível
    na Antártida e no nosso quintal,
  114. não sabemos bem com quantas criaturas
    dividimos o nosso planeta.
  115. Isso significa que ainda
    não temos uma visão completa
  116. do nosso estranho e caprichoso planeta.
  117. Obrigada.