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← Como reavivar a fé na democracia

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Showing Revision 16 created 07/04/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Trago-vos cumprimentos
  2. da 52.ª nação mais livre da Terra.
  3. Como americano, irrita-me que
    a minha nação continue a afundar-se
  4. nas avaliações anuais
    publicadas pela Freedom House.
  5. Sou filho de imigrantes.
  6. Os meus pais nasceram na China,
    durante a guerra e a revolução,
  7. foram para Taiwan e depois
    vieram para os EUA.
  8. Ou seja, toda a minha vida
  9. estive perfeitamente consciente
    de que a liberdade é uma herança frágil.
  10. É por isso que passo o meu tempo
  11. a ensinar, a pregar
    e a praticar a democracia.
  12. Não tenho ilusões.

  13. Por todo o mundo, neste momento,
  14. há pessoas a duvidar
    de que a democracia resulte.
  15. Autocratas e demagogos
    parecem encorajados,
  16. convencidos, até
  17. de que o mundo livre se sente sem líder.
  18. E ainda assim, mantenho-me esperançado,

  19. não digo otimista.
  20. O otimismo é para espetadores.
  21. A esperança implica ação.
  22. Diz que eu posso influir o resultado.
  23. A esperança democrática requer fé
  24. não num homem forte
    ou num salvador carismático,
  25. mas uns nos outros.
  26. E força-nos a perguntar:
    Como podemos merecer tal fé?

  27. Acredito que estamos num momento
    de acordar moralmente,
  28. do género que chega quando
    certezas antigas colapsam.
  29. No centro desse acordar, está
    o que eu chamo "religião cívica".
  30. E hoje, quero falar sobre o que é
    a religião cívica,
  31. como a praticamos,
  32. e por que razão é hoje
    mais importante do que nunca.
  33. Vou começar com o que é.

  34. Defino religião cívica como um sistema
    de credos partilhados e práticas coletivas
  35. através das quais membros
    de uma comunidade autogovernada
  36. escolhem viver como cidadãos.
  37. Agora, quando digo "cidadão",
    não me refiro a papéis ou passaportes,
  38. estou a falar de uma conceção
    mais profunda, abrangente e ética
  39. de contribuir para uma comunidade,
    de ser membro de um corpo.
  40. Falar de religião cívica como religião
    não é uma liberdade poética.
  41. Porque a democracia
  42. é uma das atividades humanas
    mais alimentadas pela fé que existe.
  43. A democracia só resulta
  44. quando suficientes pessoas
    acreditam que ela resulta.
  45. É ao mesmo tempo
    uma aposta e um milagre.
  46. A sua legitimidade não provém
    de regras constitucionais
  47. mas sim do espírito cívico.
  48. A religião cívica, como qualquer outra,
  49. possui um credo sagrado,
    atos e rituais sagrados.
  50. O meu credo inclui palavras
    como "proteção igualitária da lei"

  51. e "nós, os cidadãos".
  52. A minha chamada aos atos sagrados
    inclui a abolição, o sufrágio feminino,
  53. o movimento dos direitos civis,
  54. o desembarque dos Aliados na Normandia,
  55. a queda do Muro de Berlim.
  56. E tenho um novo ritual cívico
    de que vos vou falar mais tarde.
  57. De onde quer que vocês sejam

  58. podem encontrar ou criar o vosso
    conjunto de crenças, atos e rituais.
  59. A prática de religião cívica
    não requer veneração ao Estado
  60. ou obediência a um partido governante.
  61. Requer um compromisso mútuo
  62. e com os nossos ideais comuns.
  63. A santidade da religião cívica não tem
    a ver com divindade ou sobrenatural.
  64. Tem a ver com um grupo
    de pessoas diferentes
  65. que, ao dialogar, encontram
    as suas semelhanças
  66. e a sua coletividade.
  67. Talvez estejam preocupados

  68. porque pensam que vos quero
    vender a ideia de um culto.
  69. Relaxem, não quero.
  70. Não preciso de vender nada.
  71. Como humanos, vocês estão sempre
    no mercado para um culto,
  72. para uma qualquer experiência
    religiosa diferente.
  73. Estamos programados para procurar
    explicações cosmológicas,
  74. para sacralizar crenças que nos unem
    num objetivo transcendente.
  75. Os seres humanos criam religião
    porque os humanos criam grupos.
  76. Resta-nos escolher se utilizamos
    essa coletividade para o bem.
  77. Se vocês são pessoas devotas, sabem isso.
  78. Se não são,
  79. se já não frequentam serviços de oração
  80. ou nunca o tenham feito,
  81. então talvez acreditem
    que o ioga é a vossa religião
  82. ou a Primeira Liga de futebol
  83. ou o tricô, a codificação ou as TED Talks.
  84. Mas quer acreditem num Deus
    ou na ausência de deuses,
  85. a religião cívica não exige
    que renunciem às vossas crenças.
  86. Apenas exige que estejam
    presentes como cidadãos.
  87. O que me leva ao segundo tópico:

  88. como podemos praticar
    religião cívica de forma produtiva.
  89. Vou falar-vos sobre
    o meu novo ritual cívico.
  90. Chama-se "Sábado Cívico"
  91. e é parecido com uma reunião de fé.
  92. Cantamos juntos,
  93. discutimos questões comuns
    com pessoas que não conhecemos,
  94. ouvimos poesia e escritura,
  95. há um sermão que relaciona esses textos
  96. com as escolhas éticas
    e controvérsias do nosso tempo.
  97. Mas a música, a escritura e o sermão
  98. não provêm de uma igreja,
    sinagoga ou mesquita.
  99. São cívicos,
  100. retirados dos ideais cívicos
    que partilhamos
  101. e de uma história comum em que
    os reivindicamos e contestamos.
  102. Depois, formamos círculos para
    organizar comícios, registar eleitores,
  103. aderir a novos clubes
    e fazer novos amigos.
  104. Os meus colegas e eu começámos
    a organizar Sábados Cívicos

  105. em Seattle, em 2016.
  106. Desde então, espalharam-se
    por todo o continente.
  107. Podem aparecer centenas de pessoas,
    outras vezes dezenas.
  108. Acontecem em bibliotecas,
  109. centros comunitários
    e locais de trabalho,
  110. sob tendas festivas
    e dentro de grandes salões.
  111. Não existe alta tecnologia
    nesta tecnologia social.
  112. É um desejo humano básico
    de interação cara a cara.
  113. Atrai jovens e idosos,
    esquerda e direita,
  114. pobres e ricos, devotos e não devotos,
  115. de todas as etnias.
  116. Quando vão a um Sábado Cívico
    e são convidados a discutir algo como:
  117. "Por quem somos responsáveis?"
  118. ou "O que estamos dispostos a arriscar
    ou a perder pela nossa comunidade?"
  119. Quando isso acontece, algo muda.
  120. Vocês mudam.
  121. Começam a contar a vossa história.
  122. Começamos a ver-nos uns aos outros.
  123. Percebemos que os sem-abrigo,
    a violência das armas, a gentrificação,
  124. o trânsito horrível, a desconfiança
    de recém-chegados e as "fake news",
  125. essas coisas não são
    problemas de outras pessoas,
  126. são o conjunto dos nossos
    próprios hábitos e omissões.
  127. O nosso comportamento
    transforma a sociedade.
  128. Nunca nos pedem para refletir
    sobre a nossa cidadania.

  129. Muitos de nós nunca somos convidados
    a fazer mais ou a ser mais,
  130. e muitos de nós nem imaginam
    como desejamos esse convite.
  131. Desde então criámos um seminário cívico

  132. para começar a instruir toda a gente
    para liderar as reuniões do Sábado Cívico,
  133. por conta própria, nas suas cidades.
  134. Na comunidade de Athens, no Tennessee,
  135. uma líder vivaz chamada
    Whitney Kimball Coe
  136. lidera reuniões numa
    loja de arte e molduras
  137. com um grupo coral de jovens
    e muitas bandeiras pequenas.
  138. Um jovem ativista chamado Berto Aguayo
  139. liderou um Sábado Cívico
    numa esquina de rua
  140. no bairro Back of the Yards, em Chicago.
  141. O Berto já se envolveu com gangues.
  142. Agora, mantém a paz
  143. e organiza campanhas políticas.
  144. Em Honolulu, Rafael Bergstrom,
  145. um ex-jogador profissional de basebol
    que é agora fotógrafo e conservacionista,
  146. lidera reuniões com a mensagem
    "Civismo É Sexy".
  147. É mesmo.
  148. (Risos)

  149. Às vezes até os nossos
    seminaristas me perguntam:

  150. "Não é perigoso usar linguagem religiosa?"
  151. "Não tornará a nossa política
    ainda mais dogmática e presunçosa?"
  152. Mas este ponto de vista assume
  153. que toda a religião
    é um fundamentalismo fanático.
  154. Não é.
  155. Religião também é discernimento moral,
  156. aceitação de dúvida,
  157. um compromisso de nos desligarmos
    de nós mesmos para servir outros,
  158. um desafio para restaurar o mundo.
  159. Neste sentido, a política podia ser
    um pouco mais como a religião,
  160. não menos.
  161. Portanto, o meu último tópico hoje:

  162. por que razão a religião cívica
    é importante agora.
  163. Quero dar-vos duas razões.
  164. Uma é para contrariar
    a cultura de hiperindividualismo.
  165. Cada mensagem que recebemos
    em todos os ecrãs e superfícies
  166. do mercado moderno
  167. diz-nos que estamos sozinhos,
  168. somos um agente livre,
  169. livre para gerir as nossas marcas,
  170. livre para viver debaixo da ponte,
  171. livre para ter um trabalho extra,
  172. livre para morrer sozinho sem seguro.
  173. O mercado liberal diz-nos que somos
    mestres e não devemos nada a ninguém
  174. mas depois escraviza-nos
  175. no horrível isolamento do consumismo
    e ansiedade do estatuto.
  176. (Público) Sim!

  177. Milhões de nós já perceberam o truque.

  178. Estamos a perceber agora
  179. que livre para todos não significa
    liberdade para todos.
  180. (Aplausos)

  181. O que nos torna realmente livres
    é a ligação aos outros

  182. no apoio e obrigação mútuos,
  183. resolver as coisas da melhor forma
    nos nossos bairros e cidades,
  184. como se os nossos destinos
    estivessem ligados
  185. - porque estão -
  186. como se não pudéssemos
    separar-nos uns dos outros,
  187. porque, no final, não podemos.
  188. Juntarmo-nos desta forma liberta-nos.
  189. Revela que somos iguais na dignidade.
  190. Relembra-nos que os direitos
    vêm com responsabilidades.
  191. Relembra-nos, de facto,
  192. que os direitos entendidos corretamente
    são responsabilidades.
  193. A segunda razão por que
    a religião cívica é importante agora

  194. é que oferece a história mais
    saudável possível entre nós e eles.
  195. Hoje falamos de política de identidade
    como se fosse algo novo,
  196. mas não é.
  197. Toda a política é de identidade,
  198. uma luta interminável para definir
    quem pertence realmente.
  199. Em vez de mitos tóxicos de sangue e solo
    que marcam alguns como eternos intrusos,
  200. a religião cívica oferece a todos
    um caminho de pertença
  201. baseado apenas numa crença universal
    de contribuição, de participação,
  202. de inclusão.
  203. Na religião cívica, "nós"
    são aqueles que querem servir,
  204. fazer voluntariado,
    votar, ouvir, aprender,
  205. sentir empatia, discutir melhor,
  206. fazer circular o poder
    em vez de o acumular.
  207. O "eles" são aqueles
    que não o querem fazer.
  208. Podemos julgá-los severamente,
  209. mas não é necessário,
  210. porque, em qualquer altura,
    um deles pode tornar-se um de nós
  211. simplesmente escolhendo
    viver como um cidadão.
  212. Por isso, vamos dar-lhes as boas vindas.

  213. Whitney, Berto e Rafael são ótimos nisso.
  214. Cada um tem uma forma
    distinta e enraizada
  215. de fazer os outros entender
    a fé na democracia.
  216. A gíria deles pode ser dos Apalaches,
    do South Side ou do Havai.
  217. A mensagem é a mesma:
  218. amor cívico, espírito cívico,
    responsabilidade cívica.
  219. Podem pensar que tudo isto
    sobre religião cívica

  220. é apenas para americanos
    de segunda geração, cautelosos como eu.
  221. Mas, na verdade, é para qualquer um,
    onde quer que esteja,
  222. que queira estimular
    os laços de confiança,
  223. de afeto e de ação conjunta
  224. necessários para nos
    governarmos na liberdade.
  225. Os Sábados Cívicos podem
    não ser para vocês.
  226. Não faz mal.
  227. Encontrem a vossa própria forma
    de adotar hábitos cívicos do coração.
  228. Estão a florescer várias formas
    de comunidades cívicas amorosas

  229. nesta era de consciencialização.
  230. Grupos como Community Organizing Japan,
  231. que utiliza rituais criativos
    de contar histórias
  232. para promover a igualdade das mulheres.
  233. Na Islândia, confirmações civis,
  234. em que os jovens são liderados
    por alguém mais velho
  235. para aprender a história
    e as tradições cívicas da sociedade,
  236. culminam numa cerimónia
    de ritual de passagem
  237. semelhante ao crisma.
  238. Círculos Ben Franklin nos EUA,
  239. onde todos os meses se juntam amigos
  240. para discutir e refletir sobre
    as virtudes que Franklin listou
  241. na sua autobiografia,
  242. como justiça, gratidão e perdão.
  243. Sei que religião cívica não é o suficiente

  244. para solucionar as desigualdades
    extremas do nosso tempo.
  245. É necessário poder para isso.
  246. Mas o poder sem carácter
    é uma cura pior que a doença.
  247. Sei que só a religião cívica
    não consegue acabar com a corrupção,
  248. mas reformas institucionais
    sem novas normas não vão durar.
  249. A cultura fica a montante da lei.
  250. O espírito fica a montante da política.
  251. A alma fica a montante do estado.
  252. Não podemos despoluir a nossa política
    se apenas limparmos a jusante.
  253. Temos de chegar à fonte.
  254. A fonte são os nossos valores
  255. e no que toca a valores,
    o meu conselho é simples: tenham alguns.
  256. (Risos)

  257. (Aplausos)

  258. Certifiquem-se que
    esses valores são pró-sociais.

  259. Coloquem-nos em prática,
  260. e façam-no na companhia de outros,
  261. com uma estrutura de crença,
    de atos e de rituais alegres
  262. que vos farão continuar a voltar.
  263. Aqueles que acreditam na democracia
    e que esta ainda é possível

  264. têm o fardo de o provar.
  265. Mas lembrem-se,
    não é de todo um fardo
  266. fazer parte de uma comunidade
    que nos vê como integralmente humanos,
  267. em que temos uma palavra a dizer
    sobre as coisas que nos afetam
  268. e em que não precisamos de ser
    influentes para sermos respeitados.
  269. Isso é uma bênção
  270. e está disponível
    para todos os que acreditam.
  271. Obrigado.

  272. (Aplausos)