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← Para resolver problemas globais, olhem para os países em desenvolvimento

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Showing Revision 12 created 04/03/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Eu sou um ativista de ideias.
  2. Isso significa que eu luto
    pelas ideias em que acredito
  3. para que as pessoas
    tenham um lugar ao sol,
  4. independentemente da parte do mundo
    em que nasceram.
  5. Como eu também devia ter.
  6. Eu sou daquela parte do mundo
  7. frequente e eufemisticamente
    referida como "o Sul Global"
  8. ou "o mundo em desenvolvimento".
  9. Mas vamos ser honestos:
  10. quando dizemos estas palavras,
    o que queremos dizer é o mundo pobre,
  11. aqueles cantos do mundo
    com recipientes prontos a usar
  12. para as ideias em segunda mão
    de outros lugares e de outras pessoas.
  13. Mas eu estou aqui
    para sair um pouquinho do roteiro

  14. e para tentar convencer-vos
  15. que esses lugares, na verdade,
    estão vivos e cheios de ideias.
  16. O meu grande problema é:
    por onde começar?
  17. Talvez por Alexandria, no Egito,
  18. onde conhecemos Rizwan.
  19. Quando ele sai da sua tenda,
  20. vai a uma farmácia
    buscar remédios para o coração
  21. que podem impedir a coagulação
    do sangue nas artérias.
  22. Ele lida com o facto de que,
  23. apesar de uma epidemia crescente
  24. que atualmente causa 82%
    de todas as mortes no Egito,
  25. são os medicamentos que
    podem resolver essa situação
  26. que os falsificadores
    — como génios do mal que sempre são —
  27. decidiram contemplar.
  28. Falsificadores que fabricam
    medicamentos falsos.
  29. Felizmente, para Rizwan,

  30. a minha equipa e eu,
  31. trabalhando em parceria com a maior
    empresa farmacêutica de África
  32. colocámos códigos únicos
  33. — pensem neles
    como "passwords" descartáveis —
  34. em cada pacote do medicamento
    para o coração, mais vendido no Egito.
  35. Assim, quando Rizwan
    compra o medicamento para o coração,
  36. ele pode digitar essas senhas descartáveis
  37. para uma ligação gratuita
  38. que montámos em todas as empresas
    de telecomunicações no Egito
  39. de graça.
  40. Depois, recebe uma mensagem
    — chamem-lhe "mensagem da vida" —
  41. que o tranquiliza, dizendo-lhe
  42. que aquele medicamento não é
    um dos 12% dos remédios no Egito
  43. que são falsificados.
  44. Das esplendorosas margens do Nilo,

  45. passamos para
    o belo Vale do Rift no Quénia.
  46. Na cidade de Narok, conhecemos Ole Lenku,
    um homem íntegro.
  47. Quando ele entra numa loja
    de produtos agrícolas,
  48. quer sementes de couve certificadas
  49. que lhe garantam que,
    se ele as plantar,
  50. renderão uma colheita
    suficientemente rica
  51. para ele pagar as mensalidades
    da escola dos seus filhos.
  52. É só o que ele quer.
  53. Infelizmente,
  54. segundo o cálculo da maioria
    das organizações internacionais,
  55. 40% de todas as sementes
    vendidas na África Oriental e do Sul
  56. são de qualidade duvidosa,
  57. e às vezes totalmente falsas.
  58. Felizmente para Ole,
  59. mais uma vez, a nossa equipa
    deitou-se ao trabalho
  60. e, trabalhando com o principal
    regulador agrícola no Quénia,
  61. digitalizámos todo
    o processo de certificação
  62. para sementes, naquele país,
  63. para cada semente
    — milhete, sorgo, milho —
  64. de modo que, quando Ole Lenku
    digita um código num pacote de milhete,
  65. ele pode consultar
    um certificado digital
  66. que lhe assegura que a semente
    está devidamente certificada.
  67. Do Quénia,
    dirigimo-nos para Noida, na Índia

  68. onde a imparável Ambika
  69. está a progredir rapidamente quanto
    ao sonho de se tornar uma atleta de elite,
  70. sabendo com toda a segurança
  71. que, graças à nossa tecnologia
    de catalogação de ingredientes,
  72. não irá ingerir algo que, acidentalmente,
  73. vá atrapalhar os seus exames "antidoping"
  74. afastando-a dos desportos que ela adora.
  75. Finalmente, chegamos a Gana,

  76. o meu país de origem,
  77. onde há outro problema
    que precisa de ser abordado,
  78. o problema da falta de vacinação
    ou de vacinas de baixa qualidade.
  79. Quando colocamos vacinas
    na corrente sanguínea das crianças,
  80. estamos a proporcionar-lhes
    um seguro de vida
  81. contra doenças perigosas
    que podem causar deformações ou a morte.
  82. Às vezes, isso é para toda a vida,
  83. O problema é que as vacinas
    são organismos muito delicados,
  84. e têm de ser armazenadas
    entre dois e oito graus.
  85. Se não fizermos isso,
    elas perdem o seu poder,
  86. e deixarão de conferir a imunidade
  87. de que as crianças precisam.
  88. Trabalhando com cientistas
    de visão informática,
  89. transformámos marcadores simples
    nos frascos das vacinas
  90. numa coisa que podemos considerar
    como autênticos termómetros.
  91. Esses padrões mudam lentamente
    ao longo do tempo, reagindo à temperatura
  92. até que deixam um padrão diferente
    na superfície da vacina,
  93. de modo que uma enfermeira,
    com um "scan" do telefone,
  94. pode detetar se a vacina foi armazenada
    adequadamente na temperatura certa
  95. e ainda pode ser usada
  96. antes de a aplicar na criança,
  97. protegendo assim a geração seguinte.
  98. Estas são algumas das soluções
    para salvar vidas e resgatar sociedades,

  99. nestas partes do mundo.
  100. Mas vou lembrar-vos
  101. que há ideias poderosas por detrás delas
  102. e vou recapitular algumas.
  103. Primeiro, confiança social
    não é o mesmo que confiança interpessoal.
  104. Segundo, a divisão entre
    consumo e regulamentação
  105. num mundo cada vez mais interdependente
  106. já não é viável.
  107. E terceiro, a autonomia descentralizada,
  108. independentemente do que dizem
    os entusiastas do "blockchain" no Ocidente
  109. — que eu respeito muito —
  110. não é tão importante como reforçar
    "feedbacks" de responsabilidade social.
  111. Estas são algumas das ideias.
  112. Sempre que vou a algum lugar
    e faço esta palestra

  113. e faço estes comentários
    e forneço estes exemplos,
  114. as pessoas dizem:
  115. "Se essas ideias são tão brilhantes,
    porque não são difundidas?
  116. "Nunca ouvi falar delas."
  117. Quero garantir-vos
  118. que a razão pela qual vocês
    nunca ouviram falar destas ideias
  119. é exatamente o ponto
    que referi no início.
  120. Ou seja, que há partes no mundo
  121. onde as boas ideias não vingam,
  122. por causa da latitude do lugar
    onde nasceram.

  123. Chamo-lhe "imperialismo
    mental da latitude".

  124. (Risos)
  125. É essa a verdadeira razão.
  126. Vocês podem dizer:
  127. "Isso pode ser um grande problema
  128. "mas é um problema obscuro
    nalgumas partes do mundo.
  129. "Porque é que quer
    generalizar esse problema?
  130. "Ou seja, há locais melhores."
  131. E se, em resposta, eu vos disser
  132. que, na verdade, por detrás de cada um
    destes problemas que descrevi,
  133. há um problema básico
    de quebra de confiança
  134. nos mercados e nas instituições,

  135. e não há nada mais global,
    mais universal, mais próximo de nós
  136. do que o problema da confiança.
  137. Por exemplo, um quarto
    de todo o marisco vendido nos EUA
  138. está falsamente rotulado.
  139. Quando compramos uma sanduíche
    de atum ou de salmão em Manhattan
  140. podemos estar a comer algo
    que foi proibido no Japão por ser tóxico.
  141. Literalmente.
  142. Muitos de vocês ouviram falar
    duma época em que a carne de vaca
  143. dos hambúrgueres na Europa
    afinal era carne de cavalo.
  144. Vocês ouviram falar.
  145. O que vocês não sabem é que boa parte
    desses hambúrgueres falsos
  146. também estavam contaminados
    com cádmio, que pode danificar os rins.
  147. Isto foi na Europa.
  148. Vocês estão cientes dos acidentes
    de aviões e preocupam-se com eles,
  149. porque, de vez em quando,
    um deles é do vosso conhecimento.
  150. Mas aposto que vocês não sabem

  151. que uma simples investigação
    revelou um milhão de falsificações
  152. na cadeia de suprimentos
    aeronáuticos nos EUA.
  153. Portanto, isto é um problema global,
    ponto final.
  154. É um problema global.
  155. O único motivo para não estarmos
    a enfrentá-lo com a urgência necessária
  156. é porque as melhores soluções,
  157. as soluções mais avançadas,
    mais progressistas,
  158. infelizmente, estão em partes do planeta
    onde as soluções não se propagam.
  159. Por isso, não é surpreendente
  160. que as tentativas para criar os mesmos
    modelos de verificação para os fármacos
  161. estejam uma década atrasados
    nos EUA e na Europa,
  162. quando já estão disponíveis na Nigéria.
  163. Uma década de atraso
    e custando cem vezes mais.
  164. Por isso, quando entramos
    num Walgreens em Nova Iorque,
  165. não podemos verificar
    a origem do medicamento

  166. mas podemos fazê-lo
    em Maiduguri, na Nigéria.

  167. Essa é a realidade.

  168. (Aplausos)

  169. Essa é a realidade.
  170. (Aplausos)
  171. Então, voltamos ao problema das ideias.
  172. Lembrem-se, as soluções
    são apenas ideias empacotadas.
  173. Assim, as ideias
    são as coisas mais importantes.
  174. Num mundo onde marginalizamos
    as ideias do Sul Global,
  175. não podemos criar modelos inclusivos
    globais de solução de problemas.
  176. Vocês podem dizer:
  177. "Isso é mau, mas num mundo
    com tantos problemas

  178. "precisaremos de mais uma causa?"
  179. Eu digo que sim, que precisamos
    de mais uma causa.
  180. Essa causa vai surpreender-vos:
    a causa da justiça intelectual.
  181. Vocês dirão:
  182. "Justiça intelectual?
    Num mundo de abusos de direitos humanos?"
  183. Eu passo a explicar.
  184. Todos os problemas que nos afetam,
    com que nos confrontamos,
  185. precisam de soluções.
  186. Precisamos das melhores ideias
    para combatê-los.
  187. É por isso que eu pergunto:
  188. Podemos dar uma hipótese
    à justiça intelectual?

  189. (Aplausos)