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Showing Revision 19 created 10/01/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Chamo-me Dan Cohen,
    e sou um académico, como ele disse.
  2. Isto significa que eu discuto.
    É uma parte importante da minha vida.
  3. E eu gosto de discutir.
  4. Eu não sou só um académico,
    sou um filósofo.
  5. Portanto, gosto de pensar que sou
    mesmo muito bom a discutir.
  6. Mas também gosto de refletir
    sobre o ato de discutir.
  7. E, ao refletir sobre discussões,
    deparei-me com alguns quebra-cabeças.

  8. Eis um deles:
  9. como tenho refletido
    sobre a discussão ao longo dos anos
  10. — e já se passaram décadas —

  11. passei a discutir melhor.
  12. Mas quanto mais discuto,
    e à medida que me torno cada vez melhor,
  13. mais perco.
  14. E isto é um quebra-cabeças.
  15. O outro quebra-cabeças
    é que nem me importo.
  16. Porque é que eu não me importo de perder
  17. e acho que os bons argumentadores
    têm mais bom perder?
  18. Bom, há mais alguns quebra-cabeças.

  19. Um deles é: porque é que discutimos?
  20. Quem beneficia das discussões?
  21. Quando penso em discussões,
    estou a falar de...
  22. chamemos-lhes discussões
    académicas ou cognitivas,
  23. nas quais está em jogo
    algo de cognitivo:
  24. Esta proposição é verdadeira?
  25. Esta é uma boa teoria?
  26. Esta é uma interpretação viável
    da informação ou do texto?
  27. E assim por diante.
  28. Não tenho interesse em discussões
  29. sobre de quem é a vez de lavar a louça
    ou de deitar o lixo fora.
  30. Sim, também temos essas discussões.
  31. Costumo ganhá-las
    porque sei os truques.
  32. Mas essas não são importantes.
  33. O que me interessa são
    as discussões académicas
  34. e eis as coisas que me intrigam.

  35. Primeiro:
  36. que ganham os bons argumentadores
    quando ganham uma discussão?
  37. O que ganho se vos convencer
  38. que o utilitarismo não é o melhor sistema
    para refletir sobre teorias éticas?
  39. O que se ganha
    quando se ganha uma discussão?
  40. Mesmo antes disso,
  41. o que é que me interessa
    que achem que a teoria do Kant resulta
  42. ou que o Mill é o eticista certo a seguir?
  43. Para mim é igual ao litro
  44. que considerem o funcionalismo
    uma teoria da mente viável.
  45. Então, porque é tentamos discutir?
  46. Porque é que tentamos convencer os outros
    a crer no que não querem crer?
  47. E isso é bonito?

  48. Acham bem tratar um ser humano assim,
  49. tentar fazê-lo pensar
    algo que não quer pensar?
  50. A minha resposta vai fazer referência
    a três modelos para discussões.
  51. O primeiro, o modelo dialético,
    encara as discussões como uma guerra.
  52. Sabem como é:
    montes de gritaria, vitórias e derrotas.
  53. Não é lá muito útil para discutir,
  54. mas é um modelo de discussão
    muito comum e enraizado.

  55. Mas há um segundo modelo de discussão:
    discussões como provas.
  56. Pensem no argumento de um matemático.
  57. Eis o meu argumento.
  58. Funciona? É bom?
  59. As premissas estão justificadas?
  60. As inferências são válidas?
  61. A conclusão faz sentido face às premissas?
  62. Não há oposição nem adversários;
  63. não há necessariamente discussão
    no sentido de oposição.

  64. Mas há um terceiro modelo a ter em mente
    que julgo que será muito útil:
  65. são as discussões como "performances",
    discussões diante de uma audiência.
  66. Podemos pensar num político
    a tentar apresentar uma posição,
  67. a tentar convencer a audiência de algo.
  68. Mas há outra peculiaridade neste modelo
    que me parece importante.
  69. Às vezes, quando se argumenta
    diante de uma audiência,
  70. esta tem um papel mais participativo
    na discussão.
  71. Ou seja, as discussões também são
    "performances" diante de júris,
  72. que formam um juízo e decidem o caso.
  73. Chamemos-lhe o modelo retórico,
  74. no qual é preciso ajustar o argumento
    ao público em questão
  75. Apresentar um argumento sólido,
    bem fundamentado e hermético em inglês
  76. a um público francófono, não vai resultar.
  77. Então, temos estes modelos:
  78. discussão como uma guerra,
    como uma prova e como "performance".
  79. Destes três, a discussão como guerra
    é o modelo dominante.

  80. Domina o modo como falamos
    sobre discussões,
  81. como pensamos sobre discussões,
  82. e, por causa disso,
    modela o modo como discutimos,
  83. a nossa conduta nas discussões.
  84. Quando falamos sobre discussões,
    usamos uma linguagem muito militarista.

  85. Queremos argumentos fortes,
    discussões cheias de pancada,
  86. que acertem mesmo no alvo.
  87. Queremos ter as defesas em alta
    e as estratégias em ordem.
  88. Queremos discussões de morte.
  89. É este o tipo de discussão que queremos.
  90. É o modo dominante
    de pensar sobre discussões.
  91. Quando falo de discussões,
  92. provavelmente pensam
    no modelo adversativo.
  93. Mas a metáfora da guerra,
  94. este paradigma ou modelo
    para pensar sobre discussões,
  95. tem efeitos deformadores
    sobre o modo como discutimos.
  96. Primeiro, sobrepõe a tática à substância.

  97. Podem ter aulas de lógica e argumentação.
  98. Aprendem tudo sobre os subterfúgios
  99. que se usam para ganhar discussões
    — os passos em falso.
  100. Amplia o lado nós contra eles da questão.
  101. Torna-a controversa; é polarizadora.
  102. E os únicos resultados previsíveis
  103. são ou o triunfo — um triunfo glorioso —
  104. ou uma derrota abjeta e ignominiosa.
  105. Creio que são efeitos deformadores.
    E o pior de tudo é que parece impedir
  106. coisas como negociação, ou deliberação,
    ou compromisso — ou colaboração.
  107. Pensem nisto: já começaram
    uma discussão a pensar:
  108. "Vejamos se dá para chegar a um consenso,
    em vez de andarmos em disputas.
  109. "O que podemos resolver juntos?"
  110. Creio que a metáfora
    da discussão como guerra
  111. inibe estes outros tipos
    de resolução da discussão.
  112. E, por fim — isto é mesmo o pior —
    as discussões não levam a lado nenhum.
  113. São becos sem saída.
  114. São como rotundas, filas de trânsito
    ou engarrafamentos na conversa.
  115. Não se chega a lado nenhum.
  116. E há outra coisa.

  117. Enquanto educador,
    é isto que me incomoda mais:
  118. se a discussão é uma guerra,
  119. então há uma equação implícita
    de aprender com perder.
  120. Vou explicar o que quero dizer.
  121. Imaginem que temos uma discussão.
  122. Vocês acreditam numa proposição, P,
    mas eu não.
  123. E digo: "Porque é que acreditam em P?"
  124. Vocês dão-me as vossas razões.
  125. Eu faço uma objeção:
    "Bem, então e...?"
  126. E vocês respondem à objeção.
  127. Eu pergunto: "Que querem dizer?
  128. "Como é que isso se aplica aqui?"
  129. E vocês respondem à pergunta.
  130. No fim de contas,
    suponhamos que fiz perguntas e objeções,
  131. levantei uma série
    de contra-contra-considerações
  132. e vocês responderam sempre
    de forma satisfatória.
  133. Portanto, no fim de contas, eu digo:
  134. "Sabem que mais?
    Acho que têm razão: P."
  135. Assim, eu tenho uma nova crença.
  136. E não é uma crença qualquer.
  137. É uma crença bem-articulada, examinada,
    é uma crença testada em combate.
  138. Um ganho cognitivo enorme.
    Muito bem, quem ganhou esta discussão?

  139. A metáfora da guerra parece forçar-nos
    a dizer que vocês ganharam,
  140. embora eu seja o único
    que obteve um ganho cognitivo.
  141. Que ganho cognitivo obtiveram
    por me terem convencido?
  142. Claro, deu-vos algum gozo,
    se calhar massajou-vos o ego,
  143. se calhar obtiveram
    prestígio profissional no campo:
  144. "Este tipo é um bom argumentador."
  145. Mas agora, só do ponto de vista cognitivo,
  146. quem foi o vencedor?
  147. A metáfora da guerra forçar-nos a pensar
  148. que vocês ganharam e eu perdi,
    embora eu tenha ganho.
  149. E há algo de errado com esta perspetiva.
  150. E é isto que eu quero mudar, se possível.
  151. Então, como é que podemos
    encontrar formas

  152. de fazer com que as discussões
    produzam algo de positivo?
  153. Precisamos de novas estratégias
    de saída para as discussões.
  154. Mas não vamos ter novas estratégias
    de saída para as discussões
  155. enquanto não tivermos novas abordagens
    de entrada nas discussões.
  156. Precisamos de pensar
    em novos tipos de discussões.
  157. Para fazer isso...
  158. Bem... eu não sei como fazer isso.
  159. São estas as más notícias.
  160. A metáfora da discussão
    como guerra é... é um monstro.
  161. Fixou residência na nossa mente,
  162. e não há balas mágicas
    capazes de matá-lo.
  163. Não há uma varinha mágica
    que a vá fazer desaparecer.
  164. Eu não tenho uma resposta.
  165. Mas tenho sugestões.
  166. Eis a minha sugestão:
  167. Se quiserem pensar
    em novos tipos de discussões,

  168. é necessário pensar
    em novos tipos de argumentadores.
  169. Portanto, experimentem isto:
  170. pensem em todos os papéis
    que desempenhamos nas discussões.
  171. Temos o proponente e o oponente
    na discussão dialética, adversativa.
  172. Há a audiência nas discussões retóricas.
  173. Há o raciocinador
    das discussões como prova.
  174. Todos estes papéis.
  175. Conseguem imaginar uma discussão
    na qual são o argumentador,
  176. mas também estão na audiência
    a verem-se a vós próprios discutir?
  177. Conseguem imaginar
    que estão a ver-se discutir,
  178. que perdem a discussão,
  179. e que, apesar disso, dizem no fim:
  180. "Uau, foi uma boa discussão!"
  181. Conseguem fazer isto?
  182. Acho que conseguem.
  183. E se conseguirem imaginar discussões
    nas quais o vencido diz ao vencedor
  184. e a audiência e o júri podem dizer
    "Sim, foi uma boa discussão",
  185. então imaginaram uma boa discussão.
  186. E, mais que isso,
    imaginaram um bom argumentador,
  187. um exemplo digno
    do tipo de argumentador
  188. que devem tentar ser.
  189. Eu perco muitas discussões.
  190. É preciso prática
    para ser um bom argumentador,
  191. no sentido de tirar proveito da derrota.
  192. Mas, felizmente, tive muitos colegas
    dispostos a voluntariar-se

  193. e a proporcionar-me essa prática.
  194. Obrigado.

  195. (Aplauso)