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← Ditadores odeiam cartuns políticos, então vou continuar a desenhá-los

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Showing Revision 74 created 02/10/2020 by Maricene Crus.

  1. [Esta palestra é proferida em espanhol
    com tradução consecutiva para o inglês]
  2. (Rayma Suprani: fala em espanhol)

  3. Cloe Shasha: Quando menina, eu desenhava
    em todas as paredes da minha casa.

  4. (RS: fala em espanhol)

  5. CS: Até que, um dia, minha mãe
    ficou brava comigo e falou:

  6. "Você pode desenhar só em uma parede.
  7. Não desenhe nas outras".
  8. (Risos)

  9. (RS: fala em espanhol)

  10. CS: Foi minha primeira experiência
    com um ato de censura totalitária.

  11. (Risos)

  12. (RS: fala em espanhol)

  13. CS: Mas a falta de liberdade
    estimula a criatividade e a empodera.

  14. (RS: fala em espanhol)

  15. CS: Muitos anos se passaram
    desde minha infância,

  16. mas, ao longo da minha vida acadêmica,
  17. me vi desenhando
    nas margens dos meus cadernos
  18. em vez de prestar atenção na aula.
  19. Estudei jornalismo na faculdade
  20. com a intenção de expandir minhas
    habilidades comunicativas e escritas,
  21. mas a única coisa na vida
    que me fazia sentir conectada
  22. era desenhar.
  23. (RS: fala em espanhol)

  24. CS: Nasci numa democracia,

  25. num país chamado Venezuela,
    que agora é uma ditadura.
  26. (RS: fala em espanhol)

  27. CS: Por 19 anos,

  28. fui a cartunista diária do "El Universal",
  29. um dos maiores jornais da Venezuela.
  30. Eu adorava traduzir eventos políticos
    e culturais atuais em desenhos.
  31. (RS: fala em espanhol)

  32. CS: Em 2014,

  33. fui demitida do meu emprego no jornal
    por causa de um cartum
  34. que fazia alusão ao sistema
    de saúde venezuelano.
  35. Desenhei uma linha
    com batimentos cardíacos,
  36. mas intencionalmente fiz essa linha
  37. de modo a parecer
    a assinatura de Hugo Chávez,
  38. o ex-presidente da Venezuela.
  39. (Risos)

  40. (RS: fala em espanhol)

  41. CS: Tudo isso aconteceu
    após o jornal ser comprado

  42. por uma empresa-fantasma,
  43. o que nos fez suspeitar
  44. que o governo venezuelano
    estava por trás desse acordo.
  45. (RS: fala em espanhol)

  46. CS: Meu trabalho como cartunista passou
    a incomodar cada vez mais a ditadura.

  47. Eles não têm tolerância com a liberdade
    de expressão ou o pensamento livre.
  48. (RS: fala em espanhol)

  49. CS: Depois de ser demitida,

  50. comecei a me sentir insegura
    no meu próprio país.
  51. Recebi chamadas anônimas
    e ameaças de morte.
  52. Fui ridicularizada publicamente
    em rede nacional.
  53. Acabei sendo forçada a sair da Venezuela,
  54. e agora moro em Miami, na Flórida,
  55. onde sou livre para ser
    a editora do meu trabalho.
  56. (RS: fala em espanhol)

  57. CS: A caricatura política
    é o termômetro da liberdade num país.

  58. É por isso que ditadores
    odeiam cartunistas
  59. e tentam erradicar tudo que envolva humor
  60. como um espelho para questões
    sociais e políticas.
  61. (RS: fala em espanhol)

  62. CS: O cartum envolve um delicado
    equilíbrio entre ideias e desenhos

  63. que revelam uma verdade oculta.
  64. (RS: fala em espanhol)

  65. CS: O bom cartum é aquele que transmite
    o enredo de todo um filme

  66. num único quadro.
  67. (RS: fala em espanhol)

  68. CS: O cartum precisa comunicar
    o núcleo de uma história com precisão.

  69. E, quando consegue isso,
  70. sua mensagem pode ter
    o efeito de inocular pessoas
  71. com uma dose de ceticismo.
  72. (RS: fala em espanhol)

  73. CS: Os cartuns são desenhados
    a partir da observação e análise.

  74. Eles são inspirados
    por musas da mitologia,
  75. bem como contos clássicos,
    modernos e paleolíticos.
  76. (Risos)

  77. Quando nos dizem que um imperador moderno
    está usando roupas novas,

  78. os cartuns revelam que ele está nu.
  79. (RS: fala em espanhol)

  80. CS: A certa altura de minha carreira,

  81. desenhei porcos e os comparei
    a políticos e à guarda nacional,
  82. responsáveis ​​por reprimir
    demonstrações pacíficas de estudantes.
  83. Um dia, quando voltei à minha sala,
  84. havia uma carta sobre minha mesa.
  85. (RS: fala em espanhol)

  86. CS: A carta era da Federação
    Venezuelana de Suínos.

  87. (Risos)

  88. (RS: fala em espanhol)

  89. CS: A carta dizia:

  90. "Por favor, não compare um animal
    maravilhoso como o porco com políticos.
  91. (Risos)

  92. Os porcos são muito amigáveis ​​e nobres,
    podem ser ótimos mascotes,

  93. dão bons animais de estimação
    e nos alimentam com sua carne.
  94. (RS: fala em espanhol)

  95. CS: Eles estavam certíssimos.

  96. Parei de desenhar porcos,
  97. mas continuei desenhando políticos.
  98. (Risos)

  99. (RS: fala em espanhol)

  100. CS: O cartum viaja numa rota de informação

  101. que parece ter múltiplas pistas,
  102. mas, na realidade, todas essas pistas
  103. levam a uma resposta binária:
    positiva ou raivosa.
  104. "Curti" ou "Não curti".
  105. Essas são as únicas respostas que governam
    o pensamento democrático na internet.
  106. (RS: fala em espanhol)

  107. CS: Nos debates, perdemos as nuances,

  108. não temos tempo,
  109. então simplesmente respondemos
    com aprovação ou desdém,
  110. e deixamos os algoritmos
    assumirem o controle.
  111. (RS: fala em espanhol)

  112. CS: Mas o cartum nasce num espaço
    de pensamento profundo e matizado.

  113. Criar um bom cartum
    envolve repetidos fracassos,
  114. um rascunho após o outro.
  115. E um cartunista deve controlar
    seus próprios tabus
  116. para estimular a conversa,
    em vez do confronto,
  117. através do seu trabalho.
  118. (RS: fala em espanhol)

  119. CS: Em 2013, o presidente Chávez morreu,

  120. e tive de pensar no que desenhar
    para o cartum diário do jornal.
  121. Eu estava pessoalmente feliz
    por ele ter morrido,
  122. porque achei que o fim do seu poder
  123. potencialmente aproximaria nosso país
    da liberdade e de melhores tempos.
  124. (RS: fala em espanhol)

  125. CS: Mas havia muitas outras pessoas
    de luto pela morte do Chávez,

  126. então havia um sentimento
    dividido na Venezuela.
  127. Alguns comemoravam,
  128. e outros choravam a perda de seu líder.
  129. (RS: fala em espanhol)

  130. CS: Empaquei.

  131. Não sabia o que desenhar
    naquele momento histórico.
  132. E não podia deixar minha felicidade
    se infiltrar no meu trabalho,
  133. que deveria manter o nível,
    e respeitar a dor das pessoas.
  134. Então, o que desenhar?
  135. (RS: fala em espanhol)

  136. CS: Passei horas desenhando
    e descartando rascunhos.

  137. Meu editor me ligou e disse que tudo
    estava atrasado para a edição do dia
  138. e me perguntou quando eu terminaria.
  139. Foi no meio da noite que a ideia me veio.
  140. E então publicamos um cartum
  141. que representava um momento histórico.
  142. (RS: fala em espanhol)

  143. CS: A peça do rei do jogo de xadrez
    tombada, na cor vermelha.

  144. (RS: fala em espanhol)

  145. CS: Um bom cartum tem muito poder.

  146. Pode gerar ação e reação.
  147. É por isso que um cartunista deve exercer
    seu poder com responsabilidade,
  148. mostrando a verdade
  149. e desenhando sem medo das consequências.
  150. (RS: fala em espanhol)

  151. CS: Ter opinião tem um preço

  152. e, em alguns países, esse custo é alto.
  153. (RS: fala em espanhol)

  154. CS: Na Venezuela, muitos jovens
    foram mortos por protestar pacificamente.

  155. Há homens e mulheres atrás das grades
  156. como prisioneiros políticos.
  157. Então, ao longo dos anos, tenho desenhado
    o rosto de mulheres presas,
  158. porque não quero que elas
    sejam esquecidas pela comunidade.
  159. (RS: fala em espanhol)

  160. CS: Este ano, num evento
    chamado El Foro Penal,

  161. um fórum criminal que reúne
    advogados voluntários
  162. que ajudam prisioneiros
    políticos venezuelanos,
  163. uma jovem se aproximou de mim e disse:
  164. "Eu estava presa, e você desenhou
    meu rosto e minha história.
  165. É por causa desse desenho
    que as pessoas sabiam quem eu era.
  166. Seu cartum me ajudou a sobreviver
    nos meus dias na prisão.
  167. Obrigada!"
  168. (RS: fala em espanhol)

  169. CS: Foi um momento especial pra mim,

  170. pois era uma maneira de colaborar
    com as memórias de meu país e seu povo.
  171. (RS: fala em espanhol)

  172. CS: Ano passado, comecei a fazer
    desenhos sobre imigração.

  173. Desenhei meu próprio mundo, meus medos,
  174. minha mala, minhas raízes
  175. e tudo o que tive de deixar
    pra trás na Venezuela.
  176. Também desenhei minha alegria
    em face dessa nova oportunidade
  177. como imigrante nos Estados Unidos.
  178. (RS: fala em espanhol)

  179. CS: Dali, trabalhei numa série de desenhos

  180. que representavam a experiência
    e a psicologia da imigração.
  181. (RS: fala em espanhol)

  182. CS: Ser imigrante é
    como se mudar para outro planeta.

  183. No começo, você não entende
    nada sobre seu novo mundo.
  184. Existem novos códigos, um novo idioma
  185. e ferramentas desconhecidas
    que é preciso aprender a usar
  186. para se adaptar à sua nova vida.
  187. (RS: fala em espanhol)

  188. CS: Ser imigrante é a coisa
    mais próxima de ser um astronauta

  189. que pousa na Lua.
  190. (RS: fala em espanhol)

  191. CS: Com o tempo, esses desenhos
    se tornaram uma exposição itinerante

  192. chamada "Eu, imigrante".
  193. E a exposição viajou para várias cidades,
  194. incluindo Miami, Houston,
    Madri e Barcelona,
  195. e, esperamos, viaje para mais lugares.
  196. (RS: fala em espanhol)

  197. CS: A mostra se tornou um espaço
    de reunião para a diáspora,

  198. para pessoas reconhecerem as experiências
    compartilhadas de sofrimento
  199. que vêm com a imigração.
  200. (RS: fala em espanhol)

  201. CS: Quero que esses desenhos transmitam
    que o imigrante não é um criminoso.

  202. O imigrante é uma pessoa
    cuja vida foi fragmentada.
  203. Provavelmente uma pessoa
    separada de sua família
  204. em condições desumanas.
  205. Que foi forçada a deixar seu país
    em busca de uma vida melhor.
  206. (RS: fala em espanhol)

  207. CS: Um desenho pode sintetizar um lugar,

  208. um universo, um país ou uma sociedade.
  209. Também pode representar
    o funcionamento da mente de alguém.
  210. Para mim, desenhar caricaturas
    é uma forma de resistência.
  211. (RS: fala em espanhol)

  212. CS: O cartum é como uma Pedra de Roseta.

  213. Se o lançarmos no espaço sideral,
  214. um futuro alienígena seria
    capaz de saber com certeza
  215. que, no passado,
  216. houve aqui um mundo civilizado
    com pensamento livre.
  217. (RS: fala em espanhol)

  218. CS: A parede em que minha mãe me deu
    a liberdade de desenhar parece infinita.

  219. E é por isso que sigo desenhando.
  220. RS: Muito obrigada!

  221. (Vivas) (Aplausos)