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← Como Dolly Parton me inspirou uma revelação

Como é que terminamos uma história? O apresentador de "Radiolab", Jad Abumrad, conta como a sua busca por uma resposta o levou às montanhas do Tennessee, onde conheceu uma sábia professora: Dolly Parton.

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Showing Revision 12 created 08/27/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Quero falar-vos sobre a procura
    do meu objetivo como jornalista
  2. e de como Dolly Parton
    me ajudou a descobri-lo.
  3. Eu tenho contado histórias em áudio
    ao longo de 20 anos,

  4. primeiro na rádio
    e depois em "podcasts".
  5. E quando comecei o programa
    de rádio "Radiolab" in 2002,
  6. esta era a quinta essência
    da história que íamos fazer.
  7. Nós convidávamos alguém...
  8. (Áudio) Steven Strogatz:
    É um dos espetáculos

  9. mais hipnóticos e fascinantes na natureza,
  10. porque, temos de ter em mente,
    é um silêncio absoluto.
  11. Jad Abumrad: Como este indivíduo,
    o matemático Steve Strogatz,

  12. a descrever uma imagem.
  13. SS: Imaginem, há uma margem
    num rio na Tailândia,

  14. na parte remota da selva,
  15. estamos numa canoa,
    a deslizar rio abaixo.
  16. Não há nenhum som,
  17. talvez um pássaro exótico
    ocasional na selva ou qualquer coisa.
  18. JA: Estamos nessa
    canoa imaginária com Steve,

  19. e no ar ao seu redor
    há milhões de pirilampos.
  20. E o que vemos é uma espécie
    de efeito aleatório de noite estrelada.
  21. Porque todos os pirilampos
    piscam a ritmos diferentes,
  22. como seria de esperar.
  23. Mas, de acordo com Steve,
    neste lugar único,
  24. por razões que nenhum cientista
    consegue explicar...
  25. SS: Uup!

  26. Uup!
  27. Uup!
  28. Com milhares de luzes acesas
    e depois apagadas, tudo em sincronia.
  29. (Música)
  30. JA: É nesta altura que eu meteria
    a bela musica, como acabei de fazer,

  31. e começávamos a ter
    uma sensação de calor.
  32. Um sentimento que, segundo a ciência,
  33. se localiza na cabeça e no peito
    e se espalha pelo corpo.
  34. É aquela sensação de admiração.
  35. De 2002 a 2010,
    eu fiz centenas destas histórias.

  36. Ciência, neurociência,
    histórias muito inebriantes e inteligentes
  37. que sempre terminavam
    num sentimento de admiração.
  38. E comecei a ver isso como o meu trabalho,
  39. levar as pessoas a momentos de admiração.
  40. O som era parecido com:
  41. Huh!

  42. Uaaaau!
  43. Uau!
  44. Isto é incrível.
  45. Uau! Uau!
  46. JA: Mas comecei a ficar
    um pouco cansado destas histórias.

  47. Quer dizer, em parte, foi a repetição.
  48. Lembro-me que um dia
    eu estava sentado ao computador,
  49. a fazer o som de um neurónio.
  50. (Som crepitante)

  51. Pega-se em ruído branco, corta-se,
    é um som muito fácil de criar.

  52. Eu lembro-me de pensar,
    "Já fiz este som 25 vezes."
  53. Mas foi mais do que isso.
  54. Havia um caminho familiar
    nestas histórias.
  55. Andamos no caminho da verdade,
    que é feito de ciência,
  56. e começamos a questionar.
  57. Eu adoro a ciência,
    não me interpretem mal.

  58. Os meus pais emigraram
    de um país em guerra,
  59. vieram para a América.
  60. A ciência, para eles, fazia parte
    integrante da sua identidade,
  61. e eu herdei isso deles.
  62. Mas havia algo
    naquele movimento simples
  63. da ciência para a admiração
  64. que começou a parecer-me errado.
  65. Seria aquele o único caminho
    que uma história podia ter?
  66. Por volta de 2012,

  67. encontrei um monte de histórias diferentes
    que me fizeram pensar: "Não".
  68. Uma história em particular,
  69. em que entrevistámos um indivíduo
    que descreveu armas químicas
  70. usadas contra ele e contra
    os seus companheiros aldeões
  71. nas montanhas do Laos.
  72. Cientistas ocidentais foram lá,
  73. fizeram medições à procura delas,
    não encontraram nada.
  74. Questionámos o homem, que disse
  75. que os cientistas estavam enganados.
  76. Dissemos: "Mas eles fizeram testes".
  77. E ele: "Não me interessa,
    eu sei o que aconteceu."
  78. Nós andámos de um lado para o outro
  79. e, resumindo a história,
  80. a entrevista terminou em lágrimas.
  81. Eu senti-me...
  82. Eu senti-me horrível.
  83. Tipo, martelar numa verdade científica,
    quando alguém sofreu,
  84. não ia curar nada.
  85. Talvez eu estivesse a confiar demasiado
    na ciência para encontrar a verdade.
  86. E realmente senti, naquele momento,
  87. que havia muitas verdades na sala,
  88. e estávamos apenas a olhar para uma delas.
  89. Então, pensei: "Eu tenho
    de conseguir melhorar isto."
  90. E assim, nos oito anos seguintes,

  91. empenhei-me em fazer histórias
    em que as verdades colidem.
  92. Fizemos histórias
    sobre política do consentimento,
  93. ouvimos a perspetiva
    de sobreviventes e perpetradores
  94. que estavam em desacordo.
  95. Fizemos histórias sobre racismo
  96. sobre negros eliminados
    sistematicamente de júris,
  97. e as regras para evitar que isso aconteça
    e só pioram as coisas.
  98. Histórias sobre contraterrorismo,
    sobre detidos de Guantánamo,
  99. onde tudo é controverso,
  100. tudo o que podemos fazer é lutar
    para tentar fazer sentido.
  101. E essa luta tornou-se o ponto forte.
  102. Comecei a pensar:
    "Talvez seja este o meu trabalho."
  103. Conduzir as pessoas
    a momentos de luta.
  104. Eis os sons dessa tarefa:
  105. Mas eu vejo...

  106. Gostava...

  107. Eu...

  108. Bem... Então, como...

  109. Isso significa
  110. Sabem — caramba — eu...
    Suspiro...

  111. JA: E aquele suspiro

  112. era o som que eu queria ouvir
    em cada uma das histórias,
  113. porque é o som
    do nosso momento presente, não é?
  114. Vivemos num mundo em que a verdade
    já não é um conjunto de factos
  115. a serem captados.
  116. Tornou-se num processo.
  117. Deixou de ser um substantivo
    para ser um verbo.
  118. Mas como é que terminamos esta história?
  119. O que acontecia é que estávamos,
    a contar uma história,
  120. cruzando dois pontos de vista em conflito.
  121. Chegamos ao fim e é como...
  122. Não, deixem-me ver.
  123. O que é que eu digo no fim?
  124. Oh meu Deus.
  125. Como é que terminamos esta história?
  126. Não podemos terminar
    com um final feliz,
  127. porque não parece real.
  128. Ao mesmo tempo,
  129. não podemos deixar as pessoas a pensar:
  130. "Porque é que acabei de ouvir isto?"
  131. Parecia que devia haver
    outro desenvolvimento.
  132. Tinha de haver um caminho
    para além da luta.
  133. E é isso que me leva a Dolly.

  134. Ou a Santa Dolly, como gostamos
    de lhe chamar no Sul.
  135. Vou falar-vos de um pequeno
    vislumbre de uma revelação que tive,
  136. quando fiz a série chamada
    "A América de Dolly Parton".
  137. Para mim foi uma espécie de partida,
  138. mas eu tive a intuição
    de que Dolly me pudesse ajudar
  139. a descobrir este problema do final.
  140. A intuição básica era esta:

  141. Vamos a um concerto da Dolly,
  142. vemos homens com bonés
    de camionista ao lado de travestis,
  143. democratas e republicanos,
  144. mulheres abraçadas,
  145. todo o tipo de pessoas misturadas.
  146. Todas essas pessoas que supostamente
    se odeiam umas às outras
  147. estão ali a cantar juntas.
  148. Ela de certa forma esculpiu
    este espaço único na América,
  149. e eu queria saber como é
    que ela tinha feito isso.
  150. Entrevistei a Dolly 12 vezes,
    em dois continentes separados.

  151. Ela começou todas
    as entrevistas desta forma:
  152. Dolly Parton: Pergunta-me o que quiseres
    e eu respondo o que me apetecer."

  153. (Risos)

  154. JA: Ela é inegavelmente
    uma força da natureza.

  155. Mas o problema que eu encontrei
  156. é que eu tinha escolhido
    um conceito para esta série
  157. que me mortificava a alma.
  158. A Dolly canta muito sobre o Sul.
  159. Se virem a discografia dela,
  160. vão ouvir música após música
    sobre o Tennessee.
  161. DP: ♪ Tennessee, Tennessee ...

  162. ♪ Com saudades do Tennessee ...
  163. ♪ Tenho estes "blues" do Tennessee
    na minha cabeça.
  164. ♪ Tennessee.
  165. JA: "Tennessee Mountain Home",
    "Tennessee Mountain Memories".

  166. Eu cresci no Tennessee,
  167. e não sentia saudades
    nenhumas desse lugar.
  168. Eu era o miúdo árabe esquelético
  169. que tinha vindo do lugar
    que inventou o atentado suicida.
  170. Passava muito tempo no meu quarto.
  171. Quando saí de Nashville, saí mesmo.
  172. Lembro-me de estar em Dollywood,

  173. em frente duma réplica da casa
    da montanha do Tennessee dela.
  174. As pessoas ao meu redor choravam.
  175. Não passa de um cenário.
  176. Porque estão a chorar?
  177. Não conseguia entender porque
    é que estavam tão comovidos,
  178. especialmente dada
    a minha relação com o Sul.
  179. Comecei a ter ataques de pânico
    por causa disso.
  180. "Não seria a pessoa certa
    para este projeto? "
  181. Mas depois,

  182. uma reviravolta do destino.
  183. Encontrámos este tipo, Bryan Seaver,
  184. sobrinho e guarda-costas de Dolly.
  185. E, por acaso, ele leva-me
    e ao realizador Shima Oliaee
  186. para fora de Dollywood,
  187. até à parte por detrás das montanhas.
  188. Levámos 20 minutos a subir a montanha
  189. por uma estreita estrada de terra,
  190. passámos enormes portões de madeira
    que lembravam a "Guerra dos Tronos",
  191. e chegámos à verdadeira
    casa da montanha do Tennessee.
  192. Ao lugar real — Valhalla
  193. A verdadeira casa
    da montanha do Tennessee.
  194. E vou pôr música de Wagner,

  195. porque vocês têm de entender
  196. que, na tradição do Tennessee,
  197. isto é como solo sagrado,
    a casa da montanha do Tennessee.
  198. Lembro-me de estar ali, na relva,

  199. ao lado do rio Pigeon,
  200. borboletas a voar em círculos pelo ar,
  201. e tive o meu momento de admiração.
  202. A casa da montanha do Tennessee da Dolly
  203. parece-se exatamente com a casa
    do meu pai, nas montanhas do Líbano.
  204. A casa dela parece-se
    com o lugar que ele deixou.

  205. E aquele simples paralelismo
    levou-me a ter uma conversa com ele
  206. que nunca tinha tido,
  207. sobre a dor que ele sentira
    ao sair de casa.
  208. E como ele ouve isso na música da Dolly.
  209. Então, eu tive uma conversa com a Dolly
    em que ela descreveu as suas canções
  210. como música de migração.
  211. Mesmo aquela canção clássica,
  212. "A casa da montanha do Tennessee",
    se a ouvirem...
  213. Dolly Parton:
    ♪ Sentada no alpendre da frente

  214. ♪ numa tarde de verão
  215. ♪ Numa cadeira, sobre duas pernas,
  216. ♪ encostada à parede.
  217. É sobre tentar captar um momento
    que sabemos que já passou.

  218. Mas se conseguirmos pintá-lo, vividamente,
  219. talvez possamos congelá-lo no lugar,
    quase como em resina,
  220. preso entre o passado e o presente.
  221. Essa é a experiência do imigrante.
  222. E esse simples pensamento
    levou-me a um milhão de conversas.

  223. Comecei a falar com musicólogos
    sobre a música "country" como um todo.
  224. Esse género que sempre senti
  225. que não tinha nada a ver
    com o sítio de onde eu vim,
  226. é feito de instrumentos e estilos musicais
  227. que vieram diretamente do Médio Oriente.
  228. Na verdade, havia rotas comerciais
    que partiam do que é hoje o Líbano
  229. diretamente para as montanhas
    do leste do Tennessee.
  230. Posso dizer honestamente, ali parado,
    a olhar para a casa dela,

  231. que foi a primeira vez que me senti
    como um cidadão do Tennessee.
  232. Sinceramente.
  233. E isso não aconteceu só uma vez.

  234. Repetiu-se vezes sem conta,
  235. ela forçava-me para além
    das categorias simples
  236. que eu tinha construído para o mundo.
  237. Falei com ela sobre a sua parceria
    de sete anos com Porter Wagoner.
  238. Em 1967, ela juntou-se à banda dele,
    ele é o maior na música "country",
  239. ela é uma cantora de apoio,
    não é ninguém.
  240. Em pouco tempo, ela torna-se enorme,
  241. ele fica com ciúmes,
  242. e então ele processa-a
    em três milhões de dólares
  243. quando ela tenta ir-se embora.
  244. Seria muito fácil ver Porter Wagoner
  245. como um clássico tipo idiota, patriarcal,
  246. a tentar segurá-la.

  247. Mas eu nunca lhe diria uma coisa dessas...
  248. (Áudio) Este é um indivíduo que
    também vemos nos vídeos.

  249. Ele tem o braço à sua volta.
  250. Há qualquer coisa de poder
    a acontecer, com certeza.
  251. DP: Bom, é mais complicado do que isso.

  252. Quer dizer, pensem nisso.
  253. Ele tinha aquele espetáculo há anos,
  254. não precisava que eu tivesse
    o seu espetáculo de sucesso.
  255. Ele também não esperava
    que eu fosse tudo o que eu era.
  256. Eu era uma artista séria,
    ele não sabia disso.
  257. Ele não sabia quantos sonhos eu tinha.
  258. JA: Na verdade, ela dizia-me:

  259. "Não tragas a tua perspetiva estúpida
    para a minha história,
  260. "porque não se tratou disso.
  261. "Sim, havia poder, mas não era só isso.
  262. "Não podes resumir isso."
  263. Tudo bem, só para diminuir o "zoom".

  264. O que eu acho disso?
  265. Acho que há algo aqui
    isto é uma pista, um caminho a seguir.
  266. Como jornalistas, gostamos da diferença.
  267. Gostamos de fantasiar com a diferença.
  268. Mas cada vez mais, neste mundo confuso,
  269. precisamos de ser a ponte
    entre essas diferenças.
  270. Mas como fazemos isso?
  271. Acho que, para mim, agora,
    a resposta é simples.

  272. Questionamos essas diferenças,
  273. seguramo-las tanto tempo quanto possível,
  274. até que, tal como naquela montanha,
  275. algo acontece,
  276. algo se revela.
  277. A história não pode terminar em diferença.
  278. Tem de terminar em revelação.
  279. E ao voltar daquela viagem na montanha,

  280. um amigo deu-me um livro
    que deu um nome a toda esta ideia.
  281. Na psicoterapia,
    existe uma ideia chamada o "terceiro",
  282. que é essencialmente assim.
  283. Normalmente, pensamos em nós mesmos
    como essas unidades autónomas.
  284. Eu faço algo para ti,
    e tu fazes algo para mim.
  285. Mas, de acordo com esta teoria,
    quando duas pessoas se juntam
  286. e realmente se comprometem,
  287. naquele ato mútuo de reconhecimento,
  288. fazem realmente algo de novo.
  289. Uma nova entidade
    que é a sua relação.
  290. Podem pensar nos concertos da Dolly
    como um terceiro espaço cultural.
  291. A forma como ela vê
    todas as partes do seu público,
  292. a maneira como eles a veem,
  293. cria a arquitetura
    espiritual desse espaço.
  294. E acho que agora essa é a minha vocação.

  295. Que, como jornalista,
  296. como um contador de histórias,
  297. como um simples americano,
  298. que vive num país
    que luta para se manter,
  299. que cada história que eu conto
    tem de encontrar o terceiro.
  300. Aquele lugar onde as coisas
    que consideramos diferentes
  301. resolvem-se em algo novo.
  302. Obrigado.