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← Como Dolly Parton me levou a uma epifania

Como se termina uma história? Jad Abumrad, apresentador do programa de rádio "Radiolab", conta como sua busca por uma resposta o levou a sua terra nas montanhas do Tennessee, onde ele conheceu uma sábia professora: Dolly Parton.

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Showing Revision 53 created 07/22/2020 by Raissa Mendes.

  1. Quero lhe contar sobre minha busca
    por propósito como jornalista,
  2. e como Dolly Parton
    me ajudou a encontrá-lo.
  3. Conto histórias em áudio há 20 anos,

  4. primeiro numa rádio,
    depois também num podcast.
  5. Em 2002, quando comecei
    o programa de rádio "Radiolab",
  6. a principal técnica de narrativa
    que usávamos era esta:
  7. trazíamos um convidado...
  8. (Áudio) Steven Strogatz:
    É um dos mais hipnóticos

  9. e fascinantes espetáculos da natureza,
    porque, lembre-se, o silêncio é absoluto.
  10. Jad Abumrad: Por exemplo,
    o matemático Steve Strogatz.

  11. E ele descrevia uma cena.
  12. (Áudio) SS: Imagine um rio na Tailândia
    numa parte remota da floresta.

  13. Você está numa canoa deslizando pelo rio.
  14. Não há nenhum som,
  15. exceto, ocasionalmente,
    um pássaro exótico ou algo parecido.
  16. JA: Você está com Steve
    na canoa imaginária

  17. e, no ar ao seu redor,
    há milhões de vaga-lumes.
  18. A vista parece um céu cheio de luzes
    piscando aleatoriamente,
  19. porque os vaga-lumes
    brilham em tempos diferentes,
  20. o que é natural.
  21. Mas, de acordo com Steve,
    nesse lugar especial,
  22. por razões que nenhum cientista
    consegue explicar...
  23. SS: Vup.

  24. Vup.
  25. Vup.
  26. Milhares de luzes acendem
    e apagam em sincronização.
  27. (Música e sons de eletricidade)

  28. (Barulho de água)
  29. JA: Nesse momento,

  30. eu colocava uma música bonita,
    como acabei de fazer,
  31. e você começava a sentir uma coisa boa,
  32. um sentimento que, sabemos
    através da ciência,
  33. se localiza na sua cabeça e no seu peito
    e se espalha pelo seu corpo.
  34. É o sentimento de estar maravilhado.
  35. De 2002 a 2010,
    fiz centenas dessas histórias.

  36. Histórias intelectuais
    envolvendo ciência e neurociência
  37. que sempre acabavam
    nesse sentimento de maravilhamento.
  38. Comecei a ver isto como meu trabalho:
    levar as pessoas a momentos de maravilha.
  39. As reações eram assim:
  40. (Diversas vozes): "Oh"! "Uau!"

  41. "Uau." "Uau."
  42. "Incrível" "Nossa!" "Uau". "Uaaaaaaaau!"
  43. JA: Mas comecei a cansar dessas histórias.
    Em parte, por causa da repetição.

  44. Um dia, eu estava no computador
    fazendo o som de um neurônio.
  45. (Som crepitante)

  46. Basta cortar um ruído branco
    em pedaços. É fácil de fazer.

  47. Lembro que pensei:
    "Já fiz esse som 25 vezes".
  48. Além do mais, as histórias
    tinham um caminho parecido:
  49. trilhávamos o caminho da verdade, feito
    de ciência, e chegávamos à maravilha.
  50. Amo a ciência, não me entenda mal.

  51. Meus pais saíram de um país devastado
    pela guerra e vieram para os EUA.
  52. A ciência, para eles, era a parte
    mais importante de sua identidade,
  53. e herdei isso deles.
  54. Mas aquela simples transição
    da ciência para a maravilha
  55. começou a parecer errada para mim.
  56. Será que histórias só podiam
    seguir esse caminho?
  57. Por volta de 2012,

  58. encontrei um monte de histórias
    que me fizeram acreditar que não.
  59. Numa delas, em especial,
    um cara relatou que armas químicas
  60. haviam sido usadas contra ele
    e outros membros de sua aldeia
  61. nas montanhas do Laos.
  62. Cientistas ocidentais foram lá,
  63. mas não encontraram
    evidências de armas nucleares.
  64. Entrevistamos o homem, e ele falou
    que os cientistas estavam errados.
  65. Dissemos: "Mas eles testaram".
  66. Ele disse: "Não importa,
    sei o que aconteceu comigo".
  67. Ficamos rebatendo e insistindo
    e, para resumir a história,
  68. a entrevista acabou em lágrimas.
  69. Me senti...
  70. horrível.
  71. Martelar numa verdade científica
    quando alguém havia sofrido
  72. não ajudaria em nada.
  73. Talvez eu estivesse dependendo demais
    da ciência para encontrar a verdade.
  74. Parecia mesmo, naquele momento,
    que havia várias verdades na sala
  75. e estávamos considerando só uma.
  76. Então pensei: "Preciso melhorar nisso".
  77. Então, pelos próximos oito anos,

  78. me comprometi a contar histórias
    em que verdades se colidem.
  79. Falamos sobre a política
    do consentimento sexual
  80. e ouvimos relatos divergentes
    de vítimas e agressores.
  81. Falamos sobre raça, sobre a exclusão
    de homens negros do corpo de jurados
  82. e sobre as regras que tentam evitar
    isso mas só pioram as coisas.
  83. Falamos de combate ao terrorismo,
    detentos de Guantánamo...
  84. Histórias em que tudo é contestado,
    e você tem dificuldade de entender.
  85. Essa dificuldade se tornou o objetivo.
  86. Percebi então que meu trabalho era levar
    as pessoas a momentos de dificuldade.
  87. As reações eram assim:
  88. (Diversas vozes) "Sim, mas tipo..."

  89. "Hum, eu..."

  90. "Bom, então tipo..."

  91. "É que... Quer dizer, eu..."

  92. "É... Caramba! Eu..."

  93. (Suspiro)
  94. JA: Aquele suspiro ali, eu queria
    ouvi-lo em todas as histórias,

  95. porque esse som define
    nosso momento atual, não é?
  96. Vivemos num mundo
  97. em que a verdade deixou de ser só
    uma série de fatos a serem capturados.
  98. Ela se tornou um processo.
  99. Deixou de ser um substantivo
    para ser um verbo.
  100. Mas como se termina esse tipo de história?
  101. O problema que surgia toda vez
    que contávamos uma história
  102. era que tudo fluía bem até um certo ponto,
    mas, no final, ficávamos assim:
  103. "Não, deixa eu ver..."
  104. "O que digo no final?"
  105. "Meu Deus!"
  106. "Como se termina essa história?!"
  107. Não podíamos dizer "felizes para sempre",
    porque não seria realista.
  108. Mas, se deixássemos
    as pessoas naquele impasse,
  109. elas pensariam: "Por que ouvi isso?"
  110. Sentíamos que faltava algo.
  111. Precisava haver um caminho
    além da dificuldade.
  112. É aí que entra Dolly.

  113. Ou "Santa Dolly", como gostamos
    de chamá-la no Sul dos EUA.
  114. Quero lhe contar sobre uma epifania
    que tive no ano passado
  115. fazendo a série "Dolly Parton's America".
  116. Foi um projeto diferente para mim,
  117. mas eu tinha a intuição
    de que Dolly podia me ajudar
  118. a resolver esse problema.
  119. O motivo da intuição
    era que, num show da Dolly,

  120. há homens de boné ao lado
    de homens vestidos de drag queen,
  121. democratas ao lado de republicanos,
    mulheres de mãos dadas...
  122. pessoas de todos os tipos misturadas.
  123. Pessoas que somos levados
    a crer que deveriam se odiar
  124. estão lá cantando juntas.
  125. De alguma forma, ela conquistou
    esse espaço único nos EUA,
  126. e eu queria saber como ela fez isso.
  127. Então entrevistei Dolly
    12 vezes, em dois continentes.

  128. Toda entrevista, ela dizia:
  129. (Áudio) Dolly Parton:
    Pergunte-me o que quiser,

  130. e lhe direi o que quero ouvir.
  131. (Risos)

  132. JA: Sem dúvida, ela é um furacão.

  133. Mas o problema com que me deparei
  134. foi que eu havia escolhido
    uma ideia para essa série
  135. que minha consciência desaprovava.
  136. Dolly canta muito sobre o Sul dos EUA.
  137. Em sua discografia, há várias músicas
    sobre o estado do Tennessee.
  138. DP: (Cantando diversas músicas)
    ♪ Tennessee Tennessee ♪

  139. ♪ Tennessee homesick ♪
  140. ♪ Tennessee ♪
  141. ♪ I've got those Tennessee homesick blues
    runnin' through my head ♪
  142. Tennessee.
  143. JA: Músicas sobre memórias
    da montanha no Tennessee.

  144. Cresci no Tennessee, mas não sentia
    saudade nenhuma daquele lugar.
  145. Eu era o garoto árabe magrelo,
  146. descendente do lugar
    onde inventaram os ataques suicidas.
  147. Eu passava muito tempo no meu quarto.
  148. Fui embora daquele estado
    sem olhar para trás.
  149. Estive no parque Dollywood

  150. e vi a réplica da casa
    da montanha onde Dolly viveu.
  151. As pessoas ao meu redor choravam.
  152. Pensei: "Isto é um cenário.
    Por que estão chorando?"
  153. Eu não entendia por que estavam
    tão emocionados,
  154. considerando meu relacionamento com o Sul.
  155. Comecei a ter ataques de pânico
    por causa disso.
  156. "Será que não sou a pessoa certa
    para este projeto?"
  157. Mas houve uma reviravolta do destino.

  158. Conhecemos Bryan Seaver,
    sobrinho e guarda-costas de Dolly.
  159. Sem pensar duas vezes,
  160. ele nos levou, a produtora Shima Oliae
    e eu, para fora de Dollywood.
  161. Demos a volta nas montanhas,
    subimos por 20 minutos,
  162. passamos por uma rua estreita
  163. e por um portão gigante que parecia
    ter saído de "Game of Thrones",
  164. até chegar à verdadeira casa da montanha.
  165. O lugar real, Valhala.
  166. A verdadeira casa
    da montanha no Tennessee.
  167. Vou colocar uma música de Wagner
    nesta parte, porque você precisa entender.

  168. No folclore do Tennessee,
    essa casa é quase um lugar sagrado.
  169. Lá estava eu, no gramado,
    ao lado do Rio Pigeon,

  170. borboletas fazendo manobras no ar,
    quando tive meu momento de maravilha.
  171. A casa de Dolly na montanha
  172. é igual à casa do meu pai
    nas montanhas do Líbano.
  173. A casa dela parece
    a casa que meu pai deixou.

  174. Essa simples revelação
  175. me levou a ter uma conversa
    com ele que nunca havia tido,
  176. sobre a dor que ele sentira
    ao sair de sua terra
  177. e como ele ouve essa dor
    nas músicas de Dolly.
  178. Depois tive uma conversa com Dolly
  179. em que ela descreveu suas canções
    como música de migração,
  180. inclusive aquela clássica
    sobre a casa da montanha.
  181. Ouça.
  182. (Dolly Parton "Tennessee Mountain Home")
    ♪ Sentada na varanda numa tarde de verão
  183. Empinando a cadeira de encosto reto
  184. Apoiando as costas na parede ♪
  185. JA: É sobre tentar capturar
    um momento que já se foi.

  186. Mas, se você puder pintá-lo
    de forma vívida,
  187. talvez você possa congelá-lo
    no tempo, quase como em resina,
  188. preso entre o passado e o presente.
  189. Essa é a experiência do imigrante.
  190. Esse simples pensamento me levou
    a ter milhões de conversas.

  191. Comecei a falar com musicólogos
    sobre a música country.
  192. Esse gênero musical que pensei
    não ter nada a ver com minhas origens
  193. é, na verdade, composto de instrumentos
    e estilos que vieram do Oriente Médio.
  194. Inclusive, existiam rotas de comércio
    que iam de onde agora é o Líbano
  195. até as montanhas do oeste do Tennessee.
  196. Posso dizer que, estando lá,
    olhando para a casa dela,

  197. senti pela primeira vez
    que eu era um tennessiano.
  198. É verdade.
  199. Isso não aconteceu só uma vez.

  200. Ela me forçou várias vezes
  201. a pensar além das simples categorias
    que eu havia construído para o mundo.
  202. Conversei com ela sobre sua parceria
    de sete anos com Porter Wagoner.
  203. Em 1967, ela entrou na banda dele.
  204. Ele era o maior artista country,
    e ela, uma cantora de apoio anônima.
  205. Em pouco tempo, ela ficou muito famosa,
  206. e ele, com inveja,
    a processou em US$ 3 milhões
  207. quando ela saiu da banda.
  208. Seria bem fácil ver Porter Wagoner
  209. como um típico machista babaca
    tentando impedir o sucesso dela.
  210. Mas, toda vez que eu sugeria isso a ela...
  211. (Áudio) JA: Ele é assim.

  212. Isso é visível nos vídeos também.
    Ele segurando seus ombros...
  213. Com certeza, há uma questão
    de dominação envolvida.
  214. DP: É mais complicado que isso.

  215. Pense bem: ele tinha
    aquele programa há anos
  216. e não precisava de mim
    para ter um programa de sucesso.
  217. Ele não esperava que eu fosse tudo aquilo.
  218. Eu era uma artista séria.
    Ele não sabia disso.
  219. Ele não sabia quantos sonhos eu tinha.
  220. JA: Ela insistiu:

  221. "Não se meta na minha história
    com sua forma idiota de ver mundo,
  222. porque não foi assim.
  223. Sim, havia dominação,
    mas não havia só isso.
  224. Você não pode resumir a história".
  225. Vamos afastar a câmera.
    O que posso concluir com isto?

  226. Acho que há uma pista aqui,
    uma forma de seguir adiante.

  227. Nós jornalistas adoramos
    exaltar as diferenças.
  228. Mas, cada vez mais, neste mundo confuso,
    devemos ser a ponte entre as diferenças.
  229. Mas como se faz isso?
  230. Agora a resposta é simples para mim.

  231. Deve-se interrogar essas diferenças
    e segurá-las pelo maior tempo possível
  232. até que, como naquela montanha,
    algo acontece, algo se revela.
  233. A história não pode terminar em diferença.
    Ela precisa acabar em revelação.
  234. Quando voltei daquele passeio na montanha,

  235. um amigo me deu um livro
    que deu nome a essa ideia.
  236. Na psicoterapia, há uma ideia
    chamada "o terceiro",
  237. que funciona assim:
  238. geralmente, vemos nós mesmos
    como unidades autônomas.
  239. Eu faço algo a você,
    e você faz algo a mim.
  240. Mas, de acordo com essa teoria,
  241. quando duas pessoas se unem
    e se comprometem a se conhecer,
  242. nesse ato mútuo de reconhecimento,
    elas criam algo novo,
  243. uma nova entidade,
    que é seu relacionamento.
  244. Você pode considerar os shows da Dolly
    um terceiro espaço cultural.
  245. A forma como ela vê
    as diferentes partes do público
  246. e a forma como o público a vê
  247. criam a arquitetura espiritual
    daquele espaço.
  248. Agora acho que é essa minha missão,

  249. como jornalista, contador de histórias
  250. e apenas um estadunidense
    num país cheio de conflitos.
  251. É levar cada história que conto
    a encontrar "o terceiro",
  252. aquele momento em que as coisas
    que julgamos diferentes
  253. se dissolvem e formam algo novo.
  254. Obrigado.