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← Mais uma razão para ter uma boa noite de sono

O cérebro utiliza um quarto de todo o abastecimento de energia do corpo, mas só é responsável por cerca de 2% da massa do corpo. Como é que este órgão especial recebe e, talvez ainda mais importante, se liberta de nutrientes vitais? As novas investigações sugerem que isso tem a ver com o sono.

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Showing Revision 6 created 12/26/2014 by Isabel Vaz Belchior.

  1. Dormir.
  2. É uma coisa em que gastamos
    cerca de um terço da nossa vida.
  3. Mas sabemos realmente do que se trata?
  4. Há dois mil anos, Galeno,

  5. um dos mais destacados
    investigadores médicos da Antiguidade,
  6. defendeu que, quando estamos acordados,
  7. a força motora do nosso cérebro,
    o seu sumo,
  8. fluía para todas as outras partes do corpo,
  9. animando-as, mas deixando
    o cérebro esgotado.
  10. Ele pensava que, quando dormíamos,
  11. toda essa humidade
    que enchia o resto do corpo
  12. voltava atrás,
  13. voltando a hidratar o cérebro
  14. e a refrescar o espírito.
  15. Isto, hoje, parece-nos
    uma coisa muito ridícula,
  16. mas Galeno estava apenas a tentar explicar
  17. uma coisa sobre o sono
  18. com que lidamos todos os dias.
  19. Todos sabemos, por experiência própria,
  20. que, quando dormimos, limpamos o espírito
  21. e, quando não dormimos,
  22. o nosso espírito fica nublado.
  23. Embora hoje saibamos
    muito mais sobre o sono
  24. do que no tempo de Galeno,
  25. ainda não compreendemos
    porque é que o sono,
  26. entre todas as nossas atividades,
  27. tem esta incrível função
    reparadora para o espírito.
  28. Portanto, quero falar hoje
    sobre a investigação recente

  29. que pode lançar alguma luz
    sobre esta questão.
  30. Descobrimos que o sono pode ser
  31. uma espécie de elegante solução
  32. para algumas das necessidades
    mais básicas do cérebro,
  33. uma forma única de o cérebro resolver
  34. as grandes exigências
    e as estreitas margens
  35. que o colocam à parte
    de todos os outros órgãos do corpo.
  36. Quase toda a biologia que observamos

  37. pode ser encarada
    como uma série de problemas
  38. e soluções correspondentes.
  39. O primeiro problema
    que todos os órgãos têm que resolver
  40. é um fornecimento contínuo de nutrientes
  41. para alimentar todas as células do corpo.
  42. No cérebro, isso é especialmente crítico.
  43. A sua intensa atividade elétrica gasta
  44. um quarto de todo o abastecimento
    de energia ao corpo,
  45. apesar de o cérebro corresponder
  46. apenas a 2% da massa do corpo.
  47. O sistema circulatório
  48. resolve o problema
    do consumo de nutrientes
  49. enviando vasos sanguíneos
    para abastecer de nutrientes e oxigénio
  50. todos os cantos do nosso corpo.
  51. Podemos ver isso aqui neste vídeo.

  52. Estamos a ver aqui os vasos sanguíneos
  53. no cérebro de um rato vivo.
  54. Os vasos sanguíneos
    formam uma rede complexa
  55. que preenche todo o volume do cérebro.
  56. Começam na superfície do cérebro,
  57. depois mergulham no próprio tecido.
  58. À medida que se espalham,
    fornecem nutrientes e oxigénio
  59. a todas as células do cérebro.
  60. Tal como cada célula exige

  61. nutrientes para se alimentar,
  62. cada célula também produz
    resíduos como subproduto.
  63. A limpeza desses resíduos
  64. é o segundo problema básico
  65. que cada órgão tem que resolver.
  66. Este diagrama mostra
    o sistema linfático do corpo,
  67. que evoluiu para satisfazer
    esta necessidade.
  68. É uma segunda rede de vasos, paralela,
  69. que se estende por todo o corpo.
  70. Agarra em proteínas e outros resíduos
  71. dos espaços entre as células,
  72. recolhe-os e depois despeja-os no sangue
  73. para poderem ser eliminados.
  74. Se olharem com atenção
    para este diagrama,

  75. verão uma coisa que não faz muito sentido.
  76. Se ampliarmos a cabeça deste tipo,
  77. uma das coisas que ali veremos
  78. é que não há vasos linfáticos no cérebro.
  79. Isto não faz muito sentido, pois não?
  80. Quer dizer, o cérebro
    é este órgão extremamente ativo
  81. que produz uma grande quantidade
    de resíduos correspondentes
  82. que têm que ser limpos eficazmente.
  83. No entanto, não tem vasos linfáticos,
  84. o que significa que a solução
    que o resto do corpo assume
  85. para limpar esses resíduos
  86. não funciona no cérebro.
  87. Então, como é que o cérebro resolve

  88. o problema da limpeza dos seus resíduos?
  89. Esta questão, aparentemente rotineira
  90. foi o que motivou o nosso grupo
    a agarrar nesta história.
  91. O que descobrimos,
  92. quando vasculhámos o cérebro,
  93. entre os neurónios e os vasos sanguíneos,
  94. foi que a solução do cérebro
  95. para o problema da limpeza de resíduos,
  96. era mesmo inesperada.
  97. Era engenhosa,
  98. mas também era belíssima.
  99. Vou contar-vos o que descobrimos.
  100. O cérebro tem uma grande bolsa
    de fluido limpo e claro,

  101. chamado líquido cefalorraquidiano.
  102. Chamamos-lhe LCR.
  103. O LCR preenche o espaço
    que rodeia o cérebro.
  104. Os resíduos do interior do cérebro
  105. escoam para o LCR
  106. que despeja para o sangue,
    juntamente com os resíduos.
  107. Assim, é muito parecido
    com o sistema linfático, não é?
  108. Mas o que é interessante
    é que o fluido e os resíduos
  109. do interior do cérebro
  110. não percorrem o seu caminho ao acaso
  111. para saírem destas bolsas de LCR.
  112. Pelo contrário, há uma rede
    especializada de "canalização"
  113. que organiza e facilita este processo.
  114. Podemos ver isso nestes vídeos.
  115. Aqui, voltamos a ver a imagem
    do cérebro de ratos vivos.
  116. A imagem da esquerda mostra
  117. o que acontece à superfície do cérebro,
  118. e a imagem da direita mostra
  119. o que acontece por baixo
    da superfície do cérebro
  120. no interior do próprio tecido.
  121. Marcámos os vasos sanguíneos a vermelho
  122. e o LCR que rodeia o cérebro
  123. vai aparecer a verde.
  124. O que nos surpreendeu
  125. foi que o fluido no exterior do cérebro
  126. não se mantinha no exterior.
  127. Pelo contrário, o LCR era empurrado
  128. para o interior do cérebro
  129. no espaço exterior aos vasos sanguíneos
  130. e, quando inundava o cérebro
  131. no exterior desses vasos,
  132. estava a ajudar a remover,
  133. a limpar os resíduos dos espaços
  134. entre as células do cérebro.
  135. Pensando bem,
  136. usar assim o exterior
    destes vasos sanguíneos
  137. é de facto uma solução muito inteligente
  138. porque o cérebro está encerrado
    num crânio rígido
  139. e está repleto de células.
  140. Portanto não tem espaço extra lá dentro
  141. para um segundo conjunto de vasos,
    como o sistema linfático.
  142. Mas os vasos sanguíneos
  143. estendem-se desde a superfície do cérebro
  144. até atingirem cada uma
    das células do cérebro,
  145. o que significa que este fluido
  146. que viaja por entre esses vasos
  147. pode atingir facilmente
    todo o volume do cérebro.
  148. Assim, isto é uma forma muito inteligente
  149. de fazer com que um conjunto de vasos,
    os vasos sanguíneos,
  150. assumam e substituam a função
  151. de um segundo conjunto de vasos,
    os vasos linfáticos,
  152. para fazer isso e, portanto,
    não precisamos deles.
  153. O espantoso é que
    não há nenhum outro órgão
  154. que tenha esta solução
  155. para se libertar dos resíduos
    entre as células.
  156. Esta é uma solução
    totalmente exclusiva do cérebro.
  157. Mas a nossa descoberta mais surpreendente

  158. foi que tudo isto,
  159. tudo o que acabei de dizer,
  160. com todo este fluido
    a percorrer o cérebro,
  161. só acontece no cérebro adormecido.
  162. Aqui, o vídeo à esquerda
  163. mostra a quantidade de LCR
    que se movimenta
  164. através do cérebro dum rato vivo
    que está acordado.
  165. Praticamente não há nenhum.
  166. Mas, no mesmo animal,
  167. se esperarmos um pouco
    até que ele adormeça,
  168. o que vemos é que o LCR
  169. está a inundar o cérebro.
  170. Descobrimos que, ao mesmo tempo,
  171. quando o cérebro adormece,
  172. as próprias células parecem encolher,
  173. abrindo espaços entre elas,
  174. permitindo que o fluido penetre
  175. e permitindo que os resíduos sejam limpos.
  176. Portanto, parece que Galeno

  177. pode ter estado na pista certa,
  178. quando escreveu sobre um fluido
    que percorria o cérebro
  179. quando começávamos a dormir.
  180. A nossa investigação, 2000 anos depois,
  181. sugere que o que acontece
  182. é que, quando o cérebro está acordado
  183. e está na sua atividade máxima,
  184. adia para mais tarde
    a limpeza dos resíduos
  185. dos espaços entre as células.
  186. Depois, quando adormece
  187. e não precisa de estar tão ativo,
  188. muda para uma espécie de modo de limpeza
  189. para eliminar os resíduos
  190. dos espaços entre as células,
  191. os resíduos que se acumulam durante o dia.
  192. É um pouco como pormos de lado
  193. as nossas tarefas caseiras
    durante a semana de trabalho
  194. quando não temos tempo para as fazer
  195. e depois, efetuarmos todas as limpezas
    que precisamos de fazer
  196. quando chega o fim de semana.
  197. Ora bem, falei muito
    sobre a limpeza de resíduos

  198. mas não fui muito específico
  199. sobre os tipos de resíduos
  200. que o cérebro precisa de eliminar
    durante o sono,
  201. a fim de se manter saudável.
  202. O resíduo, em que estes estudos recentes
  203. mais se concentraram, é a beta-amiloide
  204. que é uma proteína que o cérebro
    está sempre a produzir.
  205. O meu cérebro está a produzir
    beta-amiloide neste momento,
  206. e o vosso também.
  207. Mas, em pacientes
    com a doença de Alzheimer,
  208. a beta-amiloide concentra-se e agrega-se
  209. nos espaços entre as células do cérebro,
  210. em vez de ser eliminada,
    como devia acontecer.
  211. É esta concentração de beta-amiloide
  212. que se julga ser
    um dos passos fundamentais
  213. no desenvolvimento dessa terrível doença.
  214. Medimos a velocidade com que
    a beta-amiloide é eliminada do cérebro,
  215. quando ele está acordado
  216. e quando ele está a dormir.
  217. Descobrimos que, de facto,
  218. a limpeza da beta-amiloide
  219. é muito mais rápida no cérebro adormecido.
  220. Portanto, se o sono

  221. faz parte da solução do cérebro
  222. para o problema da limpeza de resíduos,
  223. então isso pode mudar drasticamente
    a forma como encaramos
  224. a relação entre o sono,
  225. a beta-amiloide e a doença de Alzheimer.
  226. Uma série de estudos clínicos recentes
  227. sugere que, entre pacientes
  228. que ainda não desenvolveram
    a doença de Alzheimer,
  229. uma pior qualidade de sono
    e a duração do sono
  230. estão associadas a uma maior quantidade
  231. de concentração
    de beta-amiloide no cérebro.
  232. Embora seja importante assinalar
  233. que estes estudos não provam
  234. que a falta de sono ou um sono deficiente
  235. provocam a doença de Alzheimer,
  236. sugerem que a dificuldade do cérebro
  237. em manter a casa limpa,
  238. eliminando resíduos, como a beta-amiloide,
  239. pode contribuir para o desenvolvimento
  240. de doenças como a de Alzheimer.
  241. Assim, o que esta
    nova investigação nos diz

  242. é que uma coisa que todos nós
  243. já sabíamos sobre o sono,
  244. que até Galeno compreendia acerca do sono,
  245. — que ele refresca e limpa o espírito —
  246. pode na verdade ser uma parte importante
  247. do que, afinal, o sono é.
  248. Estão a ver, vocês e eu,
    vamos dormir todas as noites,
  249. mas o nosso cérebro nunca descansa.
  250. Enquanto o nosso corpo está parado
  251. e o nosso espírito anda a passear
    algures em sonhos,
  252. o elegante maquinismo do cérebro
  253. está silenciosamente a trabalhar a sério,
  254. a limpar e a fazer a manutenção
  255. desta máquina incrivelmente complexa.
  256. Tal como o nosso trabalho caseiro,
    é uma tarefa suja e ingrata.
  257. mas também é importante.
  258. Na nossa casa, se deixarmos
    de limpar a cozinha,
  259. durante um mês,
  260. a nossa casa fica totalmente
    impossível de se viver
  261. muito rapidamente.
  262. Mas no cérebro, as consequências
  263. de qualquer falha, podem ser muito maiores
  264. do que o embaraço de bancadas sujas,
  265. porque, quando se trata
    de limpar o cérebro,
  266. é a própria saúde e função
  267. do espírito e do corpo que estão em jogo,
  268. razão por que compreender hoje
  269. essas funções de manutenção
    muito básicas do cérebro
  270. pode ser fundamental para evitar e tratar
  271. doenças do espírito amanhã.
  272. Obrigado.

  273. (Aplausos)