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← Erika Frenkel: A máquina de anestesia universal

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Showing Revision 1 created 03/27/2012 by Soraia Martins.

  1. Hoje vou falar-vos
  2. sobre o design da tecnologia médica para sistemas de recursos limitados.
  3. Eu estudo os sistemas de saúde nestes países.
  4. E uma das maiores falhas em termos de cuidados médicos,
  5. de forma geral,
  6. é o acesso a cirurgias seguras.
  7. Um dos maiores obstáculos que encontrámos
  8. e que tem vindo a impedir o acesso, em primeiro lugar,
  9. e a segurança das cirurgias que, de facto, acontecem
  10. é a anestesia.
  11. E, na verdade, é o modelo que esperamos que funcione
  12. para fornecer anestesia
  13. nestes meios.
  14. Esta é uma cena que pode ser vista

  15. em qualquer sala de operações nos EUA ou em qualquer outro país desenvolvido.
  16. Ali ao fundo
  17. está uma máquina de anestesia muito sofisticada.
  18. E esta máquina tem a capacidade
  19. de permitir cirurgias e de salvar vidas
  20. porque foi concebida
  21. de modo a ter em conta este tipo de ambientes.
  22. Para que funcione correctamente, esta máquina necessita de um certo número de coisas
  23. que este hospital tem para oferecer.
  24. Necessita de um anestesista extremamente bem treinado
  25. com anos de experiência em máquinas complexas
  26. para ajudá-la a monitorizar os fluxos de gás
  27. e a manter os seus doentes em segurança e anestesiados
  28. durante a cirurgia.
  29. É uma máquina delicada que funciona através de algoritmos
  30. e que exige um cuidado especial para se manter em boas condições,
  31. avariando muito facilmente.
  32. E, quando isso acontece, precisa de uma equipa de engenheiros biomédicos
  33. que compreenda as suas complexidades,
  34. que a consiga reparar, encontrar as peças
  35. e a mantenha a salvar vidas.
  36. É uma máquina bastante cara.

  37. Necessita de um hospital
  38. cujo orçamento permita suportar uma máquina
  39. que custa para cima de 50 ou 100 mil dólares.
  40. E talvez o mais evidente,
  41. e talvez o mais importante --
  42. e o caminho para os conceitos de que ouvimos falar
  43. ilustram isto mesmo,
  44. é que necessita de uma infraestrutura
  45. que possua uma fonte ininterrupta
  46. de electricidade, de oxigénio comprimido
  47. e de outros materiais médicos
  48. essenciais para o funcionamento
  49. desta máquina.
  50. Por outras palavras, esta máquina precisa de muita coisa
  51. que este hospital não consegue providenciar.
  52. Este é o quadro de electricidade

  53. de um hospital na zona rural de Malawi.
  54. Neste hospital,
  55. existe uma pessoa qualificada para fornecer anestesia,
  56. e é qualificada
  57. porque tem 12, talvez 18 meses
  58. de treino com anestesia.
  59. No hospital e na região inteira
  60. não há um único engenheiro biomédico.
  61. Ou seja, quando a máquina avaria,
  62. e as máquinas com as quais têm de trabalhar avariam,
  63. resta-lhes tentar perceber como repará-las, mas, na maioria das vezes, não há nada a fazer.
  64. O destino destas máquinas é a sucata.
  65. E o preço da máquina que mencionei
  66. pode representar talvez um quarto ou um terço
  67. do orçamento anual
  68. deste hospital.
  69. E, por fim, creio que conseguem ver que a infraestrutura não é muito forte.

  70. Este hospital está ligado a uma rede energética muito fraca
  71. que vai abaixo frequentemente.
  72. E, muitas vezes, faz com que o hospital opere
  73. apenas com um gerador,
  74. E, podem imaginar, o gerador pode avariar
  75. ou ficar sem combustível.
  76. E o Banco Mundial vê isto
  77. e estima que um hospital neste cenário, num país de rendimentos reduzidos
  78. pode esperar até 18 apagões
  79. por mês.
  80. Da mesma forma, oxigénio comprimido e outros materiais
  81. são mesmo um luxo
  82. e podem, muitas vezes, ficar esgotados
  83. durante meses ou, até, um ano.
  84. Por isso, parece uma loucura, mas o modelo que temos agora

  85. está a pegar nestas máquinas
  86. que foram concebidas para o primeiro ambiente que vos mostrei
  87. e a doá-las ou a vendê-las
  88. a hospitais neste meio.
  89. Não é somente inapropriado,
  90. torna-se mesmo perigoso.
  91. Um dos nossos colegas no Johns Hopkins

  92. estava a observar cirurgias na Serra Leoa
  93. há cerca de um ano.
  94. E a primeira cirurgia do dia foi um caso de obstetrícia.
  95. Uma mulher entrou e precisava de uma cesariana de emergência
  96. para salvar a sua vida e a vida do seu bebé.
  97. E tudo começou de forma bastante promissora.
  98. O cirurgião estava de serviço e preparou-se para a cirurgia.
  99. A enfermeira estava presente.
  100. Conseguiu anestesiá-la rapidamente,
  101. o que era importante devido à natureza urgente da situação.
  102. E tudo começou bem
  103. até que a energia foi abaixo.
  104. E agora, a meio da cirurgia,
  105. o cirurgião luta contra o tempo para finalizar a operação,
  106. o que, de facto, consegue -- tem uma lâmpada frontal.
  107. Contudo, a enfermeira está literalmente
  108. a correr de um lado para outro na sala de operações às escuras
  109. a tentar encontrar qualquer coisa para anestesiar a doente,
  110. para a manter adormecida,
  111. pois a sua máquina não funciona quando não há energia eléctrica.
  112. E esta cirurgia de rotina, que muitos de vós provavelmente já experienciaram,
  113. e outros são provavelmente o produto de alguma,
  114. transformou-se numa tragédia.
  115. E o mais frustrante é que este não é um acontecimento pontual;
  116. isto acontece em todos os países em desenvolvimento.
  117. 35 milhões de cirurgias são iniciadas todos os anos
  118. sem anestesia segura.
  119. O meu colega, o Dr. Paul Fenton,

  120. viveu nesta realidade.
  121. Foi chefe de anestesiologia
  122. num hospital do Malawi, um hospital universitário.
  123. Ia trabalhar todos os dias
  124. para um cenário como este,
  125. tentando administrar anestesia e ensinar outros a fazê-lo
  126. utilizando o mesmo equipamento
  127. que se tornou tão duvidoso e francamente inseguro
  128. no seu hospital.
  129. E após diversas cirurgias
  130. e, como podem imaginar, tragédias indescritíveis,
  131. disse apenas: "Pronto. Acabou. Já chega.
  132. Tem de haver algo melhor do que isto".
  133. Então foi até à sala
  134. onde estavam guardadas todas as máquinas que os deixaram na mão --
  135. creio que é este o termo científico --
  136. e começou simplesmente a mexer nelas.
  137. Pegou numa peça daqui e outra dali
  138. e tentou inventar uma máquina
  139. que fosse capaz de funcionar naquela realidade.
  140. E o que ele inventou foi isto,

  141. o protótipo da Máquina de Anestesia Universal --
  142. uma máquina que poderia funcionar
  143. e anestesiar os seus doentes
  144. independentemente das circunstâncias que o hospital tivesse para oferecer.
  145. Aqui está ela de volta
  146. ao mesmo hospital, mais desenvolvida, 12 anos mais tarde,
  147. a trabalhar com doentes da pediatria à geriatria.
  148. Agora deixem-me mostrar-vos um pouco como é que esta máquina funciona.

  149. Voilá!
  150. Aqui está ela.
  151. Quando tem electricidade,
  152. tudo nesta máquina começa na base:
  153. há um concentrador de oxigénio embutido ali em baixo.
  154. Já me ouviram mencionar oxigénio várias vezes.
  155. Essencialmente, para administrar anestesia,
  156. quer-se obter a maior quantidade de oxigénio puro possível,
  157. pois vai acabar-se por diluí-lo essencialmente
  158. com o gás.
  159. E a mistura que o doente inala
  160. necessita de ter, pelo menos, uma determinada percentagem de oxigénio,
  161. ou pode tornar-se perigoso.
  162. Portanto, quando há electricidade,
  163. o concentrador de oxigénio capta o ar da sala.
  164. Sabemos que o ar da sala é completamente grátis,
  165. abundante,
  166. e já contém 21% de oxigénio.
  167. Por isso, o que este concentrador faz é captar o ar da sala, filtrá-lo
  168. e enviar 95% de oxigénio puro
  169. aqui para cima
  170. onde se mistura com o agente anestésico.
  171. Antes da mistura

  172. chegar aos pulmões do doente,
  173. irá passar por aqui --
  174. não conseguem ver, mas há um sensor de oxigénio aqui --
  175. que vai acusar neste ecrã
  176. a percentagem de oxigénio a ser administrado.
  177. Agora, se não tiver electricidade,
  178. ou, Deus queira que não, a electricidade for cortada a meio de uma cirurgia,
  179. esta máquina passa automaticamente,
  180. sem ser preciso tocar-lhe sequer,
  181. a extrair o ar da sala por esta entrada.
  182. Tudo o resto é igual.

  183. A única diferença é que agora
  184. está-se a trabalhar apenas com 21% de oxigénio.
  185. Esta situação costumava ser um perigoso jogo de suposições,
  186. pois só se conseguiria perceber que tinha sido aplicado pouco oxigénio quando algo mau acontecia,
  187. mas colocámos uma bateria de reserva aqui.
  188. Esta é a única peça que tem uma bateria de reserva.
  189. mas isto dá controlo ao fornecedor,
  190. haja electricidade ou não,
  191. porque podem ajustar o fluxo
  192. baseando-se na percentagem de oxigénio que estão a dar ao doente.
  193. Em ambos os casos,

  194. caso se tenha electricidade ou não,
  195. por vezes, o paciente necessita de ajuda a respirar.
  196. É uma realidade da anestesia. Os pulmões podem estar paralisados.
  197. Portanto, acrescentámos apenas este fole manual.
  198. Já vimos cirurgias de três ou quatro horas
  199. em que o doente é ventilado desta forma.
  200. Trata-se de uma máquina fácil de compreender.

  201. Até estremeço se disser simples;
  202. é fácil de compreender.
  203. E foi concebida exactamente dessa forma.
  204. E não é preciso ser
  205. um anestesista especializado e muito bem treinado para utilizar esta máquina,
  206. o que é bom, pois nestes hospitais rurais
  207. não se encontra esse nível de treino.
  208. Também foi concebida para o ambiente em que será utilizada.
  209. Esta é uma máquina incrivelmente resistente.

  210. Tem de aguentar
  211. o calor e o desgaste que acontecem
  212. nos hospitais destas regiões rurais.
  213. E, portanto, não se vai avariar tão facilmente,
  214. mas se isso acontecer, todas as peças desta máquina
  215. podem ser trocadas e substituídas
  216. com uma chave inglesa e uma chave de fendas.
  217. E finalmente, tem um preço acessível.
  218. Esta máquina custa
  219. um oitavo
  220. da máquina convencional que mostrei anteriormente.
  221. Por outras palavras, o que temos aqui
  222. é uma máquina que pode permitir cirurgias e salvar vidas
  223. porque foi concebida para o seu próprio ambiente,
  224. tal como a primeira máquina que vos mostrei.
  225. Mas não nos ficamos por aqui:

  226. está a funcionar?
  227. Será este o modelo que funcionará no local?
  228. Bem, até agora temos visto bons resultados.
  229. Esta máquina está em 13 hospitais de quatro países,
  230. e, desde 2010,
  231. já foi bem-sucedida em mais de 2 mil cirurgias
  232. sem qualquer tipo de adversidades clínicas.
  233. Portanto, estamos entusiasmados.
  234. Esta parece ser uma solução eficiente e ampliável
  235. para um problema verdadeiramente generalizado.
  236. Mas queremos ter mesmo a certeza
  237. que este é o dispositivo mais eficaz e seguro
  238. que conseguimos colocar nos hospitais.
  239. Por isso, pusemos uma série de parcerias em prática

  240. com ONGs e universidades
  241. para recolher dados relativos à interface do utilizador
  242. e perceber para que tipo de cirurgias é adequada
  243. e que caminhos podemos seguir para melhorar o dispositivo.
  244. Uma dessas parcerias
  245. é com o hospital Johns Hopkins, aqui em Baltimore.
  246. Lá têm um laboratório fantástico de simulação de anestesia.
  247. Então, pegámos nesta máquina
  248. e recriámos algumas crises das salas de operações
  249. que esta máquina poderia enfrentar
  250. num dos hospitais para o qual está destinada,
  251. e num ambiente seguro e restrito,
  252. avaliámos a sua eficácia.
  253. Aí é possível comparar os resultados desse estudo
  254. com a experiência no mundo real,
  255. pois vamos colocar duas destas em hospitais
  256. da Serra Leoa com os quais o Johns Hopkins trabalha,
  257. incluindo o hospital onde aconteceu aquela cesariana de emergência.
  258. Falei muito sobre anestesia e tenho tendência para o fazer.

  259. Acho que é extremamente fascinante
  260. e uma componente importante da saúde.
  261. E parece mesmo algo insignificante, nunca pensamos nela,
  262. até não termos acesso a ela;
  263. e aí transforma-se num fator decisivo:
  264. Quem pode ter uma cirurgia e quem não pode?
  265. Quem tem cirurgias seguras e quem não tem?
  266. Mas sabem, esta é apenas uma das diversas maneiras
  267. em como o design, o design apropriado
  268. pode ter impacto nos resultados em saúde.
  269. Se mais pessoas nos serviços de saúde
  270. que trabalham para contrariar alguns destes desafios em países de recursos reduzidos
  271. pudessem iniciar o processo de design,
  272. a busca por soluções,
  273. fora desses termos tradicionais
  274. e dentro do hospital --
  275. por outras palavras, se pudéssemos conceber
  276. para o ambiente que existe em tantas partes do mundo,
  277. em vez de conceber para um que gostássemos que existisse --
  278. talvez conseguíssemos salvar muitas vidas.
  279. Muito obrigada.

  280. (Aplausos)