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← O poder curativo da leitura

Ler e escrever podem ser atos de coragem que nos aproximam dos outros e de nós mesmos. A autora Michelle Kuo compartilha como ensinar habilidades de leitura a seus alunos no Delta do Mississippi revelou o poder de ligação da palavra escrita - assim como as limitações do seu poder.

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Showing Revision 14 created 06/12/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Hoje vou falar sobre como a leitura
    pode mudar a nossa vida

  2. e sobre os limites desta mudança.
  3. Quero falar sobre como a leitura
    nos pode dar um mundo partilhável
  4. de uma poderosa interligação humana.
  5. Mas também sobre como esta interligação
    é sempre parcial.
  6. Como a leitura é, afinal,
    uma tarefa solitária e idiossincrática.
  7. O escritor quem mudou a minha vida

  8. foi James Baldwin,
    o grande romancista afro-americano.
  9. Quando eu era miúda,
    em Western Michigan, nos anos 80,
  10. não havia muitos escritores
    asiático-americanos
  11. interessados em mudança social.
  12. Assim, voltei-me para James Baldwin
  13. como uma maneira de preencher esse vazio,
    para me sentir racialmente consciente.
  14. Mas talvez por eu saber
    que não era afro-americana,
  15. também me senti desafiada
    e atingida pelas suas palavras,
  16. em especial por estas palavras:
  17. "Há liberais que têm
    todas as atitudes apropriadas,
  18. "mas não têm reais convicções.
  19. "Quando chega a hora da verdade,
    e esperamos que eles se apresentem,
  20. "eles não estão presentes."
  21. Eles não estão presentes.
  22. Eu levei estas palavras muito a sério.
  23. Onde é que me devia colocar?
  24. Fui para o Delta do Mississippi,

  25. uma das regiões mais pobres dos EUA.
  26. É um local formado
    por uma poderosa história.
  27. Em 1960, afro-americanos
    arriscaram a vida para lutar pelo ensino,
  28. para lutar pelo direito ao voto.
  29. Eu gostava de ter feito parte
    dessa mudança,
  30. ajudar adolescentes a formarem-se
    e irem para a faculdade.
  31. Quando cheguei ao Delta do Mississippi,
  32. este ainda era um local pobre,
  33. continuava segregado,
  34. ainda a necessitar
    profundamente de mudança.
  35. A escola, onde fui colocada,

  36. não tinha biblioteca, nenhum orientador,
  37. mas tinha um agente da polícia.
  38. Metade dos professores eram substitutos
  39. e quando os alunos se envolviam em lutas,
  40. a escola podia enviá-los
    para a cadeia local.
  41. Foi nesta escola que conheci Patrick.

  42. Ele tinha 15 anos e reprovara duas vezes,
    por isso, estava no 8.º ano.
  43. Era calado, introspetivo,
  44. como se estivesse sempre
    profundamente pensativo.
  45. Detestava ver os outros a lutar.
  46. Vi-o uma vez saltar entre duas raparigas
    que se envolveram numa briga
  47. e acabou por ser atirado ao chão.
  48. Patrick só tinha um problema.
  49. Faltava à escola.
  50. Dizia que, às vezes,
    a escola era muito deprimente
  51. porque as pessoas estavam sempre a lutar
    e os professores iam-se embora
  52. e também porque a mãe tinha dois empregos,
    estava muito cansada para obrigá-lo a ir.
  53. Então, eu fiz o meu trabalho,
    convencê-lo a ir à escola.
  54. Como eu era louca, tinha 22 anos
    e fanaticamente otimista,
  55. a minha estratégia era
    aparecer em casa dele e dizer:
  56. " Olá, porque é que não vens à escola?"
  57. A minha estratégia funcionou.
  58. Ele começou a ir à escola todos os dias.
  59. Começou a florescer na minha turma.
  60. Estava a escrever poesia,
    estava a ler livros.
  61. Estava a ir à escola todos os dias.
  62. Na mesma altura

  63. em que eu tinha conseguido
    comunicar com o Patrick,
  64. entrei para a escola de Direito
    em Harvard.
  65. Mais uma vez enfrentava esta questão:
  66. Onde devia colocar-me,
    onde colocar o meu corpo?
  67. E pensei comigo mesma
  68. que o Delta do Mississippi
    era um lugar onde as pessoas com dinheiro,
  69. as pessoas com oportunidades,

  70. se vão embora.
  71. As pessoas que ficam para trás
  72. são as pessoas que não têm
    a hipótese de se ir embora.
  73. Eu não queria ser a pessoa
    que se ia embora.
  74. queria ser a pessoa que ficava.
  75. Por outro lado, eu estava só e cansada.
  76. Então, convenci-me
    que podia fazer mais mudanças
  77. em larga escala, se tivesse
    um prestigiado diploma de Direito.
  78. Então, fui-me embora.
  79. Três anos mais tarde,

  80. quando eu estava perto
    de acabar o curso de Direito,
  81. um amigo meu ligou-me
  82. e disse-me que o Patrick se tinha
    envolvido numa luta e tinha matado alguém.
  83. Eu fiquei destroçada.
  84. Parte de mim não acreditava naquilo,
  85. mas parte de mim sabia que era verdade.
  86. Apanhei um avião para ir ver Patrick.
  87. Visitei-o na cadeia.
  88. E ele contou-me que era verdade,
  89. que havia matado alguém.
  90. Mas não queria falar nisso.
  91. Perguntei-lhe o que tinha
    acontecido com a escola
  92. e ele disse que tinha desistido
    um ano depois de eu me ter ido embora.
  93. Então, quis contar-me outra coisa.
  94. Baixou os olhos e disse
    que tinha tido uma bebé
  95. que acabara de nascer.
  96. Sentia-se como se a tivesse dececionado.
  97. Foi só isso, a nossa conversa
    foi apressada e desajeitada.
  98. Quando saí da cadeia,
    uma voz dentro de mim disse:

  99. "Volta.
  100. "Se não voltares agora,
    nunca mais vais voltar."
  101. Então, acabei o curso de Direito e voltei.
  102. Fui novamente ver o Patrick.
  103. Voltei para ver se podia ajudá-lo
    no seu processo jurídico.
  104. Desta vez, quando o vi pela segunda vez,
  105. pensei que tinha uma ótima ideia, e disse:
  106. "Patrick, porque é que não escreves
    uma carta para a tua filha,
  107. "para poderes mantê-la na tua memória?"
  108. Arranjei-lhe uma caneta e papel
  109. e ele começou a escrever.
  110. Mas quando vi o papel
    que ele me entregou,

  111. fiquei chocada.
  112. Não reconheci a sua caligrafia,
  113. tinha feito erros ortográficos simples.
  114. Pensei que, enquanto professora,
  115. eu sabia que um aluno
    podia melhorar profundamente
  116. num curtíssimo período de tempo,
  117. mas nunca pensara que um aluno
    pudesse regredir profundamente.
  118. O que ainda mais me chocou,
  119. foi ver o que ele tinha escrito à filha.
  120. Ele tinha escrito:
  121. "Desculpa-me pelos meus erros,
    Desculpa-me por não estar aí contigo."
  122. Era tudo o que ele sentia
    que havia para lhe dizer.
  123. Perguntei a mim mesma como convencê-lo
    de que ele tinha mais para dizer,
  124. contar coisas das quais
    não precisava de pedir desculpa.
  125. Eu queria que ele sentisse
  126. que tinha algo de valor
    a partilhar com a filha.
  127. Todos os dias dos sete meses seguintes

  128. visitei-o e levei-lhe livros.
  129. A minha mala passou a ser
    uma pequena biblioteca.
  130. Levei-lhe James Baldwin,
  131. levei-lhe Walt Whitman, C.S Lewis.
  132. Levei-lhe manuais de árvores, de pássaros,
  133. e o que passou a tornar-se
    o seu livro favorito, o dicionário.
  134. Nalguns dias,
  135. sentávamo-nos durante horas,
    em silêncio, ambos a ler.
  136. Noutros dias,
  137. líamos juntos, líamos poesia.
  138. Começámos por ler "haikus",
    centenas de "haikus",

  139. obras-primas aparentemente simples.
  140. Eu perguntava-lhe:
    "Diz-me qual é o teu 'haiku' favorito."
  141. Alguns deles são bem divertidos.
  142. Havia este, de Issa:
  143. "Não se preocupem, aranhas,
    eu só limpo a casa de vez em quando."
  144. e este: " Dormitei metade do dia,
    e ninguém me puniu!"
  145. E este lindo, que é
    sobre o primeiro dia de neve:
  146. "Cervos lambendo a primeira geada
    dos casacos um dos outros."
  147. Há algo misterioso e maravilhoso
  148. no aspeto de um poema.
  149. O espaço vazio é tão importante
    como as suas palavras.
  150. Lemos aquele poema de W.S Merwin,

  151. que ele escreveu depois de ver
    a mulher a trabalhar no jardim
  152. e percebera que iam passar juntos
    o resto da vida.
  153. "Deixa-me imaginar
    que voltaremos novamente
  154. "quando quisermos e será primavera.
  155. "Não seremos mais velhos
    do que já fomos.
  156. "As tristezas desgastadas ter-se-ão
    amenizado, como a primeira nuvem
  157. "através da qual a manhã
    desponta lentamente".
  158. Perguntei a Patrick qual era
    o seu verso favorito, e ele disse:
  159. "Não seremos mais velhos
    do que já fomos".
  160. Disse que isto lhe lembrava
    um lugar onde o tempo parara,
  161. onde o tempo já não era importante.
  162. Eu perguntei-lhe
    se ele tinha um lugar igual àquele,
  163. em que o tempo dura para sempre,
  164. E ele disse: " A minha mãe."
  165. Quando lemos um poema
    juntamente com alguém,
  166. o poema muda de sentido.
  167. Porque torna-se pessoal para essa pessoa,
    torna-se pessoal para nós.
  168. Depois líamos livros,
    lemos um monte de livros,

  169. lemos as memórias de Frederick Douglas,
  170. um escravo americano que aprendeu
    sozinho a ler e a escrever
  171. e que conquistou a liberdade
    por causa da sua alfabetização.
  172. Eu tinha crescido a pensar
    em Frederick Douglas como um herói
  173. e achava aquela história
    uma inspiração e esperança.
  174. Mas este livro colocou Patrick
    num estado de pânico.
  175. Fixou-se numa história que Douglas contou
    como, durante o Natal,
  176. os amos dão gim aos escravos
  177. como uma forma de lhes provar
    que eles não podem lidar com a liberdade,
  178. porque os escravos andavam
    a cambalear pelos campos.
  179. Patrick disse que percebia bem isso
  180. porque havia pessoas na cadeia
    que, tal como os escravos,
  181. não querem pensar na sua situação
  182. porque é muito doloroso.
  183. É muito doloroso pensar no passado,
  184. muito doloroso pensar
    até onde temos de ir.
  185. A sua parte favorita era esta:

  186. "Qualquer coisa, seja o que for,
    que nos livre dos pensamentos!
  187. "Era esse pensamento eterno
    da minha situação que me atormentava."
  188. Patrick disse que Douglas era corajoso
    para escrever, para continuar a pensar.
  189. Mas Patrick nunca soube como eu o achava
    parecido com o Douglas.
  190. Como ele continuava a ler,
    mesmo que ficasse em pânico.
  191. Acabou o livro antes de mim,
  192. lendo-o numa escada
    de cimento sem luz.
  193. Depois, prosseguimos,
    lendo um dos meus livros favoritos,

  194. "Gilead", de Marilynne Robinson,
  195. que é uma extensa carta
    de um pai para o filho.
  196. Ele gostou muito desta frase:
  197. "Estou a escrever
    com o objetivo de te dizer
  198. "que, se já pensaste
    no que fizeste na vida...
  199. "tens sido para mim uma graça de Deus,
  200. "um milagre, algo maior
    que um milagre."
  201. Algo nesta linguagem,
    no seu amor, na sua saudade, na sua voz,

  202. reacendeu o desejo de Patrick de escrever.
  203. Preenchia cadernos e cadernos
  204. com cartas para a filha.
  205. Nessas cartas bonitas e sofisticadas,
  206. ele imaginava-se com a filha
    a fazer canoagem rio Mississippi abaixo.
  207. Imaginava-se com ela
    a encontrar um riacho na montanha
  208. com água muito límpida.
  209. Enquanto eu via Patrick a escrever,
  210. pensava comigo mesma,
  211. e agora pergunto a vocês todos:
  212. Quem aqui já escreveu uma carta a alguém
    que sentiu ter dececionado?
  213. É muito mais fácil afastar
    essa pessoa do pensamento.
  214. Mas Patrick mostrava-se
    todos os dias à sua filha,
  215. mantendo-se responsável por ela,
  216. palavra por palavra
    com intensa concentração.
  217. Eu queria, na minha vida,

  218. correr o risco daquele modo.
  219. Porque esse risco revela
    a força do coração de uma pessoa.
  220. Vou recuar um pouco
    e fazer uma pergunta desconfortável:
  221. Quem sou eu para contar esta história,
    como esta história do Patrick?
  222. Patrick é um ser que viveu com a sua dor
  223. e eu nunca passei fome
    um só dia da minha vida.
  224. Pensei muito nesta questão,
  225. mas o que eu quero dizer
    é que esta história
  226. não é sobre o Patrick, é sobre nós,
  227. é sobre a desigualdade entre nós.
  228. O mundo de abundância
  229. de que Patrick, os seus pais e avós
    foram excluídos,
  230. Nesta história, eu represento
    esse mundo de abundância.
  231. Ao contar esta história,
    eu não queria esconder-me,
  232. esconder o poder que eu tenho.
  233. Eu estou a contar esta história,
    porque queria mostrar este poder

  234. e depois perguntar:
  235. Como diminuímos a distância entre nós?
  236. A leitura é uma maneira
    de reduzir essa distância.
  237. Dá-nos um universo silencioso,
    que podemos partilhar juntos,
  238. que podemos partilhar em igualdade.
  239. Provavelmente estarão a perguntar
    o que aconteceu ao Patrick.

  240. A leitura salvou-lhe a vida?
  241. Salvou e não salvou.
  242. Quando Patrick saiu da prisão,
  243. o seu percurso foi intensamente doloroso.
  244. Os empregadores rejeitavam-no
    por causa do seu cadastro,
  245. a sua melhor amiga, a sua mãe,
    morrera aos 43 anos
  246. com uma doença cardíaca e diabetes.
  247. Ele esteve sem abrigo, passou fome.
  248. As pessoas dizem muitas coisas
    sobre a leitura que me parecem exageradas.

  249. Ser alfabetizado não o impediu
    de ser discriminado.
  250. Não impediu que a mãe morresse.
  251. Então, o que é que a leitura pode fazer?
  252. Eu tenho algumas respostas
    para terminar.
  253. A leitura preencheu a sua vida interior

  254. de mistério, de imaginação,
  255. de beleza.
  256. A leitura deu-lhe imagens
    que lhe deram alegria:
  257. montanhas, oceanos, cervos, geada.
  258. Palavras com sabor
    a um mundo livre, natural.
  259. A leitura deu-lhe uma linguagem
    para o que ele tinha perdido.
  260. Quão preciosas foram aqueles versos
    do poeta Derek Walcott?
  261. Patrick memorizou este poema:
  262. "Dias que retive,
  263. "dias que perdi,
  264. "dias que superam, como filhas,
  265. "os meus braços de abrigo."
  266. A leitura ensinou-lhe
    a sua própria coragem.

  267. Lembrem-se que ele continuou a ler
    Frederick Douglas,
  268. apesar de isso ser doloroso.
  269. Ele manteve-se consciente,
    apesar de a consciência o magoar.
  270. A leitura é uma forma de pensamento,
  271. é por isso que é difícil ler
    porque temos de pensar.
  272. E Patrick escolheu pensar,
    em vez de não pensar.
  273. Por último, a leitura deu-lhe
    uma linguagem para falar com a filha.
  274. A leitura inspirou-o a querer escrever.
  275. A ligação entre ler e escrever
    é muito poderosa.
  276. Quando começamos a ler,
  277. começamos a encontrar as palavras.
  278. Ele encontrou as palavras
    para imaginar os dois juntos.
  279. Ele encontrou as palavras
  280. para lhe dizer quanto a amava.
  281. A leitura também mudou
    a nossa relação.

  282. Deu-nos ocasião para intimidade,
  283. para ver além dos nossos pontos de vista.
  284. A leitura baseou-se numa relação desigual
  285. e deu-nos uma igualdade momentânea.
  286. Quando conhecemos alguém que é um leitor,
  287. conhecemo-lo pela primeira vez,
  288. de uma nova forma, mais fresca.
  289. Não temos hipótese de saber
    qual será a sua frase favorita,
  290. que lembranças
    e mágoas particulares ele tem.
  291. Enfrentamos a privacidade derradeira
    da sua vida interior.
  292. E começamos a pensar,
    "De que é feita a minha vida interior?
  293. "O que é que eu tenho que vale a pena
    partilhar com alguém?"
  294. Eu quero finalizar

  295. com algumas das minhas frases favoritas
    das cartas de Patrick para a filha:
  296. "O rio é sombrio nalguns sítios
  297. "mas a luz brilha
    através dos intervalos das árvores".
  298. "Nalguns ramos estão suspensas
    muitas amoras.
  299. "Esticamos o braço para apanhar algumas."
  300. E esta carta adorável,
    em que ele escreve:
  301. "Fecha os olhos e ouve
    o som das palavras.
  302. "Eu sei este poema de cor
  303. "e gostava que tu também soubesses."
  304. Muito obrigada a todos.

  305. (Aplausos)