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Showing Revision 9 created 09/01/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Eis uma pergunta
    que todos devíamos fazer:
  2. O que é que correu mal?
  3. Não só com a pandemia
  4. mas também com a nossa vida cívica.
  5. O que nos trouxe a este momento político
    polarizado e rancoroso?
  6. Nas últimas décadas,

  7. a divisão entre vencedores e falhados
    tem-se aprofundado,
  8. envenenando a nossa política,
  9. separando-nos.
  10. Em parte, esta divisão surge
    por causa da desigualdade.
  11. Mas também surge por causa
    das atitudes face a ganhar e perder
  12. que a têm acompanhado.
  13. Quem alcançou o topo
  14. passou a crer que o sucesso
    foi um feito seu,
  15. é uma medida do seu mérito,

  16. e que quem saiu a perder
    só tem de se culpar a si próprio.
  17. Esta forma de pensar no sucesso

  18. emerge de um princípio
    aparentemente atraente.
  19. Se todos têm as mesmas oportunidades,
  20. os vencedores merecem as suas vitórias.
  21. É esta a essência do ideal meritocrático.
  22. Na prática, claro, as coisas
    são muito diferentes.
  23. Nem todos têm as mesmas
    oportunidades para subir.
  24. Os filhos de famílias pobres
    costumam manter-se pobres ao crescer.
  25. Os pais abastados conseguem
    passar as suas vantagens aos filhos.
  26. Nas universidades da Ivy League,
    por exemplo
  27. — as de maior prestígio nos EUA —
  28. há mais estudantes
    do um por cento do topo
  29. do que de toda a metade inferior
    do país em conjunto.
  30. Mas o problema não é só
    não conseguirmos estar à altura

  31. dos princípios meritocráticos
    que proclamamos.
  32. O ideal em si tem falhas.
  33. Tem um lado negro.
  34. A meritocracia corrói o bem comum.
  35. Leva à arrogância entre os vencedores
  36. e à humilhação entre quem sai a perder.
  37. Encoraja quem tem sucesso
    a inalá-lo demasiado profundamente,
  38. a esquecer a sorte e a boa fortuna
    que os ajudou pelo caminho.
  39. E leva-os a desprezar
    os menos afortunados,
  40. os menos credenciados que eles.
  41. Isto é importante para a política.
  42. Umas das fontes mais potentes
    de revolta popular
  43. é a sensação, entre muitos trabalhadores,
    de que a elite os despreza.
  44. É uma queixa legítima.
  45. Mesmo quando a globalização
    trouxe um agravamento da desigualdade

  46. e a estagnação dos salários,
  47. os seus defensores deram aos trabalhadores
    um conselho estimulante.
  48. "Se querem competir e vencer
    na economia global,
  49. "vão para a universidade."
  50. "O que ganham depende do que aprendem."
  51. "Se tentarem, podem ter sucesso."
  52. Escapa a estas elites o insulto
    implícito nestes conselhos.
  53. Se não forem para a universidade,
  54. se não prosperarem na nova economia,
  55. o vosso fracasso é culpa vossa.
  56. É essa a implicação.
  57. Não é de admirar que muitos trabalhadores
  58. se tenham revoltado
    contra as elites meritocráticas.
  59. Então, o que devemos fazer?

  60. Precisamos de repensar três aspetos
    da nossa vida cívica.
  61. O papel da universidade,
  62. a dignidade do trabalho
  63. e o significado do sucesso.
  64. Devíamos começar por repensar
    o papel das universidades

  65. enquanto árbitros da oportunidade.
  66. Para quem passa os dias
    na companhia dos credenciados,
  67. é fácil esquecer um facto simples:
  68. a maioria das pessoas não tem
    um curso universitário de quatro anos.
  69. De facto, quase dois terços
    dos americanos não os têm.
  70. Portanto, é uma insensatez
    criar uma economia
  71. que faz de um diploma universitário
    uma condição necessária
  72. para um trabalho digno e uma vida decente.
  73. Encorajar as pessoas a ir
    para a universidade é uma coisa boa.

  74. Alargar o acesso a quem
    não tem meios para a pagar
  75. é ainda melhor.
  76. Mas isto não é uma solução
    para a desigualdade.
  77. Devíamos focar-nos menos
  78. em armar as pessoas
    para o combate meritocrático,
  79. e focarmo-nos mais em melhorar a vida
  80. de quem não tem um diploma
  81. mas que faz contribuições fundamentais
    para a nossa sociedade.
  82. Devíamos renovar a dignidade do trabalho

  83. e colocá-la no centro da nossa política.
  84. Devíamos lembrar-nos de que o trabalho
    não é só sobre ganhar a vida.
  85. É também sobre contribuir
    para o bem comum
  86. e obter reconhecimento por isso.
  87. Robert F. Kennedy expressou bem isto
    há meio século.

  88. Comunhão, comunidade,
    patriotismo partilhado.
  89. Estes valores fundamentais não aparecem
  90. só por comprarmos e consumirmos
    bens juntos.
  91. Aparecem a partir de um emprego digno,
  92. de um salário decente.
  93. O tipo de emprego
    que nos permita dizer:
  94. "Eu ajudei a construir este país.
  95. "Participo nos seus grandes
    empreendimentos públicos."
  96. Este sentimento cívico
  97. está largamente em falta
    na nossa vida pública de hoje.
  98. Muitas vezes, assumimos
    que o dinheiro que as pessoas ganham

  99. é a medida da sua contribuição
    para o bem comum.
  100. Mas isto é um erro.
  101. Martin Luther King Jr. explicou porquê.
  102. Refletindo sobre uma greve
    de trabalhadores de saneamento
  103. em Memphis, no Tennessee,
  104. pouco antes de ser assassinado,
  105. King disse:
  106. "A pessoa que apanha o nosso lixo
    é, em última análise,
  107. "tão importante quanto o médico,
  108. "pois, se não fizer o seu trabalho,
  109. "as doenças assumem
    proporções devastadoras.
  110. "Todos os trabalhos têm dignidade."

  111. A pandemia de hoje torna isto claro.

  112. Revela o quão profundamente dependemos
  113. de trabalhadores que,
    muitas vezes, ignoramos.
  114. Distribuidores,
  115. técnicos de manutenção,
  116. empregados de balcão de mercearias,
  117. empregados de armazém,
  118. camionistas,
  119. auxiliares de enfermagem,
  120. educadores de infância,
  121. prestadores de cuidados de saúde
    ao domicílio.
  122. Não são os trabalhadores mais bem pagos
    nem os mais reverenciados.
  123. Mas, agora, reconhecemos
    que são trabalhadores essenciais.
  124. Este é um momento para um debate público
  125. sobre como alinhar
    o seu salário e reconhecimento
  126. com a importância do seu trabalho.
  127. Também é tempo de uma viragem
    moral e até espiritual,

  128. de questionarmos
    a nossa arrogância meritocrática.
  129. Moralmente, mereço os talentos
    que me permitiram prosperar?
  130. É obra minha
  131. eu viver numa sociedade
    que valoriza os talentos
  132. que, por acaso, eu tenho?
  133. Ou tive muita sorte?
  134. Insistir que o meu sucesso
    só a mim se deve
  135. dificulta o exercício de me colocar
    no lugar dos outros.
  136. Apreciar o papel da sorte na vida
  137. pode instigar uma certa humildade.
  138. Cheguei ali por ter nascido onde nasci,
  139. ou pela graça de Deus,
  140. ou pelo mistério do destino.
  141. Este espírito de humildade

  142. é a virtude cívica que faz falta agora.
  143. É o início do caminho de regresso
  144. da dura ética de sucesso
    que nos afasta.
  145. Remete-nos para lá da tirania do mérito,
  146. para uma vida pública
    menos rancorosa e mais generosa.