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← A tirania do mérito

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Showing Revision 10 created 10/03/2020 by Leonardo Silva.

  1. Eis uma pergunta que todos
    deveríamos estar fazendo:
  2. o que deu errado,
  3. não apenas com a pandemia,
  4. mas com nossa vida cívica?
  5. O que nos trouxe a este momento político
    polarizado e rancoroso?
  6. Nas últimas décadas,

  7. a divisão entre vencedores e perdedores
    vem se aprofundando,
  8. envenenando nossa política,
  9. nos separando.
  10. Essa divisão diz respeito
    parcialmente à desigualdade,
  11. mas também diz respeito às atitudes
    em relação a ganhar e a perder
  12. que acompanharam essa divisão.
  13. Aqueles que chegaram ao topo
  14. passaram a acreditar que o sucesso
    que tiveram foi fruto do próprio trabalho,
  15. uma medida de seu mérito,
  16. e que aqueles que fracassaram
  17. não tinham ninguém para culpar
    a não ser a si mesmos.
  18. Essa maneira de refletir
    a respeito do sucesso

  19. surge de um princípio
    aparentemente atraente.
  20. Se todos tiverem chances iguais,
  21. os vencedores merecem seus ganhos.
  22. Esse é o cerne do ideal meritocrático.
  23. Na prática, é claro, ficamos muito aquém.
  24. Nem todos têm a mesma chance de crescer.
  25. Crianças que nascem em famílias pobres
    tendem a permanecer pobres quando crescem.
  26. Pais ricos podem passar
    suas vantagens aos filhos.
  27. Nas universidades
    de elite dos EUA, por exemplo,
  28. há mais alunos do 1% mais rico
  29. do que de toda a metade
    menos favorecida do país.
  30. Mas o problema não é apenas
    que deixamos de satisfazer

  31. os princípios meritocráticos
    que proclamamos.
  32. O ideal em si não é perfeito.
  33. Há um lado obscuro nele.
  34. A meritocracia corrói o bem comum.
  35. Leva à arrogância entre os vencedores
  36. e à humilhação
    entre aqueles que fracassam.
  37. Incentiva os bem-sucedidos
    a inspirarem profundamente seu sucesso,
  38. a se esquecerem da sorte e da casualidade
    que os ajudaram em seu caminho.
  39. E ela os leva a menosprezarem
    os menos afortunados,
  40. os menos privilegiados do que eles.
  41. Isso é importante para a política.
  42. Uma das fontes mais poderosas
    da reação popular
  43. é a sensação entre muitos trabalhadores
    de que as elites os menosprezam.
  44. É uma reclamação legítima.
  45. Mesmo quando a globalização
    trouxe desigualdades cada vez maiores

  46. e salários estagnados,
  47. seus defensores deram aos trabalhadores
    alguns conselhos estimulantes.
  48. "Se você quiser competir
    e vencer na economia global,
  49. faça faculdade."
  50. "O que você ganha
    depende do que você aprende."
  51. "Você consegue se tentar."
  52. Essas elites não percebem
    o insulto implícito nesse conselho.
  53. Se você não for para a faculdade,
  54. se você não prosperar na nova economia,
  55. o fracasso é sua culpa.
  56. Essa é a implicação.
  57. Não é de se admirar
  58. que muitos trabalhadores tenham se voltado
    contra elites meritocráticas.
  59. Então o que deveríamos fazer?

  60. Precisamos repensar três aspectos
    de nossa vida cívica:
  61. o papel da faculdade,
  62. a dignidade do trabalho
  63. e o significado do sucesso.
  64. Devemos começar repensando
    o papel das universidades

  65. como árbitros de oportunidades.
  66. Para aqueles de nós que passam os dias
    na companhia dos privilegiados,
  67. é fácil se esquecer de um fato simples:
  68. a maioria das pessoas não tem
    um diploma universitário de quatro anos.
  69. Na verdade, quase dois terços
    dos norte-americanos não têm.
  70. Portanto, é tolice criar uma economia
  71. que faça do diploma universitário
    uma condição necessária
  72. para um trabalho digno
    e uma vida satisfatória.
  73. Incentivar as pessoas a irem
    para a faculdade é uma coisa boa.

  74. Ampliar o acesso para quem não pode pagar
  75. é ainda melhor.
  76. Mas essa não é uma solução
    para a desigualdade.
  77. Devemos nos concentrar menos em armar
    as pessoas para o combate meritocrático
  78. e mais em tornar a vida melhor
  79. para as pessoas que não têm diploma,
  80. mas que fazem contribuições essenciais
    para a nossa sociedade.
  81. Devemos renovar a dignidade do trabalho

  82. e colocá-lo no centro de nossas políticas.
  83. Devemos lembrar que trabalhar
    não se trata apenas de ganhar a vida,
  84. mas também contribuir para o bem comum
  85. e ganhar reconhecimento por isso.
  86. Robert F. Kennedy
    disse bem isso há meio século.

  87. Solidariedade, comunidade,
    patriotismo compartilhado.
  88. Esses valores essenciais não vêm
    apenas da compra e do consumo de produtos.
  89. Eles vêm de empregos dignos,
  90. com salários adequados,
  91. o tipo de emprego que nos permite dizer:
  92. "Eu ajudei a construir esta nação.
  93. Faço parte de seus grandes
    empreendimentos públicos".
  94. Esse sentimento cívico
  95. está em grande parte ausente
    de nossa vida pública atual.
  96. Presumimos com frequência
    que o dinheiro que as pessoas ganham

  97. é a medida de sua contribuição
    para o bem comum.
  98. Mas isso é um erro.
  99. Martin Luther King Jr. explicou o motivo.
  100. Ao refletir sobre uma greve
    de funcionários da limpeza pública
  101. em Memphis, no Tennessee,
  102. pouco antes de ser assassinado,
  103. King disse:
  104. "A pessoa que recolhe
    nosso lixo é, na verdade,
  105. tão importante quanto o médico,
  106. pois, se ele não fizer o trabalho dele,
  107. doenças irão se alastrar.
  108. Todo trabalho tem dignidade".
  109. A pandemia de hoje deixa isso claro.

  110. Ela revela o quanto
    confiamos profundamente
  111. em trabalhadores
    que muitas vezes negligenciamos:
  112. entregadores,
  113. funcionários de manutenção,
  114. balconistas de supermercado,
  115. funcionários de depósitos,
  116. caminhoneiros,
  117. auxiliares de enfermagem,
  118. funcionários de creches,
  119. assistentes domiciliares de saúde.
  120. Eles não são os trabalhadores
    mais bem pagos ou os mais prestigiados.
  121. Mas agora nós os vemos
    como trabalhadores essenciais.
  122. Este é um momento para um debate público
  123. sobre como alinhar melhor
    sua remuneração e seu reconhecimento
  124. com a importância de seu trabalho.
  125. Também é a hora de uma virada moral,

  126. e até mesmo espiritual,
  127. para o questionamento
    de nossa arrogância meritocrática.
  128. Será que eu mereço moralmente
    os talentos que me permitem prosperar?
  129. Será que é por minha causa
  130. que vivo em uma sociedade
    que valoriza os talentos que eu tenho?
  131. Ou será que tenho sorte?
  132. Insistir que meu sucesso se deve a mim
  133. torna difícil me ver
    no lugar de outras pessoas.
  134. Compreender o papel da sorte na vida
  135. pode levar a uma certa humildade.
  136. "Seja pelo berço,
  137. pela graça de Deus
  138. ou pelo mistério do destino,
  139. tive mais sorte do que os outros."
  140. Esse espírito de humildade

  141. é a virtude cívica
    de que precisamos agora.
  142. É o começo de um caminho de volta
  143. da ética severa do sucesso que nos separa.
  144. Ele aponta para algo
    além da tirania do mérito,
  145. para uma vida pública
    menos rancorosa e mais generosa.