Portuguese subtitles

← Um tributo aos enfermeiros

Get Embed Code
28 Languages

Showing Revision 17 created 05/13/2017 by Margarida Ferreira.

  1. Como pacientes,
  2. costumamos lembrar-nos
    dos nomes dos nossos médicos,
  3. mas nem sempre do nome dos enfermeiros.
  4. Eu lembro-me de uma enfermeira.
  5. Tive cancro de mama há alguns anos,
  6. e consegui lidar com as cirurgias,
  7. e o início do tratamento foi tranquilo.
  8. Eu podia esconder
    o que me estava a acontecer.
  9. Ninguém precisava de saber.
  10. Eu podia levar minha filha à escola,
  11. eu podia sair para jantar com meu marido;
  12. podia enganar as pessoas.
  13. Então o início da quimioterapia
    foi marcado
  14. e isso aterrorizou-me,
  15. pois eu sabia que iria perder
    cada fio de cabelo de todo o meu corpo
  16. por causa do tipo de quimio
    que eu teria de fazer.
  17. Eu já não conseguiria fingir
  18. que estava tudo normal.
  19. Eu estava assustada.

  20. Eu sabia como iria ser
    todos a tratar-me como flor de estufa,
  21. e eu só me queria sentir normal.
  22. Eu tinha um cateter no meu peito.
  23. Eu fui ao meu primeiro dia
    de quimioterapia,
  24. e sentia-me arrasada.
  25. A minha enfermeira Joanne
    entrou pela porta
  26. e cada parte do meu corpo dizia-me
    para me levantar da cadeira
  27. e fugir dali para fora.
  28. Mas Joanne olhou para mim e falou comigo
    como se fôssemos velhas amigas.
  29. E então ela perguntou-me:
  30. "Onde é que fez essas madeixas?"
  31. (Risos)

  32. E eu pensei: "Está a brincar comigo"?

  33. "Você vai falar-me sobre cabelos
    quando estou prestes a perdê-los?"
  34. Eu estava irritada,
  35. e perguntei-lhe: "A sério? Cabelos?"
  36. E encolhendo os ombros ela disse:
  37. "Eles vão crescer de novo."
  38. Naquele momento, ela disse
    o que eu não tinha percebido:
  39. Dali a algum tempo,
    a minha vida voltaria ao normal.
  40. Ela realmente acreditava naquilo.
  41. Então, eu acreditei também.
  42. Preocupar-nos com a perda de cabelo
    quando se está a lutar contra o cancro

  43. pode parecer inicialmente uma tolice,
  44. mas não é só preocupação
    com a nossa aparência.
  45. É estarmos preocupados com o cuidado
    com que os outros nos vão tratar.
  46. A Joanne fez-me sentir normal
    pela primeira vez em seis meses.
  47. Falámos sobre os seus namorados,
  48. falámos sobre a procura de
    apartamentos em Nova Iorque,
  49. e falámos sobre a minha reação
    à quimioterapia
  50. — e tudo misturado.
  51. Eu sempre me perguntei
  52. como é que ela tão instintivamente
    sabia tão bem como falar comigo?
  53. Joanne Staha e minha admiração por ela

  54. marcou o início da minha incursão
    ao mundo dos enfermeiros.
  55. Alguns anos depois,
    propuseram-me fazer um projeto
  56. que celebrasse
    o trabalho dos enfermeiros.
  57. Eu comecei pela Joanne,
  58. E conheci mais de 100 enfermeiros
    por todo o país.
  59. Eu passei cinco anos a entrevistar,
    a fotografar e a filmar enfermeiros
  60. para um livro e um documentário.
  61. Com a minha equipa,
  62. traçámos um itinerário no mapa dos EUA
    que nos levaria a lugares
  63. que lidam com alguns dos maiores
    problemas de saúde pública da nossa nação
  64. — envelhecimento, guerra,
    pobreza, prisões.
  65. E depois fomos a lugares
  66. onde se encontravam
    as maiores concentrações de pacientes
  67. que lidam com esses problemas.
  68. Pedimos aos hospitais e instituições
    para nomear os enfermeiros
  69. que melhor os representassem.
  70. Uma das primeiras enfermeiras que conheci
    foi Bridget Kumbella.

  71. A Bridget nasceu nos Camarões,
  72. e era a mais velha de quatro irmãos.
  73. O seu pai estava a trabalhar
    quando caiu do quarto andar
  74. e magoou gravemente a coluna.
  75. E ele falava muito sobre
    como era ficar acamado
  76. e não ter o tipo de tratamento
    de que se precisa.
  77. Isso motivou Bridget
    a seguir a profissão de enfermagem.
  78. Agora, como enfermeira no Bronx,
  79. ela tem um grupo muito diverso
    de pacientes de quem cuida,
  80. de todos os modos de vida,
  81. e de todas as diferentes religiões.
  82. Ela devotou a sua carreira
    à compreensão do impacto
  83. das nossas diferenças culturais
    quando se trata da nossa saúde.
  84. Ela falou-me de um paciente
  85. — um paciente nativo americano
    que ela teve —
  86. que queria trazer
    um punhado de penas para a UCI.
  87. Foi como ele encontrou conforto espiritual
  88. Ela disse-me como defendeu a causa dele
  89. e disse que os pacientes vinham
    de todas as diferentes religiões
  90. e usavam todo o tipo de diferentes
    objetos de conforto,
  91. fosse um rosário sagrado
    ou uma pena simbólica,
  92. e todos devem ser apoiados.
  93. Este é Jason Short.

  94. O Jason é enfermeiro domiciliar
    nas montanhas Apalache,
  95. e na sua infância, o seu pai
    tinha um posto de gasolina e uma oficina.
  96. Então ele consertava carros da comunidade
    onde agora serve como enfermeiro.
  97. Quando ele andava na universidade,
  98. não era nada viril
    tornar-se enfermeiro,
  99. então ele evitou exercer durante anos.
  100. Ele dirigiu camiões durante algum tempo,
  101. mas os seus caminhos
    traziam-no sempre de volta à enfermagem.
  102. Como enfermeiro nas montanhas Apalache,
  103. o Jason vai a lugares onde uma ambulância
    não consegue chegar.
  104. Nesta fotografia,
    ele está parado no que foi uma estrada.
  105. A mineração no topo da montanha
    inundou a estrada,
  106. e agora a única forma
    do Jason chegar até ao paciente
  107. que vive naquela casa
    com pneumoconiose
  108. é dirigir a sua carrinha
    contra a corrente e subir este riacho.
  109. No dia em que estava com ele,
    arrancámos o para-choques do carro.
  110. Na manhã seguinte, ele levantou-se,
    pôs o carro no elevador,
  111. consertou o para-choques,
  112. e saiu em direção
    ao seu paciente seguinte.
  113. Eu testemunhei os cuidados
    que o Jason prestou a este senhor,
  114. com tão enorme compaixão,
  115. e fiquei mais uma vez comovida pelo grau
    de intimidade do trabalho de enfermagem.
  116. Quando conheci o Brian McMillion,
    ele era seco.

  117. Tinha acabado de voltar de
    um hospital de campanha
  118. e ainda não se tinha voltado a acostumar
    à vida em San Diego.
  119. Ele falou sobre a sua experiência
    como enfermeiro na Alemanha
  120. e dos cuidados aos soldados
    que voltavam do campo de batalha.
  121. Muitas vezes, ele era
    a primeira pessoa que eles viam
  122. quando abriam os olhos no hospital.
  123. Eles olhavam para ele, deitados lá,
  124. com membros amputados,
  125. e a primeira coisa que diziam era:
  126. "Quando posso voltar?
    Eu deixei os meus irmãos lá."
  127. O Brian tinha que lhes dizer:
  128. "Você não vai a lugar algum.
  129. "Você já deu o suficiente, irmão."
  130. O Brian é um enfermeiro e um soldado
    que esteve em combate.
  131. Encontra-se numa posição única
  132. para estabelecer empatia e ajudar
    a curar os veteranos a seu cuidado.
  133. Esta é a Irmã Stephen.

  134. Dirige uma casa de repouso
    em Winsconsin chamada Villa Loretto.
  135. Todo o ciclo da vida
    pode ser encontrado sob o seu teto.
  136. Ela cresceu com o desejo de viver
    numa quinta,
  137. e tendo a oportunidade
    de adotar animais das quintas locais,
  138. ela entusiasticamente trá-los para a casa.
  139. Na primavera,
    esse animais têm filhotes.
  140. E a Irmã Stephen usa
    esse patinhos, cabritos e cordeiros
  141. como terapia animal
    para os residentes de Villa Loretto,
  142. que, por vezes, nem se conseguem
    lembrar dos seus próprios nomes,
  143. mas que ficam felizes
    por abraçar um cordeirinho.
  144. No dia em que estava com Irmã Stephen,
  145. precisei de levá-la da Villa Loretto
  146. para filmar parte da sua história.
  147. Antes de partirmos,
  148. ela foi ao quarto
    de um paciente moribundo.
  149. Ela curvou-se e disse:
  150. "Eu tenho que ficar fora o dia todo,
  151. "mas se Jesus o chamar,
    o senhor vá.
  152. "Vá para os braços de Jesus."
  153. Eu estava lá parada a pensar
  154. que foi a primeira vez na minha vida
  155. que eu vi que podemos mostrar
    o nosso amor por alguém
  156. deixando-o partir.
  157. Não precisamos de o reter com tanta força.
  158. Eu vi mais vida a acontecer
    em Villa Loretto
  159. do que alguma vez vi
    em qualquer altura e lugar na minha vida.
  160. Nós vivemos tempos complicados
    no nosso sistema de saúde.

  161. É fácil perder de vista
    a necessidade de qualidade de vida,
  162. não apenas a quantidade de vida.
  163. À medida que novas tecnologias
    de salvamento de vidas são criadas,
  164. vamos ter decisões
    muito complicadas de tomar.
  165. Essas tecnologias geralmente salvam vidas,
  166. mas também prolongam a dor
    e o processo da morte.
  167. Como é que é suposto
    navegarmos nestas águas?
  168. Vamos precisar de
    toda ajuda que conseguirmos.
  169. Os enfermeiros têm uma verdadeira
    relação especial connosco
  170. pelo tempo que passam à nossa cabeceira.
  171. Durante esse tempo,
  172. desenvolve-se um tipo de ligação
    emocional.
  173. No verão passado, em 9 de agosto,

  174. o meu pai morreu de ataque cardíaco.
  175. A minha mãe ficou devastada,
  176. ela não conseguia imaginar
    o seu mundo sem ele.
  177. Quatro dias depois ela caiu,
  178. ela fraturou o colo de fémur,
  179. ela precisou de cirurgia
  180. e viu-se a lutar pela própria vida.
  181. Mais uma vez,
  182. encontrei-me com
    os cuidados de enfermagem,
  183. desta vez, para minha mãe.
  184. O meu irmão, a minha irmã e eu
    ficámos ao lado dela
  185. nos três dias seguintes na UCI.
  186. Enquanto tentávamos
    tomar as decisões certas
  187. e obedecer aos desejos da nossa mãe,
  188. percebemos que estávamos
    a depender da orientação dos enfermeiros.
  189. E, mais uma vez,
  190. eles não nos dececionaram.
  191. Eles tinham uma impressionante perceção
    sobre como cuidar da minha mãe
  192. nos últimos quatro dias da sua vida.
  193. Eles trouxeram conforto
    e aliviaram a dor.
  194. Eles sabiam como nos encorajar,
    à minha irmã e a mim,
  195. a vestirmos uma linda camisa de noite
    à minha mãe,
  196. quando isso já não lhe importava a ela,
  197. mas era de tão grande
    importância para nós.
  198. Eles souberam quando me acordar
    a tempo do seu último suspiro.
  199. E depois eles souberam
    quanto tempo me deixar no quarto
  200. com a minha mãe depois da sua morte.
  201. Eu não tenho ideia de como
    eles sabem essas coisas,

  202. mas eu sei que sou eternamente grata
  203. por eles me terem orientado
    mais uma vez.
  204. Muitíssimo obrigada.

  205. (Aplausos)