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← Uma homenagem aos enfermeiros

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Showing Revision 31 created 06/15/2017 by Maricene Crus.

  1. Como pacientes,
  2. costumamos nos lembrar
    dos nomes de nossos médicos,
  3. mas, nem sempre, dos nomes
    de nossos enfermeiros.
  4. Eu me lembro de um.
  5. Tive câncer de mama alguns anos atrás
  6. e, de certa forma, consegui
    lidar com as cirurgias
  7. e o início do tratamento tranquilamente.
  8. Conseguia esconder
    o que estava acontecendo.
  9. Ninguém precisava saber.
  10. Podia levar minha filha à escola,
  11. sair para jantar com meu marido
  12. e enganar as pessoas.
  13. Mas quando o início
    da quimioterapia foi marcado,
  14. fiquei aterrorizada,
  15. pois sabia que iria perder
    cada fio de cabelo do meu corpo
  16. com o tipo de quimioterapia que eu faria.
  17. Não conseguiria mais fingir,
    como se tudo estivesse normal.
  18. Eu estava com medo.

  19. Sabia como me sentiria quando
    me tratassem como que "pisando em ovos",
  20. e só queria me sentir normal.
  21. Instalaram um cateter no meu peito.
  22. Fui ao primeiro dia de quimioterapia,
  23. e estava nervosíssima.
  24. Quando minha enfermeira, Joanne, chegou.
  25. Cada parte do meu corpo me dizia:
  26. "Levante-se da cadeira e saia correndo".
  27. Mas Joanne me olhou e conversou
    como se fôssemos velhas amigas.
  28. Daí, ela me perguntou:
  29. "Aonde você faz luzes no cabelo?"
  30. (Risos)

  31. E pensei: "É uma brincadeira?

  32. Ela quer falar sobre cabelo
    quando estou prestes a perdê-lo?"
  33. Fiquei com raiva,
    e disse: "Sério? Cabelo?"
  34. Ela encolheu os ombros e disse:
  35. "Vai crescer de novo".
  36. Naquele momento, ela disse
    o que eu tinha menosprezado:
  37. que em algum momento,
    minha vida voltaria ao normal.
  38. Ela acreditava naquilo, de verdade.
  39. Então, eu também acreditei.
  40. A princípio, pode parecer bobagem
    preocupar-se com perda do cabelo

  41. durante o combate ao câncer,
  42. mas não é só uma preocupação
    com a sua aparência.
  43. Tememos a forma dos outros
    nos tratarem, com tantos cuidados.
  44. Pela primeira vez em seis meses,
    Joanne me fez sentir normal.
  45. Conversamos sobre seus namorados,
  46. sobre procurar apartamentos em Nova York,
  47. e sobre minha reação à quimioterapia;
  48. tudo meio que misturado.
  49. E sempre me perguntei,
  50. como ela sabe, tão instintivamente,
    o que falar comigo?
  51. Joanne Staha e minha admiração por ela

  52. marcaram o início da minha viagem
    pelo mundo dos enfermeiros.
  53. Alguns anos depois,
    fui convidada a fazer um projeto
  54. para celebrar o trabalho dos enfermeiros.
  55. Comecei com Joanne e conheci
    mais de 100 enfermeiros, em todo o país.
  56. Passei cinco anos entrevistando,
    fotografando e filmando enfermeiros
  57. para um livro e um documentário.
  58. Com minha equipe,
  59. mapeamos uma viagem pelos Estados Unidos,
    que nos levou a lugares
  60. onde se encontram os maiores
    problemas de saúde pública do nosso país:
  61. envelhecimento, guerra, pobreza e prisões.
  62. E depois fomos a lugares
  63. onde encontramos as maiores
    concentrações de pacientes
  64. que enfrentam esses problemas.
  65. Pedimos aos hospitais e instituições
    que nomeassem os enfermeiros
  66. que melhor os representavam.
  67. Bridget Kumbella foi uma das primeiras
    enfermeiras que conheci.

  68. Bridget nasceu em Camarões,
    a mais velha de quatro irmãos.
  69. Seu pai estava trabalhando
    quando caiu do quarto andar,
  70. e machucou seriamente a coluna.
  71. Ele falava muito sobre
    a sensação de estar acamado
  72. e não ter o tipo de tratamento adequado.
  73. Isso motivou Bridget a seguir
    a profissão de enfermagem.
  74. Hoje, como enfermeira, no Bronx,
  75. ela tem um grupo muito diverso
    de pacientes sob seus cuidados,
  76. dos mais variadas classes sociais
  77. e de diversas religiões.
  78. Ela dedicou sua carreira à compreensão
  79. do impacto das diferenças culturais,
    quando se trata da nossa saúde.
  80. Ela falou de um paciente,
  81. um índio americano,
  82. que queria levar
    um punhado de penas para a UTI.
  83. Era assim que ele
    conseguia ter conforto espiritual.
  84. Ela o defendeu,
  85. e explicou que os pacientes
    têm diversas religiões,
  86. e usam os mais variados
    objetos para confortá-los;
  87. pode ser um santo rosário,
    ou uma pena simbólica,
  88. tudo deve ser apoiado.
  89. Esse é Jason Short.

  90. Jason é enfermeiro domiciliar
    nos Montes Apalaches.
  91. Na infância, seu pai tinha
    um posto de gasolina e uma oficina.
  92. Ele consertava carros na mesma comunidade
    na qual atua hoje como enfermeiro.
  93. Quando fez faculdade,
  94. ser enfermeiro não era para homens,
  95. então, ele evitou a profissão por anos.
  96. Dirigiu caminhões por um tempo,
  97. mas seus caminhos sempre
    o levavam de volta à enfermagem.
  98. Como enfermeiro, nos Montes Apalaches,
  99. Jason vai a lugares onde
    uma ambulância não consegue chegar.
  100. Nessa foto, ele está
    onde havia uma estrada.
  101. O minério, no topo da montanha,
    submergiu a estrada
  102. e agora, Jason só tem uma forma
    de chegar até o paciente,
  103. que tem pneumoconiose e vive naquela casa:
  104. dirigir seu veículo contra
    a corrente e subir o córrego.
  105. No dia em que estive com ele,
    o pára-choque dianteiro foi arrancado.
  106. Na manhã seguinte, ele levantou-se,
  107. elevou o carro, consertou o pára-choque,
    e saiu para visitar seu próximo paciente.
  108. Testemunhei os cuidados
    prestados por Jason a esse paciente,
  109. com tamanha compaixão,
  110. que novamente, fiquei comovida
    com o comprometimento dessa profissão.
  111. Quando conheci Brian McMillion,
    ele estava se reajustando.

  112. Ele tinha acabado
    de voltar de uma missão militar
  113. e ainda não tinha voltado
    à vida normal, em San Diego.
  114. Ele falou sobre a sua experiência
    como enfermeiro na Alemanha,
  115. onde cuidava dos soldados
    que vinham do campo de batalha.
  116. Muitas vezes, ele era
    a primeira pessoa que eles viam
  117. quando abriam os olhos no hospital.
  118. Acamados, olhavam para ele,
  119. com membros amputados,
  120. e a primeira coisa que diziam era:
  121. "Quando posso voltar?
    Deixei meus companheiros lá".
  122. E Brian tinha que dizer:
  123. "Você não vai a lugar nenhum.
    Já fez o suficiente, cara".
  124. Brian é um enfermeiro
    e soldado que lutou em batalhas.
  125. Isso lhe dá uma posição privilegiada
  126. para estabelecer empatia, e ajudar
    a curar veteranos sob seus cuidados.
  127. Essa é a Irmã Stephen.

  128. Ela dirige uma clínica de repouso
    em Wisconsin, chamada Villa Loretto.
  129. Todo o círculo da vida
    pode ser encontrado sob seu teto.
  130. Ela cresceu querendo
    que vivessem numa chácara,
  131. então, quando tem a oportunidade
    de adotar os animais da redondeza,
  132. ela os acolhe com entusiasmo.
  133. Na primavera, esses animais têm filhotes.
  134. E a Irmã Stephen usa patinhos,
    cabritinhos e cordeirinhos
  135. para terapia animal
    com os residentes da Villa Loretto,
  136. que, às vezes, não se lembram
    sequer do próprio nome,
  137. mas se alegram ao segurar o cordeirinho.
  138. No dia em que estive com a Irmã Stephen,
  139. precisei tirá-la da Villa Loretto
    para filmar parte da sua história.
  140. Antes de partirmos, ela foi ao quarto
    de um paciente moribundo.
  141. Ela curvou-se e disse:
  142. "Vou ficar fora o dia todo,
  143. mas se Jesus chamar você, vá.
    Vá direto para os braços de Jesus".
  144. Eu estava lá parada e pensei:
  145. foi a primeira vez na minha vida
  146. que presenciei uma demonstração
    de amor incondicional por alguém,
  147. deixando-o partir.
  148. Não precisamos nos apegar tanto.
  149. Vi mais vida acontecer na Villa Loretto,
  150. que em qualquer outro lugar
    ou momento da minha vida.
  151. Vivemos um momento complicado
    no que diz respeito ao sistema de saúde.

  152. É fácil ignorar a necessidade
    de qualidade de vida,
  153. não só quantidade de vida.
  154. À medida que são criadas
    novas tecnologias que salvam vidas,
  155. temos que tomar decisões
    muito complicadas.
  156. Essas tecnologias
    normalmente salvam vidas,
  157. mas podem, também, prolongar
    o sofrimento e o processo de morte.
  158. Como conseguir lidar com essa realidade?
  159. Precisamos de toda a ajuda possível.
  160. Os enfermeiros têm
    um relacionamento ímpar conosco,
  161. devido ao tempo que passamos acamados.
  162. Nesse tempo, criamos
    certa intimidade emocional.
  163. No último verão, em 9 de agosto,

  164. meu pai morreu de um ataque cardíaco.
  165. Minha mãe ficou arrasada,
  166. pois não conseguia se imaginar
    sem ele por perto.
  167. Quatro dias depois, ela caiu,
  168. quebrou o quadril,
  169. passou por uma cirurgia e de repente,
    estava lutando pela própria vida.
  170. Mais uma vez, eu me vi
  171. contando com os serviços de enfermeiros,
    dessa vez, para minha mãe.
  172. Meu irmão, minha irmã
    e eu ficamos ao lado dela,
  173. na UTI, pelos três dias seguintes.
  174. E enquanto tentávamos
    tomar as decisões certas
  175. e obedecer aos desejos de minha mãe,
  176. sentimos que dependíamos
    dos enfermeiros para orientação.
  177. E, mais uma vez,
  178. eles não nos decepcionaram.
  179. Tiveram uma percepção impressionante,
    em termos de como cuidar da minha mãe,
  180. nos seus últimos quatro dias de vida.
  181. Eles deram a ela conforto e alívio da dor.
  182. Souberam encorajar minha irmã e eu
    a vestir minha mãe com uma camisola linda,
  183. mesmo quando não importava mais a ela,
  184. mas, certamente,
    significou muito para nós.
  185. E souberam vir me acordar
    a tempo de ver o último suspiro dela.
  186. Souberam quanto tempo
    deviam me deixar no quarto,
  187. com minha mãe, após a morte.
  188. Não imagino como sabem dessas coisas,
  189. mas sei, com certeza,
    que sou eternamente grata
  190. por terem me guiado mais uma vez.
  191. Muitíssimo obrigada.

  192. (Aplausos)