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← O que os médicos devem saber sobre identidade de gênero

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Showing Revision 83 created 10/08/2018 by Maricene Crus.

  1. Tendo cerca de seis meses
    de experiência como terapeuta,

  2. eu estava trabalhando numa clínica
    de reabilitação de drogas e álcool.
  3. Recebi uma ligação da enfermeira
    da unidade de desintoxicação.
  4. Ela me pediu para descer
    e avaliar um dos novos pacientes
  5. que havia chegado naquele dia.
  6. Então fui até a unidade e tive
    o prazer de conhecer Anne.
  7. Anne é uma mulher transgênero e,
    quando começamos a conversar,
  8. ela compartilhou comigo
    o que a trouxe para o tratamento,
  9. mas eu podia ouvir o medo na voz dela,
  10. podia ver a preocupação nos olhos dela,
  11. e ela começou a me dizer
    que não temia entrar na reabilitação
  12. e ter que desistir das drogas e do álcool.
  13. O medo dela era de que os médicos
  14. não a tratassem como mulher.
  15. Ela me contou a dor que sentiu a vida toda

  16. por ser definida como homem,
    sabendo que era mulher.
  17. E o que ela queria dizer com isso
    é que, quando nasceu,
  18. o médico segurou-a para os pais dela
  19. e, com base em sua genitália, disse:
  20. "É um menino".
  21. Ela sempre soube que não era menino.
  22. Muitos anos se passaram e os sentimentos
  23. que estava segurando cresceram,
  24. e ela sabia que devia
    se revelar para a família.
  25. Mas quando o fez, não foi nada bem.
  26. Os pais disseram: "De jeito nenhum.
    Você não é menina.
  27. Não foi assim que te criamos.
    Não sabemos o que está pensando.
  28. Vá embora".
  29. Anne então se viu nas ruas,
    entrando e saindo de abrigos,
  30. e foi aí que ela começou
    a usar drogas e álcool
  31. para anestesiar a dor que sentia.
  32. Ela me contou a jornada de entrar
    e sair de hospitais e reabilitações
  33. tentando ficar sóbria
  34. e, quando ficava, os prestadores
    de cuidados de saúde e médicos
  35. não usavam o nome feminino
    ou os pronomes corretos.
  36. Isso a fazia sofrer.
  37. Quando eu estava estudando
    pra me tornar terapeuta,

  38. não me ensinaram a trabalhar
    com pacientes transgêneros.
  39. Eu não imaginava que seriam
    os pacientes com quem trabalharia.
  40. Mas quanto mais eu trabalhava
    com Anne e outros pacientes como ela,
  41. mais começava a ver minha missão evoluir,
  42. e essa missão era garantir
    que a comunidade transgênero
  43. tivesse cuidados de saúde adequados.
  44. Quanto mais eu estudava isso,
    mais via como esse medo muito real
  45. da violência, discriminação
    e falta de aceitação
  46. fazia com que muitos desses pacientes
    recorressem ao álcool e às drogas.
  47. E eu também ouvia histórias de terror
  48. de quando esses pacientes
    procuravam atendimento médico,
  49. de como eles eram tratados
  50. e como muitas necessidades
    médicas eram ignoradas.
  51. Agora, deixem-me contar sobre Leah.

  52. Tive o prazer de conhecer
    Leah alguns anos atrás.
  53. Ela é mulher e tem uma esposa e um filho.
  54. Leah também foi nomeada
    como homem no nascimento
  55. e sabia desde criança que não era homem,
  56. que ela era uma mulher.
  57. Ela escondeu de si mesma
    e de todos que conhecia,
  58. especialmente da esposa dela,
    até os 50 anos de idade.
  59. Ela não aguentava mais.
  60. Não podia continuar vivendo assim.
  61. Tinha que ser honesta.
  62. Ela tinha muito medo de contar à esposa.
  63. E se a esposa dela dissesse: "Isso é
    inaceitável, quero o divórcio, vá embora"?
  64. Para surpresa dela, a esposa aceitou bem.
  65. Ela disse: "Eu te amo
    independentemente de quem você é.
  66. Quero te ajudar como for possível".
  67. Ela conversou com a esposa,
  68. decidiu fazer uma transição médica
  69. e queria ser avaliada para terapia
    de reposição hormonal,
  70. também conhecida como TRH.
  71. Então ela marcou uma consulta no médico.
  72. Chegou cedo no dia da consulta.
  73. Ela preencheu toda a papelada,
  74. colocou o nome corretamente
    e esperou pacientemente.
  75. Passou um tempinho e a enfermeira
    a chamou para a sala de exames.
  76. Quando ela entrou lá, respirou fundo
  77. e o médico e a enfermeira entraram.
  78. Ela estendeu a mão para o médico
    e disse: "Oi, eu sou Leah".
  79. O médico olhou para ela,
    não apertou sua mão e disse:
  80. "Por que você está aqui?"
  81. Ela respirou fundo novamente e disse:
  82. "Sou uma mulher transgênero.
  83. Soube disso a minha vida toda
    e escondi de todos,
  84. mas não posso mais fazer isso.
  85. Minha esposa me apoia,
    tenho condições financeiras,
  86. preciso dessas mudanças.
  87. Por favor, me leve em consideração
    e me avalie para a TRH".
  88. O médico disse:
    "Não podemos fazer nada hoje.
  89. Você precisa fazer um teste de HIV".
  90. Ela não podia acreditar.

  91. Ficou furiosa.
  92. Ela ficou brava e decepcionada.
  93. Se o médico dela a tratou dessa maneira,
    como o resto do mundo a trataria?
  94. Primeiro, ele não apertou a mão dela
  95. e, segundo, quando ouviu
    que ela era transgênero,
  96. só se preocupou com um teste
    de HIV e em encerrar a consulta.
  97. Ele nem sequer lhe fez outras perguntas.
  98. Eu consigo entender o que Leah passou,

  99. porque nos anos que trabalhei
    com a comunidade,
  100. ouvia mitos todos os dias
    que não eram verdadeiros.
  101. Alguns deles eram:
  102. todo transgênero quer fazer
    a transição com medicação ou cirurgia;
  103. transgêneros são doentes mentais,
    isso é um distúrbio;
  104. e essas pessoas não são homens
    e mulheres de verdade.
  105. São todos mitos e falsos.
  106. Conforme esta comunidade
    se expande e envelhece,
  107. é crucial que os prestadores
    de cuidados de saúde sejam treinados
  108. para cuidar das necessidades dela.
  109. Em 2015, uma pesquisa foi feita

  110. e descobriu que 72%
    dos profissionais de saúde
  111. não se sentiam bem-informados
  112. sobre os cuidados de saúde
    da comunidade LGBT.
  113. Há uma enorme lacuna
    na educação e no treinamento.
  114. Hoje, nesta palestra,

  115. quero oferecer um novo jeito
    de pensar para três grupos de pessoas:
  116. os médicos, a comunidade
    transgênero e o resto de nós.
  117. Mas antes, quero tratar
    de algumas definições
  118. que vão ajudá-los a compreender
    um pouco melhor a identidade de gênero.
  119. Espero que vocês tenham papel e caneta,
    para fazer algumas anotações.
  120. Vamos começar com a ideia
    de um sistema binário.

  121. Isso significa que,
  122. antes, pensávamos que havia
    apenas dois: homens e mulheres.
  123. Entenderam? Binário?
  124. Então, descobrimos que isso não é verdade.
  125. A identidade de gênero é um espectro
  126. com masculinidade de um lado
  127. e feminilidade aqui do outro lado.
  128. Este espectro
  129. inclui identidades
    como não conformidade de gênero,
  130. afirmação de gênero,
  131. gênero não binário,
  132. dois-espíritos, três-espíritos,
  133. bem como pessoas intersexuais.
  134. "Transgênero" é um termo genérico
  135. que engloba todos esses diferentes
    tipos de identidades.
  136. Mas para a palestra de hoje,
    quero que pensem em transgênero
  137. como alguém a quem foi atribuído
    um sexo no nascimento que não corresponde
  138. ao que ele é como pessoa
    e seu senso de identidade.
  139. É muito diferente do sexo biológico.

  140. Então, identidade de gênero
    é a noção de si mesmo.
  141. Pensem nisso como o que há
    entre as orelhas:
  142. a noção de si mesmo, de quem você é.
  143. É muito diferente do sexo biológico.
  144. Hormônios, genitália, cromossomos:
  145. o que há entre as nossas pernas.
  146. Vocês podem estar pensando:
    "Dra. Kristie, nunca questionei quem sou.

  147. Sei que sou homem ou sei que sou mulher".
  148. Entendi. Vocês sabem quem são.
  149. É assim que muitos transgêneros se sentem.
  150. Eles apenas sabem quem são
  151. com essa mesma convicção.
  152. É importante saber que existem
    muitos tipos diferentes de identidades,

  153. e eu me identifico
    como uma mulher cisgênero.
  154. Para todos que gostam de soletrar coisas,
  155. cis se escreve: "c-i-s".
  156. É o termo latino para "do mesmo lado".
  157. Quando eu nasci,
  158. o médico me levou aos meus pais e disse:
  159. "É uma menina".
  160. Tudo baseado na minha genitália.
  161. Embora tenha crescido
    numa cidadezinha agrícola na Geórgia,
  162. bem moleca,
  163. nunca questionei que era uma mulher.
  164. Sempre soube que era uma garota,
  165. independentemente
    de como era quando criança.
  166. Isso é muito diferente
    de alguém que é transgênero.

  167. Trans é um termo latino
    para "do outro lado";
  168. como companhias aéreas transcontinentais,
  169. do outro lado,
  170. alguém a quem é atribuído
    um sexo no nascimento
  171. mas que se identifica
    com o outro lado do espectro.
  172. Um homem transgênero é alguém que foi
    indicado como mulher no nascimento,
  173. mas o senso de identidade dele,
    quem é, como vive a vida,
  174. é como um homem.
  175. E o oposto é, como falamos antes,
  176. uma mulher transgênero
    nomeada homem no nascimento,
  177. mas que vive a vida e tem a noção
    de si mesma como uma mulher.
  178. Também é importante destacar aqui
  179. que nem todo mundo que tem
    uma identidade não binária
  180. se identifica com o termo transgênero.
  181. Só para que ninguém fique confuso,
    quero ressaltar a identidade sexual,

  182. ou orientação.
  183. É simplesmente por quem somos atraídos,
  184. fisicamente, emocionalmente,
    sexualmente, espiritualmente.
  185. Não tem nada a ver
    com identidade de gênero.
  186. Uma rápida recapitulação,
    antes de continuarmos:
  187. identidade de gênero entre as orelhas,
  188. sexo biológico entre as pernas,
  189. e depois identidade sexual,
    às vezes usamos nosso coração,
  190. mas está aqui.
  191. Três espectros de identidade
    muito diferentes.
  192. O estudante de medicina médio

  193. gasta cerca de cinco horas aprendendo
    as necessidades relacionadas à saúde LGBT
  194. durante o curso inteiro.
  195. Apesar de sabermos que existem
    riscos únicos para a saúde
  196. nesta comunidade.
  197. E há cerca de 10 milhões
    de adultos norte-americanos
  198. que se identificam como LGBT.
  199. A maioria dos médicos
    que trabalha com transgêneros
  200. aprende por tentativa e erro.
  201. Significa que eles descobrem na prática
  202. ou o paciente acaba perdendo tempo
  203. tentando ensinar o médico a cuidar deles.
  204. Muitos médicos não ficam à vontade
    pra perguntar sobre identidade de gênero.
  205. Alguns acham que não é relevante
    para o atendimento médico
  206. e outros simplesmente
    não querem dizer a coisa errada.
  207. Muitos médicos que dizem algo inadequado
  208. ou negativo
  209. não o fazem com má intenção,
  210. eles podem nunca ter sido treinados
    para cuidar desses indivíduos.
  211. Mas isso também não pode
    mais ser aceito como regra.
  212. O que acontece com um homem transgênero;

  213. para uma rápida recapitulação,
    quem é nomeado mulher no nascimento
  214. mas vive como um homem;
  215. quando esse homem transgênero
    faz a visita ginecológica anual?
  216. A forma como o médico tratar esse paciente
  217. definirá todo o tom do consultório.
  218. Se o médico tratar esse homem
    com os pronomes e nome corretos,
  219. com dignidade e respeito,
  220. é muito provável que o resto
    da equipe também o faça.
  221. Então, isso é um pouco
    do que penso sobre os médicos

  222. e agora vamos passar
    para a comunidade transgênero.
  223. Eu estou aqui falando sobre medo,
  224. mas todos sabem quem tem esse medo, certo?
  225. É a comunidade transgênero.
  226. Antes compartilhei a história da Anne
  227. e como ela estava preocupada
    em fazer o tratamento
  228. e não ver respeitado o eu feminino dela.
  229. E Leah que estava com medo
    de como o médico dela reagiria
  230. e, quando ele não apertou a mão dela
  231. e pediu o teste de HIV,
    tais medos tornaram-se realidade.
  232. A comunidade transgênero
    precisa ser fortalecida
  233. para defender suas necessidades
    de cuidados de saúde.
  234. Os dias de permanecer em silêncio
    e aceitar qualquer tratamento acabaram.
  235. Se essa comunidade não defender
    suas necessidades de saúde,
  236. ninguém fará isso por ela.
  237. E quanto ao resto de nós?

  238. Muitos de vocês, talvez na próxima
    semana ou em alguns meses,
  239. terão uma consulta médica.
  240. Então, digamos que vocês vão ao médico
  241. e, ao final da consulta,
  242. sintam-se pior do que quando chegaram lá.
  243. E se vocês se sentirem
    desprezados pelo médico,
  244. que ele ignorou suas necessidades
  245. ou se sentirem julgados?
  246. Isso é o que acontece para muitos
    dos 1,4 milhão de adultos transgêneros
  247. aqui nos EUA,
  248. se tiverem a sorte
    de conseguir uma consulta.
  249. Vocês podem estar pensando:
    "Por que é importante para mim?

  250. Eu não sou transgênero
    e não conheço ninguém que seja.
  251. Por que deveria me importar?"
  252. Pensem desta maneira:
  253. um indivíduo transgênero é humano,
  254. como você e eu.
  255. Eles merecem profissionais
    de saúde competentes e treinados,
  256. como você e eu.
  257. Deixem-me perguntar,
    por favor, levantem a mão:

  258. vocês conhecem ou conheceram
    alguém que é transgênero,
  259. gênero não conformado, sem gênero,
    intersexual, dois ou três-espíritos?
  260. Muito obrigada. Lindo. Obrigada a todos.

  261. Cada um de vocês que não levantou a mão,
  262. num futuro muito próximo
  263. terá a oportunidade de conhecer
  264. alguém que se enquadre em uma
    dessas identidades, eu garanto.
  265. O número dessa comunidade está aumentando,
  266. não porque seja uma moda ou novidade,
  267. mas está mais seguro se assumir.
  268. Há mais consciência e visibilidade.
  269. Há mais segurança, as pessoas
    estão manifestando o verdadeiro eu
  270. como nunca antes.
  271. É por isso que é tão importante
    que o nosso sistema de saúde suba a bordo
  272. e se certifique de que nossos médicos
    e profissionais de saúde sejam treinados
  273. para abordar esses pacientes
    com dignidade e respeito,
  274. como nós esperamos que façam.
  275. Me lembro de estar na aula
    de literatura do 11º ano,

  276. com um dos professores
    favoritos, o Sr. McClain,
  277. e ele compartilhou uma citação
    de Heráclito que guardo comigo até hoje.
  278. Vocês já podem ter ouvido:
  279. "A única coisa constante
    é que as coisas vão mudar".
  280. Familiar, certo?
  281. Cada um de nós enfrenta
    mudanças em nossa vida
  282. e, muitas vezes, quando
    nos deparamos com elas,
  283. temos algumas decisões difíceis a tomar.
  284. Vamos ficar com medo, parados
  285. e não crescer?
  286. Ou vamos encarar o medo com coragem,
  287. evoluir, aproveitar
    a oportunidade para crescer?
  288. Cada um de nós enfrenta coisas novas.
  289. O que vocês farão?
  290. Ficarão com medo
  291. ou crescerão?
  292. Eu convido cada um de vocês,
    médicos, a comunidade transgênero
  293. e você e eu,
  294. a enfrentarmos o medo juntos
  295. enquanto entramos
    neste admirável mundo novo.
  296. Obrigada.

  297. (Aplausos)