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← Uma forma melhor de falar do amor

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39 Languages

Showing Revision 14 created 02/15/2017 by Margarida Ferreira.

  1. Ok, hoje quero falar sobre a forma
    como falamos do amor.
  2. Especificamente,
  3. quero falar do que está errado
    com a forma como falamos do amor.
  4. A maior parte de nós, provavelmente,
    vai-se apaixonar algumas vezes

  5. ao logo da vida,
  6. e a metáfora "cair",
  7. é a principal forma que usamos
    para falar desta experiência.
  8. Não sei quanto a vocês,
  9. mas quando avalio esta metáfora,
  10. imagino um desenho animado
  11. como se houvesse um homem,
  12. que está a caminhar pelo passeio
  13. e, sem se aperceber, passa
    por uma tampa de esgoto aberta,
  14. e cai pelo esgoto abaixo.
  15. Imagino desta forma
    porque cair não é saltar.
  16. Cair é acidental,
  17. é incontrolável.
  18. É algo que nos acontece
    sem o nosso consentimento.
  19. E esta é a principal forma que usamos
  20. para falar duma nova relação.
  21. Eu sou escritora e também
    professora de inglês,

  22. ou seja, ganho a vida
    a pensar em palavras.
  23. Podem dizer que me pagam
  24. para eu defender que a linguagem
    que usamos é importante,
  25. e eu gostaria de dizer
    que muitas das metáforas que usamos
  26. para falar do amor
  27. — talvez a maior parte delas —
  28. são um problema.
  29. Então, no amor, "caímos".

  30. Somos atingidos.
  31. Somos esmagados.
  32. Desmaiamos.
  33. Ardemos de paixão.
  34. O amor deixa-nos loucos,
  35. e deixa-nos doentes.
  36. O coração dói-nos,
  37. e depois parte-se.
  38. Assim, as nossas metáforas comparam
    a experiência de amar alguém
  39. à violência ou à doença extremas.
  40. (Risos)

  41. É o que elas fazem.

  42. Posicionam-nos como vítimas
  43. de circunstâncias totalmente
    imprevisíveis e inevitáveis.
  44. A minha favorita é "fulminado",
  45. que é o particípio da palavra "fulminar".
  46. Se forem ver o significado
    desta palavra no dicionário...
  47. (Risos)

  48. ... verão que pode ser definida
    como "aflição dolorosa"

  49. e "estar muito apaixonado".
  50. Eu costumo associar a palavra "fulminar"
    a um contexto muito particular,
  51. que está no Velho Testamento.
  52. Só no livro do Êxodo,
    há 16 referências a "fulminar",
  53. que é a palavra que a Bíblia usa
    para a vingança da ira de Deus.
  54. (Risos)

  55. Aqui estamos a usar a mesma
    palavra para falar de amor

  56. que usamos para explicar
    uma praga de gafanhotos.
  57. (Risos)

  58. Não é?

  59. Então, como é que isto aconteceu?

  60. Como é que passamos a associar amor
    com uma grande dor e sofrimento?
  61. E porque é que falamos
    sobre esta experiência boa
  62. como se fôssemos vítimas?
  63. Estas são perguntas difíceis,
  64. mas eu tenho algumas teorias.
  65. Para pensar nisto,
  66. quero-me focar
    numa metáfora em particular,
  67. que é a ideia do amor como loucura.
  68. Quando comecei a pesquisar
    sobre o amor romântico,

  69. encontrei metáforas
    sobre a loucura por todo o lado.
  70. A história da cultura ocidental
  71. está cheia de expressões que igualam
    o amor a doenças mentais.
  72. Estes são apenas alguns exemplos.
  73. William Shakespeare:
  74. "o amor é apenas uma loucura",
  75. em "Como Vos Agradar".
  76. Friedrich Nietzsche:
  77. "Há sempre alguma loucura no amor."
  78. "Deixaste-me, deixaste-me
    loucamente apaixonada... "
  79. (Risos)

  80. da grande filósofa, Beyoncé Knowles.

  81. (Risos)

  82. Eu apaixonei-me pela
    primeira vez aos 20 anos,

  83. e foi uma relação bastante
    turbulenta desde o início.
  84. Foi uma relação à distância
    durante os primeiros dois anos,
  85. o que para mim significou
    muitos altos e baixos.
  86. Lembro-me de um momento
    em particular.
  87. Eu estava sentava numa cama
    num hostel na América do Sul,
  88. e estava a ver a pessoa
    que eu amava a sair porta fora.
  89. Era tarde,
    era quase meia-noite,
  90. tínhamos tido uma discussão ao jantar.
  91. Quando voltámos para o nosso quarto,
  92. ele atirou as coisas dele
    para a mala e foi-se embora.
  93. Embora eu já não me lembre
    sobre o que discutimos,
  94. lembro-me claramente de como
    me senti ao vê-lo ir-se embora.
  95. Eu tinha 22 anos, era a minha primeira
    vez num país em desenvolvimento,

  96. e estava completamente sozinha.
  97. Tinha mais uma semana
    até ao meu voo para casa.
  98. Sabia o nome da cidade
    em que estava
  99. e o nome da cidade para onde
    teria de ir para apanhar o voo,
  100. mas não sabia como lá chegar.
  101. Não tinha um guia de viagens
    e tinha muito pouco dinheiro,
  102. e não falava espanhol.
  103. Alguém mais aventureiro que eu

  104. talvez tivesse visto neste momento
    uma oportunidade,
  105. mas eu apenas congelei.
  106. Fiquei ali sentada
  107. e comecei a chorar.
  108. Mas apesar do meu pânico,
  109. uma vozinha na minha
    cabeça disse-me:
  110. "Uau. Isto foi dramático.
  111. "Devo estar a fazer esta coisa
    do amor da maneira certa."
  112. (Risos)

  113. Porque uma parte de mim queria
    sentir-se miseravelmente apaixonada.

  114. Isto parece-me estranho agora,
    mas aos 22 anos,
  115. eu ansiava por experiências dramáticas,
  116. e naquele momento, estava
    irracional, furiosa e devastada.
  117. Estranhamente,
  118. achei que, de alguma forma,
    isso legitimava os meus sentimentos
  119. pelo rapaz que acabara de me deixar.
  120. Acho que até me queria
    sentir um pouco louca,

  121. porque pensava que era assim
    que o amor funcionava.
  122. Isto não deve ser surpreendente,
  123. considerando que, segundo a Wikipédia,
  124. existem oito filmes,
  125. 14 canções,
  126. dois álbuns e um romance
    com o título "Crazy Love".
  127. Cerca de meia hora depois,
    ele voltou para o nosso quarto.

  128. Reconciliámo-nos.
  129. Passámos outra semana
    felizes a viajar juntos.
  130. Quando voltei para casa, pensei:
  131. "Isto foi tão terrível e incrível.
  132. "Isto deve ser romance verdadeiro".
  133. Esperava que o meu primeiro amor
    me fizesse sentir louca,
  134. e claro, a expetativa
    foi muito bem cumprida.
  135. Mas amar alguém desta forma
  136. — como se o meu bem-estar dependesse
    de ele também me amar —
  137. não era muito bom para mim
    nem para ele.
  138. Mas suspeito que este tipo
    de experiência amorosa não é incomum.

  139. Muitos de nós sentem-se um pouco loucos
    nas fases iniciais do amor romântico.
  140. Na verdade, há pesquisas
    que confirmam que isto é normal,
  141. pois, neuroquimicamente falando,
  142. o amor romântico e a doença mental
    não são fáceis de distinguir.
  143. Isto é verdade.
  144. Este estudo de 1999 usou testes sanguíneos

  145. para confirmar que os níveis de serotonina
    de um recém-apaixonado
  146. são muito próximos em comparação
    com os níveis de serotonina
  147. de uma pessoa diagnosticada
    com transtorno obsessivo-compulsivo.
  148. (Risos)

  149. Sim, e os baixos níveis de serotonina

  150. estão também associados
    com a desordem afetiva sazonal
  151. e com a depressão.
  152. Há provas de que o amor
  153. está associado a mudanças
    nos nossos humores e comportamentos.
  154. E há outros estudos que confirmam
  155. que a maioria das relações
    começam desta forma.
  156. Os investigadores acreditam
    que os baixos níveis de serotonina

  157. estão correlacionados com pensamentos
    obsessivos sobre o objeto do amor,
  158. que é como sentir que alguém montou
    um acampamento no nosso cérebro.
  159. A maioria de nós sente-se assim
    a primeira vez que se apaixona.
  160. Mas a boa notícia é,
    isto geralmente não dura muito
  161. — normalmente dura
    poucos meses a alguns anos.
  162. Quando voltei da minha viagem
    à América do Sul,

  163. passei muito tempo sozinha no meu quarto,
  164. a verificar o meu e-mail,
  165. desesperada por ouvir algo
    do rapaz que amava.
  166. Decidi que, se os meus amigos
    não compreendiam o meu sofrimento,
  167. então eu não precisava da amizade deles.
  168. Assim, deixei de sair com a maioria deles.
  169. E esse foi provavelmente o ano
    mais infeliz da minha vida.
  170. Mas acho que me senti
    como se a minha função fosse ser infeliz,
  171. porque, se pudesse ser infeliz,
  172. poderia provar quanto o amava.
  173. E se eu o pudesse provar,
  174. então, eventualmente,
    teríamos de acabar juntos.
  175. Isto é realmente loucura,

  176. porque não existe nenhuma regra universal
  177. que diga que o grande sofrimento
    é igual à grande recompensa,
  178. mas falamos do amor
    como se isto fosse verdade.
  179. As nossas experiências amorosas
    são biológicas e culturais.

  180. A nossa biologia diz-nos que o amor é bom
  181. estimulando circuitos
    de recompensa no cérebro,
  182. e diz-nos que o amor é doloroso quando,
    depois de uma briga ou separação,
  183. as recompensas neuroquímicas
    são retiradas.
  184. De facto — provavelmente
    já ouviram isto —
  185. neuroquimicamente falando,
  186. passar por uma separação é como
    passar por privação de cocaína,
  187. o que eu acho tranquilizador.
  188. (Risos)

  189. Depois, a nossa cultura usa a linguagem

  190. para modelar e reforçar
    estas ideias sobre o amor.
  191. Neste caso, estamos a falar
    de metáforas sobre a dor,
  192. a dependência e a loucura.
  193. É um tipo interessante
    de circuito de resposta.
  194. O amor é poderoso e por vezes doloroso,
  195. e expressamos isso através
    das nossas palavras e histórias,
  196. mas então as nossas palavras
    e histórias preparam-nos
  197. para esperar que o amor
    seja poderoso e doloroso.
  198. O interessante é que tudo isto ocorre

  199. numa cultura que valoriza
    a monogamia para a vida toda.
  200. Parece que queremos isto das duas formas:
  201. queremos o amor
    para nos sentirmos loucos,
  202. e queremos isto para toda a vida.
  203. Isto soa terrível.
  204. (Risos)

  205. Para harmonizar isto,

  206. precisamos de mudar a nossa cultura
    ou as nossas expetativas.
  207. Então, imaginem se todos fôssemos
    menos passivos no amor.
  208. Se fôssemos mais assertivos,
    mais tolerantes, mais generosos
  209. e em vez de "cairmos" no amor,
  210. "entrássemos" no amor.
  211. Eu sei que isto é pedir muito,
  212. mas, na verdade, eu não sou
    a primeira pessoa a sugerir isto.
  213. No livro, "Metáforas da Vida Quotidiana,"
  214. os linguistas Mark Johnson e George Lakoff
    sugerem uma solução muito interessante
  215. para este dilema,
  216. que é mudar as nossas metáforas.
  217. Eles argumentam que as metáforas modelam
    a nossa forma de interpretar o mundo,
  218. e que elas até podem agir
    como um guia para ações futuras,
  219. como profecias autocumpridas.
  220. Johnson e Lakoff sugerem
    uma nova metáfora para o amor:

  221. o amor como uma obra de arte colaborativa.
  222. Eu gosto realmente desta forma
    de pensar no amor.
  223. Os linguistas falam das metáforas
    como vinculações,
  224. que são essencialmente uma forma
    de considerar todas as implicações
  225. ou ideias contidas dentro da metáfora.
  226. Johnson e Lakoff falam sobre tudo
  227. o que colaborar numa obra de arte requer:
  228. esforço, compromisso, paciência,
    objetivos em comum.
  229. Estas ideias alinham-se agradavelmente
    com o nosso investimento cultural
  230. num compromisso romântico duradouro,
  231. mas também funcionam bem
    para outros tipos de relações
  232. — de curto prazo, casuais, poligâmicas,
    não monogâmicas, assexuadas —
  233. porque esta metáfora traz-nos
    ideias muito mais complexas
  234. para a experiência de amar alguém.
  235. Então, se o amor é uma obra
    de arte colaborativa,

  236. então o amor é uma experiência estética.
  237. O amor é imprevisível,
  238. o amor é criativo,
  239. o amor requer comunicação e disciplina,
  240. é frustrante e emocionalmente exigente.
  241. O amor envolve tanto alegria como dor.
  242. Por fim, cada experiência
    de amor é diferente.
  243. Quando eu era mais nova,

  244. nunca me ocorreu que eu podia
    exigir mais do amor,
  245. que eu não tinha apenas de aceitar
    qualquer amor que me fosse oferecido.
  246. Quando a Julieta de 14 anos conhece Romeu
  247. —ou, quando a Julieta de 14 anos
    não pode estar com Romeu,
  248. que ela conheceu há quatro dias —
  249. não se sente desiludida ou angustiada.
  250. Onde é que ela está?
  251. Ela quer morrer.
  252. Certo?
  253. E apenas para relembrar,
    neste ponto da peça
  254. — ato três de cinco —
  255. o Romeu não está morto.
  256. Está vivo,
  257. saudável,
  258. apenas foi banido da cidade.
  259. Percebo que Verona do século XVI
    não é como os EUA contemporâneos.
  260. ainda assim, quando li esta peça
    pela primeira vez,
  261. também com 14 anos,
  262. o sofrimento de Julieta,
    para mim, fez todo o sentido.
  263. Restruturar o amor como algo
    que eu consigo criar com alguém que admiro,

  264. em vez de algo que acontece só comigo
  265. sem o meu controlo ou consentimento,
  266. dá-nos poder.
  267. Mesmo assim, é difícil.
  268. O amor continua a ser enlouquecedor
    e arrasador em certos dias.
  269. Quando me sinto muito frustrada,
  270. tenho que me relembrar:
  271. o meu trabalho nesta relação
    é falar com o meu parceiro
  272. sobre o que quero que construamos juntos.
  273. Isto também não é fácil.
  274. Mas é muito melhor do que a alternativa,
  275. que é aquela coisa que nos faz sentir
    como se fôssemos loucos.
  276. Esta versão de amor não é sobre
    ganhar ou perder o afeto de alguém.

  277. Pelo contrário, isto requer
    que confiemos nos nossos parceiros
  278. e que falemos sobre as coisas
    quando confiar se torna difícil,
  279. o que soa muito simples,
  280. mas, na verdade, é um ato
    um tanto revolucionário e radical.
  281. Isto porque conseguimos
    deixar de pensar em nós próprios
  282. e o que estamos a ganhar
    ou a perder nas nossas relações,
  283. e começamos a pensar
    no que temos para oferecer.
  284. Esta versão de amor
    permite-nos dizer coisas como:
  285. "Ei, não somos colaboradores muito bons.
    Talvez isto não seja para nós".
  286. Ou, "Esta relação foi mais curta
    do que eu havia planeado,
  287. "mas ainda assim, foi bonita".
  288. A coisa bonita sobre
    a obra de arte colaborativa

  289. é que ela não será pintada,
    desenhada ou esculpida sozinha.
  290. Esta versão do amor permite-nos
    decidir com o que ele se parece.
  291. Obrigada.

  292. (Aplausos)