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← Uma forma melhor de falar sobre o amor

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39 Languages

Showing Revision 23 created 02/09/2017 by Maricene Crus.

  1. Hoje quero falar sobre
    como falamos sobre amor.
  2. E especificamente,
  3. quero falar sobre o que está errado
    com o modo como falamos sobre amor.
  4. A maior parte de nós provavelmente
    se apaixonará algumas vezes

  5. durante nossas vidas,
  6. e em inglês, a metáfora "falling", cair,
  7. é a principal forma para
    falar sobre essa experiência.
  8. Eu não sei sobre você,
  9. mas quando avalio essa metáfora,
  10. como uma imagem saída diretamente
    de um desenho animado:
  11. assim existe um homem,
  12. ele está caminhando pela calçada,
  13. e sem perceber, ele atravessa
    uma boca-de-lobo aberta,
  14. e ele cai esgoto abaixo.
  15. E eu imaginei dessa forma
    porque cair não é pular.
  16. Cair é acidental,
  17. é incontrolável.
  18. É algo que nos acontece
    sem nosso consentimento.
  19. E essa é a principal forma como falamos
    sobre começar um novo relacionamento.
  20. Eu sou escritora e também
    professora de inglês,

  21. desse modo, ganho a vida
    pensando nas palavras.
  22. Você pode dizer que ganho para argumentar
    que a linguagem que usamos importa,
  23. e eu gostaria de dizer que muitas
    das metáforas que usamos
  24. para falar sobre amor,
  25. talvez a maioria delas,
  26. são um problema.
  27. Então, no amor, nós caímos.

  28. Somos atingidos.
  29. Somos esmagados.
  30. Ficamos extasiados.
  31. Ardemos de paixão.
  32. Amor nos deixa louco,
  33. e nos deixa doentes.
  34. Nossos corações doem,
  35. e então se partem.
  36. (Risos)
  37. Então nossas metáforas igualam
    a experiência de amar alguém
  38. à violência ou enfermidade extrema.
  39. (Risos)

  40. Elas igualam.

  41. E elas nos posicionam como vítimas
  42. de circunstâncias totalmente
    imprevisíveis e inevitáveis.
  43. Minha favorita dessas é "smitten"
  44. que é o particípio da palavra "smite".
  45. Se você olha essa palavra no dicionário,
  46. (Risos)

  47. você verá que pode ser definida
    como "sofrimento doloroso,"

  48. e, "estar muito apaixonado".
  49. Costumo associar a palavra "smite"
    a um contexto muito particular,
  50. que está no Velho Testamento.
  51. Só no livro de Exodus, existem
    16 referências à "smiting",
  52. que é a palavra que a Bíblia
    usa para a vingança da ira de Deus.
  53. (Risos)

  54. Aqui estamos nós, usando
    a mesma palavra pra falar de amor

  55. que usamos pra explicar
    a peste de gafanhotos.
  56. (Risos)

  57. Então, como isso aconteceu?

  58. Como foi que passamos a associar amor
    com uma grande dor e sofrimento?
  59. E por que falamos ostensivamente
    sobre essa boa experiência
  60. como se fôssemos vítimas?
  61. Essas são perguntas difíceis,
    mas eu tenho algumas teorias.
  62. E para pensar sobre isso,
  63. quero focar uma metáfora em particular,
    que é a ideia de amor como loucura.
  64. Quando comecei a pesquisar
    sobre o amor romântico,

  65. encontrei metáforas
    sobre a loucura por todo lugar.
  66. A história da cultura ocidental
  67. é cheia de expressões que iguala
    o amor a doenças mentais.
  68. Aqui estão apenas alguns exemplos.
  69. William Shakespeare:
    "Amor é apenas uma loucura",
  70. de "As You Like It".
  71. Friedrich Nietzsche: "Há sempre
    alguma loucura no amor".
  72. "Você me deixou, me deixou
    loucamente apaixonada"
  73. (Risos)

  74. da grande filósofa, Beyoncé Knowles.

  75. (Risos)

  76. Eu me apaixonei pela
    primeira vez aos 20 anos,

  77. e foi um relacionamento
    bastante turbulento desde o início
  78. e foi a longa distância
    nos primeiros anos,
  79. o que para mim significou
    muitos altos e baixos.
  80. E me lembro de um momento em particular.
  81. Eu estava sentava na cama
    num albergue na América do Sul,
  82. e estava vendo a pessoa
    que amava ir embora.
  83. E estava tarde, era quase meia-noite,
  84. tivemos uma discussão durante o jantar,
    e quando voltamos para o nosso quarto,
  85. ele atirou as coisas dele
    na mala e saiu com raiva.
  86. Embora eu não me lembre
    sobre o que discutimos,
  87. posso me lembrar claramente
    de como me senti ao vê-lo indo embora.
  88. Eu tinha 22 anos,

  89. era minha primeira vez
    num país em desenvolvimento,
  90. e estava totalmente sozinha.
  91. Tinha uma semana até meu voo para casa,
  92. eu sabia o nome do município onde estava,
  93. e o nome da cidade que precisava ir
    para pegar o avião,
  94. mas eu não tinha ideia de como chegar lá.
  95. Não tinha um guia de viagens
    e bem pouco dinheiro,
  96. e não falava espanhol.
  97. Alguém mais aventureiro do que eu

  98. talvez teria visto neste momento
    uma oportunidade,
  99. mas eu apenas congelei.
  100. Apenas sentei lá.
  101. E caí no choro.
  102. Mas apesar do meu pânico,
  103. uma pequena voz na minha cabeça disse:
  104. "Uau. Isso foi dramático.
  105. Com certeza estou fazendo
    essa coisa de amor certo".
  106. (Risos)

  107. Porque alguma parte de mim queria
    se sentir infeliz no amor.

  108. E isso parece estranho para mim
    agora, mas aos 22 anos,
  109. eu ansiava por experiências dramáticas,
  110. e naquele momento, eu estava
    irracional, furiosa e devastada,
  111. e estranhamente,
  112. achei que de alguma maneira
    isso legitimava meus sentimentos
  113. pelo cara que acabara de me deixar.
  114. Acho que eu até queria
    me sentir um pouco louca,

  115. porque pensava que era assim
    que o amor funcionava.
  116. Isso não deve ser surpreendente,
  117. considerando que segundo a Wikipédia,
  118. existem mais de oito filmes,
  119. 14 músicas,
  120. dois álbuns e um romance
    com o título "Crazy Love".
  121. Cerca de meia hora depois,
    ele voltou para o quarto,

  122. nos reconciliamos,
  123. e passamos outra semana
    felizes viajando juntos.
  124. E quando voltei pra casa,
  125. pensei: "Isso foi tão terrível e incrível.
  126. Isso que é romance de verdade".
  127. Eu esperava me sentir enlouquecida
    no meu primeiro amor,
  128. e claro, a expectativa
    foi cumprida muito bem.
  129. Mas amar alguém dessa forma,
  130. como se meu bem-estar dependesse
    de ele me amar de volta,
  131. não era muito bom para mim
  132. ou para ele.
  133. Mas eu suspeito que esse tipo
    de experiência amorosa não é incomum.

  134. Muitos de nós se sentem um pouco loucos
    nos estágios iniciais do amor romântico.
  135. Na verdade, existem pesquisas
    que confirmam que isso é algo normal,
  136. pois, considerando-se
    o aspecto neuroquímico,
  137. amor romântico e doença mental
    não são fáceis de distinguir.
  138. Isso é verdade.
  139. Esse estudo de 1999 usou testes sanguíneos

  140. para confirmar que os níveis de serotonina
    de um recém-apaixonado
  141. são muito próximos comparados
    aos níveis de serotonina
  142. de uma pessoa diagnosticada
    com transtorno compulsivo-obsessivo.
  143. (Risos)

  144. Sim, e baixos níveis de serotonina

  145. estão associados com desordem
    afetiva sazonal e depressão.
  146. Então existe alguma evidência
  147. que o amor é associado com mudanças
    em nossos humores e comportamentos.
  148. E existem outros estudos que confirmam
  149. que a maioria dos relacionamentos
    começam dessa forma.
  150. Pesquisadores acreditam
    que os baixos níveis de serotonina

  151. está correlacionado com pensamentos
    obsessivos sobre o objeto de amor,
  152. é como se esse sentimento por alguém
    montasse acampamento no seu cérebro.
  153. É como muitos de nós se sente
    na primeira vez que se apaixona.
  154. Mas a boa notícia é,
    isso não dura para sempre,
  155. normalmente de poucos meses a alguns anos.
  156. Quando voltei da minha viagem
    à América do Sul,

  157. gastei muito tempo sozinha no meu quarto,
  158. checando meu e-mail,
  159. desesperada por algo do cara que amava.
  160. Eu decidi que se meus amigos não podiam
    entender meu doloroso sofrimento,
  161. então eu não precisava da amizade deles.
  162. Então parei de sair com a maioria deles.
  163. E esse foi provavelmente
    o ano mais infeliz da minha vida.
  164. Mas acho que senti como se fosse
    minha função ser infeliz,
  165. porque se eu pudesse ser infeliz,
    poderia provar o quanto o amei.
  166. E se eu pudesse provar isso,
  167. então nós, finalmente,
    poderíamos acabar juntos.
  168. Isso é realmente loucura,

  169. Porque não existe nenhuma regra
  170. que diz que o grande sofrimento
    é igual à grande recompensa,
  171. mas falamos do amor
    como se isso fosse verdade.
  172. Nossas experiências amorosas
    são biológicas e culturais.

  173. Nossa biologia nos diz que o amor é bom
  174. estimulando circuitos
    de recompensa no cérebro,
  175. e isso também diz que o amor é doloroso
    quando, depois de uma briga ou separação,
  176. recompensas neuroquímicas são retiradas.
  177. Na verdade, e talvez
    você tenha ouvido falar nisso,
  178. no aspecto neuroquímico,
  179. passar por uma separação é como
    passar por uma abstinência de cocaína,
  180. o que eu acho tranquilizador.
  181. (Risos)

  182. E nossa cultura usa a linguagem

  183. para moldar e reforçar
    estas ideias sobre o amor.
  184. Nesse caso, estamos falando
    de metáforas sobre dor,
  185. dependência e loucura.
  186. É um tipo interessante
    de circuito de resposta.
  187. O amor é poderoso e às vezes doloroso,
  188. e expressamos isso
    em nossas palavras e histórias,
  189. mas então nossas palavras
    e histórias nos preparam
  190. para esperar que o amor
    seja poderoso e doloroso.
  191. O interessante é que isso tudo ocorre

  192. numa cultura que valoriza
    a permanente monogamia.
  193. Parece que queremos isso de duas formas:
  194. queremos amor para nos sentir loucos,
  195. e queremos isso por toda nossa vida.
  196. Isso soa terrível.
  197. (Risos)

  198. Para harmonizar isso,

  199. precisamos mudar a cultura
    ou nossas expectativas.
  200. Então, imagine se todos fôssemos
    menos passivos no amor.
  201. Se fôssemos mais assertivos,
    tolerantes, generosos
  202. e em vez de cairmos de amor,
    nós entrássemos no amor.
  203. Eu sei que é pedir muito,
  204. mas, na verdade, não sou
    a primeira pessoa a sugerir isso.
  205. No livro, "Metáforas da Vida Cotidiana",
  206. os linguistas Mark Johnson e George Lakoff
    sugerem uma solução muito interessante
  207. para esse dilema,
  208. que é mudar nossas metáforas.
  209. Eles argumentam que metáforas realmente
    moldam a forma de enfrentarmos o mundo,
  210. e que elas podem ainda agir
    como um guia para ações futuras,
  211. como profecias autocumpridas.
  212. Johnson e Lakoff sugerem
    uma nova metáfora para o amor:

  213. amor como uma obra de arte colaborativa.
  214. Eu realmente gosto dessa forma
    de pensar sobre o amor.
  215. Linguistas falam sobre metáforas
    como vinculações,
  216. que são a forma essencial
    de considerar todas as implicações
  217. ou ideias contidas dentro
    ou fornecidas pela metáfora.
  218. E Johnson e Lakoff falam sobre tudo que
    uma obra de arte colaborativa requer:
  219. esforço, compromisso, paciência,
    objetivos em comum.
  220. Estas ideias se alinham agradavelmente
    com nosso investimento cultural
  221. em um compromisso romântico duradouro,
  222. mas elas também funcionam
    para outros tipos de relacionamentos:
  223. de curto prazo, casual, poligâmicas,
    não monogâmico, assexual,
  224. porque essa metáfora traz ideias
    muito mais complexas
  225. para a experiência de amar alguém.
  226. Então, se o amor é uma obra
    de arte colaborativa,

  227. então o amor é uma experiência agradável.
  228. Amor é imprevisível,
  229. amor é criativo,
  230. amor requer comunicação e disciplina,
  231. é frustrante e emocionalmente exigente.
  232. E amor envolve tanto alegria quanto dor.
  233. Por fim, cada experiência
    de amor é diferente.
  234. Quando eu era mais jovem,

  235. nunca me ocorreu que eu poderia
    exigir mais do amor,
  236. que eu não devia apenas aceitar
    qualquer amor oferecido.
  237. Quando Julieta, com seus 14 anos
    não pode ficar com Romeu,
  238. que ela conheceu quatro dias antes,
  239. ela não se sente desiludida ou angustiada.
  240. Onde ela está?
  241. Ela quer morrer.
  242. E apenas para relembrar,
    nesse ponto da peça,
  243. ato três de cinco, Romeu não está morto.
  244. Ele está vivo, saudável,
  245. ele apenas foi banido da cidade.
  246. Eu entendo que Verona do século 16 não é
    como a América do Norte contemporânea,
  247. ainda assim, quando li essa peça
    pela primeira vez,
  248. então com 14 anos de idade,
  249. o sofrimento de Julieta
    fez sentido pra mim.
  250. Restruturar o amor como algo que eu
    consigo criar com alguém que admiro,

  251. em vez de algo que só acontece comigo
    sem meu controle ou consentimento,
  252. é emponderamento.
  253. Isso continua difícil.
  254. Amor continua sendo enlouquecedor
    e arrasador por alguns dias,
  255. e quando me sinto muito frustrada,
  256. tenho que me lembrar:
  257. meu trabalho nesse relacionamento
    é falar com o meu parceiro
  258. sobre o que quero que construamos juntos.
  259. Isso não é fácil, também.
  260. Mas é muito melhor do que a alternativa,
  261. que é aquela de se sentir como louco.
  262. Essa versão de amor não é sobre ganhar
    ou perder o afeto de alguém.

  263. Pelo contrário, isso requer
    que você confie em seu parceiro
  264. e fale sobre coisas quando
    creem estar em dificuldades,
  265. isso soa muito simples,
  266. mas é um ato um tanto
    revolucionário e radical.
  267. Isso porque você consegue parar
    de pensar sobre si próprio
  268. e o que está ganhando ou
    perdendo no seu relacionamento,
  269. e começa a pensar sobre
    o que você tem para oferecer.
  270. Essa versão de amor
    nos permite dizer coisas como:
  271. "Ei, não somos colaboradores muito bons.
    Talvez isso não seja para nós".
  272. Ou: "Esse relacionamento foi mais
    curto do que eu havia planejado,
  273. mas ele foi bonito".
  274. Algo bonito sobre a obra
    de arte colaborativa

  275. é que ela não será pintada,
    desenhada ou esculpida sozinha.
  276. Essa versão de amor nos permite
    decidir o que ele se parece.
  277. Obrigada.

  278. (Aplausos)