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← O ténis de mesa e o enigma da vitória

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Showing Revision 20 created 09/27/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Noite sim noite não, no Japão,
  2. saio do meu apartamento,
  3. subo a uma colina durante 15 minutos,
  4. e dirijo-me para o ginásio local,
  5. onde estão montadas três mesas
    de ténis de mesa num estúdio.
  6. O espaço é limitado,
  7. por isso, em cada mesa,

  8. dois jogadores praticam
    batidas pela direita
  9. e dois outros praticam
    batidas pela esquerda.
  10. Por vezes, as bolas chocam no ar
  11. e todos exclamam: "Uau!"
  12. Depois, escolhemos parceiros
    e jogamos em duplas.
  13. Sinceramente, não sei dizer quem ganhava,
  14. porque mudávamos de parceiro
    de cinco em cinco minutos.
  15. Todos dão o máximo
  16. para conquistar pontos,
  17. mas ninguém regista quem ganha os jogos.
  18. Ao fim, mais ou menos,
    de uma hora de esforço intenso,
  19. posso dizer-vos, sinceramente,
  20. que o facto de não saber quem ganhou
  21. é como se fosse a vitória suprema.
  22. Diz-se que, no Japão,

  23. criou-se um espírito competitivo
    sem competição.
  24. Como todos sabem, a melhor maneira
    de acompanhar a geopolítica

  25. é ver um jogo de ténis de mesa.
  26. (Risos)

  27. As duas maiores potências
    mundiais eram inimigos ferozes

  28. até que, em 1972, uma equipa
    de ténis de mesa americana
  29. foi autorizada a visitar
    a China comunista.
  30. Assim que os antigos adversários
  31. se juntaram à volta de umas
    pequenas mesas verdes,
  32. cada um deles pôde reclamar uma vitória,
  33. e o mundo inteiro pôde respirar melhor.
  34. O líder chinês, Mao Tsé-Tung,
  35. escreveu um manual de ténis de mesa,
  36. e apelidou o desporto de
    "arma nuclear espiritual."
  37. E diz-se que o único
    membro vitalício e honorário
  38. da Associação de Ténis de Mesa dos EUA
  39. é o então Presidente Richard Nixon,
  40. que ajudou a criar
    uma situação benéfica para todos
  41. através da diplomacia do ténis de mesa.
  42. Mas, muito antes disso,
  43. a história do mundo moderno
  44. conta-se melhor através
    de uma bola branca saltitona.
  45. "Ping-pong" faz lembrar
    a expressão "sing-song,"

  46. como algo oriental,
  47. mas, na verdade, acredita-se que
    foi inventado por aristocratas britânicos
  48. durante a era vitoriana,
  49. que, depois de jantar,
  50. atiravam rolhas de vinho
    por cima de pilhas de livros.
  51. (Risos)

  52. Não estou a exagerar.

  53. (Risos)

  54. No fim da I Guerra Mundial,

  55. o desporto era dominado por jogadores
    do antigo Império Austro-Húngaro:
  56. oito dos nove primeiros
    campeonatos mundiais
  57. foram ganhos pela Hungria.
  58. Os europeus orientais gostavam tanto
  59. de atirar de volta tudo aquilo
    que lhes atiravam
  60. que quase colocaram
    o desporto num impasse.
  61. Em 1936, num jogo
    para o campeonato em Praga,
  62. diz-se que a conquista do primeiro ponto
    durou duas horas e 12 minutos
  63. Para o primeiro ponto!
  64. É mais longo do que um filme do "Mad Max."
  65. E, segundo um jogador, o árbitro teve
    de abandonar com dores no pescoço
  66. antes de o ponto ser conquistado.
  67. (Risos)

  68. Esse mesmo jogador começou
    a jogar com a mão esquerda

  69. enquanto ditava movimentos
    de xadrez entre batidas.
  70. (Risos)

  71. Muita gente na audiência
    começou a retirar-se

  72. uma vez que aquele ponto
    durou talvez 12 000 batidas.
  73. Tiveram de fazer
    uma reunião de emergência
  74. da Associação Internacional
    de Ténis de Mesa
  75. e, em breve, as regras foram alteradas
  76. para que nenhum jogo
    durasse mais que 20 minutos.
  77. (Risos)

  78. Dezasseis anos mais tarde,
    o Japão entra em cena,

  79. quando um relojoeiro pouco
    conhecido chamado Hiroji Satoh
  80. participou nos campeonatos
    do mundo em Bombaim, em 1952.
  81. Satoh não era muito alto,
    não era muito cotado
  82. usava óculos,
  83. mas estava armado com
    uma raquete sem saliências
  84. que, ao contrário das outras,
  85. estava coberta com uma espuma grossa
    e esponjosa de borracha.
  86. Graças a esta arma secreta silenciosa,
  87. o pouco conhecido Satoh
    ganhou uma medalha de ouro.
  88. Um milhão de pessoas saíram
    para as ruas de Tóquio
  89. para o saudar quando ele regressou,
  90. e o renascimento pós-guerra do Japão
    foi posto em marcha.
  91. O que aprendi durante
    os meus jogos regulares no Japão

  92. é aquilo a que podemos chamar
    desporto interior de domínio global,
  93. também conhecido por vida.
  94. Nunca jogamos partidas de simples
    no nosso clube,
  95. apenas partidas de duplas
  96. e, tal como eu disse, mudamos de parceiro
    de cinco em cinco minutos
  97. Se, por acaso perdemos,
    muito provavelmente iremos ganhar
  98. seis minutos depois.
  99. Também jogamos à melhor de duas partidas,
  100. por isso, muitas vezes
    não existe nenhum perdedor.
  101. É a diplomacia do ténis de mesa.
  102. Lembro-me sempre de que, durante
    a minha infância em Inglaterra,

  103. ensinaram-me que o objetivo
    de qualquer jogo era ganhar.
  104. Mas, no Japão, sou encorajado a acreditar
    que o objetivo de qualquer jogo
  105. é fazer com que o maior número
    de pessoas possível à nossa volta
  106. se sintam como vencedores.
  107. Por isso, não se trata de altos
    e baixos individualmente,
  108. mas de fazer parte de um coro
    regular e estável.
  109. Os jogadores mais hábeis
    do nosso clube
  110. conseguem inverter uma desvantagem
    de 9-1 para a sua equipa
  111. num empate 9-9 em que todos
    estão intensamente envolvidos.

  112. Um amigo meu que consegue estes
    incríveis movimentos repetitivos
  113. que os jogadores mais pequenos
    se atrapalham e falham,
  114. ganha muitos pontos, mas penso
    que é visto como um perdedor.
  115. No Japão, um jogo de ténis de mesa
    é como um ato de amor.
  116. Estamos a aprender a jogar com alguém,
  117. e não contra esse alguém.
  118. E confesso,

  119. que, de início, sentia que isso retirava
    toda a diversão do desporto.

  120. Não podia exultar após uma vitória
    inesperada contra os melhores jogadores,
  121. porque, seis minutos depois,
    com um novo parceiro,
  122. estava novamente a perder.
  123. Por outro lado,
    nunca me sentia desconsolado.
  124. Quando deixei o Japão
    e voltei a jogar partidas de simples
  125. com o meu arquirrival inglês,
  126. reparei que, após cada derrota
    ficava destroçado.
  127. Mas, após cada vitória,
    também não conseguia dormir,
  128. porque sabia que só havia
    um caminho a seguir,
  129. e era descendente.
  130. Se estivesse a tentar
    fechar negócios no Japão,

  131. isto levaria a uma frustração enorme.
  132. No Japão, ao contrário de outros sítios,
  133. se o resultado estiver empatado
    ao fim de quatro horas,
  134. um jogo de basebol termina num empate,
  135. e, como as classificações da liga são
    baseadas na percentagem de vitórias,
  136. uma equipa com alguns empates
    pode terminar à frente
  137. de uma equipa com mais vitórias.
  138. Uma das primeiras vezes que
    um americano veio para o Japão

  139. para treinar uma equipa
    de basebol japonesa,
  140. o Bobby Valentine, em 1995,
  141. ele conseguiu levar uma equipa medíocre,
  142. a um incrível segundo lugar,
  143. mas foi imediatamente despedido.
  144. Porquê?
  145. "Bem," disse o porta-voz da equipa,
  146. "devido à sua obsessão em ganhar."
  147. (Risos)

  148. O Japão até pode ser como aquele ponto

  149. que, segundo se diz,
    demorou 2 horas e 12 minutos.
  150. Jogar para não perder
  151. pode eliminar toda a imaginação,
    o desafio, o entusiasmo das coisas.
  152. Ao mesmo tempo,
    jogar ténis de mesa no Japão

  153. recorda-me a razão por que um coro
    normalmente se diverte mais
  154. do que um artista a solo.
  155. Num coro, a nossa única função
    é desempenhar a nossa parte com perfeição,
  156. cantar as notas com sentimento,
  157. e assim, ajudar a criar
    uma harmonia bonita
  158. que é muito melhor
    do que a soma das partes.
  159. Sim, qualquer coro
    precisa de ser conduzido,
  160. mas eu acho que um coro mostra-nos
    que não há só duas opções.
  161. Mostra-nos que o contrário
    de ganhar não é perder,
  162. é não conseguir ver para além disso.
  163. Conforme a minha vida avança,

  164. fico surpreendido ao perceber
    que nenhum evento
  165. pode ser corretamente avaliado
    senão anos depois de ter ocorrido.
  166. Uma vez perdi tudo o que tinha no mundo,
  167. absolutamente tudo, num incêndio.

  168. Mas com o tempo,
    percebi que foi essa perda
  169. que me permitiu viver de modo mais leve,
  170. escrever mesmo sem notas,
  171. e mudar-me para o Japão
  172. e para o ginásio conhecido
    como a "Mesa de pingue-pongue".
  173. Em contrapartida, uma vez
    deparei-me com o emprego perfeito,
  174. e cheguei à conclusão
    de que a felicidade aparente
  175. consegue impedir o caminho
    para a verdadeira felicidade
  176. ainda mais do que a tristeza.
  177. Jogar a pares no Japão
    liberta-me da ansiedade,

  178. e, no final do dia,
  179. reparo que todos estão a sair de lá
    com a mesma satisfação.
  180. Todas as noites recordo
  181. que não avançar
    não é o mesmo que ficar para trás,
  182. tal como não estar cheio de vida
    não é o mesmo que estar morto.
  183. E compreendo a razão
  184. que leva as universidades chinesas
    a oferecerem formação em ténis de mesa
  185. e porque é que os investigadores
    descobriram que o ténis de mesa
  186. pode ajudar quem tem
    ligeiros distúrbios mentais
  187. e até autismo.
  188. Mas quando assistir
    aos Jogos Olímpicos de 2020 em Tóquio,
  189. estarei extremamente ciente
  190. de que não será possível dizer
    quem ganha ou quem perde
  191. durante muito tempo.
  192. Lembram-se daquele ponto que referi

  193. que, segundo dizem, demorou
    2 horas e 12 minutos?
  194. Um dos jogadores dessa partida,
    seis anos depois,
  195. acabou nos campos de concentração
    de Auschwitz e Dachau.
  196. Mas conseguiu sobreviver.
  197. Porquê?
  198. Porque um guarda da câmara de gás
  199. reconheceu-o do tempo
    em que jogava ténis de mesa.
  200. Tinha sido ele o vencedor
    daquela partida épica?
  201. Pouco interessou.
  202. Conforme se lembrarão, muitos saíram
    antes de o primeiro ponto ser conquistado.
  203. A única coisa que o salvou
  204. foi o facto de ter participado.
  205. A melhor forma de ganhar qualquer jogo,

  206. como o Japão me diz frequentemente,
  207. é nunca, mas nunca pensar no resultado.
  208. Obrigado.

  209. (Aplausos)