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← Como podemos começar a vencer a guerra contra o cancro

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Showing Revision 8 created 10/14/2016 by Margarida Ferreira.

  1. "Declaramos guerra ao cancro,
  2. "e vamos vencer esta guerra até 2015."
  3. Foi esta a declaração do Congresso e do
    Instituto Nacional do Cancro dos EUA,

  4. há poucos anos, em 2003.
  5. Quanto a vós não sei,
    mas a mim não me convence.
  6. Não me parece que a guerra
    esteja ganha,
  7. e creio que ninguém duvida.
  8. Vou defender que a principal razão
  9. para não estarmos a vencer
    a guerra conta o cancro
  10. é estarmos a lutar vendados.
  11. Vou começar por partilhar convosco
    a história de um amigo, chamado Ehud.

  12. Há uns anos foi-lhe diagnosticado
    um tumor cerebral.
  13. Não era um tumor qualquer.
  14. Diagnosticaram-lhe um tumor cerebral
    dos mais mortais.
  15. Na verdade, era tão mortal
  16. que os médicos lhe disseram
    que só tinham 12 meses,
  17. e durante esses 12 meses,
    teriam de descobrir um tratamento.
  18. Teriam de descobrir uma cura.
  19. Se não descobrissem a cura,
    ele morreria.
  20. As boas notícias, disseram,

  21. é que se pode escolher entre
    muitos tratamentos diferentes,
  22. mas as más notícias
  23. é que, para se saber se um tratamento
    está a funcionar ou não,
  24. leva cerca de três meses.
  25. Portanto, não podem tentar muitos.
  26. Bem, o Ehud começa
    o primeiro tratamento,

  27. e durante o tratamento,
    pouco depois de começar
  28. encontro-o e ele diz:
    "Adam, acho que funciona.
  29. "Creio que tive sorte,
    que está a funcionar".
  30. Perguntei-lhe: "Como sabes"?

  31. E ele diz: "Bem,
    sinto-me tão mal por dentro.

  32. "Alguma coisa deve estar a funcionar.
    Tem de estar".

  33. Infelizmente, três meses depois,
    chega a notícia, não funcionou.

  34. Portanto, o Ehud começou
    o segundo tratamento.
  35. E outra vez o mesmo.
  36. "Sinto-me tão mal, alguma coisa
    deve estar a funcionar".
  37. E três meses depois,
    novamente a má notícia.
  38. O Ehud passa ao terceiro tratamento,
    e depois ao quarto.
  39. Depois, tal como previsto, o Ehud morre.
  40. Quando alguém próximo
    passa por uma luta tão grande,

  41. sentimos um turbilhão de emoções.
  42. Passa-nos muita coisa pela cabeça.
    Eu, senti ultraje.
  43. Era escandaloso. Isto é o melhor
    que temos para oferecer?
  44. E comecei a dedicar
    atenção ao tema.
  45. Não só era o melhor que os médicos
    tinham para oferecer ao Ehud,
  46. não só era o melhor para
    quem tem um tumor cerebral,
  47. como não nos estamos a sair muito bem
    para todos os cancros em geral.
  48. Trouxe uma daquelas estatísticas,

  49. e creio que já as terão visto antes.
  50. Isto mostra quantos doentes
    morreram de cancro,
  51. neste caso mulheres nos EUA,
  52. desde a década de 1930.
  53. Nota-se que pouca coisa mudou.
    Ainda é um problema.
  54. Mas vêem-se alterações.
  55. O cancro do pulmão [Lung & bronchus],
    a aumentar,
  56. graças aos cigarros.
  57. E o cancro do estômago [Stomach],
  58. que já foi um dos cancros mais mortais,
  59. foi praticamente eliminado.
  60. Porque é que isto acontece?
  61. Porque somos menos afetados
    pelo cancro do estômago?
  62. Qual foi o enorme, enorme
    desenvolvimento na tecnologia médica
  63. que apareceu e salvou a humanidade
    do cancro do estômago?
  64. Um medicamento novo,
    um diagnóstico melhor?
  65. Sim...
  66. foi a invenção do frigorífico,
  67. e o facto de já não comermos
    carnes estragadas.
  68. Portanto, o melhor desenvolvimento
  69. na pesquisa do cancro
  70. foi a invenção do frigorífico.
  71. (Risos)

  72. Pois, não nos estamos a sair bem.

  73. Não pretendo menorizar o progresso,
  74. e tudo o que foi feito
    na pesquisa do cancro.
  75. Existem mais de 50 anos
    de boa pesquisa sobre o cancro.
  76. Descobriram-se muitas coisas importantes,
    e aprendemos muito sobre o cancro.
  77. Apesar de tudo isso, ainda
    temos um grande esforço pela frente.
  78. Novamente, vou defender que
    a principal razão para isto,

  79. de não nos termos saído muito bem,
  80. é que estamos a lutar vendados.
  81. É aqui que entra
    a imagiologia médica e o meu trabalho.
  82. Para vos dar uma ideia
    da melhor imagiologia médica

  83. hoje oferecida
    a doentes com tumores cerebrais,
  84. e doentes de
    todos os cancros em geral,
  85. observem esta tomografia.
  86. Cá está.
  87. É uma tomografia PET/CT,

  88. e o que podem ver na tomografia PET/CT
  89. é que o CT mostra onde estão os ossos,
  90. e o PET mostra onde estão os tumores.
  91. O que estão a ver aqui
  92. é essencialmente uma molécula de açúcar
  93. com uma pequena marca
    que nos sinaliza, no exterior:
  94. "Estou aqui".
  95. Estas moléculas são injetadas
    nos doentes, aos milhares de milhões
  96. e percorrem o corpo à procura de
    células que consomem açúcar.
  97. Podem ver que o coração [heart]
    tem muitas.

  98. O coração precisa de muito açúcar.
  99. Também veem a bexiga [bladder].
  100. É a bexiga que está a retirar
    o açúcar do corpo.
  101. E veem vários pontos assinalados,
    que são os tumores.
  102. Esta tecnologia é realmente maravilhosa.

  103. Pela primeira vez, permitiu-nos
    ver o interior do corpo
  104. sem pegar em cada célula
  105. e observá-la ao microscópio.
  106. Mas de forma não invasiva,
    podendo ver o interior do corpo
  107. e perguntar: "O cancro metastizou?
  108. "Onde está a metástase"?
  109. E este PET está a mostrar claramente
  110. onde estão os pontos, onde está o tumor.
  111. Embora pareça miraculoso,

  112. isto, infelizmente, não é muito bom.
  113. Veem aqueles pontinhos ali?
  114. Adivinham quantas células tem
    um daqueles tumores?
  115. Cerca de 100 milhões de
    células cancerígenas.
  116. E deixem-me repetir:
  117. em cada um dos pontinhos
    que veem na imagem,
  118. têm de estar pelo menos
    100 milhões de células cancerígenas
  119. para o pontinho ser detetado.
  120. Se parece ser um número enorme,
    é porque é mesmo muito grande.
  121. É um número incrivelmente grande,
  122. porque o que precisamos,
    para detetar estas coisas a tempo,
  123. e agir, com impacto,
  124. precisamos de detetar tumores
    que tenham só mil células,
  125. e idealmente, muitas menos.
  126. Portanto, estamos muito longe disso.
  127. Vamos fazer uma pequena experiência.

  128. Vou pedir que cada um imagine
  129. que é neurocirurgião.
  130. Estão numa sala de operações,
  131. e têm um doente à vossa frente,
  132. e o vosso trabalho é extrair o tumor.
  133. Olham para o doente,
  134. a pele e o crânio já foram afastados,
  135. e estão a ver o cérebro.
  136. Aquilo que sabem
  137. é que o tumor tem o tamanho
    aproximado de uma bola de golfe
  138. no lobo frontal direito do cérebro.
  139. É mais ou menos isto.
  140. Estão a olhar para baixo,
    e tudo é semelhante,
  141. porque o tecido cerebral cancerígeno
    e o tecido saudável têm o mesmo aspeto.
  142. Inserem o polegar,
  143. e pressionam ligeiramente o cérebro,
  144. porque os tumores tendem
    a ser mais duros e rígidos,
  145. e então fazem assim e dizem,
  146. "Parece que o tumor está aqui".
  147. Pegam no bisturi e começam
    a cortar o tumor
  148. pedaço a pedaço a pedaço.
  149. Durante este processo,
  150. chegam a uma fase em que pensam,
  151. "Acabei, já extraí tudo."
  152. E aqui chegados,
  153. se até aqui isto pareceu de doidos,
  154. estão prestes a tomar a decisão
    mais difícil da vossa vida.
  155. Porque agora têm de decidir:
    "Paro aqui e termino,
  156. "arriscando ter deixado
    células cancerígenas para trás
  157. "que simplesmente não vi,
  158. "ou retiro mais alguma margem,
  159. "normalmente uns dois centímetros
    em redor do tumor
  160. "só para ter a certeza que removi tudo?"
  161. Tomar esta decisão não é simples,

  162. e infelizmente é uma decisão
  163. que os neurocirurgiões
    têm de tomar todos os dias
  164. pelos seus doentes.
  165. Recordo-me de conversar
    com amigos no laboratório,

  166. e dizíamos: "Tem de haver
    uma maneira melhor".
  167. Mas não era só conversa...
  168. Tem mesmo de haver
    uma maneira melhor.
  169. Porque é inacreditável.
  170. Fomos rever o tema.

  171. Recordam-se do PET que mostrei,
    do açúcar e isso?
  172. Dissemos: "Se, em vez de usar
    moléculas de açúcar,
  173. "pegarmos em partículas
    muito pequenas de ouro,
  174. "e as envolvermos, com
    alguma química interessante?
  175. "Programá-las para procurarem
    células cancerígenas."
  176. Injetamos estas partículas de ouro
  177. nos doentes, aos milhares de milhões
  178. e elas vão percorrer todo o corpo,
  179. como agentes secretos, se me permitem,
  180. vão calcorrear cada célula do corpo
  181. e bater-lhe à porta e perguntar:
  182. "És uma célula cancerígena ou saudável?
  183. "Se fores saudável, vamos embora.
  184. "Se fores cancerígena,
    vamos entrar e brilhar".
  185. Elas dizem-nos: "Estou aqui".
  186. E dizem-no através
    de umas câmaras interessantes
  187. que criámos no laboratório.
  188. E quando as vemos,
    talvez possamos guiar os neurocirurgiões
  189. para retirarem só o tumor
    e deixar o tecido saudável.
  190. Fizemos testes e funciona bem.
  191. Vou mostrar-lhes um exemplo.

  192. Aquilo que estão a ver
  193. é a imagem do cérebro de um rato,
  194. e implantámos no cérebro deste rato
    um pequeno tumor.
  195. O tumor está agora a crescer
    no cérebro do rato,
  196. e fomos ter com um médico
    e pedimos-lhe
  197. para operar o rato
    como se fosse um doente,
  198. e extrair o tumor, pedaço a pedaço.
  199. Enquanto ele faz isso,
  200. nós tiramos imagens
    para ver onde estão as partículas.
  201. Vamos começar
  202. por injetar as partículas
    de ouro no rato,
  203. e vamos ver aqui à esquerda
    a imagem de baixo
  204. mostra onde estão
    as partículas de ouro.
  205. É interessante que
    estas partículas de ouro
  206. chegaram mesmo ao tumor,
  207. e depois brilham e dizem,
    "Estamos aqui. O tumor está aqui".
  208. Agora podemos ver o tumor,

  209. mas ainda não o mostramos ao médico.
  210. Pedimos ao médico para
    começar a extrair o tumor,
  211. e podem ver que o médico
    tirou o primeiro quadrante do tumor
  212. e agora falta o primeiro quadrante.
  213. O médico tirou
    o segundo quadrante, o terceiro,
  214. e agora parece estar tudo.
  215. Nessa altura, o médico disse:
    "Acabei. O que querem que faça?
  216. "Deixo como está,
    ou querem que retire uma margem"?
  217. Dissemos-lhe: "Espere,
    não extraiu estes dois pontos.

  218. "Em vez de retirar uma margem grande,
    extraia só estas pequeninas.
  219. "Extraia-as e depois vemos".
  220. O médico extraiu-as e, pasme-se,

  221. o cancro desapareceu por completo.
  222. O que é importante,
  223. não é só o cancro ter desaparecido
    do cérebro desta pessoa,
  224. ou do cérebro deste rato.
  225. A coisa mais importante
    foi que não removemos
  226. grandes quantidades de tecido saudável
    neste processo.
  227. Agora podemos imaginar um mundo
  228. onde médicos e cirurgiões,
    ao remover um tumor,
  229. sabem o que devem retirar,
    não precisam de adivinhar com o polegar.
  230. É muito importante extrair
    aqueles pequenos tumores restantes.

  231. Aqueles tumores restantes,
    sendo só um punhado de células,
  232. vão crescer,
    e fazer reincidir o tumor.
  233. 80 a 90 % das operações
  234. a tumores cerebrais não têm sucesso
  235. devido às camadas marginais
    deixadas ainda positivas,
  236. os tumores minúsculos
    deixados para trás.
  237. Isto é claramente muito bom,

  238. mas o que quero partilhar
    é a minha visão do caminho futuro.
  239. No meu laboratório em Stanford,
  240. estamos a questionar-nos:
    "Em que devíamos trabalhar agora?"
  241. E penso que o futuro da imagiologia médica
  242. está na capacidade de ver o interior
    do corpo humano, cada célula.
  243. A capacidade de fazê-lo
  244. permite detetar tumores muito mais cedo,
  245. antes de terem 100 milhões de células,
    e podemos agir.
  246. A capacidade de ver cada célula,
    poderá permitir perguntas perspicazes.

  247. Estamos a chegar ao ponto de conseguir
    fazer perguntas às células cancerígenas,
  248. como, por exemplo: "Estás a
    responder ao tratamento ou não?"
  249. Se não respondem, podemos interromper
    logo o tratamento,
  250. numa questão de dias,
    em vez de três meses.
  251. E também para doentes como o Ehud,
  252. submetidos a quimioterapias
    extremamente desagradáveis,
  253. para que não sofram
    com os horríveis efeitos secundários,
  254. quando as substâncias não estão a ajudar.
  255. Para ser franco,

  256. estamos bastante longe
    de ganhar a "guerra" contra o cancro,
  257. só para ser realista.
  258. Mas, tenho a esperança de que
    poderemos combater nesta guerra
  259. com melhor imagiologia médica,
    e sem estarmos vendados.
  260. Obrigado.

  261. (Aplausos)