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← Quantas vidas é possível viver?

A poeta de palavra falada Sarah Kay ficou surpresa ao descobrir que não poderia ser princesa, bailarina e astronauta em uma única vida. Nessa palestra, ela declama dois poemas poderoso que nos mostram como podemos viver outras vidas.

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Showing Revision 17 created 06/28/2017 by Claudia Sander.

  1. ♪ Eu vejo a lua. A lua me vê.
  2. A lua vê alguém que eu não vejo.
  3. Que Deus abençoe a lua e abençoe a mim.
  4. E que Deus abençoe
    esse alguém que eu não vejo.
  5. Se eu chegar ao paraíso antes de você,
  6. farei um buraco para te trazer comigo.
  7. E escreverei seu nome em cada estrela
  8. e dessa maneira, o mundo
  9. não parecerá tão distante. ♪
  10. O astronauta não irá trabalhar hoje.

  11. Ele ficou doente.
  12. Ele desligou o celular, o laptop,
    o "pager" e o despertador.
  13. Há um gato gordo amarelo
    que dorme no sofá,
  14. gotas de chuva batem na janela
  15. e nem mesmo o cheiro de café
    vem da cozinha.
  16. Todos estão empolgados.
  17. Os engenheiros do 15° andar pararam
    de trabalhar na máquina de partículas.
  18. A sala antigravidade está vazando
  19. e até o menino sardento de óculos,
  20. que apenas coloca o lixo
    para fora, está nervoso,
  21. segura a sacola, joga a casca
    da banana em um copo de papel.
  22. Ninguém percebe.
  23. Estão muito ocupados recalculando
    o impacto na perda de tempo.
  24. Quantas galáxias estamos
    perdendo por segundo?
  25. Quanto tempo até o próximo
    foguete ser lançado?
  26. Em algum lugar um elétron
    escapa da sua nuvem de energia.
  27. Um buraco negro surge.
  28. Uma mãe termina de arrumar
    a mesa para o jantar.
  29. Uma maratona de Law & Order
    está começando.
  30. O astronauta está dormindo.
  31. Ele esqueceu de desligar o relógio,
  32. que bate como uma vibração metálica
    contra o seu pulso.
  33. Ele não ouve isso.
  34. Ele sonha com plânctons
    e recifes de corais.
  35. Seus dedos encontram os protetores
    dos mastros de navegação.
  36. Ele vira de lado, abre
    os olhos imediatamente.
  37. Ele acha que mergulhadores têm
    o melhor trabalho do mundo.
  38. Tanta água para percorrer!
  39. (Aplausos)

  40. Obrigada.

  41. Quando eu era pequena,
    não conseguia entender o conceito

  42. de que só poderíamos viver um vida.
  43. Não falo metaforicamente.
  44. Eu pensava mesmo que iria fazer
  45. tudo que fosse possível
  46. e ser tudo que poderia ser.
  47. Era apenas um questão de tempo.
  48. E não havia limites de idade, gênero,
  49. raça ou mesmo um tempo apropriado.
  50. Tinha certeza que iria
    experimentar de verdade
  51. como é ser um líder
    do movimento de direitos civis
  52. ou um garoto de 10 anos vivendo
    em uma fazenda durante a tempestade
  53. ou um imperador da dinastia
    Tang, na China.
  54. Minha mãe diz que quando me perguntavam
  55. o que eu queria ser quando
    crescesse, minha resposta era:
  56. princesa-bailarina-astronauta.
  57. O que ela não entendia era
    que eu não estava tentando inventar
  58. alguma superprofissão combinada.
  59. Eu listava coisas que achava que seria:
  60. uma princesa e uma bailarina
    e uma astronauta.
  61. Tenho certeza que a lista
    provavelmente continuava.
  62. Normalmente, eu era interrompida.
  63. A questão não era se eu iria fazer algo,
  64. mas sim quando.
  65. E eu tinha certeza que,
    se eu quisesse fazer tudo,

  66. provavelmente teria
    que me mexer muito rápido
  67. porque havia muita coisa
    que eu precisava fazer.
  68. Então, a minha vida era
    uma correria constante.
  69. Estava sempre preocupada
    por estar ficando para trás.
  70. E, como cresci em Nova York,
    até onde eu sei,
  71. a pressa era muito normal.
  72. Mas, conforme eu crescia,
    tive essa percepção de naufrágio,
  73. de que eu não viveria mais que uma vida.
  74. Eu sabia apenas como era ser
    uma garota adolescente
  75. na cidade de Nova York,
  76. não um garoto adolescente
    na Nova Zelândia,
  77. nem uma rainha do baile no Kansas.
  78. Só conseguia ver através dos meus olhos.
  79. E foi nessa época que fiquei
    obcecada por histórias,
  80. porque foi por meio delas que eu pude ver
  81. através dos olhos de alguém,
    seja de modo breve ou imperfeito.
  82. E comecei a ansiar por ouvir
    as experiências de outras pessoas
  83. porque eu tinha tanta inveja
    por haver vidas inteiras
  84. que eu nunca viveria,
  85. e eu queria saber sobre tudo
    que eu estava perdendo.
  86. Pela propriedade transitiva, percebi
    que algumas pessoas nunca saberão
  87. como é ser uma adolescente
    na cidade de Nova York.
  88. Ou seja, elas não vão saber
  89. como é andar de metrô
    depois do primeiro beijo,
  90. ou como faz silêncio quando neva.
  91. E eu queria que soubessem,
    queria contar a elas.
  92. E isso se tornou o foco da minha obsessão.

  93. Me ocupei contando, compartilhando
    e coletando histórias.
  94. E apenas recentemente
  95. me dei conta que não posso
    apressar a poesia.
  96. Em abril, no mês nacional da poesia,
    acontece um desafio
  97. de que muitos poetas da comunidade
    de poesia participam
  98. e é chamado de Desafio 30/30.
  99. A ideia é escrever um novo poema
  100. todos os dias por todo o mês de abril.
  101. E, ano passado,
    eu tentei pela primeira vez
  102. e me emocionei pela eficiência
    que consegui produzir poesia.
  103. Mas, no fim do mês, olhei
    para os 30 poemas que havia escrito
  104. e descobri que todos eles
    tentavam me contar a mesma história,
  105. foram apenas 30 tentativas para descobrir
    a forma que ela queria ser contada.
  106. E percebi que devia ser assim para outras
    histórias, em escala ainda maior.
  107. Tenho histórias que tento contar há anos,
  108. reescrevendo repetidamente
    e sempre buscando as palavras certas.
  109. Um poeta e ensaísta francês
    chamado Paul Valéry

  110. disse que um poema nunca termina,
    ele é abandonado.
  111. E isso me assusta
  112. porque implica que posso continuar
    reeditando e reescrevendo para sempre
  113. e cabe a mim decidir
    quando o poema terminou
  114. e quando posso abandoná-lo.
  115. E isso vai diretamente contra
    a minha natureza muito obsessiva
  116. de tentar achar a resposta certa,
    as palavras perfeitas e a forma certa.
  117. E uso poesia em minha vida,
  118. como forma de viajar e influenciar coisas.
  119. Mas só porque termino um poema,
    não significa que eu resolvi
  120. o que estava me incomodando.
  121. Gosto de rever poesia antiga
  122. porque me mostra exatamente
    onde eu estava naquele momento,
  123. o que eu estava tentando percorrer
  124. e as palavras que escolhi para me ajudar.
  125. Tenho uma história

  126. na qual tropeço por anos e anos
  127. e não tenho certeza
    se encontrei a forma perfeita
  128. ou se essa é apenas uma tentativa
  129. e tentarei reescrever mais tarde
    em busca de uma forma melhor de contar.
  130. Mas sei que depois, quando olhar para trás
  131. saberei que era onde estava nesse momento
  132. e para onde eu estava tentando navegar
  133. com estas palavras, aqui,
    nesta sala, com vocês.
  134. Então...

  135. Sorria.
  136. Nem sempre funciona assim.

  137. Há um tempo em que você
    precisa sujar suas mãos.
  138. Quando se está no escuro, na maior parte,
    acrobacias são uma dádiva.
  139. Se precisar de mais contraste,
    mais saturação,
  140. escuros mais escuros e claros mais claros,
  141. chamam isso de desenvolvimento estendido.
  142. Ou seja, você passa mais tempo inalando
    químicos, até mergulhar os pulsos.
  143. Nem sempre foi fácil.
  144. Vovô Stewart foi um fotógrafo da marinha.
  145. Jovem, caipira, com suas mangas enroladas,
  146. punhos como maços gordos de moedas,
  147. ele parecia o Popeye, o marinheiro, vivo.
  148. Sorriso torto, tufos de pelos castanhos,
  149. ele apareceu na 2ª Guerra Mundial,
    com um sorriso cínico e uma distração.
  150. Quando perguntaram
    se ele entendia muito de fotografia,
  151. ele mentia, aprendeu a ler
    a Europa como um mapa,
  152. de cabeça para baixo, nas alturas
    de um avião de combate,
  153. câmera fotografando, pálpebras piscando
  154. os escuros mais escuros
    e os claros mais claros.
  155. Ele aprendeu sobre a guerra
    como se pudesse ler o caminho para casa.
  156. Quando outros homens voltam,
    eles largam suas armas,

  157. mas ele trouxe as lentes
    e as câmeras para casa com ele.
  158. Abriu uma loja, transformou-a
    em um caso de família.
  159. Meu pai nasceu nesse mundo
    em preto e branco.
  160. Suas mãos de basquete aprenderam
    os minúsculos cliques e lâminas
  161. de lentes em moldura, filme em câmera,
  162. químico na lixeira de plástico.
  163. Seu pai conhecia o equipamento,
    mas não a arte.
  164. Ele conhecia os escuros,
    mas não os claros.
  165. Meu pai aprendeu a mágica,
    passou o tempo seguindo a luz.
  166. Uma vez ele viajou pelo país
    para seguir um incêndio na floresta,
  167. caçou-o com sua câmera por uma semana.
  168. "Siga a luz", ele disse.
  169. "Siga a luz."
  170. Há partes de mim
    que só reconheço nas fotografias.

  171. O "loft" da rua Wooster,
    com os corredores rangentes,
  172. o teto com 3,7 metros,
    paredes brancas e pisos frios.
  173. Esse era o lar da minha mãe,
    antes de ela ser mãe.
  174. Antes de ser esposa, ela era uma artista
  175. E os dois únicos cômodos da casa,
  176. com paredes que iam até o teto,
    e portas que abriam e fechavam,
  177. eram o banheiro e a câmara escura.
  178. A câmara escura que ela construiu para si,
  179. com pias personalizadas de aço inox,
  180. um ampliador 8x10 que se movia para cima
    e para baixo por uma manivela gigante,
  181. luzes com cores equilibradas,
  182. uma parede de vidro
    para ver as impressões,
  183. um secador que movia
    pra dentro e pra fora da parede.
  184. Minha mãe fez uma câmara escura para si.
  185. Fez dela a sua casa.
  186. Se apaixonou por um homem
    com mãos de basquete,
  187. pela forma que ele olhava para a luz.
  188. Eles se casaram. Tiveram um bebê.

  189. Se mudaram para uma casa
    perto de um parque.
  190. Mas ficaram com o loft na rua Wooster
  191. para festas de aniversário
    e caças ao tesouro.
  192. O bebê ficou em escala de cinza,
  193. encheu os álbuns de foto dos pais
    com balões vermelhos e glacê amarelo.
  194. O bebê virou uma garota sem sardas,
  195. com um sorriso torto,
  196. que não entendia porque seus amigos
    não tinham câmaras escuras em suas casas,
  197. que nunca viu seus pais se beijarem,
  198. nunca os viu de mãos dadas.
  199. Mas um dia, outro bebê apareceu,

  200. com cabelo liso perfeito
    e bochechas de chiclete.
  201. Eles o chamaram de batata-doce.
  202. Quando ria, ria tão alto
  203. que assustava os pombos
    na escada de incêndio
  204. E os quatro viviam naquela casa
    perto do parque.
  205. A garota sem sardas, o garoto batata-doce,
  206. o pai basquete e a mãe câmara escura
  207. e eles acendiam as velas e rezavam
  208. e os cantos das fotos enrolaram.
  209. Um dia, algumas torres caíram.

  210. E a casa perto do parque virou
    uma casa sob cinzas, e eles escaparam
  211. com mochilas, em bicicletas
    para as câmaras escuras.
  212. Mas o loft na rua Wooster
    foi construído para uma artista,
  213. não para uma família de pombos,
  214. e paredes que não iam até o teto
    não suportavam o grito
  215. e o homem com mãos de basquete
    descansou suas armas.
  216. Ele não podia lutar nessa guerra,
    e nenhum mapa apontava para casa.
  217. Suas mãos não mais
    se encaixavam na sua câmera,
  218. nem combinavam com sua esposa,
  219. nem tampouco com seu corpo.
  220. O garoto batata-doce amassou
    seu punho dentro da boca
  221. até não ter mais o que dizer.
  222. Então, a garota sem sardas
    foi caçar o tesouro sozinha.

  223. E na rua Wooster, em um prédio
    com corredores rangentes
  224. e o loft com teto de 3,7 metros
  225. e a câmera escura com pias demais,
  226. sob as luzes coloridas,
    ela encontrou um bilhete,
  227. pregado na parede com uma tachinha,
    de uma época antes das torres,
  228. de uma época antes dos bebês.
  229. O bilhete dizia: "Um cara com certeza ama
    a garota que trabalha na câmara escura".
  230. Foi um ano antes de meu pai
    pegar a câmera novamente.
  231. Na primeira vez que saiu,
    seguiu as luzes de natal,
  232. pontilhando seu caminho
    nas ruas de Nova York,
  233. minúsculos pontos de luz, piscando
    para ele dos escuros mais escuros.
  234. Um ano depois ele viajou pelo país
    para seguir um fogo da floresta

  235. ficou uma semana caçando-o com sua câmera,
  236. estava devastando a costa oeste,
  237. comendo caminhões
    com 18 rodas em seus passos.
  238. Do outro lado do país,
  239. fui à escola e escrevi um poema
    na borda do meu caderno.
  240. Nós dois aprendemos a arte de capturar.
  241. Talvez estejamos aprendendo
    a arte de abraçar.
  242. Talvez estejamos aprendendo
    a arte de deixar ir.
  243. (Aplausos)