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← "Smelfies" e outras experiências em biologia sintética

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Showing Revision 12 created 04/06/2017 by Margarida Ferreira.

  1. E se as nossas plantas
  2. pudessem sentir os níveis
    de toxicidade do solo
  3. e expressassem essa toxicidade
    através da cor das suas folhas?
  4. E se essas plantas pudessem
    também eliminar essas toxinas do solo?
  5. E se essas plantas, em vez disso,
  6. criassem a sua embalagem
  7. ou fossem concebidas para serem colhidas
  8. apenas pelas máquinas
    patenteadas dos seus donos?
  9. O que acontece
    quando a conceção biológica
  10. é guiada pelas motivações
    da produção em massa de mercadorias?
  11. Que tipo de mundo seria esse?
  12. Chamo-me Ani, e sou "designer"
    e investigadora no MIT Media Lab,

  13. onde faço parte de um grupo relativamente
    novo e especial chamado Design Fiction,
  14. em que nos situamos algures
  15. entre a ficção científica
    e a ciência factual.
  16. No MIT, tenho a grande sorte
    de trabalhar ao lado de cientistas
  17. que estudam todos os tipos
    de áreas de tecnologia de ponta
  18. como a neurobiologia sintética,
  19. a inteligência artificial,
    a vida artificial,
  20. e tudo o que se relacione com isso.
  21. No campus, há cientistas
    brilhantes que perguntam:
  22. "Como posso fazer do mundo
    um lugar melhor?"
  23. Uma parte do meu grupo
    gosta de perguntar: "O que é melhor?
  24. "O que é melhor para vocês, para mim,
  25. "para uma mulher branca,
    um homem homossexual,
  26. "para um veterano,
    para uma criança com uma prótese?"
  27. A tecnologia nunca é neutra.
  28. A tecnologia modela a realidade
    e reflete um contexto.
  29. Imaginem o que isto diria do equilíbrio
    entre o trabalho e a vida no emprego
  30. se estas fossem as perguntas padrão
    no primeiro dia.
  31. (Risos)

  32. Acredito que o papel
    dos artistas e "designers"

  33. é levantar questões críticas.
  34. A arte é como podemos
    ver e sentir o futuro,
  35. e agora é uma excelente
    altura para ser "designer",
  36. para todos os novos recursos
    se tornarem acessíveis
  37. Por exemplo, a biologia sintética
  38. procura escrever a biologia
    como um problema de "design".
  39. Através destes progressos,
  40. o meu laboratório pergunta
    quais os papéis e responsabilidades
  41. de um artista, de um "designer",
    de um cientista ou de um empresário.
  42. Quais são as implicações
  43. da biologia sintética,
    da engenharia genética,
  44. e como é que elas modelam as nossas
    noções do que significa ser-se humano?
  45. Quais são as implicações
    na sociedade, na evolução
  46. e quais os interesses neste jogo?
  47. O meu projeto especulativo
    de pesquisa, no momento atual,

  48. envolve a biologia sintética,
  49. mas guia-se num sentido mais emocional.
  50. Estou obcecada com o olfato
    enquanto espaço de conceção,
  51. Este projeto começou
    com esta ideia:
  52. E se pudéssemos tirar uma "selfie"
    com cheiro, uma "smelfie"?
  53. (Risos)

  54. E se pudéssemos captar
    o nosso odor corporal

  55. e enviá-lo a um amante?
  56. É engraçado, descobri que isso
    era uma tradição austríaca do século XIX,
  57. em que os que se cortejavam
    mantinham uma fatia de maçã
  58. debaixo das axilas, durante as danças,
  59. até ao fim da noite.
  60. A rapariga dava a fruta que usara
    ao rapaz que mais apreciara
  61. e, se o sentimento fosse mútuo,
  62. ele devorava aquela maçã malcheirosa.
  63. (Risos)

  64. É sabido que Napoleão escreveu
    muitas cartas de amor a Josefina,

  65. mas talvez entre as mais memoráveis,
    é esta nota breve e urgente:
  66. "Daqui a três dias em casa.
    Não tomes banho."
  67. (Risos)

  68. Napoleão e Josefina adoravam violetas.

  69. Josefina usava perfume
    com cheiro a violetas,
  70. levou violetas no dia do seu casamento,
  71. e Napoleão enviava-lhe um ramo de violetas
  72. em todos os seus aniversários.
  73. Quando Josefina faleceu,
    ele plantou violetas na sua campa
  74. e pouco antes de seu exílio,
  75. ele voltou ao local do túmulo,
  76. colheu algumas dessas flores,
    colocou-as num medalhão
  77. e usou-o até o dia em que morreu.
  78. Eu achei isto tão comovente
    que pensei:

  79. "Poderia fazer aquela
    violeta cheirar como Josefina?
  80. "E se, para o resto da eternidade,
  81. "quando a fôssemos visitar,
  82. "pudéssemos sentir o cheiro de Josefina
    tal como Napoleão a amou?"
  83. Poderíamos criar novas formas de luto,
  84. novos rituais para relembrar?
  85. Afinal, nós criamos
    culturas transgénicas
  86. para um lucro maximizado,
  87. culturas resistentes ao transporte,
  88. culturas que têm uma longa vida útil,
  89. que têm sabor doce açucarado
    mas resistem a pragas,
  90. por vezes, à custa do valor nutritivo.
  91. Poderemos explorar
    essas mesmas tecnologias
  92. para um resultado emocionalmente sensível?
  93. No meu laboratório,

  94. tenho investigado questões como:
    "O que faz uma pessoa cheirar a humana?
  95. Acontece que é bastante complicado.
  96. Fatores como a dieta,
    os medicamentos, o estilo de vida,
  97. todos eles determinam o nosso cheiro.
  98. Descobri que o nosso suor
    geralmente é inodoro,
  99. são as nossas bactérias,
    o nosso microbioma,
  100. os responsáveis pelos cheiros,
    pelo humor, pela identidade
  101. e por muito mais outras coisas.
  102. Há todos os tipos de moléculas
    que emitimos
  103. mas de que só nos apercebemos
    subconscientemente.
  104. Então, eu tenho catalogado e reunido

  105. bactérias de diferentes locais
    do meu corpo.
  106. Após conversar
    com um cientista, pensámos:
  107. "Talvez a mistura perfeita de Ani

  108. "seja 10% clavícula, 30% axilas,
  109. 40% linha do biquíni,
    e assim por diante.
  110. Ocasionalmente, deixo que
    investigadores de outros laboratórios
  111. cheirem as minhas amostras.
  112. É interessante ouvir
    como o cheiro do corpo
  113. é interpretado fora do contexto do corpo.
  114. Já tive reações do tipo:
  115. "Tem cheiro de flores, de frango,
  116. "de 'cornflakes',
    de rojões de vaca".
  117. (Risos)

  118. Ao mesmo tempo, cultivo
    um grupo de plantas carnívoras

  119. pela capacidade que têm de emitir
    odores como o de carne para atrair presas,
  120. para tentar criar uma relação simbiótica
  121. entre as minhas bactérias
    e este organismo.
  122. Uma vez, estava no MIT, num bar,
  123. a conversar com um cientista
  124. que também é químico
    e cientista de plantas.
  125. Estava-lhe a contar o meu projeto,
    e ele disse:
  126. "Isso parece ser botânica
    para mulheres solitárias".
  127. (Risos)

  128. Imperturbável, eu disse: "Ok".

  129. Desafiei-o.
  130. "Podemos criar uma planta
    que retribua o meu amor?"
  131. Por alguma razão, ele disse:
    "Claro, porque não?"
  132. Começámos por tentar fazer
    uma planta crescer na minha direção,

  133. como se eu fosse o sol.
  134. Observámos os mecanismos
    em plantas, como o fototropismo,
  135. que faz a planta
    crescer em direção ao Sol
  136. através da produção
    de hormonas, como a auxina,
  137. que causa o alongamento da célula
    no lado da sombra.
  138. Estou a criar uma linha de batons
  139. impregnados com estas substâncias químicas
  140. que me permitem interagir
    com uma planta na sua própria química
  141. — batons que fazem as plantas
    crescerem no sítio em que beijo,
  142. plantas que florescem
    onde eu beijo o botão.
  143. Através destes projetos,

  144. eu faço perguntas como:
  145. "Como definimos a Natureza?"
  146. Como definimos a Natureza quando
    podemos recriar as suas propriedades,
  147. e quando devemos fazê-lo?
  148. Devemos fazê-lo pelo lucro,
    pela sua utilidade?
  149. Para fins emocionais?
  150. A biotecnologia pode ser usada
    para criações comoventes como a música?
  151. Quais as fronteiras entre a ciência
  152. e a sua capacidade de modelar
    a nossa paisagem emocional?
  153. Há um famoso mantra do "design"
    de que "a forma segue a função".

  154. Agora, situamo-nos
    entre a ciência, o "design" e a arte
  155. e pergunto-me:
  156. "E se a ficção dá forma aos factos?
  157. "Como seriam os laboratórios R&D
  158. "e que tipo de perguntas faríamos juntos?"
  159. Olhamos muito para a tecnologia
    como a resposta,

  160. mas como artista e "designer",
    pergunto:
  161. "Qual é a questão?"
  162. Obrigada.

  163. (Aplausos)