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← Smelfies e outras experiências em biologia sintética

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Showing Revision 16 created 04/28/2017 by Maricene Crus.

  1. E se as plantas
  2. pudessem sentir os níveis
    de toxicidade do solo
  3. e expressar essa toxicidade
    pela cor das suas folhas?
  4. E se essas plantas também
    pudessem tirar as toxinas do solo?
  5. E se essas plantas
  6. cultivassem sua própria embalagem
  7. ou fossem feitas para serem colhidas
  8. só pelas máquinas patenteadas
    pelos próprios donos?
  9. O que acontece quando um design biológico
  10. é motivado por mercadorias
    produzidas em série?
  11. Que tipo de mundo seria esse?
  12. Meu nome é Ani,
    eu sou designer e pesquisadora

  13. no Laboratório de Mídia do MIT,
  14. onde participo da equipe relativamente
    nova e única chamada Design Fiction,
  15. na qual trabalhamos na divisa entre
    ficção científica e fatos científicos.
  16. No MIT, tenho a sorte
    de estar próxima a cientistas
  17. que estudam diversas áreas inovadoras
  18. como a neurobiologia sintética,
    inteligência e vida artificial,
  19. e muito mais.
  20. Do outro lado do campus,
    há cientistas brilhantes
  21. perguntando-se questões como:
    "Como posso fazer nosso mundo melhor?"
  22. Algo que a minha equipe gosta
    de perguntar é: "O que é melhor?"
  23. O que é melhor para você, para mim,
  24. para uma mulher branca, um homem gay,
  25. um veterano de guerra,
    uma criança com prósteses?
  26. A tecnologia nunca é neutra.
  27. Concebe uma realidade
    e reflete um contexto.
  28. Imaginem o que pensar do equilíbrio
    entre trabalho e vida no seu emprego
  29. se este fosse um padrão
    no seu primeiro dia?
  30. (Risos)

  31. Creio ser o papel de artistas e designers
    levantar questões críticas.

  32. Arte é como vemos e sentimos o futuro,
  33. e essa é uma época empolgante
    para ser designer,
  34. pelo acesso a tantas ferramentas novas.
  35. Por exemplo, a biologia sintética
  36. tenta descrever a biologia
    como um problema de design.
  37. Através desses desenvolvimentos,
  38. meu laboratório pergunta
    qual o papel e as responsabilidades
  39. de um artista, designer,
    cientista ou empresário?
  40. Quais são as implicações
  41. da biologia sintética,
    engenharia genética,
  42. e como elas definem nossas noções
    do que significa ser humano?
  43. Quais as implicações delas
    na sociedade, na evolução
  44. e quais os desafios deste jogo?
  45. A minha pesquisa especulativa
    sobre design neste momento

  46. mexe com biologia sintética,
  47. mas direcionada para
    um resultado mais emocional.
  48. Sou obcecada pelo olfato
    como um espaço de design,
  49. e este projeto começou com a ideia
  50. da possibilidade de tirar uma selfie
    do nosso cheiro, uma "smelfie"?
  51. (Risos)

  52. E se pudéssemos pegar
    nosso odor natural do corpo

  53. e mandá-lo para um amado?
  54. O engraçado é que eu descobri que era
    uma tradição austríaca do século 19,
  55. em que casais em cortejo
    guardavam uma fatia de maçã
  56. e a deixavam debaixo da axila
    durante o baile,
  57. e no final da noite,
  58. a moça dava a fruta usada
    ao rapaz que ela mais admirava,
  59. e se o sentimento fosse mútuo,
    ele comia a maçã catinguenta.
  60. (Risos)

  61. Napoleão escreveu muitas
    cartas à Josefina,

  62. mas talvez dentre as mais memoráveis
    esteja esta nota breve e urgente:
  63. "Em casa em três dias. Não se lave".
  64. (Risos)

  65. Napoleão e Josefina adoravam violetas.

  66. Josefina usava perfume
    com aroma de violeta,
  67. carregou violetas no seu casamento,
  68. e Napoleão lhe mandava
    um buquê de violetas
  69. nos aniversários de casamento.
  70. Quando Josefina morreu,
    ele plantou violetas na sepultura dela,
  71. e antes de ser exilado,
  72. ele voltou à sepultura,
  73. colheu algumas flores,
    colocou-as num medalhão
  74. e usou-o até morrer.
  75. Achei isso tão comovente,

  76. que pensei: "Será que eu poderia criar
    uma violeta para cheirar como a Josefina?"
  77. E se, para o resto da eternidade,
    quando visitássemos sua sepultura,
  78. pudéssemos cheirar Josefina
    assim como Napoleão a amava?
  79. Podemos criar formas novas
    de lamentar a morte,
  80. novos rituais de recordação?
  81. Afinal de contas,
    já criamos safras transgênicas
  82. para maximizar os lucros,
  83. safras que suportam o transporte,
    que têm uma vida longa na prateleira,
  84. com gosto doce açucarado,
    mas que resistem a pragas,
  85. às vezes às custas do valor nutricional.
  86. Podemos aproveitar as mesmas tecnologias
    para um resultado emocionalmente sensível?
  87. No meu laboratório,

  88. estou pesquisando questões como:
    "O que faz um humano cheirar como tal?"
  89. Acontece que é bem complicado.
  90. Fatores como dieta,
    medicações, estilo de vida
  91. tudo contribui para a forma
    como cheiramos.
  92. Eu descobri que nosso suor
    é quase sem cheiro,
  93. mas que são nossas bactérias e microbioma
  94. os responsáveis pelo nosso cheiro,
    humor, identidade e muito mais.
  95. Há vários tipos de moléculas que emitimos,
    mas que só percebemos no subconsciente.
  96. Tenho catalogado e coletado

  97. bactéria de partes
    diferentes do meu corpo.
  98. Conversando com um cientista, concluímos:
  99. talvez a mistura perfeita de Ani
  100. seja de 10% clavícula, 30% axilas,
  101. 40% da linha do biquíni,
    e assim por diante,
  102. e esporadicamente eu deixo
    os pesquisadores de outros laboratórios
  103. cheirarem minhas amostras.
  104. É interessante ouvir
    como o cheiro do corpo
  105. é interpretado fora do contexto do corpo.
  106. Já tive reações do tipo:
  107. tem cheiro de flor, de frango,
    de cereais, de carne bovina.
  108. (Risos)

  109. Ao mesmo tempo, eu cultivo
    um grupo de plantas carnívoras

  110. pela capacidade delas de emitir
    odores como o de carne para atrair presas,
  111. para tentar criar uma relação simbiótica
    entre a minha bactéria e este organismo.
  112. Uma vez, estava no MIT, num bar,
  113. conversando com um cientista
  114. que também é químico
    e cientista de plantas,
  115. e eu contava a ele sobre meu projeto,
  116. e ele disse: "Isso parece ser botânica
    para mulheres solitárias".
  117. (Risos)

  118. Imperturbada, eu disse: "Certo".

  119. Eu o desafiei.
  120. "Poderíamos criar uma planta
    que retribuísse o meu amor?"
  121. Por alguma razão, ele disse:
    "Claro, por que não?"
  122. Começamos tentando fazer
    uma planta crescer em minha direção

  123. como se eu fosse o Sol.
  124. Observamos mecanismos
    em plantas como o fototropismo,
  125. que faz a planta
    crescer em direção ao Sol
  126. produzindo hormônios como auxina,
  127. que causa o estiramento da célula
    no lado da sombra.
  128. Agora eu estou criando uma série de batons
    impregnados de substâncias químicas
  129. que me permitem interagir
    com uma planta na sua própria química;
  130. batons que fazem as plantas
    crescerem onde eu as beijo,
  131. plantas que florescem
    onde eu beijo a flor.
  132. Através destes projetos,

  133. eu faço perguntas como:
  134. "Como definir a natureza?"
  135. Como definir a natureza quando
    podemos recriar suas propriedades,
  136. e quando devemos fazê-lo?
  137. Devemos fazê-lo pelo lucro,
    pela utilidade, pelos fins emocionais?
  138. A biotecnologia pode ser usada
    para criações comoventes como música?
  139. Quais as fronteiras entre ciência
  140. e sua capacidade de formar
    nossa paisagem emocional?
  141. É o famoso mantra do designer
    de que a forma segue a função.

  142. Agora, nos situamos
    entre ciência, design e arte
  143. e eu me pergunto:
    "E se a ficção informa os fatos?
  144. Como seriam os laboratórios R&D
  145. e que tipo de perguntas faríamos juntos?"
  146. Olhamos muito para a tecnologia
    como a resposta,

  147. mas como artista e designer,
  148. eu pergunto: "Qual é a pergunta?"
  149. Obrigada.

  150. (Aplausos)