Portuguese subtitles

← Lições dos fungos sobre mercados e economia

Get Embed Code
22 Languages

Showing Revision 7 created 01/07/2020 by Margarida Ferreira.

  1. Estou aqui hoje
    como bióloga evolucionista,
  2. professora de biologia evolutiva,
  3. um título muito pomposo,
    se assim posso dizer.
  4. Vou falar de dois tópicos
  5. que normalmente não estão associados
  6. e que são a economia de mercado
    e os fungos.
  7. Não sei como é que se pronuncia,
    será "fun-gai" ou "fun-gui"?
  8. Não há consenso, em inglês,
    quanto à pronúncia desta palavra.
  9. Imaginem uma economia de mercado

  10. com 400 milhões de anos,
  11. uma tão omnipresente que funciona
    em quase todos os ecossistemas do mundo,
  12. tão enorme que pode interligar
    milhões de comerciantes simultaneamente,
  13. e tão persistente
  14. que tenha sobrevivido
    às extinções em massa.
  15. Está aqui, neste momento,
    mesmo por baixo dos nossos pés,
  16. só que não a vemos.
  17. Ao contrário das economias humanas
  18. que se baseiam no discernimento
    para tomar decisões,
  19. os operadores desse mercado imploram,
    pedem emprestado, roubam, vigarizam,
  20. tudo na ausência de discernimento.
  21. Oculto aos nossos olhos,

  22. um fungo chamado "Arbuscule mycorrhizae"
    coloniza as raízes das plantas.
  23. Esse fungo forma complexas
    redes subterrâneas
  24. de filamentos mais finos
    do que os fios de algodão.
  25. Se acompanharmos um desses fungos
  26. vemos que ele interliga
    múltiplas plantas simultaneamente.
  27. Podemos pensar nele como um sistema
    de metropolitano subterrâneo,
  28. em que cada raiz é uma estação,
  29. em que os recursos
    são carregados e descarregados.
  30. E também é um sistema muito denso,
  31. com um comprimento de muitos metros,
    às vezes, até um quilómetro,
  32. num simples grama de terra.
  33. Equivale ao comprimento
    de 10 campos de futebol
  34. num simples dedal de terra.
  35. E está por toda a parte.
  36. Em qualquer árvore, arbusto,
    trepadeira ou erva daninha,
  37. existe uma rede de micorrizas.
  38. Cerca de 80% de todas
    as espécies de plantas
  39. estão associadas
    a estes fungos micorrízicos.
  40. O que é que uma raiz coberta de fungos

  41. tem a ver com a nossa economia global?
  42. Porque é que, como bióloga evolucionistas,
    passei os últimos 10 anos da minha vida
  43. a aprender calão económico?
  44. A primeira coisa que é preciso perceber
  45. é que os acordos comerciais
    entre os parceiros plantas e fungos
  46. são surpreendentemente semelhantes
  47. aos acordos que nós fazemos,
  48. embora talvez ainda mais estratégicos.
  49. Os parceiros, plantas e fungos,
  50. não negoceiam ações e obrigações,
  51. trocam recursos essenciais.
  52. Para os fungos, são açúcares e gorduras.
  53. Todo o carbono que recebem
    provém diretamente do parceiro planta.
  54. É muito carbono por ano
  55. — são cerca de 5000 milhões
    de toneladas de carbono das plantas
  56. que vão para esta rede subterrânea.
  57. As raízes precisam de fósforo e de azoto.
  58. Assim, quando cedem o carbono,
  59. têm acesso a todos os nutrientes
    absorvidos pela rede dos fungos.
  60. Para fazer esta troca,
  61. o fungo penetra na célula da raiz
    da planta hospedeira
  62. e forma uma minúscula estrutura,
    chamada arbúsculo,
  63. que, em latim, significa "pequena árvore".
  64. Podemos pensar nisto
    como uma troca física de ações
  65. no mercado de ações.
  66. Até aqui, parece muito harmonioso, não é?

  67. Ajuda-me que eu te ajudarei.
  68. Cada parceiro recebe
    aquilo de que precisam.
  69. Mas aqui precisamos de fazer uma pausa
  70. e perceber o poder da evolução
    e da seleção natural.
  71. Neste mercado, não há espaço
    para comerciantes amadores.
  72. Uma estratégia de trocas adequada
  73. determina quem vive e quem morre,
  74. Eu uso a palavra "estratégia"

  75. mas, claro, a planta e os fungos
    não têm cérebro.
  76. Fazem estas trocas
  77. na ausência de qualquer coisa
    que possamos considerar como raciocínio.
  78. Mas, enquanto cientistas,
    usamos termos comportamentais,
  79. como estratégia,
  80. para descrever o comportamento,
    em determinadas condições,
  81. de ações e reações
  82. que estão programadas
    no ADN do organismo.
  83. Eu comecei a estudar
    estas estratégias de trocas,

  84. quando tinha 19 anos
  85. e vivia nas florestas tropicais do Panamá.
  86. Na altura, toda a gente estava interessada
    nesta incrível diversidade acima do solo.
  87. Era uma enorme diversidade.
    São florestas tropicais.
  88. Mas eu estava interessada
    na complexidade abaixo do solo.
  89. Já sabíamos que existiam essas redes
    e sabíamos que eram importantes
  90. e vou repetir, por importante,
    quero dizer mesmo importante.
  91. Falamos da base da nutrição
    de todas as plantas
  92. para toda a diversidade
    que vemos à superfície.
  93. Mas, naquela altura, não sabíamos
    como funcionavam estas redes.
  94. Não sabíamos como funcionavam.
  95. Porque é que só determinadas plantas
    interagiam com determinados fungos?
  96. Avançando para a época
    em que comecei o meu grupo,
  97. começámos a jogar
    com este mercado comercial.
  98. Manipulávamos as condições.
  99. Criávamos um bom parceiro,
    cultivando uma planta ao sol
  100. e um parceiro fraco,
    cultivando uma planta à sombra.
  101. Depois ligávamos as duas
    a uma rede de fungos.
  102. Descobrimos que os fungos
    eram sempre muito bons
  103. em diferenciar parceiros bons e maus.
  104. Atribuíam mais recursos à planta
    que lhes fornecia mais carbono.
  105. Depois, fizemos experiências recíprocas

  106. em que inoculávamos uma planta
    com fungos bons e maus.
  107. As plantas também diferenciavam bem
    estes parceiros.
  108. Temos aqui as condições perfeitas
    para surgir um mercado.
  109. É um mercado simples,
  110. mas, de qualquer modo, é um mercado
  111. em que o melhor parceiro
    é favorecido consistentemente.
  112. Mas será um mercado justo?

  113. É aqui que precisamos de perceber
    que, tal como com os seres humanos,
  114. as plantas e os fungos
    são incrivelmente oportunistas.
  115. Há indícios de que os fungos,
    depois de penetrarem na célula da planta,
  116. podem apoderar-se do sistema
    de captação de nutrientes da planta.
  117. Fazem isso, suprimindo
    a capacidade da planta
  118. de absorver nutrientes do solo.
  119. Isso cria uma dependência
    da planta para com o fungo.
  120. É uma espécie de falsa dependência
  121. em que a planta é obrigada
    a alimentar o fungo,
  122. para ter acesso aos recursos
    em volta da sua raiz.
  123. Também há indícios de que os fungos
  124. conseguem inflacionar
    o preço dos nutrientes.
  125. Fazem isso, extraindo
    os nutrientes do solo,
  126. mas depois, em vez de os trocar
    com a planta hospedeira,
  127. armazenam-nos na sua rede,
  128. para os tornar indisponíveis à planta
    e a outros fungos concorrentes.
  129. É o princípio básico da economia:
  130. à medida que a disponibilidade
    de recursos diminui, o seu valor aumenta.
  131. A planta é forçada a pagar mais
    pela mesma quantidade de recursos.
  132. Mas nem tudo funciona a favor do fungo.

  133. As plantas também podem ser
    extremamente astutas.
  134. Há algumas orquídeas
  135. — e eu sempre achei que as orquídeas
  136. são a espécie de plantas
    mais desonesta do mundo —
  137. há algumas orquídeas
  138. que exploram diretamente a rede
  139. e lhe roubam todo o carbono.
  140. Essas orquídeas nem sequer produzem
    folhas verdes para a fotossíntese.
  141. São todas brancas.
  142. Em vez de fotossintetizarem,
    exploram a rede.
  143. roubam o carbono
  144. e não dão nada em troca.
  145. Penso que é justo dizer
    que estes tipos de parasitas

  146. também florescem
    nos nossos mercados humanos.
  147. Quando começámos a descodificar
    estas estratégias,
  148. aprendemos algumas lições.
  149. A primeira foi que
    não há altruísmo neste sistema.
  150. Não há favores nas trocas.
  151. Não vemos indícios fortes
  152. de um fungo a ajudar
    plantas moribundas ou debilitadas,
  153. a não ser que tire daí benefícios
    diretamente para si mesmo.
  154. Não estou a dizer
    que isso é bom ou mau.

  155. Ao contrário dos seres humanos,
    um fungo não pode julgar a sua moral.
  156. E, enquanto bióloga,
  157. não estou a defender este tipo de dinâmica
    de mercado neoliberal implacável
  158. exercido pelos fungos.
  159. Mas o sistema de trocas
  160. fornece-nos uma referência
  161. para estudar o aspeto duma economia
  162. quando é modelada pela seleção natural
  163. durante centenas de milhões de anos
  164. na ausência de moral,
  165. quando as estratégias se baseiam apenas
  166. na colheita e no processamento
    de informações,
  167. não contaminadas pelo discernimento:
  168. sem inveja, sem maldade,
  169. mas também sem esperança, sem alegria.
  170. Portanto, nós fizemos progressos

  171. ao descodificar os princípios
    mais básicos das trocas.
  172. Mas, enquanto cientistas, sempre
    queremos avançar mais um passo
  173. e estamos interessados em dilemas
    económicos mais complexos.
  174. Especificamente, estamos interessados
    nos efeitos da desigualdade.
  175. A desigualdade tornou-se
    uma característica definidora

  176. do cenário económico atual.
  177. Mas os problemas da desigualdade
  178. não são exclusivos do mundo humano.
  179. Penso que, enquanto seres humanos,
    achamos que somos únicos em tudo
  180. mas os organismos na Natureza
    têm de enfrentar
  181. uma variação permanente
    no seu acesso aos recursos.
  182. Como é que um fungo
    que pode ter metros de comprimento

  183. altera a sua estratégia de trocas
    quando exposto, simultaneamente,
  184. a um talhão rico e a um talhão pobre?
  185. Mais genericamente,
  186. como é que os organismos na Natureza
    usam as trocas em seu benefício
  187. quando enfrentam a incerteza,
  188. em termos do seu acesso aos recursos?
  189. É aqui que preciso de revelar um segredo:

  190. estudar as trocas subterrâneas
    é extremamente difícil.
  191. Não podemos ver onde ou quando
    ocorrem os acordos comerciais importantes.
  192. O nosso grupo ajudou a criar
    um método, uma tecnologia,
  193. em que podemos etiquetar
    nutrientes com nanopartículas,
  194. nanopartículas fluorescentes,
    chamadas pontos quânticos.
  195. Os pontos quânticos permitem-nos
  196. iluminar os nutrientes
  197. para podermos visualizar
    os seus movimentos
  198. através da rede de fungos
  199. até à raiz da planta hospedeira.
  200. Isso permite-nos, finalmente,
    ver o invisível,
  201. para podermos estudar como os fungos
    negoceiam, à microescala,
  202. com as plantas hospedeiras.
  203. Para estudar a desigualdade,
  204. expusemos uma rede de fungos
  205. a diversas concentrações
    de fósforo fluorescente,
  206. imitando os talhões
    de abundância e de escassez
  207. numa paisagem artificial.
  208. Depois, quantificámos cuidadosamente
    as trocas feitas pelos fungos,
  209. Descobrimos duas coisas.
  210. A primeira coisa que descobrimos

  211. foi que a desigualdade encorajava
    o fungo a fazer mais trocas.
  212. Posso usar a palavra "encorajava"
    ou "estimulava" ou "forçava",
  213. mas o importante é que, em comparação
    com as condições de controlo,
  214. a desigualdade estava associada
    a níveis mais altos de trocas.
  215. Isto é importante,
  216. porque sugere que a evolução
    de uma parceria de trocas, na Natureza,
  217. pode ajudar os organismos a lidar
    com a incerteza do acesso aos recursos.
  218. Em segundo lugar, descobrimos
    que, quando exposto à desigualdade,

  219. o fungo deslocava os recursos
    do talhão rico da rede
  220. e transportava-os
    para o lado pobre da rede.
  221. Claro, conseguíamos observar isto
  222. porque os talhões tinham
    cores fluorescentes diferentes.
  223. A princípio, este resultado
    foi extremamente intrigante.
  224. Seria para ajudar o lado pobre da rede?
  225. Não. Descobrimos
    que o fungo lucrava mais,
  226. movimentando os recursos
    para onde a procura era mais elevada.
  227. Mudando-os para o local da rede
    onde o fungo estava a fazer trocas,
  228. podia manipular
    o valor desses recursos.
  229. Isso obrigou-nos a aprofundar

  230. a forma como são partilhadas
    as informações.
  231. Sugeria um elevado nível
    de sofisticação
  232. ou, pelo menos,
    um nível médio de sofisticação
  233. num organismo sem discernimento.
  234. Como é que um fungo pode pressentir
    as condições do mercado, na sua rede,
  235. e depois fazer cálculos
    sobre onde e quando fazer trocas?
  236. Quisemos observar as informações
    e como são transmitidas por esta rede,
  237. como o fungo integra as pistas.
  238. Para isso, precisámos de aprofundar
    e obter uma resolução mais elevada

  239. na própria rede.
  240. Começámos por estudar fluxos complexos
    no interior da rede de hifas.
  241. Neste momento estão a ver
    uma rede de fungos vivos
  242. com conteúdos celulares
    em movimento através dela.
  243. Isto está a acontecer em tempo real,
  244. portanto, podem verificar
    a hora ali em cima.
  245. Está a acontecer no momento,
    o vídeo não está acelerado.
  246. Está a acontecer neste momento,
    debaixo dos nossos pés.
  247. Quero chamar a atenção para umas coisas.
  248. Acelera, depois abranda,
    muda de direção.
  249. Estamos a trabalhar agora com biofísicos

  250. para tentar dissecar esta complexidade.
  251. Como é que os fungos usam
    estes complexos padrões de fluxo
  252. para partilhar e processar informações
  253. e tomar estas decisões de trocas?
  254. Serão os fungos melhores do que nós
    a calcular transações comerciais?
  255. É aqui que talvez possamos
    ir buscar modelos à Natureza.

  256. Cada vez estamos mais dependentes
    de algoritmos de computadores
  257. para fazermos negócios lucrativos
    em frações de segundos.
  258. Mas os algoritmos dos computadores
    e os fungos
  259. funcionam de um modo
    igualmente sem discernimento.
  260. Acontece que os fungos
    são uma máquina viva.
  261. O que aconteceria se comparássemos
    e puséssemos em competição

  262. as estratégias de trocas desses dois?
  263. Quem ganharia?
  264. O pequeno capitalista que anda por aí
  265. desde antes e depois
    do desaparecimento dos dinossauros?
  266. A minha aposta vai para o fungo.

  267. Obrigada.

  268. (Aplausos)