YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese, Brazilian subtitles

← As lições dos fungos sobre mercados e economia

Get Embed Code
20 Languages

Showing Revision 93 created 11/06/2019 by Raissa Mendes.

  1. Estou aqui hoje como bióloga evolutiva,
  2. professora universitária
    de biologia evolutiva,
  3. título que soa bastante
    pomposo, devo admitir.
  4. E gostaria de falar sobre dois tópicos
  5. que normalmente não são abordados juntos:
  6. fungos e economia de mercado.
  7. A gente fala fun-guy
    ou, como na Europa, fun-gee?
  8. Ainda não há consenso, em inglês,
    sobre a pronúncia dessa palavra.
  9. Bem, gostaria que imaginassem
    uma economia de mercado

  10. com 400 milhões de anos,
  11. tão onipresente que opere
    em todos os ecossistemas do mundo,
  12. tão grande que possa conectar
    milhões de mercados simultaneamente,
  13. e tão persistente
  14. que tenha sobrevivido
    a extinções em massa.
  15. Ela está aqui, bem debaixo de nossos pés,
  16. só que não conseguimos vê-la.
  17. E, ao contrário das economias
    de mercado dos humanos,
  18. nas quais as decisões são tomadas
    com base na cognição,
  19. operadores desse mercado imploram,
    tomam emprestado, roubam, trapaceiam,
  20. tudo na ausência de raciocínio.
  21. Escondido dos nossos olhos,

  22. um fungo chamado "Arbuscule mycorrhizae"
    coloniza raízes de plantas.
  23. Ele forma complexas redes subterrâneas
  24. de filamentos mais finos
    do que os fios do algodão.
  25. Se acompanharmos um desses fungos,
  26. vemos que ele conecta
    várias plantas simultaneamente.
  27. É como se fosse um sistema
    de metrô subterrâneo,
  28. no qual cada raiz seria uma estação
  29. onde recursos são
    carregados e descarregados.
  30. Esse também é um sistema muito denso.
  31. Costuma haver metros de comprimento,
    às vezes até um quilômetro,
  32. num único grama de terra.
  33. Isso equivale ao comprimento
    de dez campos de futebol
  34. em apenas um tiquinho de terra.
  35. E está por toda parte.
  36. Em toda árvore, arbusto,
    trepadeira, ou mesmo erva-daninha,
  37. existe uma rede micorrízica.
  38. Cerca de 80% de todas as espécies vegetais
  39. estão associadas
    a esses fungos micorrízicos.
  40. Mas o que uma raiz coberta de fungos

  41. tem a ver com nossa economia global?
  42. E por que, como bióloga evolutiva,
    passei os dez últimos anos da minha vida
  43. aprendendo jargão econômico?
  44. Bem, a primeira coisa
    que vocês precisam entender
  45. é que os acordos comerciais
    entre plantas e fungos parceiros
  46. são surpreendentemente semelhantes
  47. aos acordos feitos por nós,
  48. e talvez até mais estratégicos
    do que os nossos.
  49. Vejam só, plantas e fungos parceiros
  50. não estão negociando ações e títulos,
  51. mas recursos essenciais,
  52. o que, para o fungo,
    significa açúcar e gorduras.
  53. Ele obtém todo o seu carbono
    diretamente da planta parceira.
  54. É muito carbono - por ano,
    cerca de 5 bilhões de toneladas de carbono
  55. das plantas entram nessa rede subterrânea.
  56. Quanto às raízes, elas precisam
    de fósforo e nitrogênio.
  57. Então, ao trocar seu carbono,
  58. elas têm acesso a todos os nutrientes
    coletados por essa rede de fungos.
  59. Para realizar a troca,
  60. o fungo penetra nas células
    da raiz da hospedeira
  61. e forma uma pequena estrutura
    chamada "arbuscule",
  62. que em latim significa "arvorezinha".
  63. Podemos pensar nisso
    como a bolsa de valores física
  64. do mercado de ações.
  65. Até aqui, tudo parece lindo
    e maravilhoso, certo?

  66. Uma mão lava a outra,
  67. e cada parceiro consegue o que precisa.
  68. Mas aqui é preciso parar
  69. e entender o poder
    da evolução e da seleção natural.
  70. Vejam bem, nesse mercado
    não há espaço para amadores.
  71. Uma estratégia comercial adequada
  72. determina quem vive e quem morre.
  73. Estou usando a palavra "estratégia",

  74. mas, obviamente, plantas e fungos
    não possuem cérebro.
  75. Eles fazem essas trocas
  76. na ausência de qualquer coisa
    que possa ser considerada raciocínio.
  77. No entanto, nós, cientistas,
    usamos termos comportamentais,
  78. tal como estratégia,
  79. para descrever o comportamento
    de certas condições,
  80. ações e reações,
  81. que já vêm programadas
    no DNA do organismo.
  82. Comecei a estudar
    essas estratégias comerciais

  83. quando tinha 19 anos
  84. e morava numa floresta tropical do Panamá.
  85. Na época, todo mundo estava interessado
    na incrível diversidade acima do solo.
  86. E era uma senhora diversidade,
    afinal, são florestas tropicais.
  87. Mas eu estava interessada
    na complexidade abaixo do solo.
  88. Sabíamos que as redes existiam,
    e sabíamos que eram importantes,
  89. e quero repetir isso - por importante
    quero dizer importante mesmo,
  90. pois estamos falando
    da base de toda a nutrição vegetal
  91. para toda a diversidade
    que vemos na superfície.
  92. Mas na época não sabíamos
    como essas redes operavam.
  93. Não sabíamos como elas funcionavam.
  94. Por que apenas determinadas plantas
    interagiam com determinados fungos?
  95. Avancemos no tempo para quando
    formei meu próprio grupo,
  96. e começamos a brincar
    com esse mercado comercial.
  97. Começamos a manipular as condições.
  98. Criamos uma parceira comercial boa,
    uma planta cultivada ao sol,
  99. e uma parceira comercial ruim,
    uma planta cultivada na sombra.
  100. E conectamos ambas as plantas
    a uma rede de fungos.
  101. Descobrimos que os fungos
    eram muito competentes
  102. em discriminar entre parceiras
    comerciais boas e ruins.
  103. Eles alocavam mais recursos para a planta
    hospedeira que lhes desse mais carbono.
  104. Depois, fizemos experimentos recíprocos,

  105. em que inoculamos fungos bons
    e ruins numa planta hospedeira,
  106. e elas também conseguiram
    diferenciar esses parceiros.
  107. Portanto temos aí condições perfeitas
    para o surgimento de um mercado.
  108. É um mercado simples,
  109. mas é um mercado
  110. em que o parceiro comercial melhor
    é favorecido de forma consistente.
  111. Mas é um mercado justo?

  112. Aqui precisamos entender
    que, assim como os seres humanos,
  113. as plantas e os fungos
    são incrivelmente oportunistas.
  114. Há evidências de que o fungo,
    após penetrar na célula vegetal,
  115. consegue sequestrar o próprio sistema
    de captação de nutrientes da planta.
  116. Ele faz isso suprimindo
    a própria capacidade da planta
  117. de absorver nutrientes do solo.
  118. Isso cria então uma dependência
    da planta para com fungo.
  119. É tipo um falso vício,
  120. em que a planta tem de alimentar o fungo
  121. simplesmente para ter acesso aos recursos
    em torno da sua própria raiz.
  122. Há também evidências de que os fungos
    são bons em inflar o preço dos nutrientes.
  123. Eles fazem isso extraindo
    os nutrientes do solo,
  124. mas, aí, em vez de negociá-los
    com a hospedeira,
  125. eles os estocam em sua rede,
  126. tornando-os indisponíveis
    para a planta e fungos concorrentes.
  127. É princípio básico da economia:
  128. à medida que a disponibilidade
    dos recursos diminui, o valor aumenta.
  129. A planta é forçada a "pagar" mais
    pela mesma quantidade de recursos.
  130. No entanto, nem tudo
    está a favor do fungo.

  131. As plantas também podem ser
    extremamente astutas.
  132. Existem algumas orquídeas -
  133. e sempre achei as orquídeas
    a espécie mais desonesta
  134. de plantas no mundo...
  135. existem algumas orquídeas
  136. que só precisam tocar diretamente na rede
  137. para roubar todo o seu carbono.
  138. Essas orquídeas, portanto, nem fabricam
    folhas verdes para a fotossíntese.
  139. Elas são simplesmente brancas.
  140. Então, em vez de fazer a fotossíntese,
  141. ela toca na rede,
  142. rouba o carbono
  143. e não dá nada em troca.
  144. A propósito, vale lembrar
    que esse tipo de parasita

  145. também floresce em nossos mercados.
  146. Por isso, quando começamos
    a decodificar essas estratégias,
  147. aprendemos algumas lições.
  148. E a primeira foi que não há
    altruísmo nesse sistema.
  149. Não há troca de favores comerciais.
  150. Não vimos evidências fortes
  151. de fungos que ajudassem plantas
    moribundas ou debilitadas,
  152. a menos que isso beneficiasse
    diretamente o próprio fungo.
  153. Não estou dizendo
    que isso seja bom ou ruim.

  154. Ao contrário dos humanos, um fungo, claro,
    não pode julgar sua própria moralidade.
  155. E, como bióloga,
  156. não estou defendendo esse tipo de dinâmica
    implacável de mercado neoliberal,
  157. representado pelos fungos.
  158. Mas esse sistema de troca
  159. nos fornece uma referência
  160. para estudar como funciona uma economia
  161. moldada pela seleção natural
  162. durante centenas de milhões de anos,
  163. na ausência de moralidade,
  164. quando as estratégias são baseadas apenas
  165. em coleta e processamento de informação,
  166. não contaminadas pela cognição:
  167. sem ciúme, sem rancor,
  168. mas sem esperança, sem alegria.
  169. Pois bem, fizemos progresso

  170. na decodificação dos princípios comerciais
    mais básicos até aquele ponto,
  171. mas, como cientistas, sempre
    queremos dar um passo adiante,
  172. e estávamos interessados
    em dilemas econômicos mais complexos,
  173. especialmente nos efeitos da desigualdade.
  174. A desigualdade sem dúvida
    se tornou uma característica definidora

  175. do cenário econômico atual.
  176. Mas os desafios da desigualdade
  177. não são exclusivos do mundo humano.
  178. Acho que, como seres humanos, tendemos
    a pensar que tudo é exclusividade nossa,
  179. mas organismos na natureza
  180. têm de enfrentar variação implacável
    no acesso a recursos.
  181. Como pode um fungo,
    com metros de comprimento,

  182. mudar sua estratégia comercial
    quando exposto simultaneamente
  183. a um ambiente rico e a um ambiente pobre?
  184. E, de maneira mais geral,
  185. como os organismos na natureza
    usam a troca a seu favor
  186. quando se deparam com a incerteza
  187. em termos de acesso a recursos?
  188. Aqui, preciso lhes contar um segredo:

  189. estudar trocas comerciais
    no subterrâneo é incrivelmente difícil.
  190. Não conseguimos ver onde ou quando
    acordos comerciais importantes acontecem.
  191. Então, nosso grupo ajudou
    a criar um método, uma tecnologia,
  192. pelo qual poderíamos etiquetar
    nutrientes com nanopartículas,
  193. nanopartículas fluorescentes
    chamadas pontos quânticos.
  194. Os pontos quânticos nos permitem
  195. iluminar os nutrientes,
  196. para que possamos acompanhar
    visualmente seus movimentos
  197. através da rede de fungos
  198. e dentro da raiz da hospedeira.
  199. Isso finalmente
    nos permitiu ver o invisível,
  200. para estudar como os fungos barganham,
    na escala micro, com a planta hospedeira.
  201. Daí, pra estudar a desigualdade,
  202. expusemos uma rede de fungos
  203. a diferentes concentrações
    de fósforo fluorescente,
  204. imitando períodos de escassez e abundância
  205. numa paisagem artificial.
  206. Quantificamos cuidadosamente
    as trocas feitas pelos fungos.
  207. E descobrimos duas coisas.
  208. A primeira coisa que descobrimos

  209. foi que a desigualdade encorajou
    o fungo a trocar mais.
  210. Eu poderia usar "encorajou",
    "estimulou" ou "forçou",
  211. mas a conclusão foi que, comparada
    com as condições de controle,
  212. a desigualdade foi associada
    a níveis mais altos de troca.
  213. Isso é importante,
  214. pois sugere que desenvolver
    uma parceria comercial na natureza
  215. pode ajudar os organismos a lidar
    com a incerteza do acesso a recursos.
  216. Segundo, descobrimos
    que, exposto à desigualdade,

  217. o fungo deslocava recursos
    da parte rica da rede,
  218. e transportava-os ativamente
    para o lado pobre.
  219. Obviamente, só visualizamos isso
  220. por causa das diversas cores
    fluorescentes no ambiente.
  221. A princípio, esse resultado
    foi incrivelmente intrigante.
  222. Será que o fungo fazia isso
    para ajudar o lado pobre da rede?
  223. Não, descobrimos que o fungo
    "lucrou" mais movimentando os recursos
  224. para onde a demanda era maior.
  225. Com a simples mudança, na rede,
    do local de negociação,
  226. o fungo conseguiu manipular
    o valor desses recursos.
  227. Isso nos estimulou a pesquisar mais fundo

  228. como as informações são compartilhadas.
  229. Isso sugere um alto nível de sofisticação,
  230. ou pelo menos um nível
    médio de sofisticação,
  231. num organismo sem cognição.
  232. Como é que um fungo pode sentir
    as condições de mercado em toda sua rede
  233. e depois fazer cálculos
    de onde e quando negociar?
  234. Daí, decidimos pesquisar a informação
    e como ela é compartilhada nessa rede,
  235. como o fungo incorpora indícios.
  236. Para fazer isso, precisamos mergulhar
    fundo e obter uma resolução mais alta

  237. na própria rede.
  238. Começamos a estudar fluxos complexos
    dentro da rede hífica.
  239. Portanto, o que estão vendo agora
    é uma rede de fungos vivos
  240. com o conteúdo celular
    movendo-se através dela.
  241. Isso está acontecendo em tempo real,
  242. podem checar a hora lá em cima.
  243. Está acontecendo agora,
    e o vídeo não está acelerado.
  244. Isto é o que está acontecendo
    sob nossos pés agora.
  245. E quero chamar a atenção
    para algumas coisas.
  246. Ela acelera, diminui, muda de direção...
  247. E atualmente estamos
    trabalhando com biofísicos

  248. para tentar dissecar essa complexidade.
  249. Como o fungo usa
    esses padrões complexos de fluxo
  250. para compartilhar e processar informações
  251. e tomar essas decisões comerciais?
  252. Seriam os fungos melhores do que nós
    em calcular transações comerciais?
  253. Potencialmente poderíamos
    tomar emprestados modelos da natureza.

  254. Estamos cada vez mais dependentes
    de algoritmos de computador
  255. para fechar negócios rentáveis
    em frações de segundo.
  256. Mas algoritmos de computador e fungos,
  257. ambos operam de maneiras
    igualmente não cognitivas.
  258. Acontece que os fungos
    são uma máquina viva.
  259. O que aconteceria se comparássemos

  260. as estratégias de negociação dos dois?
  261. Quem ganharia?
  262. O capitalistazinho que está na área
  263. desde antes e depois
    da extinção dos dinossauros?
  264. Minha aposta vai pro fungo.

  265. Obrigada.

  266. (Aplausos)