YouTube

Got a YouTube account?

New: enable viewer-created translations and captions on your YouTube channel!

Portuguese subtitles

← Para educar raparigas destemidas, incentivem a aventura

Get Embed Code
41 Languages

Showing Revision 26 created 04/02/2017 by Margarida Ferreira.

  1. Quando era criança, era obcecada
  2. com o livro de recordes
    mundiais do Guinness,
  3. e queria muito estabelecer
    o meu próprio recorde mundial.
  4. Havia só um pequeno problema:
  5. Eu não tinha qualquer talento.
  6. Então decidi estabelecer
    um recorde mundial em algo
  7. que não requeria qualquer talento.
  8. Decidi estabelecer
    um recorde mundial
  9. em rastejar.
  10. (Risos)

  11. O recorde na altura era de 20 km

  12. e por algum motivo
    parecia-me alcançável.
  13. (Risos)

  14. Recrutei a minha amiga Anne,

  15. e juntas decidimos que nem sequer
    precisávamos de treinar.
  16. (Risos)

  17. No dia da nossa tentativa,

  18. colocámos protetores por cima
    das nossas calças da sorte
  19. e lá fomos nós.
  20. Começámos logo a ter problemas,
  21. porque a ganga roçava na nossa pele
  22. e começou a criar irritações.
  23. Depois, os joelhos
    começaram a criar feridas.
  24. Horas depois,
  25. começou a chover.
  26. Depois, a Anne desistiu.
  27. Depois, ficou de noite.
  28. Naquela altura, os meus joelhos
    sangravam através das calças,
  29. e eu estava a alucinar
    devido ao frio.
  30. à dor e à monotonia.
  31. Para vos dar uma ideia
    do que eu estava a passar,
  32. a primeira volta à volta
    da escola demorou 10 minutos.
  33. A última quase 30.
  34. Depois de 12 horas a rastejar,

  35. parei.
  36. Tinha feito 13 km.
  37. Estava ainda um pouco longe do recorde.
  38. Durante muitos anos, pensei nesta história
    como um fracasso miserável,

  39. mas hoje penso de forma diferente,
  40. porque quando estava
    a tentar bater o recorde,
  41. estava a fazer três coisas.
  42. Estava a sair da minha zona de conforto,
  43. estava a apelar à minha resiliência,
  44. e estava a encontrar confiança em mim
  45. e nas minhas decisões.
  46. Não o sabia na altura,
  47. mas esses não são
    os atributos de um fracasso
  48. São os atributos da coragem.
  49. Em 1989, com 26 anos,

  50. tornei-me bombeira em São Francisco.
  51. Era a 15.º mulher
    num quartel com 1500 homens.
  52. (Aplausos)

  53. Como podem imaginar,
    quando cheguei

  54. havia muitas dúvidas acerca
    das minhas capacidades.
  55. Apesar de ser uma remadora
    colegial com 1,78 m e 68 kg,
  56. e ser capaz de aguentar 12 horas
    com os joelhos em brasa...
  57. (Risos)

  58. ... sabia que ainda tinha
    de provar o meu valor.

  59. Então, um dia houve um incêndio.

  60. Claro, quando o meu grupo chegou,
  61. havia uma nuvem negra de fumo
    a sair de um edifício num beco.
  62. E eu estava com
    um grandalhão chamado Skip.
  63. Ele estava com a agulheta
    e eu estava mesmo atrás.
  64. Era um incêndio típico.
  65. Fumarento, quente.
  66. De repente,
  67. houve uma explosão.
  68. O Skip e eu fomos projetados para trás,
  69. a minha máscara caiu para o lado,
  70. e houve um momento de confusão.
  71. Depois, levantei-me,
  72. agarrei na agulheta
  73. e fiz o que é suposto
    um bombeiro fazer:
  74. Avancei,
  75. abri a água
  76. e ataquei o incêndio.
  77. A explosão fora causada
    por um esquentador.
  78. Ninguém se magoou,
    e acabou por não ser nada de grave.
  79. Mais tarde o Skip
    veio ter comigo e disse-me:
  80. "Bom trabalho, Caroline,"
  81. num tom surpreendido.
  82. (Risos)

  83. Fiquei confusa, porque
    não tinha sido fisicamente difícil.

  84. Porque é que ele olhava
    para mim com tal espanto?
  85. Então tornou-se claro:
  86. o Skip — que, já agora,
    é um tipo impecável
  87. e um excelente bombeiro —
  88. não só pensava que
    as mulheres não eram fortes,
  89. como pensava também
    que não podiam ser corajosas.
  90. Mas não era o único.
  91. Amigos, conhecidos e estranhos,
  92. homens e mulheres
    durante toda a minha carreira
  93. perguntam-me vezes sem conta:
  94. "Caroline, os incêndios, o perigo,
  95. "não tens medo?"
  96. Honestamente, nunca ouvi perguntar isso
    a nenhum bombeiro.
  97. E fiquei curiosa.
  98. Porque é que não se espera
    coragem das mulheres?
  99. A resposta começou a formar-se

  100. quando um amigo meu se lamentou
  101. que a sua filhinha
    era um pouco medricas.
  102. Então, comecei a observá-la,
  103. e sim, ela era ansiosa
  104. mas. mais do que isso,
    os pais era ansiosos.
  105. A maior parte das coisas
    que lhe diziam começava com:
  106. "Tem cuidado",
    "Olha por onde andas" ou "Não".
  107. Os meus amigos não era maus pais.
  108. Faziam apenas
    o que maioria dos pais fazem,
  109. que é advertir as filhas muito mais
    do que fazem com os filhos.
  110. Ironicamente, houve um estudo envolvendo,
    um varão de bombeiros, num recreio.

  111. Os investigadores observaram
    que as mães e os pais
  112. chamavam a atenção às filhas
    para o perigo do varão,
  113. e, se elas quisessem
    brincar na mesma no varão,
  114. um dos pais ia ajudá-la.
  115. E os rapazes?
  116. Eram encorajados a brincar
    no varão de bombeiro
  117. apesar dos receios que pudessem ter.
  118. Muitas vezes os pais davam-lhes orientações
    de como o podiam fazer sozinhos.
  119. Qual é a mensagem que passa tanto
    para os rapazes como para as raparigas?
  120. Que as raparigas são frágeis
    e precisam de ajuda,
  121. e que os rapazes podem e devem
    dominar tarefas difíceis sozinhos.
  122. Que as raparigas devem ser receosas
  123. e o rapazes corajosos.
  124. A ironia é que, nestas idades,

  125. rapazes e raparigas são
    muito parecidos fisicamente.
  126. Muitas vezes,
    as raparigas são mais fortes,
  127. e mais maduras, até à puberdade,
  128. No entanto, nós adultos agimos
  129. como se as raparigas
    fossem mais frágeis
  130. precisassem de ajuda
  131. e não consigam
    lidar com as coisas.
  132. Esta é a mensagem que absorvemos
    enquanto crianças,
  133. e é esta mensagem que fica
    impregnada em nós enquanto crescemos.
  134. Nós mulheres acreditamos nela,
    os homens acreditam nela,
  135. e sabem que mais?
  136. Quando nos tornamos pais
    passamos isso aos nossos filhos,
  137. e por aí fora.
  138. Agora já tinha a minha resposta.

  139. É por isso que se espera
    que as mulheres, mesmo as bombeiras,
  140. tenham medo.
  141. É por isso que as mulheres
    muitas vezes têm medo.
  142. Eu sei que alguns de vocês
    não acreditam quando digo isto,

  143. mas eu não sou contra o medo.
  144. Eu sei que é uma emoção importante
    e que existe para nos manter seguros.
  145. Mas o problema é quando
    o medo é a principal reação
  146. que ensinamos e incentivamos
    nas raparigas
  147. sempre que enfrentam algo
    fora da sua zona de conforto
  148. Eu fiz parapente
    durante muitos anos.

  149. (Aplausos)

  150. Um parapente é como
    um paraquedas com asas,

  151. e voa bastante bem,
  152. mas percebo que, para muitas pessoas,
    pareça apenas um lençol
  153. com cordéis agarrados.
  154. (Risos)

  155. Passei muito tempo
    em cumes de montanhas

  156. a insuflar este lençol,
  157. a correr e a voar.
  158. E sei o que estão a pensar.
  159. Tipo "Caroline, um pouco de medo
    faz sentido nessa situação".
  160. E têm razão, faz mesmo.
  161. Asseguro-vos, eu tive medo.
  162. Mas no topo daquela montanha,
  163. à espera que o vento estivesse certo,
  164. sentia muitas outras coisas também:
  165. euforia, confiança.
  166. Eu sabia que era um bom piloto.
  167. Sabia que as condições
    eram boas ou não estaria ali.
  168. Sabia que ia ser espetacular
    estar a 300 metros no ar.
  169. Por isso sim, o medo estava lá,
  170. mas eu olhava bem para ele,
  171. pensava na sua relevância
  172. e depois colocava-o onde ele pertencia,
  173. o que era, muitas vezes,
  174. atrás da minha euforia,
    da minha expetativa
  175. e da minha confiança.
  176. Por isso, eu não sou contra o medo.
  177. Sou apenas a favor da coragem.
  178. Não estou a dizer que as vossas filhas
    têm de ser bombeiras

  179. ou que devem fazer parapente,
  180. só estou a dizer que as estamos a educar
    para serem tímidas ou até indefesas,
  181. e isso começa quando
    as advertimos para os riscos físicos.
  182. O medo que aprendemos
    e as experiências que não vivemos
  183. ficam connosco quando
    nos tornamos adultas
  184. e transforma-se em todas aquelas coisas
    que enfrentamos e tentamos esconder:
  185. a nossa hesitação
    em falar abertamente,
  186. a nossa deferência
    para que gostem de nós
  187. a falta de confiança nas nossas decisões.
  188. Como nos tornamos destemidas?

  189. Aqui estão as boas notícias.
  190. Podemos aprender a coragem,
  191. e como qualquer
    coisa que se aprende,
  192. só precisa de ser praticada.
  193. Primeiro,
  194. temos de respirar fundo
  195. e incentivar as nossas filhas
  196. a fazer skate, a trepar às árvores
  197. e a subir àquele varão
    de bombeiro no recreio.
  198. Foi isso que a minha mãe fez.
  199. Ela não o sabia na altura,
  200. mas os investigadores
    têm um nome para isso.
  201. Chamam-lhe brincadeira de risco,
  202. e os estudos mostram
    que a brincadeira de risco
  203. é muito importante
    para todas as crianças,
  204. porque ensina a avaliar o perigo,
  205. ensina o que é uma recompensa diferida,
  206. ensina resiliência,
  207. ensina confiança.
  208. Por outras palavras,
  209. quando as crianças vão
    para a rua praticar a coragem,
  210. aprendem lições de vida
    muito importantes.
  211. Segundo, temos de deixar de advertir
    as raparigas por tudo e por nada.

  212. Tenham atenção
    da próxima vez que disserem:
  213. "Cuidado, vais-te magoar,"
  214. ou "Não faças isso, é perigoso."
  215. Lembrem-se que, muitas vezes,
    o que lhe estão a dizer
  216. é que ela não devia puxar por ela,
  217. que ela não é boa o suficiente,
  218. que deveria ter medo.
  219. Terceiro,

  220. Nós mulheres temos
    de praticar coragem também.
  221. Não podemos ensinar as nossas filhas
    se não aprendermos primeiro.
  222. E há outra coisa:
  223. o medo e a euforia
  224. são muito parecidos:
  225. as mãos a tremer,
    o batimento cardíaco acelerado,
  226. a tensão nervosa.
  227. Aposto que muitos de vocês
  228. da última vez que pensaram
    estar assustados,
  229. estavam sim a sentir euforia,
  230. e agora perderam
    uma oportunidade.
  231. Então pratiquem.
  232. E se as raparigas deviam estar lá fora
    a aprender a serem corajosas,
  233. percebo que os adultos não queiram andar
    de skate voador ou trepar às árvores,
  234. por isso, todos devíamos praticar
  235. em casa, no escritório
  236. e mesmo aqui a ganhar coragem
  237. para falar com alguém que admiramos.
  238. Por fim, quando a vossa filha,
    por exemplo,

  239. estiver na bicicleta, no topo da colina,
  240. e insistir que está demasiado
    assustada para descer,
  241. ajudem-na a ganhar coragem.
  242. A colina pode até ser demasiado alta,
  243. mas ela vai chegar a essa conclusão
    através da coragem e não do medo.
  244. Porque isto não é sobre
    a colina à sua frente.
  245. É sobre a vida à sua frente,
  246. e que ela tenha as ferramentas
  247. para lidar e avaliar
  248. todos os perigos dos quais
    não a podemos proteger,
  249. todos os desafios durante os quais
    não a vamos poder guiar,
  250. tudo aquilo que
    as nossas filhas aqui
  251. e em todo o mundo
  252. irão enfrentar no futuro.
  253. Já agora,

  254. o recorde mundial
    em rastejar está hoje...
  255. (Risos)

  256. ... nos 57 km.

  257. Gostaria muito de ver
    uma rapariga a bater o recorde.
  258. (Aplausos)