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← Para criar meninas corajosas, incentive a aventura.

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Showing Revision 13 created 05/17/2017 by Leonardo Silva.

  1. Quando criança, eu era obcecada pelo
    livro dos recordes mundiais, o Guinness,
  2. e eu queria muito ser
    uma recordista mundial.
  3. Só que havia um pequeno problema:
  4. eu não tinha talento nenhum.
  5. Decidi então me tornar
    recordista mundial em algo
  6. que não exigisse qualquer habilidade.
  7. Decidi me tornar recordista mundial
  8. em engatinhar.
  9. (Risos)
  10. Bom, o recorde mundial
    na época era de 20 quilômetros
  11. e, por alguma razão,
    me parecia perfeitamente possível.
  12. (Risos)
  13. Recrutei minha amiga Anne
  14. e juntas decidimos
    que nem precisaríamos treinar.
  15. (Risos)
  16. No dia em que tentamos o recorde,
  17. prendemos almofadas
    nos nossos bons e velhos jeans
  18. e partimos.
  19. De cara, já tivemos um problema:
  20. o jeans, em contato com a nossa pele,
  21. começou a causar irritação
  22. e logo nossos joelhos
    estavam sendo corroídos.
  23. Horas depois,
  24. começou a chover.
  25. (Risos)
  26. E então, a Anne desistiu.
  27. (Risos)
  28. Depois, escureceu.
  29. (Risos)
  30. A essa altura, meus joelhos
    já estavam sangrando pelo jeans
  31. e eu estava tendo alucinações
    por causa do frio, da dor e da monotonia.
  32. Para vocês terem uma ideia
    do meu sofrimento,
  33. a primeira volta na pista da escola
    levou dez minutos.
  34. A última levou quase 30.
  35. Após 12 horas engatinhando,
  36. eu parei.
  37. Já tinha feito 13,5 quilômetros.
  38. Faltaram 6,5 quilômetros
    para bater o recorde.
  39. Por muitos anos, achei que essa era
    uma história horrorosa de fracasso,
  40. mas hoje vejo de forma diferente,
  41. porque, ao tentar o recorde mundial,
  42. fiz três coisas:
  43. saí da minha zona de conforto,
  44. recorri à minha resiliência
  45. e comecei a confiar em mim mesma
  46. e em minhas próprias decisões.
  47. Não sabia na época, mas essas não são
    as características de fracasso,
  48. são as características de bravura.
  49. Bem, em 1989, aos 26 anos,
  50. entrei para o corpo de bombeiros
    de São Francisco.
  51. Eu era uma das 15 mulheres
    em uma instituição com 1,5 mil homens.
  52. (Aplausos)
  53. Como podem imaginar, quando cheguei lá,
  54. muitos duvidaram que poderíamos
    fazer o trabalho.
  55. E embora eu fosse uma remadora
    de 1,78 m de altura e 68 quilos,
  56. e alguém que poderia suportar 12 horas
    de dor excruciante no joelho,
  57. (Risos)
  58. sabia que ainda precisava provar
    minha força e preparo físico.
  59. Um dia, recebi um alerta de incêndio,
  60. e, quando meu grupo chegou ao local,
  61. havia fumaça preta
    saindo de um prédio em um beco.
  62. Eu estava com um cara grande chamado Skip,
  63. ele segurava o bocal da mangueira,
    e eu estava logo atrás.
  64. Era um tipo comum de incêndio.
  65. Tinha muita fumaça, estava quente,
  66. e, de repente,
  67. houve uma explosão.
  68. Skip e eu fomos jogados para trás,
  69. minha máscara caiu para o lado,
  70. e houve um momento de confusão.
  71. Então, me levantei,
  72. peguei o bocal da mangueira
  73. e fiz o que um bombeiro deveria fazer:
  74. fui em frente,
  75. liberei a água
  76. e enfrentei o fogo sozinha.
  77. A explosão foi causada
    por um aquecedor de água.
  78. Ninguém tinha se ferido,
    então, não foi grande coisa,
  79. mas, depois, Skip veio até mim e disse:
  80. "Bom trabalho, Caroline".
  81. E pela voz, parecia surpreso.
  82. (Risos)
  83. Eu estava confusa,
    não tinha sido difícil fisicamente,
  84. então, por que ele olhava
    para mim com espanto?
  85. E depois ficou claro:
  86. Skip, que a propósito
    é um cara muito legal
  87. e um excelente bombeiro,
  88. não só pensava que as mulheres
    não podiam ser fortes
  89. mas também que não podiam ser corajosas.
  90. E ele não era o único.
  91. Amigos, conhecidos e desconhecidos,
  92. homens e mulheres ao longo
    da minha carreira me perguntam sempre:
  93. "Caroline, todo esse fogo,
    todo esse perigo,
  94. você não tem medo?"
  95. Honestamente, nunca vi alguém
    perguntar isso a um bombeiro,
  96. e fiquei curiosa.
  97. Por que não se espera
    que mulheres sejam corajosas?
  98. Tive a resposta para isso
  99. quando um amigo se lamentou comigo
    que sua filha era muito medrosa,
  100. e então comecei a perceber
    que a filha dele estava com medo,
  101. mas mais do que isso,
    os pais estavam com medo.
  102. Quando ela saía, o que mais ouvia
    deles começava com:
  103. "Tenha cuidado",
    "Preste atenção" ou "Não".
  104. Meus amigos não eram pais ruins,
  105. estavam apenas fazendo
    o que a maioria faz,
  106. alertando a filha muito mais
    do que fariam com um filho.
  107. Houve um estudo sobre o cano de bombeiro
    do playground, ironicamente.
  108. Pesquisadores descobriram
    que, na infância,
  109. era bem provável uma menina ser advertida
    pelos pais sobre o risco do brinquedo,
  110. e, se ainda assim
    ela quisesse brincar nele,
  111. provavelmente um dos pais a ajudaria.
  112. Mas, e os meninos?
  113. Eles eram encorajados a brincar lá,
  114. apesar de toda a insegurança
    que pudessem ter.
  115. E, muitas vezes, os pais orientavam
    sobre como subir por conta própria.
  116. Então, qual mensagem
    isso passa para as crianças?
  117. Que as meninas são frágeis
    e necessitam mais de ajuda,
  118. e os meninos podem e devem realizar
    tarefas difíceis sozinhos.
  119. Ela afirma que as meninas devem ter medo,
  120. e os meninos devem ser corajosos.
  121. Mas a ironia é que, na infância,
  122. meninas e meninos são muito
    parecidos fisicamente.
  123. Geralmente, as meninas são mais fortes
    até chegarem à puberdade, e mais maduras.
  124. No entanto, os adultos agem
    como se elas fossem mais frágeis,
  125. necessitassem mais de ajuda
  126. e não pudessem lidar com tudo.
  127. Essa é a mensagem
    que absorvemos na infância,
  128. é a mensagem que fica
    à medida que crescemos.
  129. As mulheres acreditam nisso
    e os homens também, e adivinha?
  130. Quando nos tornamos pais,
    passamos essa mensagem aos filhos,
  131. e por aí vai.
  132. Então, pude responder aquela pergunta,
  133. por isso esperam que mulheres,
    mesmo as bombeiras,
  134. tivessem medo.
  135. É por isso que, geralmente,
    as mulheres vivem com medo.
  136. Sei que alguns não vão acreditar
    em mim quando eu disser isto,
  137. mas não tenho nada contra o medo,
  138. sei que é uma emoção importante
    e que está lá para nos manter seguros.
  139. Mas o problema é quando o medo
    é a reação primária
  140. que ensinamos e encorajamos
    as meninas a ter
  141. sempre que forem enfrentar algo
    fora da zona de conforto delas.
  142. Fui pilota de parapente por muitos anos.
  143. (Aplausos)
  144. A asa do parapente
    se parece com um paraquedas
  145. e ele voa muito bem,
  146. mas, para muitas pessoas, percebo
    que ele parece um lençol com amarras.
  147. (Risos)
  148. Passei muito tempo no topo
    de montanhas inflando este lençol,
  149. correndo e saltando.
  150. E eu sei no que estão pensando:
  151. "Caroline, um pouco de medo
    faria sentido aqui".
  152. (Risos)
  153. Vocês têm razão, ele faz.
  154. Admito, senti medo.
  155. Mas no topo daquela montanha,
    esperando o vento entrar do jeito certo,
  156. senti várias outras coisas também,
    como euforia e confiança.
  157. Eu sabia que era uma boa pilota
  158. e que as condições eram boas,
    ou eu não estaria lá.
  159. Eu sabia como me sentiria bem
    por estar no ar a mil pés de altura.
  160. Então, sim, o medo estava lá,
  161. mas eu quis aproveitar
    e olhar bem para ele,
  162. avaliar o quanto ele era relevante
  163. e depois colocá-lo onde ele pertencia,
  164. que era, na maioria das vezes,
    abaixo da minha euforia,
  165. minha expectativa e minha confiança.
  166. Então, eu não sou contra o medo,
  167. só sou a favor da coragem.
  168. Não estou dizendo que suas filhas
    devem ser bombeiras
  169. ou voar de parapentes,
  170. mas estamos criando as meninas
    para serem tímidas, até mesmo impotentes.
  171. E isso começa quando as alertamos
    sobre riscos físicos.
  172. O que aprendemos a temer
    e as experiências que não temos
  173. ficam conosco enquanto
    nos tornamos mulheres
  174. e se transformam naquilo
    que enfrentamos e tentamos esquecer:
  175. nossa hesitação ao nos expressar,
  176. nossa submissão para sermos apreciadas
  177. e nossa falta de confiança
    em nossas próprias decisões.
  178. Então, como nos tornamos corajosas?
  179. Bem, aqui está a boa notícia:
  180. podemos aprender a ter coragem,
  181. e assim como qualquer coisa
    que aprendemos, só precisamos praticar.
  182. Então, primeiro,
  183. temos que respirar fundo
  184. e incentivar as meninas
  185. a andar de esqueite, subir em árvores
  186. e brincar no cano
    de bombeiro do playground.
  187. Foi isso que minha mãe fez.
  188. Ela não sabia, mas os pesquisadores
    têm um nome para isso,
  189. eles chamam de "percepção de risco",
  190. e estudos mostram
    que certo risco ao brincar
  191. é muito importante para todas as crianças,
  192. porque ensina a avaliar o perigo,
  193. a adiar a gratificação,
  194. a ter resiliência e confiança.
  195. Em outras palavras,
  196. quando as crianças saem
    e praticam a coragem,
  197. elas aprendem lições
    valiosas sobre a vida.
  198. Em segundo lugar, temos que parar
    de alertar as meninas à toa.
  199. Então, na próxima vez que disserem
    "Cuidado, você vai se machucar!"
  200. ou "Não faça isso, é perigoso!",
  201. lembrem-se de que, muitas vezes,
    o que estão realmente dizendo a elas
  202. é que elas não devem se esforçar,
  203. que não são boas o suficiente,
  204. que devem ter medo.
  205. Em terceiro lugar,
  206. as mulheres precisam começar
    a praticar a coragem também.
  207. Só podemos ensinar às meninas
    o que nós mesmas praticamos.
  208. E mais uma coisa,
  209. medo e euforia
  210. causam reações muito parecidas:
  211. mãos trêmulas, frequência cardíaca
    aumentada e tensão nervosa.
  212. Eu aposto que na última vez que muitas
    de vocês pensaram estar morrendo de medo,
  213. na verdade pode ter sido euforia,
  214. e vocês perderam uma oportunidade.
  215. Então, pratiquem.
  216. Enquanto as meninas estão lá fora
    aprendendo a ser corajosas,
  217. vejo que os adultos não querem
    testar "hoverboards" ou subir em árvores,
  218. por isso todos devemos praticar,
  219. em casa, no trabalho,
  220. e mesmo aqui, tomando coragem para falar
    com alguém que vocês admiram muito.
  221. E por último, quando a filha
    de vocês estiver, digamos,
  222. andando de bicicleta
    no topo de uma ladeira íngreme,
  223. mas ela insistir que está
    com muito medo de descer,
  224. ajudem-a a encontrar a coragem.
  225. No final das contas, talvez aquela ladeira
    seja mesmo muito íngreme,
  226. mas ela chegará a essa conclusão
    através da coragem, não do medo.
  227. Porque o importante não é
    a ladeira íngreme na frente dela,
  228. é a vida que ela tem pela frente
  229. e as ferramentas que ela
    precisa ter para avaliar e encarar
  230. todos os perigos dos quais
    não podemos protegê-la,
  231. todos os desafios com os quais
    não poderemos ajudá-la,
  232. tudo o que ela e outras meninas
    ao redor do mundo
  233. enfrentarão no futuro.
  234. A propósito,
  235. há um novo recorde mundial em engatinhar.
  236. (Risos)
  237. É de 57 quilômetros.
  238. E eu gostaria muito
    de ver uma menina quebrá-lo.
  239. (Aplausos)