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← Vamos digitalizar todo o planeta com o LiDAR

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Showing Revision 12 created 09/29/2020 by Margarida Ferreira.

  1. O lugar mais impressionante que já visitei
  2. foi a floresta tropical
    de Mosquitia, nas Honduras.
  3. Já fiz investigações arqueológicas
    por todo o mundo,
  4. e pensava já saber o que esperar
    ao aventurar-me na selva,
  5. mas estava enganado.
  6. Pela primeira vez na vida, aliás.
  7. (Risos)

  8. Para começar, é gélido.

  9. São 30 graus, mas ficamos encharcados
    por causa da humidade,
  10. e as copas das árvores são tão espessas
    que a luz do sol nunca chega ao solo.
  11. Não conseguimos estar secos.
  12. Percebi logo que não tinha
    levado roupas suficientes.
  13. Na primeira noite, sentia coisas
    a mexer-se por baixo da minha rede,
  14. criaturas desconhecidas a arrastar-se,
    a mordiscar o tecido fino de "nylon".
  15. Era quase impossível dormir
    com todo aquele barulho.
  16. A selva é barulhenta.
    Incrivelmente barulhenta.
  17. É como estar no centro
    de uma cidade frenética.
  18. À medida que a noite passava,

  19. ia ficando cada vez mais frustrado
    com a dificuldade em dormir,

  20. sabendo que teria
    um longo dia pela frente.
  21. Quando finalmente acordei ao amanhecer,
  22. a sensação das coisas invisíveis
    era demasiado real.
  23. Havia marcas de cascos, marcas de patas,
  24. rastos de cobras por toda a parte.
  25. O que ainda é mais chocante,
  26. é que tínhamos visto
    aqueles mesmos animais à luz do dia,
  27. e eles não tinham nenhum medo de nós.
  28. Nunca tinham visto pessoas,
  29. não tinham razão para ter medo.
  30. Quando me dirigia à cidade desconhecida
    — a razão para eu ali estar —

  31. reparei que aquele era o único lugar
    em que já estivera
  32. onde não vira
    nem um só pedaço de plástico.
  33. Tal era o seu isolamento.
  34. Talvez seja surpreendente
  35. que ainda haja locais no planeta
    que os seres humanos não tocaram,
  36. mas é verdade.
  37. Ainda há centenas de locais
    que as pessoas não pisam há séculos
  38. ou talvez nunca tenham pisado.
  39. É uma época incrível
    para um arqueólogo.

  40. Temos ferramentas e tecnologia
  41. suficientes para compreender
    o planeta como nunca.
  42. Apesar disso, estamos a ficar sem tempo.
  43. A crise climática ameaça destruir
    o nosso património ecológico e cultural.
  44. Sinto uma urgência no meu trabalho
  45. que não sentia há 20 anos.
  46. Como podemos documentar tudo isto
    antes que seja tarde demais?
  47. A minha formação
    é de arqueologia tradicional

  48. que usa as mesmas metodologias
    dos anos 50.
  49. Tudo isso mudou em julho de 2009,
  50. em Michoacán, no México.
  51. Eu estava a estudar o antigo
    Império Purépecha,
  52. contemporâneo do Império Azteca,
  53. menos conhecido,
    mas igualmente importante.
  54. Duas semanas antes, a minha equipa
  55. tinha documentado
    uma povoação desconhecida,
  56. por isso estávamos
    a cartografar penosamente
  57. fundações de edifícios, manualmente
  58. — eram às centenas.
  59. O protocolo arqueológico de base
    é encontrar os limites da povoação

  60. para saber com o que é
    que estamos a lidar.
  61. Foi o que os meus alunos
    me convenceram a fazer.
  62. Assim, agarrei numas barras de cereais,
    água, um "walkie talkie"
  63. e parti sozinho, a pé,
  64. esperando encontrar «o limite»
    em poucos minutos.
  65. Passaram-se minutos
  66. Passou-se uma hora.
  67. Finalmente, cheguei
    ao outro lado do «malpaís».
  68. Oh! Havia fundações de antigos edifícios
    por todo o lado.
  69. Seria uma cidade?
  70. Oh, bolas!
  71. (Risos)

  72. É uma cidade!

  73. Acontece que essa povoação
    aparentemente pequena

  74. era uma antiga megalópole urbana,
  75. com 26 quilómetros quadrados de área,
  76. com tantas fundações de edificações
    como em Manhattan nos dias de hoje.
  77. Era uma povoação arqueológica tão grande
  78. que eu levaria décadas
    a estudar exaustivamente,
  79. todo o resto da minha carreira.
  80. Mas não era assim que queria
    passar o resto da minha carreira,
  81. (Risos)

  82. a suar, exausto,

  83. a apaziguar estudantes cheios de «stress»,
  84. (Risos)

  85. a lançar pedaços de sanduíches
    de manteiga de amendoim e geleia

  86. aos cães selvagens,
  87. o que, aliás, é inútil
  88. porque os cães mexicanos
    detestam manteiga de amendoim.
  89. (Risos)

  90. Só de pensar nisso
    vinham-me as lágrimas aos olhos.

  91. Então, voltei para casa no Colorado,

  92. e bati à porta de um colega.
  93. «Tem de haver uma forma melhor, pá.»
  94. Ele perguntou se eu já ouvira falar
  95. da nova tecnologia LiDAR.
  96. Fiz uma pesquisa.
  97. O LiDAR emite uma rede densa
    de pulsos de raios «laser»
  98. de um avião para à superfície do solo.
  99. O resultado é uma digitalização
    de alta resolução
  100. da superfície terrestre
    e de tudo o que se encontra sobre ela.
  101. Não é uma imagem,
  102. é um conjunto de pontos,
    densos e tridimensionais.
  103. Tínhamos dinheiro suficiente
    para a digitalização,
  104. por isso, decidimos fazê-la.
  105. A empresa foi ao México,
    fizeram o voo com o LiDAR
  106. e enviaram-nos os dados obtidos.
  107. Durante os meses seguintes,
    aprendi a fazer desmatação digital,

  108. eliminando árvores, arbustos
    e restante vegetação
  109. para descobrir a antiga
    paisagem cultural por baixo.
  110. Quando vi a primeira visualização,

  111. comecei a chorar,
  112. o que pode ser
    um grande choque para vocês
  113. dado parecer muito homem.
  114. (Risos)

  115. Em apenas 45 minutos de voo,

  116. o LiDAR recolheu
    a mesma quantidade de dados
  117. que eu demoraria décadas
    a recolher manualmente:
  118. as fundações de todas as casas,
    edifícios, ruas e pirâmides,
  119. com um pormenor fantástico,
  120. representando a vida
    de milhares de pessoas
  121. que tinham vivido, amado
    e morrido naquele espaço.
  122. Além disso, a qualidade das informações
  123. não tinha comparação com a tradicional
    a investigação arqueológica.
  124. Era muito, mas muito melhor.
  125. Percebi que esta tecnologia ia mudar
    todo o trabalho de terreno da arqueologia
  126. nos anos vindouros...
  127. e mudou mesmo.
  128. O nosso trabalho chamou a atenção
    de um grupo de cineastas

  129. que estavam à procura duma lendária
    cidade perdida nas Honduras.
  130. Não cumpriram o seu objetivo,
  131. mas, em vez disso, documentaram
    uma cultura desconhecida,
  132. sepultada no meio
    de uma floresta virgem tropical
  133. usando o LiDAR.
  134. Concordei em ajudá-los
    a interpretar os dados,
  135. razão por que me encontrei metido
    de novo na selva de Mosquitia,
  136. isenta de plásticos e cheia
    de animais curiosos.
  137. O nosso objetivo era verificar
    se as características arqueológicas

  138. que tínhamos identificado no LiDAR
  139. existiam de facto no terreno,
  140. e lá estavam.
  141. Onze meses depois, voltei
    com uma excelente equipa de arqueólogos
  142. patrocinada pela
    National Geographic Society
  143. e pelo governo hondurenho.
  144. Num mês, escavámos mais de 400 objetos
  145. daquilo a que agora chamamos
    a Cidade do Jaguar.
  146. Sentíamos a responsabilidade moral e ética
    de proteger este sítio tal como estava,

  147. mas, pouco tempo depois
    de lá estarmos,
  148. as coisas mudaram inevitavelmente.
  149. Desaparecera a estreita pista de cascalho
  150. onde o helicóptero tinha aterrado
    pela primeira vez.
  151. A vegetação tinha sido limpa
    e as árvores cortadas
  152. para criar uma zona de aterragem maior
    para vários helicópteros ao mesmo tempo.
  153. Sem a vegetação,
  154. logo após uma única estação das chuvas,
  155. os antigos canais que tínhamos
    visto na digitalização do LiDAR
  156. estavam danificados ou destruídos.
  157. O Éden que eu descrevera
    em breve tinha uma grande clareira,
  158. um acampamento central, iluminação,
  159. e uma capela ao ar livre.
  160. Por outras palavras, apesar
    dos nossos melhores esforços
  161. para proteger o sítio tal como ele era,
  162. as coisas mudaram.
  163. A digitalização inicial do LiDAR
    desta Cidade do Jaguar
  164. é o único registo deste local
    tal como existia ainda há poucos anos.
  165. Falando de modo geral,

  166. isto é um problema para os arqueólogos.
  167. Não podemos estudar uma área
    sem a alterar, seja como for
  168. e, de qualquer modo,
    o planeta está a mudar.
  169. Os sítios arqueológicos são destruídos.
  170. Perde-se a História.
  171. Ainda este ano, observámos horrorizados

  172. a Catedral de Notre-Dame
    a desaparecer em chamas.
  173. A agulha icónica caiu
    e pouco resta do teto.
  174. Milagrosamente, o historiador de arte
    Andrew Tallon e os seus colegas
  175. tinham digitalizado a catedral
    em 2010, usando o LiDAR.
  176. Na altura, o objetivo era perceber
    como tinha sido construído o edifício.
  177. Agora, essa digitalização é o registo
    mais completo da catedral
  178. e será um elemento valiosíssimo
    na sua reconstrução.
  179. Não previram o incêndio
  180. nem previram como seria utilizada
    a digitalização,
  181. mas ainda bem que a fizeram.
  182. Temos a convicção de que o nosso
    património cultural e ecológico

  183. durará para sempre.
  184. Não é verdade.
  185. Organizações como o SCI-Arc
    e a Virtual Wonders
  186. estão a fazer um trabalho extraordinário
  187. de registo dos monumentos
    históricos mundiais,
  188. mas não existe nada semelhante
    para as paisagens da Terra.
  189. Já perdemos 50% das florestas tropicais.
  190. Perdemos sete milhões de hectares
    de florestas, por ano.
  191. E a subida do nível do mar tornará
    totalmente irreconhecíveis
  192. cidades, países e continentes.
  193. Se não tivermos um registo destes locais,
  194. ninguém, no futuro,
    saberá que eles existiram.
  195. Se a Terra é o Titanic,
    já embatemos no icebergue,
  196. estamos todos no convés
    e a orquestra está a tocar.
  197. A crise climática ameaça destruir
    o nosso património cultural e ecológico
  198. em poucas décadas.
  199. Mas ficar de braços cruzados
    sem fazer nada não é opção.
  200. Não devemos salvar tudo o que pudermos
    nos barcos salva-vidas?
  201. (Aplausos)

  202. Olhando para as minhas digitalizações
    das Honduras e do México,

  203. torna-se claro que precisamos
    de digitalizar, sem parar,
  204. tudo o que seja possível,
  205. enquanto pudermos.
  206. Foi isso que inspirou o Earth Archive,
  207. um esforço científico sem precedentes,
  208. a digitalizar todo o planeta
    com o LiDAR,
  209. começando pelas áreas mais ameaçadas.
  210. São três os objetivos.

  211. Número um: criar um registo de referência
    da Terra, tal como existe hoje
  212. para mitigar de forma mais eficaz
    a crise climática.
  213. Para medir as alterações
    precisamos de dois conjuntos de dados:
  214. um antes e um depois.
  215. Neste momento, não temos um conjunto
    de dados de alta resolução para o antes
  216. para a maior parte do planeta,
  217. por isso, não podemos medir as alterações
  218. e claro, não podemos avaliar
    qual dos nossos esforços atuais
  219. de combate à crise climática
  220. tem o impacto mais positivo.
  221. Número dois: criar um planeta virtual

  222. para que os cientistas
    possam estudar a nossa paisagem atual.
  223. Os arqueólogos como eu podem
    procurar povoações desconhecidas.
  224. Os ecologistas podem estudar
    a dimensão das árvores,
  225. a composição e a idade das florestas.
  226. Os geólogos podem estudar a hidrologia,
  227. as falhas, as perturbações.
  228. As possibilidades são infinitas.
  229. Número três: preservar
    um registo do planeta

  230. para que os netos dos nossos netos
  231. possam reconstruir e estudar
    o património cultural perdido, no futuro.
  232. À medida que a ciência
    e a tecnologia progridem,
  233. eles poderão aplicar novas ferramentas,
    novos algoritmos,
  234. até a IA na digitalização
    LiDAR feita hoje,
  235. e fazer perguntas que nós
    não conseguimos formular atualmente.
  236. Tal como em Notre-Dame,

  237. não sabemos como serão
    usados estes registos.
  238. Mas sabemos que serão
    extremamente importantes.
  239. O Earth Archive é o melhor presente
    para as futuras gerações,
  240. porque, verdade seja dita,
  241. não viverei o suficiente
    para ver o seu pleno impacto,
  242. e vocês também não.
  243. É exatamente por isso
    que vale a pena fazê-lo.
  244. O Earth Archive é uma aposta
    no futuro da Humanidade.
  245. É uma aposta de que, todos juntos,
    coletivamente,
  246. enquanto pessoas e enquanto cientistas,
  247. enfrentaremos a crise climática
  248. e optaremos por fazer o que está certo,
  249. não apenas para nós, hoje,
  250. mas em homenagem a todos
    os que vieram antes de nós
  251. e em prol das gerações futuras
  252. a quem transmitimos o nosso legado.
  253. Obrigado.

  254. (Aplausos)