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← Vamos escanear todo o planeta com o LiDAR

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Showing Revision 80 created 08/15/2020 by Maricene Crus.

  1. O lugar mais incrível em que já estive é a
    Floresta Tropical de Mosquitia, Honduras.
  2. Fiz pesquisas de campo
    arqueológicas no mundo todo,
  3. então pensei que sabia o que esperar
    me aventurando na selva,
  4. mas eu estava errado.
  5. Pela primeira vez na vida,
    devo acrescentar.
  6. (Risos)

  7. Em primeiro lugar, é congelante.

  8. Faz 32 ºC, mas ficamos
    encharcados com a umidade,
  9. e a copa das árvores é tão densa
    que a luz do sol nunca chega à superfície.
  10. É impossível ficar seco.
  11. Imediatamente, vi que não havia
    levado roupa suficiente.
  12. Na primeira noite, fiquei sentindo
    coisas se movendo debaixo da rede,
  13. criaturas desconhecidas roçando
    e cutucando o fino tecido de náilon.
  14. Mal conseguia dormir com todo o barulho.
  15. A selva é incrivelmente barulhenta.
  16. É como estar no centro
    de uma cidade movimentada.
  17. Conforme a noite avançava,

  18. ficava cada vez mais frustrado
    com a minha insônia,
  19. sabendo que teria um dia
    muito ocupado pela frente.
  20. Quando finalmente
    me levantei de madrugada,
  21. meu senso de coisas invisíveis
    estava muito real.
  22. Havia diferentes tipos de pegadas,
    rastros de cobra em todos os lugares.
  23. E o que é ainda mais chocante,
  24. vimos esses mesmos animais à luz do dia
    e eles não tinham nenhum medo de nós.
  25. Não tinham experiência com pessoas.
  26. Eles não tinham motivo para ter medo.
  27. Enquanto caminhava em direção à cidade
    não documentada, minha razão de estar lá,

  28. percebi que este era
    o único lugar em que já estive
  29. onde não vi um único
    fragmento de plástico,
  30. de tão remoto que era.
  31. Talvez seja surpreendente descobrir
  32. que ainda há lugares intocados
    pelo ser humano em nosso planeta,
  33. mas é verdade.
  34. Ainda existem centenas de lugares
    onde as pessoas não pisam há séculos
  35. ou talvez nunca pisaram.
  36. É uma época incrível para ser arqueólogo.

  37. Temos as ferramentas e a tecnologia
  38. para entender o planeta como nunca antes.
  39. Mesmo assim, nosso tempo está acabando.
  40. A crise climática ameaça destruir
    nosso patrimônio ecológico e cultural.
  41. Sinto uma urgência no meu trabalho
    que eu não sentia 20 anos atrás.
  42. Como podemos documentar tudo
    antes que seja tarde demais?
  43. Fui treinado como arqueólogo tradicional

  44. usando metodologias
    que existem desde os anos 1950.
  45. Tudo mudou em julho de 2009
  46. em Michoacán, México.
  47. Eu estudava o antigo Império Purépecha,
  48. que é menos conhecido, mas igualmente
    importante e contemporâneo
  49. do Império Asteca.
  50. Duas semanas antes, minha equipe
    documentou um assentamento desconhecido.
  51. Mapeávamos meticulosamente à mão
    centenas de fundações de construções.
  52. O protocolo arqueológico básico
    é encontrar a borda de um assentamento

  53. para saber com o que está lidando,
  54. e meus alunos de pós-graduação
    me convenceram a fazer isso.
  55. Peguei algumas barras energéticas,
    um pouco de água, um walkie-talkie
  56. e parti sozinho a pé,
  57. esperando encontrar "a borda"
    em apenas alguns minutos.
  58. Alguns minutos se passaram.
  59. E então uma hora.
  60. Finalmente, cheguei ao outro lado
    do terreno erodido.
  61. Havia fundações de construções
    antigas em toda a extensão.
  62. É uma cidade?
  63. Droga.
  64. (Risos)

  65. É uma cidade!

  66. Este assentamento aparentemente pequeno

  67. era de fato uma antiga megalópole urbana,
  68. 26 quilômetros quadrados de extensão,
  69. com tantas fundações de construções
    quanto a Manhattan moderna,
  70. um assentamento arqueológico tão grande
  71. que levaria décadas para fazer
    um levantamento completo,
  72. o resto da minha carreira inteira,
  73. exatamente como eu não queria passá-lo:
  74. (Risos)

  75. suando, exausto,

  76. acalmando estudantes estressados;
  77. (Risos)

  78. jogando sobras de sanduíches
    de pasta de amendoim e geleia

  79. para cães ferozes, o que é inútil, aliás,
  80. porque os cães mexicanos realmente
    não gostam de pasta de amendoim.
  81. (Risos)

  82. Só de pensar nisso já me sentia frustrado.

  83. Então voltei para casa no Colorado
    e apareci na porta de um colega:

  84. "Cara, deve haver uma maneira melhor".
  85. Ele me falou dessa nova
    tecnologia chamada LiDAR,
  86. "Light Detection And Ranging".
  87. Eu pesquisei.
  88. A LiDAR envolve disparar
    uma grade densa de pulsos de laser
  89. de um avião à superfície do solo.
  90. Acaba sendo uma digitalização
    de alta resolução
  91. da superfície da Terra e tudo que há nela.
  92. Não é uma imagem,
  93. mas, em vez disso, é um gráfico
    denso e tridimensional de pontos.
  94. Tínhamos dinheiro suficiente na varredura,
  95. então fizemos exatamente isso.
  96. A empresa foi para o México,
  97. eles pilotaram o LiDAR
  98. e devolveram os dados.
  99. Nos meses seguintes, aprendi
    a praticar o desmatamento digital,

  100. filtrando árvores, arbustos
    e outras vegetações
  101. para revelar a paisagem
    cultural antiga abaixo.
  102. Quando observei
    a minha primeira visualização,

  103. comecei a chorar,
  104. eu sei que é um grande choque para vocês,
    pois devo parecer muito viril.
  105. (Risos)

  106. Em apenas 45 minutos de voo,

  107. o LiDAR colheu a mesma quantidade de dados
    que teria levado décadas à mão:
  108. cada fundação de casa,
    construção, estrada e pirâmide,
  109. detalhes incríveis,
  110. representando a vida
    de milhares de pessoas
  111. que viveram, amaram
    e morreram nesses espaços.
  112. E mais, a qualidade dos dados
  113. não era comparável
    à pesquisa arqueológica tradicional.
  114. Era muito melhor.
  115. Eu sabia que essa tecnologia mudaria
    todo o campo da arqueologia
  116. nos anos seguintes,
  117. e assim foi.
  118. Nosso trabalho chamou a atenção
    de um grupo de cineastas

  119. que procurava uma lendária
    cidade perdida em Honduras.
  120. Eles falharam em sua busca,
  121. mas, em vez disso, documentaram
    uma cultura desconhecida,
  122. agora enterrada sob
    uma floresta tropical intocada,
  123. usando o LiDAR.
  124. Concordei em ajudar
    a interpretar os dados,
  125. e foi isso que me levou
    às profundezas da selva Mosquitia:
  126. uma floresta sem plástico
    e cheia de animais curiosos.
  127. Nosso objetivo era verificar
    se as características arqueológicas

  128. que identificamos em nosso LiDAR
  129. estavam realmente lá no terreno,
  130. e elas estavam.
  131. Voltei com uma excelente equipe
    de arqueólogos 11 meses depois,
  132. patrocinada pela National
    Geographic Society
  133. e o governo hondurenho.
  134. Em um mês, escavamos mais de 400 objetos
  135. do que agora chamamos
    de "City of the Jaguar".
  136. Sentimos uma responsabilidade moral e
    ética de proteger este local como ele era,

  137. mas no pouco tempo em que estivemos lá,
  138. as coisas mudaram inevitavelmente.
  139. O trecho de cascalho onde pousamos o
    helicóptero na primeira vez havia sumido.
  140. O mato e as árvores foram removidos
  141. para criar uma grande zona de pouso
    para vários helicópteros ao mesmo tempo.
  142. Sem isso,
  143. depois de apenas uma estação chuvosa,
  144. os canais antigos que vimos
    em nossa varredura LiDAR
  145. foram danificados ou destruídos.
  146. E o Éden que descrevi
    logo tinha uma grande clareira,
  147. acampamento central,
  148. luzes e uma capela ao ar livre.
  149. Em outras palavras, apesar dos melhores
    esforços para proteger o local como era,
  150. as coisas mudaram.
  151. Nossa varredura LiDAR inicial
    desta City of the Jaguar
  152. é o único registro deste lugar
    como existia há apenas alguns anos.
  153. E falando de maneira geral,

  154. este é um problema para os arqueólogos.
  155. Não podemos estudar uma área
    sem alterá-la de alguma forma,
  156. e independentemente disso,
    a Terra está mudando.
  157. Sítios arqueológicos são destruídos.
  158. A História é perdida.
  159. Em 2019, assistimos com horror

  160. a Catedral de Notre Dame pegar fogo.
  161. A icônica torre desabou
  162. e o telhado foi quase todo destruído.
  163. Milagrosamente, o historiador
    de arte Andrew Tallon e colegas
  164. digitalizaram a catedral
    em 2010 usando o LiDAR.
  165. Na época, o objetivo era entender
    como o edifício foi construído.
  166. Agora, a digitalização LiDAR deles
    é o registro mais abrangente da catedral
  167. e será inestimável na reconstrução.
  168. Eles não poderiam ter previsto o incêndio
  169. ou como a varredura seria usada,
  170. mas temos sorte de tê-la.
  171. Achamos que nosso patrimônio
    cultural e ecológico

  172. estará por aí para sempre.
  173. Não vai.
  174. Organizações como SCI-Arc
    e Virtual Wonders
  175. estão fazendo um trabalho incrível
  176. para registrar os monumentos
    históricos do mundo,
  177. mas nada semelhante existe
    para as paisagens da Terra.
  178. Perdemos 50% das florestas tropicais.
  179. Perdemos 18 milhões de acres
    de floresta todos os anos.
  180. E o aumento do nível do mar tornará
    cidades, países e continentes
  181. completamente irreconhecíveis.
  182. A menos que tenhamos
    um registro desses lugares,
  183. ninguém no futuro saberá que existiram.
  184. Se a Terra é o Titanic,
  185. nós já batemos no iceberg,
  186. todo mundo está no convés
  187. e a orquestra está tocando.
  188. A crise climática ameaça destruir
    nosso patrimônio cultural e ecológico
  189. dentro de décadas.
  190. Mas cruzarmos os braços
    e não fazermos nada não é uma opção.
  191. Não deveríamos salvar tudo
    o que pudermos nos botes salva-vidas?
  192. (Aplausos)

  193. Observando minhas imagens
    de Honduras e do México,

  194. é claro que precisamos escanear muito,
  195. agora, tanto quanto possível,
  196. enquanto ainda podemos.
  197. Isso é o que inspirou o "Earth Archive",
  198. um esforço científico sem precedentes
  199. para escanear com o LiDAR todo o planeta,
  200. começando pelas áreas mais ameaçadas.
  201. O propósito dele é triplo.

  202. Número um: criar um registro básico
    da Terra como ela existe hoje
  203. para mitigar de forma
    mais eficaz a crise climática.
  204. Pra medir a mudança,
    precisamos de dois conjuntos de dados:
  205. um anterior e um posterior.
  206. No momento, não temos um conjunto
    de dados de alta resolução anterior
  207. para grande parte do planeta,
  208. então não podemos medir a mudança,
  209. e não podemos avaliar
    quais dos nossos esforços atuais
  210. para combater a crise climática
  211. estão causando um impacto positivo.
  212. Número dois: criar um planeta virtual

  213. para que muitos cientistas
    possam estudar nossa Terra hoje.
  214. Arqueólogos como eu podem procurar
    assentamentos não documentados.
  215. Ecologistas podem estudar
    o tamanho das árvores,
  216. a composição e idade da floresta.
  217. Geólogos podem estudar hidrologia,
  218. falhas, interferências.
  219. As possibilidades são infinitas.
  220. Número três: preservar
    um registro do planeta

  221. para os netos de nossos netos,
  222. para que possam reconstruir e estudar
    no futuro o patrimônio cultural perdido.
  223. Conforme a ciência e a tecnologia avançam,
  224. aplicam-se novas ferramentas, algoritmos,
  225. até mesmo inteligência artificial
    para varreduras LiDAR feitas hoje,
  226. e perguntas que não podemos
    conceber atualmente.
  227. Como o que aconteceu na Notre Dame,

  228. não podemos imaginar
    como esses registros serão usados.
  229. Mas sabemos que eles serão
    extremamente importantes.
  230. O Earth Archive é o presente definitivo
    para as gerações futuras,
  231. porque, verdade seja dita,
  232. não viverei o suficiente
    pra ver seu impacto total,
  233. e nem vocês.
  234. É exatamente por isso
    que vale a pena fazer.
  235. O Earth Archive é uma aposta
    no futuro da humanidade.
  236. É uma aposta que juntos,
  237. coletivamente,
  238. como pessoas e cientistas,
  239. enfrentaremos a crise climática
  240. e escolheremos fazer a coisa certa.
  241. Não só para nós hoje,
  242. mas para honrar aqueles
    que vieram antes de nós
  243. e passar às gerações futuras
  244. que continuarão nosso legado.
  245. Obrigado.

  246. (Aplausos)