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← Como estou descobrindo os segredos de textos antigos

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Showing Revision 9 created 04/12/2016 by Leonardo Silva.

  1. No dia 26 de janeiro de 2013,
  2. um grupo de militantes da al-Qaeda
    entrou na cidade antiga de Timbuktu,
  3. no extremo sul do deserto do Saara.
  4. Lá, eles incendiaram uma biblioteca
    medieval de 30 mil manuscritos
  5. em árabe e vários idiomas africanos,
  6. com assuntos variados de astronomia
    a geografia, de história a medicina,
  7. incluindo um livro que registra
  8. talvez o primeiro tratamento
    de disfunção eréctil masculina.
  9. Desconhecido no Ocidente,
  10. esse era o conhecimento coletivo
    de um continente inteiro,
  11. a voz da África quando consideravam
    que a África não tinha qualquer voz.
  12. O prefeito de Bamako,
    que testemunhou o acontecimento,
  13. chamou a queima dos manuscritos
  14. de "um crime contra
    o patrimônio cultural mundial".
  15. E ele tinha razão...
  16. Ou teria tido, se não fosse pelo fato
    de que ele também estava mentindo.
  17. De fato, logo antes,

  18. estudiosos africanos haviam coletado
    uma seleção aleatória de livros antigos
  19. e os deixaram lá
    para os terroristas queimarem.
  20. Hoje, a coleção está escondida em Bamako,
  21. capital de Mali,
  22. apodrecendo na alta umidade.
  23. O que foi salvo num estratagema
  24. está novamente em risco,
  25. desta vez pelo clima.
  26. Mas a África e os longínquos
    cantos do planeta

  27. não são os únicos lugares,
    ou mesmo os principais,
  28. onde manuscritos que poderiam
    mudar a história da cultura mundial
  29. estão em risco.
  30. Há vários anos, eu realizei uma pesquisa
    de bibliotecas europeias de pesquisa
  31. e descobri que, no mínimo,
  32. há 60 mil manuscritos
  33. de antes do ano 1500
  34. que são ilegíveis por causa
    de danos pela água,
  35. descoloração, bolor e agentes químicos.
  36. O número verdadeiro
    é provavelmente o dobro,
  37. e isso sem sequer contar
  38. manuscritos da Renascença e modernos
  39. e itens de patrimônio cultural como mapas.
  40. E se houvesse uma tecnologia

  41. que pudesse recuperar esses trabalhos
    perdidos e desconhecidos?
  42. Imagine, ao redor do mundo, como uma
    coleção preciosa de centenas de milhares
  43. de textos anteriormente desconhecidos
  44. poderia transformar radicalmente
    nosso conhecimento do passado.
  45. Imagine os clássicos desconhecidos
    que poderíamos descobrir
  46. e que poderiam reescrever os cânones
    da literatura, da história,
  47. da filosofia, da música,
  48. ou, ouso provocar, que poderiam
    reescrever nossas identidades culturais,
  49. construir mais pontes
    entre pessoas e culturas.
  50. Essas perguntas me transformaram
  51. de um acadêmico medieval,
    leitor de textos,
  52. em um cientista de textos.
  53. A palavra "leitor" não era suficiente.

  54. Para mim, evoca uma imagem de passividade,
  55. de alguém sentado, ocioso, numa poltrona,
  56. esperando que o conhecimento
    chegue até ele,
  57. embrulhado para presente.
  58. Muito melhor é participar do passado,
  59. ser um aventureiro
    em lugares desconhecidos,
  60. procurando um texto escondido.
  61. Enquanto acadêmico, eu era um mero leitor.
  62. Lia e ensinava os mesmos clássicos
  63. que as pessoas vinham lendo
    e ensinando há centenas de anos:
  64. Virgílio, Ovídio, Chaucer, Petrarca.
  65. Com cada artigo científico que publicava,
  66. contribuía para o conhecimento humano,
    com cada vez menos sacadas brilhantes.
  67. O que eu queria ser
  68. era um arqueólogo do passado,
  69. um descobridor de literaturas,
  70. o Indiana Jones sem o chicote.
  71. Ou, melhor, com o chicote.
  72. (Risos)

  73. Não queria isso só para mim,
    queria para meus alunos também.
  74. Então, seis anos atrás,
    mudei minha carreira de direção.

  75. Na época, estava trabalhando
    em "O xadrez do amor",
  76. o último longo poema
    europeu da Idade Média
  77. a ser editado.
  78. Não foi editado porque
    só existia um manuscrito
  79. o qual fora tão danificado
    no bombardeio de Dresden,
  80. durante a Segunda Grande Guerra,
  81. que gerações de estudiosos
    o consideraram perdido.
  82. Por cinco anos, eu trabalhei
    com uma lâmpada ultravioleta
  83. tentando recuperar traços da escrita
  84. e tinha ido tão longe quanto
    a tecnologia da época
  85. podia me levar.
  86. Fiz o que muita gente faz.

  87. Fui à internet
  88. e aprendi
  89. sobre como imagens multiespectrais
    foram usadas para recuperar dois tratados
  90. do famoso matemático grego Arquimedes
  91. em um palimpsesto do século 13.
  92. Palimpsesto é um manuscrito
    que foi apagado e reescrito.
  93. Então, de repente,

  94. decidi escrever para o principal
    cientista dessas imagens
  95. no projeto do palimpsesto de Arquimedes,
  96. o professor Roger Easton,
  97. com um plano e um apelo.
  98. Para minha surpresa, ele respondeu.
  99. Com sua ajuda, pude ganhar
    um prêmio do governo norte-americano
  100. para construir um laboratório portátil
    de imagens multiespectrais.
  101. Com esse laboratório, transformei
    uma bagunça chamuscada e desgastada
  102. em um clássico medieval.
  103. Como funcionam
    as imagens multiespectrais?

  104. A ideia por trás
    das imagens multiespectrais
  105. é algo que qualquer um que conheça
    óculos noturnos com infravermelho
  106. poderá entender imediatamente:
  107. o que podemos ver
    no espectro de luz visível
  108. é só uma pequena fração do que está lá.
  109. O mesmo se aplica à escrita invisível.
  110. Nosso sistema usa
    12 comprimentos de onda de luz
  111. entre ultravioleta e infravermelho.
  112. Os manuscritos são
    expostos a eles, vindos de cima,
  113. de um conjunto de luzes de LED,
  114. e outra fonte de luz multiespectral
  115. que passa por cada folha do manuscrito.
  116. Até 35 imagens por sequência
    por página são registradas assim,
  117. usando uma câmera digital poderosa
    e equipada com lentes
  118. feitas de quartzo.
  119. Há cerca de cinco dessas no mundo.
  120. Quando capturamos essas imagens,
  121. elas são fornecidas
    a algoritmos estatísticos
  122. para melhorar sua definição e clareza.
  123. Usamos softwares originalmente
    criados para imagens de salétile
  124. e para serem usados por pessoas
    como cientistas geoespaciais
  125. e a CIA.
  126. Os resultados são espetaculares.

  127. Talvez já tenham ouvido falar
    do que foi feito
  128. pelos Manuscritos do Mar Morto
  129. que estão sendo gelatinizados.
  130. Usando infravermelho, pudemos
    ler até os cantos mais escuros
  131. dos Manuscritos do Mar Morto.
  132. Talvez vocês não saibam, porém,
  133. de outros textos bíblicos
    que estão em perigo.
  134. Por exemplo, essa folha de um manuscrito

  135. que registramos
  136. e que é talvez a bíblia cristã
    mais valiosa do mundo.
  137. O Codex Vercellensis é a mais antiga
    tradução dos evangelhos para o latim
  138. e data da primeira metade do século 4.
  139. É o mais próximo que conseguimos chegar
  140. da bíblia no período
    da fundação do reino cristão
  141. sob o imperador Constantino.
  142. Também da época do Conselho de Niceia,
  143. quando entrou-se em acordo
    sobre o credo básico do cristianismo.
  144. Esse manuscrito, infelizmente,
    encontra-se muito danificado.
  145. Danificado graças a séculos
  146. de uso e manuseio
  147. em juramentos na igreja.
  148. De fato, a mancha roxa
    vista no topo da borda esquerda
  149. chama-se Aspergillus,
  150. um fungo advindo de mãos sujas
  151. de pessoas com tuberculose.
  152. Nossos registros nos permitiram
    fazer a primeira transcrição
  153. desse manuscrito em 250 anos.
  154. Levar um laboratório portátil
    a coleções onde é requisitado, porém,

  155. é só parte da solução.
  156. A tecnologia é cara e muito rara,
  157. as habilidades para registrar e processar
    as imagens são complexas.
  158. Isso signifia que montar
    objetos recuperados
  159. está fora do alcance
    da maioria dos pesquisadores,
  160. exceto aqueles
    nas instituições mais ricas.
  161. Por isso fundei o "Lazarus Project",
  162. uma organização sem fins lucrativos
  163. para levar imagens multiespectrais
    para pesquisadores individuais
  164. e instituições menores
    por pouco ou nenhum custo.
  165. No curso dos últimos cinco anos,
  166. nosso time de cientistas da imagem,
    estudiosos e estudantes
  167. viajaram para sete países diferentes
  168. e recuperaram alguns dos manuscritos
    mais valiosos do mundo,
  169. inclusive o Livro Vercelli,
    o livro mais antigo escrito em inglês,
  170. o Livro Negro de Carmarthen,
    o livro mais antigo em gaulês,
  171. e alguns dos primeiros
    evangelhos mais valiosos,
  172. localizados no que é hoje
    a antiga Georgia soviética.
  173. O registro de imagens espectral
    pode recuperar textos perdidos,

  174. ou, digamos, recuperar uma segunda
    história por trás de todo objeto,
  175. a história de como, quando
    e por quem o texto foi criado.
  176. Algumas vezes, o que o autor
    pensava quando o escreveu.
  177. Um exemplo é um esboço
    da Declaração de Independência,
  178. escrito à mão por Thomas Jefferson,
  179. que alguns colegas registraram
    há alguns anos
  180. na biblioteca do Congresso.
  181. Os curadores tinham percebido
    que uma palavra por todo o documento
  182. havia sido riscada e sobrescrita.
  183. A palavra sobrescrita era "cidadãos".
  184. Talvez vocês consigam adivinhar
    a palavra que estava por baixo.
  185. "Súditos".
  186. Aí está, senhoras e senhores,
    a democracia norte-americana
  187. evoluindo sob a mão de Thomas Jefferson.
  188. Ou considerem o mapa Martellus, de 1491,

  189. que registramos
    na Biblioteca Beinecke de Yale.
  190. Esse era o mapa que Colombo
    provavelmente consultou
  191. antes de viajar para o Novo Mundo
  192. e que lhe deu a ideia
    de como seria a Ásia
  193. e onde o Japão estava localizado.
  194. O problema com esse mapa
    é que suas tintas e pigmentos
  195. tinham se desgastado tanto
  196. que esse mapa grande, de dois metros,
  197. fazia o mundo parecer um grande deserto.
  198. Até agora, sabíamos pouco,
    poucos detalhes,
  199. do que Colombo sabia do mundo
  200. e como as culturas do mundo
    eram representadas.
  201. A principal legenda do mapa era totalmente
    ilegível sob luz normal.
  202. Luz ultravioleta ajudava muito pouco.
  203. A multiespectral nos possibilitou tudo.
  204. Na Ásia, conhecemos monstros
    com orelhas tão longas
  205. que poderiam cobrir
    todo o corpo da criatura.
  206. Na África, havia uma cobra
    que poderia fazer o chão soltar fumaça.
  207. Como a luz das estrelas,
    que pode nos mostrar imagens
  208. de como o universo
    parecia ser num passado distante,
  209. a luz multiespectral pode nos levar
    aos primeiros momentos
  210. da criação de um objeto.
  211. Através dessas lentes, testemunhamos
    os erros, as mudanças de ideia,
  212. as ingenuidades,
    os pensamentos sem censura,
  213. as imperfeições da imaginação humana
  214. que permitem que esses objetos
    consagrados e seus autores
  215. tornem-se mais reais,
  216. que tornam a história mais próxima de nós.
  217. E o futuro?

  218. Há tanto do passado,
  219. e tão poucas pessoas
    têm as habilidades para recuperá-lo
  220. antes que esses objetos
    desapareçam pra sempre.
  221. Por isso comecei a ensinar
    essa nova disciplina híbrida
  222. que chamo de "ciência do texto".
  223. A ciência do texto é um casamento
  224. entre habilidades tradicionais
    de um estudioso literato,
  225. a habilidade de ler línguas antigas
    e caligrafia antiga,
  226. e o conhecimento de como textos são feitos
  227. para podermos localizar e datá-los,
  228. com novas técnicas
    como a ciência da imagem,
  229. a química de tintas e pigmentos,
  230. reconhecimento ótico de caracteres
    auxiliado por computadores.
  231. Ano passado, um aluno na minha sala,

  232. um calouro,
  233. com base em latim e grego,
  234. estava processando a imagem
    de um palimpsesto
  235. que tínhamos fotografado
    numa biblioteca famosa em Roma.
  236. Enquanto trabalhava, escritos em grego,
    pequeninos, apareceram atrás do texto.
  237. Todos nos reunimos
  238. e lemos a frase de um trabalho perdido
  239. do grande escritor cômico Menandro.
  240. Era a primeira vez, em mais de mil anos,
  241. que aquelas letras eram
    pronunciadas em voz alta.
  242. Naquele momento,
    ele se transformou em um estudioso.
  243. Senhoras e senhores,
    esse é o futuro do passado.

  244. Muito obrigado.

  245. (Aplausos)