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Zeige Revision 15 erzeugt am 08/13/2020 von Margarida Ferreira.

  1. Chris Anderson:
    Dra. Jane Goodall, seja bem-vinda.
  2. Jane Goodall: Obrigada.

  3. Acho que não poderíamos
    ter uma entrevista completa
  4. sem que as pessoas saibam
    que o Sr. H está aqui comigo,
  5. porque toda a gente conhece o Sr. H.
  6. CA: Olá, Sr. H.

  7. Na sua palestra TED de há 17 anos,
  8. a Dra. Jane alertou-nos para os perigos
    da aglomeração humana no mundo natural.
  9. De alguma forma sente
  10. que a atual pandemia
    é a Natureza a vingar-se?
  11. JG: É muito, muito claro
    que estas doenças zoonóticas,

  12. como o coronavírus e o VIH/SIDA
  13. e todos os outros tipos de doenças
    que nós apanhamos através dos animais,
  14. em parte, têm a ver
    com a destruição do meio ambiente,
  15. pois, ao perderem o "habitat",
    os animais ficam demasiado juntos,
  16. e às vezes, o que acontece é que
    um vírus no reservatório de uma espécie,
  17. onde tem vivido harmoniosamente
    durante talvez centenas de anos,
  18. passa para outras novas espécies,
  19. que depois entram em contato
    mais próximo com as pessoas.
  20. E, às vezes, um desses animais
    que tenha apanhado um vírus
  21. pode fornecer a oportunidade
    para que o vírus entre nas pessoas
  22. e crie uma nova doença, como a COVID-19.
  23. E somado a isso,
  24. nós estamos a desrespeitar
    muito os animais.
  25. Nós caçamo-los,
  26. nós matamo-los, nós comemo-los,
  27. nós traficamo-los,
  28. nós enviamo-los para
    os mercados de animais selvagens
  29. na Ásia,
  30. onde eles vivem em péssimo estado,
    apertados em gaiolas minúsculas,
  31. com pessoas a serem contaminadas
    com sangue, urina e fezes,
  32. as condições ideias para um vírus
    se espalhar de um animal para outro,
  33. ou de um animal para uma pessoa.
  34. CA: Eu gostaria de voltar atrás
    no tempo só um pouco,

  35. porque a sua história é tão
    extraordinária...
  36. Apesar de todas as possíveis
    atitudes mais sexistas dos anos 60,
  37. de alguma forma a Jane foi capaz de inovar
  38. e de se tornar uma das cientistas
    pioneiras no mundo,
  39. descobrindo essa espantosa
    série de factos sobre os chimpanzés,
  40. como o uso de ferramentas, e muito mais.
  41. O que é que, na sua opinião, havia em si
  42. que lhe permitiu fazer
    um avanço tão grande?
  43. JG: Bem, o facto é que eu nasci
    a amar os animais,

  44. e a coisa mais importante foi
    ter tido uma mãe muito compreensiva.
  45. Ela não ficava aborrecida
    ao achar minhocas na minha cama,
  46. ela só dizia que era melhor
    elas estarem no jardim.
  47. E não ficou aborrecida
    quando desapareci por quatro horas,
  48. e, ao chamar a polícia,
    encontraram-me sentada num galinheiro,
  49. porque ninguém me dizia
    onde era o buraco por onde o ovo saia.
  50. Eu não tinha o sonho de ser cientista,

  51. porque as mulheres
    não faziam esse tipo de coisas.
  52. Na verdade, também não havia
    nenhum homem a fazer isso.
  53. E toda a gente se riu de mim,
    menos ela, que disse:
  54. "Se realmente queres isso,
    terás de trabalhar muito,
  55. "aproveitar cada oportunidade,
  56. " e se não desistires, talvez
    encontres uma maneira."
  57. CA: E de alguma forma, a Jane
    ganhou a confiança dos chimpanzés

  58. como mais ninguém conseguiu ganhar.
  59. Olhando para trás, qual foi o momento
    mais excitante da sua descoberta
  60. ou o que é que as pessoas ainda
    não entendem sobre os chimpanzés?
  61. JG: Bem, o ponto é o que diz:

  62. "Ver coisas que ninguém viu,
    e ganhar a confiança deles."
  63. Ninguém tinha tentado.
  64. Sinceramente.
  65. Então, basicamente,
    eu usei as mesmas técnicas
  66. que tinha para estudar os animais
    perto da minha casa quando era criança.
  67. Sentando-me, pacientemente,
  68. sem tentar chegar muito perto
    demasiado depressa,
  69. mas foi horrível, porque o dinheiro
    só dava para seis meses.
  70. Ou seja, o Chris pode imaginar
    como é difícil conseguir dinheiro
  71. para uma jovem sem formação
  72. ir fazer algo tão bizarro
    como ficar sentada numa floresta.
  73. E, finalmente,
  74. nós conseguimos dinheiro para seis meses
    de um filantropo norte-americano,
  75. e eu sabia que, com tempo,
    eu ganharia a confiança dos chimpanzés,
  76. mas será que eu tinha tempo?
  77. As semanas viraram meses
  78. e, finalmente, ao fim
    de cerca de quatro meses,
  79. um chimpanzé começou a perder o medo,
  80. e foi o que eu vi numa ocasião...
  81. Eu ainda não estava muito perto,
    mas eu tinha binóculos...
  82. e eu vi-o usar e fazer ferramentas
    para pescar térmitas.
  83. Embora eu não ficasse
    assim tão surpreendida,
  84. por já ter lido o que os chimpanzés
    em cativeiro conseguiam fazer,
  85. eu sabia que a ciência acreditava
  86. que os humanos, e apenas os humanos,
    usavam e faziam ferramentas.
  87. E eu sabia o quão entusiasmado ficaria
    o Dr. Louis Leakey.
  88. E foi essa observação
  89. que lhe permitiu ir à National Geographic,
  90. e eles disseram: "OK, nós continuaremos
    a dar apoio a essa pesquisa,"
  91. e enviaram Hugo van Lawick,
    o fotógrafo cineasta,
  92. para gravar o que eu estava a ver.
  93. Só que muitos cientistas não queriam
    acreditar no uso de ferramentas.
  94. Na verdade, um deles disse que
    eu devia ter ensinado os chimpanzés.
  95. (Risos)

  96. Como eu não conseguia chegar perto deles,
    isso teria sido um milagre.

  97. Mas, enfim, assim que eles viram
    o filme feito pelo Hugo,
  98. com todas as minhas descrições
    dos comportamentos deles,
  99. os cientistas tiveram de começar
    a mudar de opinião.
  100. CA: E desde então,
    inúmeras outras descobertas

  101. mostram os chimpanzés muito mais próximos
    dos humanos do que eles queriam acreditar.
  102. Eu acho que a vi dizer certa vez
    que eles têm sentido de humor.
  103. Como é que já viu a expressão disso?
  104. JG: Bem, isso vê-se
    quando eles estão a brincar,

  105. e há um maior a brincar com um pequeno
  106. que está a seguir uma videira
    ao redor de uma árvore.
  107. De cada vez que o pequeno
    está prestes a pegar-lhe,
  108. o maior empurra-o para longe,
  109. o pequeno começa a chorar
  110. e o maior começa a rir.
  111. Então, sabemos.
  112. CA: Mas, Jane, você observou
    algo muito mais preocupante,

  113. que foram os bandos de chimpanzés,
  114. tribos, grupos, a serem brutalmente
    violentos uns com os outros.
  115. Eu estou curioso em saber
    como é que a Jane processa isso.
  116. E se isso a deixou,
  117. não sei, um pouco deprimida connosco,
    nós, que estamos tão próximo deles.
  118. Isso fê-la sentir que a violência
    faz parte irremediavelmente
  119. de todos os primatas, de alguma forma?
  120. JG: Bem, é óbvio que sim.

  121. O meu primeiro contacto com humanos,
    a que eu chamo maus,
  122. foi no fim da guerra
  123. com as cenas do Holocausto.
  124. Isso realmente chocou-me.
  125. Isso mudou quem eu era.
  126. Eu tinha 10 anos, nessa época.
  127. E quando os chimpanzés,
  128. quando percebi que eles têm
    esse lado negro e brutal...
  129. eu pensava que eram como nós,
    só que mais amáveis.
  130. Foi então que percebi
  131. que eles ainda eram mais parecidos
    connosco do que eu pensara.
  132. E naquela época, no início dos anos 70,
  133. era muito estranho,
  134. havia um grande debate sobre a agressão:
  135. era inata ou aprendida?
  136. E tornou-se uma questão política.
  137. Foi uma época muito estranha,
  138. e eu estava a aparecer, dizendo:
  139. "Não, eu acho que a agressão
    faz, de facto, parte
  140. "do nosso repertório
    de comportamentos herdados."
  141. E perguntei a um cientista
    muito respeitado
  142. o que ele realmente pensava,
  143. porque ele afirmava perentoriamente
  144. que a agressão era aprendida
    e ele disse:
  145. "Jane, eu prefiro não falar
    sobre o que realmente penso."
  146. Aquilo foi um grande choque para mim,
    no que diz respeito à ciência.
  147. CA: Eu fui educado a acreditar num mundo
    de coisas brilhantes e bonitas.

  148. A Jane sabe, inúmeros filmes bonitos
    com borboletas e abelhas e flores,
  149. e a Natureza como paisagem deslumbrante.
  150. Muitos ambientalistas, muitas vezes,
    parecem tomar essa posição
  151. — "Sim, a Natureza é pura, é bela,
    os humanos é que são maus" —
  152. mas depois, temos
    outro tipo de observações
  153. em que realmente olhamos ao pormenor
    para qualquer parte da Natureza,
  154. e vemos coisas que nos aterrorizam,
    honestamente.
  155. O que é que a Jane acha da Natureza,
    o que pensa sobre isso?
  156. Como deveríamos pensar sobre isso?
  157. JG: A Natureza é...

  158. Quero dizer, pensamos no inteiro
    espetro da evolução,
  159. e torna-se emocionante
    ir para um lugar primitivo,
  160. e a África era muito primitiva
    quando eu era jovem.
  161. Havia animais em toda parte.
  162. Eu nunca gostei do facto
    de os leões matarem,
  163. eles têm que... quero dizer,
    é o que eles fazem,
  164. e se eles não matassem animais,
    morreriam.
  165. Acho que a grande diferença
    entre eles e nós,
  166. é que eles fazem o que fazem
    porque é o que têm de fazer.
  167. E nós podemos planear fazer as coisas.
  168. Os nossos planos são muito diferentes.
  169. Podemos planear o corte
    de uma floresta inteira,
  170. porque queremos vender a madeira,
  171. ou porque queremos construir
    outro centro comercial,
  172. ou algo assim.
  173. Então, na nossa destruição da Natureza
    e na nossa guerra,
  174. nós somos capazes de fazer mal
    porque nos podemos sentar confortavelmente
  175. e planear a tortura de alguém distante.
  176. Isso é maldade.
  177. Os chimpanzés têm uma espécie
    de guerra primitiva,
  178. e eles podem ser muito agressivos,
  179. mas é no momento.
  180. É como eles se sentem.
  181. É a resposta a uma emoção.
  182. CA: Então a sua observação
    da sofisticação dos chimpanzés

  183. não vai tão longe quanto
    algumas pessoas gostariam de dizer
  184. que é tipo um superpoder humano,
  185. sermos capazes de simular o futuro
    nas nossas mentes em grande detalhe
  186. e de fazer planos a longo prazo.
  187. E agir, incentivando-nos uns aos outros
    para alcançar esses planos de longo prazo.
  188. Que isso parece, mesmo para alguém
    que passou tanto tempo com chimpanzés,
  189. parece um conjunto
    de diferentes competências
  190. pelas quais temos que nos responsabilizar
  191. e usar mais sabiamente do que fazemos.
  192. JG: Sim, e eu acho, pessoalmente,

  193. que há muita discussão sobre isso,
  194. mas eu acho que é um facto que
    desenvolvemos a forma da comunicação
  195. que você e eu estamos a usar.
  196. E porque temos palavras,
  197. quero dizer, a comunicação animal
    é muito mais sofisticada
  198. do que costumamos pensar.
  199. E chimpanzés, gorilas, orangotangos
  200. podem aprender a linguagem gestual
    humana dos surdos.
  201. Mas nós crescemos
    a falar qualquer que seja o idioma.
  202. Então eu posso falar-lhe sobre coisas
    que você nunca ouviu falar.
  203. E um chimpanzé não pode fazer isso.
  204. Nós podemos ensinar
    coisas abstratas aos nossos filhos.
  205. E os chimpanzés não podem fazer isso.
  206. Mas os chimpanzés podem fazer
    todo o tipo de coisas inteligentes,
  207. assim como os elefantes, os corvos
    e os polvos também podem,
  208. mas nós projetamos foguetes
    que vão para outro planeta
  209. e pequenos robôs para tirar fotografias,
  210. e nós projetámos esta maneira
    extraordinária de podermos conversar
  211. nas nossas diferentes partes do mundo.
  212. Quando eu era jovem, quando cresci,
  213. não existia TV, não existiam telemóveis,
  214. não existiam computadores.
  215. Era um mundo muito diferente,
  216. Eu tinha apenas um lápis,
    uma caneta e um caderno.
  217. CA: Então, voltando à questão
    sobre a natureza,

  218. porque penso muito nisso,
  219. e debato-me com isso, honestamente.
  220. Tanto do seu trabalho,
    tantas das muitas pessoas que eu respeito
  221. falam dessa paixão de tentar
    não estragar o mundo natural.
  222. Então é possível, é saudável,
    é essencial, talvez,
  223. aceitar simultaneamente
    que muitos aspetos da Natureza
  224. são aterrorizantes,
  225. mas também que é fantástico,
  226. e que algumas das maravilhas
    vêm do potencial de ser aterrorizante
  227. e que é também somente
    uma beleza de tirar o fôlego,
  228. e que não podemos ser nós mesmos,
    porque fazemos parte da Natureza,
  229. não podemos ser um todo
  230. a menos que, de alguma forma, aceitemos
    fazer parte disso?
  231. Ajude-me com a linguagem, Jane,
    diga como essa relação deveria ser.
  232. JG: Bem, acho que é um dos problemas,
    à medida que desenvolvemos o intelecto,

  233. e nos tornámos cada vez melhores
  234. na modificação do ambiente
    para nosso próprio uso,
  235. e criámos campos e terrenos de cultivo
  236. onde costumava haver
    uma floresta ou um bosque,
  237. mas não vamos entrar nisso agora,
  238. mas temos a capacidade
    de mudar a Natureza.
  239. E à medida que nos mudámos mais
    para vilas e cidades,
  240. e confiámos mais na tecnologia,
  241. muitas pessoas sentiram-se
    separadas do mundo natural.
  242. E há centenas, milhares de crianças
  243. a crescer dentro dessas cidades,
  244. onde, basicamente, não existe
    nenhuma Natureza,
  245. e é por isso que o movimento atual
    para tornar as cidades verdes
  246. é tão importante.
  247. Eles fizeram experiências,
  248. — acho que foi em Chicago,
    não tenho a certeza —
  249. e havia diversos lotes vazios
  250. numa parte muito violenta da cidade.
  251. Então, tornaram verdes
    algumas dessas áreas,
  252. colocaram árvores, flores e coisas,
    e arbustos, nesses lotes vazios.
  253. E a taxa de criminalidade começou a cair.
  254. Por isso, claro, eles colocaram
    árvores na outra metade.
  255. Isso só mostra, também,
  256. que foram feitos estudos
    mostrando que as crianças
  257. precisam da Natureza verde para
    um bom desenvolvimento psicológico.
  258. Mas, como o Chris diz,
    nós fazemos parte da Natureza
  259. mas desrespeitamo-la, por sermos assim,

  260. e isso é terrível
    para os nossos filhos e netos,
  261. porque confiamos na Natureza
    para termos ar limpo, água limpa,
  262. para regular o clima e a pluviosidade.
  263. Veja o que nós fizemos,
    veja as crises climáticas.
  264. Fomos nós que fizemos isso.
  265. CA: Há pouco mais de 30 anos,
  266. a Jane fez a mudança de cientista
    para ativista, creio eu.

  267. Porquê?
  268. JG: A conferência científica, em 1986,
  269. — na altura, eu já tinha o doutoramento —
  270. era para descobrir como o comportamento
    dos chimpanzés diferia, e se diferia,

  271. de um ambiente para outro.
  272. Havia seis locais de estudos
    em toda a África.
  273. Nós pensámos: "Vamos colocar
    estes cientistas juntos
  274. "e explorar isso",
  275. o que foi fascinante.
  276. Mas também tivemos uma sessão
    sobre conservação
  277. e uma sessão sobre condições
    em situações de cativeiro,
  278. como pesquisa médica.
  279. Aquelas duas sessões foram
    muito chocantes para mim.
  280. Eu fui para a conferência como cientista,
  281. e saí como ativista.
  282. Eu não tomei uma decisão,
    alguma coisa aconteceu dentro de mim.
  283. CA: Então, a Jane passou
    os últimos 34 anos
  284. a fazer campanha, incansavelmente,
    por uma relação melhor

  285. entre as pessoas e a Natureza.
  286. Como deveria ser essa relação?
  287. JG: Bem, mais uma vez o Chris
    levanta todos estes problemas.
  288. As pessoas têm de ter espaço para viver.

  289. Mas eu acho que o problema
  290. é que nos tornámos,
    nas sociedades abastadas,
  291. demasiado gananciosos.
  292. Quero dizer, honestamente, quem precisa
    de quatro casas com terrenos enormes?
  293. E porque é que precisamos
    de mais um centro comercial?
  294. E assim por diante.
  295. Andamos atrás de um benefício
    económico de curto prazo,
  296. o dinheiro tornou-se
    uma espécie de deus para adorar,
  297. porque perdemos a ligação espiritual
    com o mundo natural.
  298. Por isso, andamos à procura
    de um curto ganho monetário, ou poder,
  299. ao invés da saúde do planeta
  300. e do futuro dos nossos filhos.
  301. Parece que já não nos importamos com isso.
  302. É por isso que eu nunca
    vou parar de lutar.
  303. CA: No seu trabalho, especificamente,
    na preservação do chimpanzé,
  304. a Jane criou como prática
    colocar as pessoas no centro disso,

  305. as pessoais locais, para as envolver.
  306. Como é que isso tem funcionado?
  307. Acha que essa é uma ideia essencial,
  308. se quisermos ter sucesso
    na proteção do planeta?
  309. JG: Depois daquela famosa conferência,
  310. achei que precisava de saber

  311. porque é que os chimpanzés
    estavam a desaparecer em África,
  312. e o que estava a acontecer nas florestas.
  313. Juntei algum dinheiro
    e percorri um conjunto de seis países.
  314. E aprendi muito sobre os problemas
    enfrentados pelos chimpanzés,
  315. como a caça por carne
    de animais selvagens
  316. e o comércio de animais vivos
    apanhados em armadilhas
  317. e a população humana a aumentar
    e a precisar de mais terra
  318. para o seu cultivo,
    o seu gado, e as suas aldeias.
  319. Mas eu também estava a descobrir
    a situação que muitas pessoas enfrentavam.
  320. A pobreza absoluta,
    a falta de saúde e educação,
  321. a degradação da terra.
  322. Eu percebi, quando sobrevoei
    o minúsculo Parque Nacional Gombe.
  323. Fizera parte da cintura equatorial
    florestal de toda a África
  324. até à Costa Oeste,
  325. e em 1990,
  326. havia só um pedacinho de floresta,
    só um pequeno parque nacional.
  327. Por toda parte, as colinas estavam nuas.
  328. E foi então que me apercebi.
  329. Se não fizermos alguma coisa
  330. para ajudar as pessoas
    a encontrar maneiras de viver
  331. sem destruir o seu ambiente,
  332. não podemos nem sequer tentar
    salvar os chimpanzés.
  333. Assim, o Instituto Jane Goodall começou
    esse programa "Take Care",
  334. nós chamamos de "TACARE."
  335. E é nosso método de conservação
    baseado na comunidade,
  336. totalmente holístico.
  337. E agora colocamos as ferramentas
    de conservação
  338. nas mãos dos aldeões,
  339. porque a maioria dos chimpanzés
    selvagens tanzanianos
  340. não estão em áreas protegidas,
  341. estão nas reservas florestais
    nas aldeias.
  342. Assim, eles agora medem
    a saúde da sua floresta.
  343. Eles entenderam agora
  344. que proteger a floresta
    não é só para a vida selvagem,
  345. é para o seu próprio futuro.
  346. Que eles precisam da floresta.
  347. E eles orgulham-se muito disso.
  348. Os voluntários vão a "workshops",
  349. aprendem a usar "smartphones",
  350. aprendem a fazer carregamentos
    na plataforma e na nuvem.
  351. E assim é tudo transparente.
  352. E as árvores voltaram,
  353. já não há colinas nuas.
  354. Eles concordaram em fazer uma zona
    de tampão em volta do Gombe,
  355. para que os chimpanzés tenham mais
    floresta do que tinham em 1990.
  356. Eles estão a abrir corredores florestais
  357. para ligar grupos de chimpanzés dispersos,
    para que não haja muita consanguinidade.
  358. Sim, funcionou, e está agora
    em seis outros países
  359. a mesma coisa.
  360. CA: A Jane tem sido uma extraordinária
    e incansável voz, em todo o mundo,
  361. viajando tanto,

  362. falando em todos os lugares, inspirando
    pessoas em todos os lugares.
  363. Como é que a Jane encontra a energia,
  364. o alento, para fazer isso,
  365. porque isso é esgotante,
  366. tantos encontros com tantas pessoas,
  367. é fisicamente esgotante,
  368. e no entanto,
    ainda aqui está a fazer isso.
  369. Como é que faz isso, Jane?
  370. JG: Bem, suponho que sou
    muito obstinada, não gosto de desistir,
  371. E eu não vou deixar os CEOs
    das grandes empresas

  372. que estão a destruir as florestas,
  373. ou os políticos que estão a abolir
    as proteções postas em prática
  374. pelos presidentes anteriores,
  375. e o Chris sabe de quem
    é que eu estou a falar.
  376. E como sabe, eu continuarei a lutar.
  377. Eu importo-me,
    sou apaixonada pela vida selvagem.
  378. Sou apaixonada pelo mundo natural.
  379. Eu adoro as florestas,
    magoa-me vê-las destruídas.
  380. Eu preocupo-me apaixonadamente
    com as crianças.
  381. E nós estamos a roubar o futuro delas.
  382. Eu não vou desistir.
  383. Acho que sou abençoada
    com bons genes, isso é um dom,
  384. e o outro dom, que eu
    descobri que tinha,
  385. era a comunicação,
  386. quer seja escrita ou oral.
  387. O Chris sabe,
  388. se andar assim por aí não funcionasse...
  389. Mas sempre que eu faço uma palestra,
  390. as pessoas vem ter comigo e dizem:
  391. "Bem, eu tinha desistido,
    mas você inspirou-me,
  392. "prometo fazer a minha parte."
  393. E temos o nosso programa juvenil
    "Roots and Shoots" agora em 65 países
  394. e está a crescer depressa,
  395. todas as idades, todos a escolher projetos
  396. para ajudar as pessoas,
    os animais, o meio ambiente,
  397. arregaçando as mangas,
    e fazendo acontecer.
  398. E sabe, eles olham para nós
    com os olhos brilhantes,
  399. querendo dizer à Dra. Jane
    o que eles têm feito
  400. para fazer do mundo um lugar melhor.
  401. Como posso dececioná-los?
  402. CA: Como é que vê o futuro do planeta?
  403. O que mais a preocupa, na verdade,
  404. o que mais a assusta sobre o ponto
    em que nos encontramos?

  405. JG: Bem, o facto de termos uma
    pequena janela de tempo, creio eu,
  406. em que podemos ao menos começar
    a reparar alguns dos danos
  407. e desacelerar as mudanças climáticas.

  408. Mas está a fechar-se,
  409. e já vimos o que acontece
    com o confinamento ao redor do mundo,
  410. por causa da COVID-19:
  411. céu limpo sobre as cidades,
  412. algumas pessoas a respirar ar puro,
    que nunca tinham respirado antes,
  413. e a olhar para cima,
    para os céus noturnos brilhantes,
  414. coisa que nunca tinham visto antes.
  415. E... sabe,
  416. o que me preocupa mais
  417. é como conseguir pessoas suficientes
  418. — as pessoas entendem,
    mas não estão a tomar medidas —
  419. como conseguir pessoas
    suficientes para agir?
  420. CA: A National Geographic acaba de lançar
    um filme extraordinário sobre si,
  421. destacando o seu trabalho
    ao longo de seis décadas.
  422. O título é "Jane Goodall: A Esperança."

  423. Qual é a esperança, Jane?
  424. JG: Bem, a esperança,
  425. a minha maior esperança
    são todos os jovens.
  426. Na China, as pessoas vão aparecer e dizer:

  427. "Claro que me importo
    com o meio ambiente,
  428. "eu estive no 'Roots and Shoots'
    na escola primária."
  429. Nós temos "Roots and Shoots"
    agarrando-se aos valores
  430. e eles são tão entusiastas,
    assim que conhecem os problemas
  431. e se capacitam para agir,
  432. eles estão a limpar as correntes,
    a remover espécies invasivas,
  433. humanamente.
  434. E eles têm tantas ideias.
  435. E depois existe
    este nosso extraordinário intelecto.
  436. Estamos a começar a usá-lo
    para criar a tecnologia
  437. que realmente nos ajude
    a viver em maior harmonia,
  438. e nas nossas vidas individuais,
  439. vamos pensar sobre as consequências
    do que nós fazemos cada dia.
  440. O que compramos, de onde veio,
  441. como foi feito?
  442. Prejudicou o meio ambiente,
    foi cruel para os animais?
  443. É barato por causa do trabalho
    escravo infantil?
  444. Façam escolhas éticas.
  445. O que vocês não podem fazer se,
    por acaso, estiverem a viver na pobreza.
  446. E então, finalmente,
    esse espírito indomável
  447. das pessoas que lidam
    com o que parece impossível
  448. e não vão desistir.
  449. Não se pode desistir
    quando se tem aqueles...
  450. Mas há lutas que eu não posso lutar.
  451. Eu não posso combater a corrupção.
  452. Eu não posso lutar contra
    regimes militares e ditadores.
  453. Eu só posso fazer
    o que eu posso fazer,
  454. e se todos nós fizermos a parte
    que podemos fazer,
  455. certamente fará um todo
    que acabará por ganhar.
  456. CA: Última pergunta, Jane.
  457. Se houvesse uma ideia, um pensamento,
  458. uma semente que pudesse plantar
    na mente de todos os que estão a assistir,

  459. qual seria?
  460. JG: Basta lembrar que a cada dia
    que vivemos,
  461. fazemos impacto no planeta.
  462. Não podemos deixar de causar impacto.

  463. E a menos que estejamos
    a viver em extrema pobreza,
  464. temos uma escolha quando ao tipo
    de impacto que fazemos.
  465. Até mesmo na pobreza temos escolha,
  466. mas quando somos mais prósperos,
    temos uma escolha maior.
  467. E se todos fizermos escolhas éticas,
  468. então começamos a caminhar
    em direção a um mundo
  469. que não será tão desesperado
    para deixar para nossos bisnetos.
  470. Acho que isso é alguma coisa para todos.
  471. Porque muitas pessoas
    entendem o que está a acontecer,
  472. mas sentem-se desamparadas
    e sem esperança,
  473. sobre o que podem fazer,
  474. então, eles não fazem nada
    e tornam-se apáticos.
  475. E isso é um enorme perigo, a apatia.
  476. CA: Dra. Jane Goodall, uau!
  477. Eu quero agradecer-lhe
    pela sua vida extraordinária,
  478. por tudo o que tem feito

  479. e por passar este tempo connosco, agora.
  480. Obrigado.
  481. JG: Obrigada.