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Zeige Revision 5 erzeugt am 06/05/2018 von Margarida Ferreira.

  1. Quando eu andava no quinto ano,
  2. comprei uma edição da BD
    "DC Comics Presents #57"
  3. que estava numa prateleira
    da minha livraria local
  4. e esse livro de BD mudou a minha vida.
  5. A combinação de palavras e imagens
    deu-me uma volta à cabeça
  6. como nunca me tinha acontecido
  7. e apaixonei-me de imediato
    pela banda desenhada.
  8. Tornei-me num voraz leitor de livros de BD
  9. mas nunca os levei para a escola.
  10. Instintivamente, sabia que os livros de BD
    não pertenciam à sala de aulas.
  11. Os meus pais não eram
    minimamente entusiastas,
  12. e eu tinha a certeza que os professores
    também não deviam ser.
  13. Afinal, nunca os usavam para ensinar.
  14. A BD e as histórias aos quadradinhos
    não eram permitidos na hora de leitura
  15. e nunca eram vendidos
    na feira do livro anual da escola.
  16. Apesar disso,
    eu continuei a ler BD
  17. e até comecei a fazê-la.
  18. Por fim, acabei por tornar-me
    num cartunista publicado,
  19. ganhando a vida a escrever
    e a desenhar BD.
  20. Também acabei por ser
    professor do secundário.

  21. Era aqui que eu ensinava:
  22. o liceu Bishop O'Dowd
    em Oakland, na Califórnia.
  23. Ensinava um pouco de matemática
    e um pouco de arte,
  24. mas, sobretudo, ciência informática
  25. e ali me mantive durante 17 anos.
  26. Quando comecei a ensinar,
  27. tentei levar livros de BD
    para a sala de aulas.
  28. Lembro-me de dizer aos meus alunos
    no primeiro dia de cada turma
  29. que eu também era cartunista.
  30. Não era que eu estivesse a planear
    ensiná-los com livros de BD,
  31. era sobretudo que eu esperava
    que eles pensassem que eu era fixe.
  32. (Risos)

  33. Estava enganado.

  34. Estávamos nos anos 90,
  35. por isso os livros de BD não tinham
    o cariz cultural que têm hoje.
  36. Os meus alunos não me acharam fixe,
    pensaram que eu era meio idiota.
  37. Pior ainda, quando as coisas
    aqueciam na minha aula
  38. usavam os livros de BD
    como uma forma de me distraírem.
  39. Levantavam a mão
    e faziam perguntas, tipo:
  40. "Mr. Yang, quem acha que ganha
    numa luta,
  41. "o Super-Homem ou Hulk?"
  42. (Risos)

  43. Depressa percebi que tinha que separar
    o ensino dos meus cartunes.

  44. Parecia que os meus instintos
    do quinto ano estavam certos.
  45. Os livros de BD não pertenciam
    à sala de aulas.
  46. Mas, mais uma vez,
    eu estava enganado.

  47. Ao fim de uns anos
    da minha carreira de professor,
  48. aprendi diretamente o potencial
    educativo da BD.
  49. Num semestre, pediram-me para substituir
    uma aula de Álgebra 2.
  50. Seria para fazer uma substituição
    a longo prazo
  51. Eu aceitei, mas havia um problema.
  52. Na altura, eu também era
    o pedagogo técnico da escola
  53. o que significava que,
    quinzenalmente,
  54. tinha que faltar a uma ou duas aulas
    desta classe de Álgebra 2,
  55. porque estava noutra sala de aulas
    a ajudar outro professor
  56. numa atividade relacionada
    com computadores.
  57. Para os alunos de Álgebra 2
    isso era terrível.
  58. Ou seja, ter uma substituição
    a longo prazo já era muito mau
  59. mas ter uma substituição
    do substituto, ainda era pior.
  60. Numa tentativa de proporcionar
    alguma consistência aos meus alunos,
  61. comecei a gravar
    as minhas lições em vídeos
  62. que entregava ao meu substituto
    que os passava aos meus alunos.
  63. Tentei fazer esses vídeos
    o mais atraentes possível.
  64. Até incluí alguns efeitos especiais.
  65. Por exemplo, depois de acabar
    de fazer um problema no quadro,
  66. batia as palmas
  67. e o quadro apagava-se
    como por magia.
  68. (Risos)

  69. Pensei que era fantástico.

  70. Tinha a certeza de que
    os meus alunos iam adorar,
  71. mas enganei-me.
  72. (Risos)

  73. Aquelas lições por vídeo
    foram um desastre.

  74. Uns estudantes vieram ter comigo
    e disseram:
  75. "Mr. Yang, julgávamos
    que o senhor, em pessoa, era chato
  76. "mas, em vídeo, é mesmo insuportável".
  77. (Risos)

  78. Por isso, numa segunda
    tentativa desesperada,

  79. comecei a desenhar as lições em BD.
  80. Fazia-o muito rapidamente,
    com muito pouco planeamento.
  81. Agarrava num marcador,
    desenhava um quadrado atrás de outro,
  82. pensando no que ia dizer
    à medida que prosseguia.
  83. Fazia estas lições em BD
  84. com quatro a seis páginas cada.
  85. Fotocopiava-as, dava-as ao meu substituto
    que as entregava aos alunos.
  86. Para minha grande surpresa,
  87. estas lições em BD foram um êxito.
  88. Os meus alunos pediram-me
    que continuasse a fazê-las
  89. mesmo quando lá estivesse
    pessoalmente.
  90. Era como se gostassem mais de mim
    nos cartunes do que em pessoa.
  91. (Risos)

  92. Isso surpreendeu-me, porque os meus alunos
    fazem parte duma geração

  93. que foi criada frente a ecrãs,
  94. por isso eu estava convencido de que
    gostariam mais de aprender num ecrã
  95. do que numa página.
  96. Mas, quando falei com os meus alunos
  97. sobre as razões de eles gostarem
    tanto destas lições em BD,
  98. comecei a perceber
    o potencial pedagógico da BD.
  99. Primeiro, ao contrário
    dos manuais de matemática,
  100. estas lições em BD
    ensinavam visualmente.
  101. Os estudantes crescem
    numa cultura visual,
  102. assim, estão habituados
    a beber as informações nessa forma.
  103. Mas, ao contrário
    das outras narrativas visuais,
  104. como os filmes, a televisão,
    os desenhos animados ou os vídeos,
  105. a BD é aquilo a que eu chamo permanente.
  106. Numa BD, o passado, o presente e o futuro
    estão lado a lado, na mesma página.
  107. Isso significa que o ritmo
    do fluxo das informações
  108. está firmemente nas mãos do leitor.
  109. Quando os meus alunos não percebiam
    qualquer coisa na lição em BD,
  110. podiam voltar a ler aquela passagem,
  111. rápida ou lentamente,
    conforme precisassem.
  112. Era como dar-lhes um telecomando
    para aquelas informações.
  113. O mesmo não acontecia
    com as minhas lições em vídeo
  114. e também não acontecia
    nas minhas lições em pessoa.
  115. Quando eu falo, debito as informações
    depressa ou devagar, conforme quero.
  116. Para determinados estudantes
    e para determinados tipos de informações,
  117. estes dois aspetos da BD,
    a sua natureza visual e a sua permanência,
  118. tornam-na numa ferramenta pedagógica
    incrivelmente poderosa.
  119. Quando eu andava a ensinar
    esta turma de Álgebra 2,

  120. também estava a trabalhar no meu mestrado
    em educação em Cal State East Bay.
  121. Fiquei tão intrigado com a experiência
    que tinha tido com estas lições em BD
  122. que decidi concentrar o projeto
    do meu mestrado na BD.
  123. Queria perceber porque é
    que os educadores norte-americanos
  124. têm sido, historicamente, tão relutantes
    em usar livros de BD nas suas aulas.
  125. E foi isto o que descobri.
  126. Os livros de BD tornaram-se
    muito populares nos anos 40,

  127. com milhões de cópias
    vendidas todos os meses
  128. e os educadores da época
    repararam nisso.
  129. Muitos professores inovadores
    começaram a levar BD para as aulas
  130. para experimentarem.
  131. Em 1944, a Revista de Sociologia Educativa
  132. até dedicou uma edição completa
    a este tópico.
  133. As coisas pareciam estar a progredir.
  134. Os professores estavam a começar
    a perceber coisas.
  135. Mas, depois aparece este tipo.
  136. É um psicólogo infantil,
    Dr. Fredric Wertham.
  137. Em 1954, escreveu um livro
    chamado "Seduction of the Innocent,"
  138. em que defende que os livros de BD
    provocam delinquência juvenil.
  139. (Risos)

  140. Estava enganado.

  141. Ora bem, o Dr. Wertham era
    um tipo muito decente.
  142. Passou grande parte da sua carreira
    a trabalhar com delinquentes juvenis
  143. e, no seu trabalho, verificou
  144. que a maior parte dos seus clientes
    lia livros de BD.
  145. O que o Dr. Wertham não verificou
    foi que, nos anos 40 e 50,
  146. quase todos os miúdos nos EUA
    liam livros de BD.
  147. O Dr. Wertham fez um trabalho
    bastante duvidoso ao provar este caso,

  148. mas o seu livro inspirou
    inspirou o Senado dos EUA
  149. a realizar uma série de audições
  150. para ver se, de facto, a BD
    provocava delinquência juvenil.
  151. Essas adições decorreram
    durante quase dois meses.
  152. Foram inconclusivas
    mas tiveram efeitos extremamente nocivos
  153. para a reputação dos livros de BD,
    aos olhos do público norte-americano.
  154. Depois disso, os respeitáveis
    todos os educadores norte-americanos

  155. recuaram e mantiveram-se
    afastados durante décadas.
  156. Foi só nos anos 70
  157. que umas almas corajosas
    começaram a fazer o caminho inverso.
  158. E foi só recentemente,
  159. talvez há uns 10 anos,
  160. que a BD tem assistido
    a uma aceitação mais alargada
  161. entre os educadores norte-americanos.
  162. Os livros de BD e as histórias
    aos quadradinhos estão finalmente a entrar

  163. nas salas de aulas norte-americanas
  164. e isso também acontece
    na Bishop O'Dowd, onde eu tinha ensinado.
  165. Mr. Smith, um dos meus antigos colegas,
  166. usa o "Compreender a BD"
    de Scott McCloud
  167. na sua aula de literatura e cinema
    porque esse livro dá aos alunos
  168. a linguagem com que discutir
    a relação entre palavras e imagens.
  169. Mr. Burbs atribui um trabalho de BD
    aos seus alunos, todos os anos.
  170. Ao pedir aos alunos que elaborem
    uma história, usando imagens,
  171. Mr. Burns pede-lhes
    que pensem profundamente
  172. não apenas na história
  173. mas também na forma
    como a história é contada.
  174. Ms. Murrock usa o meu
    "Um Americano Nascido Chinês",
  175. com os seus alunos de Inglês 1.
  176. Para ela, as histórias aos quadradinhos
  177. são uma ótima forma de cumprir
    o padrão de núcleo comum.
  178. O padrão de núcleo comum estipula
    que os estudantes devem saber analisar
  179. como os elementos visuais contribuem

  180. para o sentido, o tom
    e a beleza de um texto.
  181. Na biblioteca, Ms. Counts
    criou uma impressionante coleção

  182. de histórias aos quadradinhos
    para Bishop O'Dowd.
  183. Ms. Counts e todas as suas
    colegas bibliotecárias
  184. têm estado na linha da frente
    da defesa da BD,
  185. desde os anos 80, quando um artigo
    na revista da biblioteca da escola
  186. afirmou que a simples presença
    de histórias aos quadradinhos na biblioteca
  187. aumentara a utilização em cerca de 80%
  188. e aumentara a circulação
    de materiais sem ser BD
  189. em cerca de 30%.
  190. Inspirados por este interesse renovado
    dos educadores norte-americanos,

  191. os cartunistas norte-americanos produzem
  192. conteúdos educativos
    mais explícitos do que anteriormente
  193. para o mercado do ensino obrigatório.
  194. Uma grande parte é dirigida
    às artes linguísticas,

  195. mas há cada vez mais livros de BD
    e histórias aos quadradinhos
  196. que começam a abordar
    tópicos de matemática e de ciências.
  197. As histórias em BD para o CTEM
    são como um território por descobrir,
  198. pronto a ser explorado.
  199. Os EUA estão finalmente
    a acordar para o facto

  200. de que os livros de BD
    não causam delinquência juvenil.
  201. (Risos)

  202. Que pertencem de facto a toda
    a panóplia de ferramentas do educador.

  203. Não há razão para erradicar
    a BD e as histórias aos quadradinhos
  204. do ensino obrigatório.
  205. Ensinam visualmente,
  206. dão aos estudantes
    o tal telecomando.
  207. O potencial pedagógico está ali
  208. à espera de ser aproveitado
  209. por pessoas criativas como vocês.
  210. Obrigado.

  211. (Aplausos)