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Zeige Revision 14 erzeugt am 09/15/2018 von Custodio Marcelino.

  1. Quando eu estava no quinto ano,
  2. eu comprei uma edição
    da "DC Comics Presents #57"
  3. em uma prateleira
    da banca de revistas local,
  4. e aquela revista em quadrinhos
    mudou minha vida.
  5. A junção das palavras e figuras
    fez algo na minha cabeça
  6. que nunca tinha acontecido antes,
  7. e eu me apaixonei
    pelos quadrinhos imediatamente.
  8. Me tornei um leitor voraz de quadrinhos,
  9. mas nunca os levei à escola.
  10. Instintivamente, eu sabia que quadrinhos
    não pertenciam à sala de aula.
  11. Meus pais com certeza não eram fãs,
  12. e eu tinha certeza
    que meus professores também não.
  13. Afinal, eles nunca usaram quadrinhos
    e "graphic novels" para ensinar,
  14. e elas nunca eram permitidas
    nos momentos de leitura,
  15. nem vendidas nas nossas
    feiras do livro anuais.
  16. Mesmo assim, eu continuei
    lendo quadrinhos,
  17. e até comecei a fazê-los.
  18. Acabei me tornando
    um cartunista publicado,
  19. escrevendo e desenhando quadrinhos
    para me sustentar.
  20. Eu também me tornei professor
    de ensino médio.

  21. Era aqui onde eu lecionava:
  22. "Bishop O'Dowd High School"
    em Oakland, Califórnia.
  23. Eu ensinei um pouco de matemática e artes,
  24. mas principalmente computação,
  25. e fiquei lá por 17 anos.
  26. Quando eu era professor novato,
  27. tentei trazer os quadrinhos
    para a sala de aula.
  28. Eu lembro de dizer aos meus alunos
    a cada primeiro dia de aula,
  29. que eu também era cartunista.
  30. Não era tanto por eu querer
    ensinar usando quadrinhos,
  31. e mais eu esperar que os quadrinhos
    fizessem eles me acharem descolado.
  32. (Risos)

  33. Eu estava errado.

  34. Aquilo era os anos 90,
  35. então quadrinhos não tinham
    o status que têm hoje.
  36. Meus alunos não me achavam descolado.
  37. Eles me achavam meio bobão.
  38. Pior ainda, quando a coisa
    ficava feia na sala,
  39. eles usavam os quadrinhos
    como forma de me distrair.
  40. Eles levantavam as mãos
    e me perguntavam coisas do tipo:
  41. "Sr. Yang, quem você acha
    que ganha uma briga,
  42. Super-homem ou o Hulk?"
  43. (Risos)

  44. Eu percebi muito rápido que precisava
    manter as aulas e os quadrinhos separados.

  45. Parecia que os meus instintos
    do quinto ano estavam certos.
  46. Quadrinhos não pertenciam à sala de aula.
  47. De novo, eu estava errado.

  48. Após alguns anos lecionando,
  49. eu aprendi em primeira mão
    o potencial educativo dos quadrinhos.
  50. Num semestre fui requisitado
    para lecionar Álgebra 2.
  51. Eu fui contratado como
    professor substituto de longo prazo,
  52. e aceitei, mas tinha um problema.
  53. À época, eu também era
    o técnico de informática da escola,
  54. o que significa que a cada duas semanas
  55. eu tinha que perder um ou dois períodos
    da aula de Álgebra 2
  56. porque eu estava em outra sala
    ajudando outro professor
  57. em atividades relacionadas à computação.
  58. Para os alunos de Álgebra 2, era terrível.
  59. Ter um professor substituto já
    é ruim o suficiente
  60. mas ter o substituto do substituto?
  61. Isso é o pior.
  62. Num esforço para trazer alguma
    consistência aos meus alunos,
  63. eu comecei a me gravar dando aulas.
  64. E dei esses vídeos ao meu substituto
    para mostrar aos meus alunos.
  65. Eu tentei fazer os vídeos
    o mais atraentes possível.
  66. Até incluí uns pequenos efeitos especiais.
  67. Por exemplo, depois de terminar
    um problema na lousa,
  68. eu batia palmas,
  69. e o quadro se apagava magicamente.
  70. (Risos)
  71. Eu achei isso bem incrível.

  72. E tinha certeza que meus alunos amariam,

  73. mas eu estava errado.
  74. (Risos)

  75. Aquelas videoaulas foram um desastre.

  76. Alunos vinham até mim
    e dizendo coisas do tipo:
  77. "Sr. Yang, nós achávamos
    você entediante pessoalmente,
  78. mas em vídeo, você é insuportável."
  79. (Risos)

  80. Numa segunda tentativa desesperada,
    comecei a desenhar as aulas em quadrinhos.

  81. Fiz tudo muito rápido
    e com pouco planejamento.
  82. Só peguei uma caneta,
    desenhei um quadro após o outro,
  83. descobrindo o que eu queria
    dizer enquanto fazia.
  84. Os quadrinhos saíram
  85. com algo em torno
    de quatro a seis páginas.
  86. Eu as xerocava e dava
    para o substituto entregar aos alunos.
  87. E para minha surpresa,
  88. as aulas em quadrinhos foram um sucesso.
  89. Meus alunos me pediam para fazê-las
  90. mesmo quando eu estava lá pessoalmente.
  91. Era como se eles me preferissem
    em desenho do que pessoalmente.
  92. (Risos)

  93. Aquilo me surpreendeu,
    porque meus alunos eram da geração

  94. que foi criada vendo telas,
  95. então eu tinha certeza
    que eles preferiam aprender de uma tela
  96. do que de uma folha.
  97. Mas quando conversei com meus alunos
  98. sobre o porquê eles gostaram
    tanto dos quadrinhos,
  99. comecei a entender o potencial
    educativo dos quadrinhos.
  100. Primeiro, ao contrário
    dos livros de matemática,
  101. os quadrinhos ensinavam visualmente.
  102. Nossos alunos cresceram
    numa cultura visual,
  103. então eles costumavam
    receber informações assim.
  104. Mas ao contrário
    de outras histórias visuais,
  105. como filmes, televisão,
    animações ou vídeos,
  106. quadrinhos são o que chamo de permanentes.
  107. Num quadrinho, passado,
    presente e futuro estão lado a lado
  108. na mesma página.
  109. Isso significa que o fluxo de informações
  110. está firmemente nas mãos do leitor.
  111. Quando meus alunos não entendiam
    algo nas aulas em quadrinhos,
  112. eles podiam reler o momento
    o quão rápido ou devagar precisassem.
  113. Era como se eu estivesse dando a eles
    um controle remoto da informação.
  114. Isso não acontecia nas minhas videoaulas,
  115. e também não era possível
    nas aulas presenciais.
  116. Quando falo, eu entrego a informação
    tão rápido ou devagar quanto eu quero.
  117. Então para alguns tipos
    de informação, para certos alunos,
  118. esses dois aspectos dos quadrinhos,
    somado à natureza visual e permanência,
  119. os tornam uma ferramenta
    educativa incrivelmente poderosa.
  120. Quando eu estava ensinando Álgebra 2,

  121. eu também estava fazendo mestrado
    em pedagogia na Cal State East Bay.
  122. E eu estava tão intrigado pela experiência
    com as aulas em quadrinhos
  123. que eu decidi focar meu projeto final
    do mestrado em quadrinhos.
  124. Eu queria descobrir por que
    educadores dos Estados Unidos
  125. foram historicamente tão relutantes
    em usar quadrinhos nas salas de aula.
  126. Aqui está o que eu descobri.
  127. Quadrinhos se tornaram
    uma mídia de massa nos anos 40,

  128. com milhões de cópias
    vendidas todos os meses,
  129. e os educadores daquela época perceberam.
  130. Vários professores inovadores
    começaram a trazer quadrinhos às aulas
  131. para testar.
  132. Em 1944, o "Jornal
    de Sociologia Educacional"
  133. até dedicou uma edição inteira
    a esse assunto.
  134. As coisas pareciam estar progredindo.
  135. Professores tinham começado
    a lidar com isso.
  136. Mas surge então, esse cara.
  137. Esse é o psicólogo infantil,
    Dr. Fredric Wertham,
  138. que escreveu um livro em 1954
    chamado "Sedução dos Inocentes",
  139. no qual ele alega que quadrinhos
    causam delinquência juvenil.
  140. (Risos)

  141. Ele estava errado.

  142. O Dr. Wertham era, na verdade,
    um cara bem bacana.
  143. Ele passou a maior parte da carreira
    trabalhando com jovens delinquentes,
  144. e no trabalho ele percebeu que
    a maioria dos clientes lia quadrinhos.
  145. O que o Dr. Wertham falhou em perceber
    foi que nos anos 40 e 50,
  146. quase todas as crianças
    dos EUA liam quadrinhos.
  147. Dr. Wertham fez um trabalho bastante
    dúbio provando seu argumento,

  148. mas seu livro inspirou
    o Senado dos Estados Unidos
  149. a realizar uma série de audiências
  150. para ver se de fato os quadrinhos
    causavam delinquência juvenil.
  151. As audiências perduraram
    por quase dois meses.
  152. Elas terminaram inconclusivas, mas não
    sem antes causar um tremendo dano
  153. à reputação dos quadrinhos
    aos olhos do público nos EUA.
  154. Depois disso, educadores respeitados
    dos EUA deram as costas,

  155. e continuaram distantes por décadas.
  156. Foi só nos anos 70
  157. que alguns corajosos começaram a voltar.
  158. E foi somente pouco tempo atrás,
  159. talvez na última década,
  160. que os quadrinhos tiveram maior aceitação
  161. entre os educadores dos EUA.
  162. Quadrinhos e graphic novels
    estão finalmente fazendo o caminho

  163. de volta às salas de aula nos EUA
  164. e isso está acontecendo até
    na Bishop O'Dowd, onde eu lecionei.
  165. Sr. Smith, um dos meus colegas à época
  166. usa o livro "Understanding
    Comics" de Scott McCloud's
  167. nas suas aulas de literatura e cinema,
    porque o livro dá aos alunos
  168. a linguagem que aborda
    a relação entre palavras e imagens.
  169. Sr. Burns passa um trabalho de escola
    sobre quadrinhos aos alunos todos os anos.
  170. Pedindo aos seus alunos para fazerem
    um romance em prosa usando imagens,
  171. o Sr. Burns pede que eles
    pensem profundamente
  172. não só na história em si
  173. mas também em como ela é contada.
  174. E a sra. Murrock usa
    o meu quadrinho "Chinês Americano"
  175. com seus alunos de Inglês 1.
  176. Para ela, as graphic novels
  177. são uma ótima forma de satisfazer
    os parâmetros curriculares americanos.
  178. Os parâmetros curriculares elucidam
    que os alunos devem saber analisar
  179. de que forma os elementos visuais
    contribuem para o significado,
  180. tom e beleza de um texto.
  181. Na biblioteca, a sra. Counts
    criou uma coleção de graphic novels

  182. do Bishop O'Dowd bastante impressionante.
  183. Agora, a sra. Counts e todos
    seus colegas bibliotecários
  184. estiveram no fronte
    em defesa dos quadrinhos,
  185. desde o início dos anos 80, quando
    um artigo do jornal da biblioteca
  186. da escola alegou que a presença
    das graphic novels na biblioteca
  187. aumentava seu uso em 80%
  188. e aumentava a circulação
    de materiais além dos quadrinhos
  189. em aproximadamente 30%.
  190. Inspirado nesse interesse renovado
    dos educadores nos EUA,

  191. os cartunistas estão produzindo
    mais conteúdo explicitamente educativo
  192. direcionado ao mercado
    escolar do que nunca.
  193. A maior parte é dirigida
    às artes e linguagens,
  194. mas cada vez mais
    quadrinhos e graphic novels
  195. começam a abordar
    temas de matemática e ciências.
  196. os quadrinhos e graphic novels STEM
    são tipo esse território desconhecido,
  197. pronto para ser explorado.
  198. Os Estados Unidos estão
    finalmente acordando para o fato

  199. de que os quadrinhos
    não causam delinquência juvenil.
  200. (Risos)

  201. Que eles pertencem ao arsenal
    de todos os educadores.

  202. E não há um bom motivo para manter
    os quadrinhos e graphic novels
  203. fora da nossa educação escolar.
  204. Eles ensinam visualmente,
  205. eles dão aos alunos
    aquele controle remoto.
  206. O potencial educativo está lá
  207. só esperando para ser usado
  208. por pessoas criativas como você.
  209. Obrigado.

  210. (Aplausos)