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← As alterações climáticas estão a tornar-se num problema que se sente na boca

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Zeige Revision 13 erzeugt am 12/04/2020 von Margarida Ferreira.

  1. Nos primeiros meses da pandemia,
  2. o "chef" José Andrés partilhou duas fotos
  3. que se tornaram no símbolo
    de uma crise alimentar da América moderna.
  4. A primeira mostra montanhas de batatas

  5. que foram deixadas a apodrecer
    num campo em Idaho.
  6. Os restaurantes, cantinas
    e estádios que as consumiam
  7. foram encerrados durante a pandemia.
  8. A segunda mostra uma cena devastadora
  9. no exterior do banco alimentar
    de San Antonio.
  10. Milhares de carros em fila,
    cheios de pessoas,
  11. à espera de comida
    que não era suficiente para todos.
  12. "Como é possível que estas duas fotos
    existam ao mesmo tempo,
  13. "no momento mais próspero
  14. "e tecnologicamente mais avançado
    da história?" escreveu Andrés num "tweet".
  15. Nos meses que se seguiram
    à publicação das fotos,

  16. a crise piorou.
  17. Milhares de milhões de quilos de batatas
    e outros produtos frescos
  18. foram deitados fora
    pelos agricultores americanos.
  19. Ao mesmo tempo,
  20. os bancos alimentares por todo o país
    assinalavam o aumento da procura
  21. e 40% deles enfrentavam
    carências críticas.
  22. Fora dos EUA,
  23. especialmente no Médio Oriente
    e em todo o sudeste de África,
  24. a COVID-19 paralisava
    o já vulnerável sistema alimentar.
  25. A Oxfam previu que, no final de 2020,
  26. podiam morrer de fome
    12 000 pessoas por dia, devido à COVID-19.
  27. Isso é mais do que
    a maior taxa de mortalidade diária
  28. registada até agora.
  29. Mas o que é pior

  30. e mais preocupante para todos nós
  31. é que a COVID é apenas uma
    das muitas e grandes perturbações
  32. que foram previstas
  33. para os próximos anos e décadas.
  34. Mais crónicas e mais complexas
    do que as pressões resultantes da COVID
  35. são as pressões da alteração climática.
  36. E quem vive na Califórnia
    tem visto isso nas suas quintas.

  37. Têm visto um calor estiolante,
    seca e incêndios
  38. a prejudicar as plantações de abacate,
    de amêndoa, de citrinos e de morangos.
  39. Neste verão, vimos os impactos
    devastadores das tempestades
  40. nas plantações de milho e soja
  41. Eu tenho visto as várias pressões da seca,
  42. do calor, das inundações,
    das tempestades,
  43. dos insetos invasores,
    das pragas bacterianas,
  44. da mudança de estações
    e da instabilidade climática,
  45. de Washington à Flórida
  46. e da Guatemala à Austrália.
  47. A conclusão é esta:

  48. a mudança climática está-se a tornar
    em algo que se sente na boca.
  49. É literalmente um problema
    de todos os dias.
  50. O Painel Intergovernamental
    sobre Alteração Climática
  51. previu que, em meados do século,
  52. o mundo pode atingir o limite
    quanto ao aquecimento global,
  53. para além do qual
    as práticas agrícolas atuais
  54. deixarão de poder suportar
    grandes civilizações humanas.
  55. Jerry Hatfield, cientista do USDA,
    explicou-me isso:
  56. A maior ameaça de todas
    da alteração climática
  57. é o colapso do sistema alimentar.
  58. A realidade que enfrentamos,

  59. a que foi denunciada
    por aquela montanha de batatas
  60. e os carros em fila durante a pandemia,
  61. é que as nossas cadeias
    de abastecimento são antiquadas.
  62. O nosso sistema alimentar não foi criado
  63. para se adaptar a grandes desastres
    ou para evitá-los.
  64. Abordar este desafio,
    tal como acontece com outros,
  65. vai definir o nosso progresso
    no próximo século.
  66. Mas há boas notícias.

  67. A boa notícia é que os agricultores,
    os empresários e os académicos
  68. estão a repensar os sistemas alimentares
    a nível nacional e global.
  69. Estão a fundir os princípios
    da agroecologia do mundo antigo
  70. com a tecnologia de ponta
  71. de forma a criar aquilo a que chamo
    uma terceira via para o futuro alimentar.
  72. Vamos começar a ver
    mudanças radicais
  73. no que plantamos e como comemos,
    nas próximas décadas,
  74. à medida que estas pressões ambientais,
  75. populacionais e de saúde pública
    se intensificam.
  76. Eu estudei estas mudanças
    para o meu livro "The Fate of Food:

  77. "What We'll Eat in a Bigger,
    Hotter, Smarter World."
  78. Viajei durante cinco anos
    pelas terras, pelas mentes
  79. e pelas máquinas que estão a modelar
    o futuro dos alimentos.
  80. As minhas viagens levaram-me
    a 15 países e 18 estados,
  81. dos pomares de maçã no Wisconsin
    aos pequenos campos de milho no Quénia,
  82. às enormes explorações piscícolas
    norueguesas
  83. e aos campos de comida
    computadorizados em Xangai.
  84. Investiguei novas ideias,
  85. como a robótica, o CRISPR
    e as quintas verticais
  86. e deias antigas, como insetos comestíveis,
    permacultura e plantas antigas.
  87. Comecei a ver surgir essa terceira via
    de produção de alimentos.
  88. Uma síntese do tradicional
    e do radicalmente novo.
  89. Há uma crescente controvérsia

  90. sobre o melhor caminho
    para um futuro alimentar seguro nos EUA.
  91. "A comida está pronta para a reinvenção",
    afirmou Bill Gates.
  92. Grandes fluxos de investimento
    estão a financiar
  93. novos métodos de agricultura
    de clima inteligente e de alta tecnologia.
  94. Mas muitos defensores
    de alimentos sustentáveis
  95. irritam-se com a ideia de reinvenção.
  96. Querem "desinventar" a comida.
  97. Defendem um retorno
    à pré-revolução industrial
  98. e à pré-revolução verde,
  99. à agricultura biodinâmica e orgânica.
  100. Ao que os céticos,
    inevitavelmente, respondem:
  101. "Tudo bem, mas isso ajusta-se?
  102. "Claro, um retorno
    aos métodos agrícolas tradicionais
  103. "poderá produzir melhores alimentos,
  104. "mas pode produzir
    comida suficiente e acessível?"
  105. O fosso entre o campo da reinvenção
    e o campo da "desinvenção"

  106. existe há décadas.
  107. Mas agora é uma batalha acesa.
  108. Um lado cobiça o passado
  109. e o outro cobiça o futuro
  110. e, enquanto alguém
    que observa isto de fora,
  111. eu comecei a perguntar
    porque precisa de ser tão binário.
  112. Não pode haver uma síntese
    das duas abordagens?
  113. O nosso desafio é ir buscar
    à sabedoria de todas as eras
  114. e à nossa ciência mais avançada,
  115. para criar esta terceira via.
  116. Uma via que nos permita melhorar
    e dimensionar as nossas colheitas,
  117. e, em vez de degradar,
  118. restaura a teia estrutural da vida.
  119. Eu não pertenço a nenhum dos lados.

  120. Sou uma vegana falhada,
    uma vegetariana descomprometida
  121. e uma péssima agricultora caseira.
  122. Sendo honesta,
  123. vou continuar a tentar,
    mas poderei falhar.
  124. Mas tenho esperança
  125. e se as minhas viagens
    me ensinaram alguma coisa
  126. é que há boas razões para ter esperança.
  127. Estão a surgir muitas soluções
    que podem ajudar
  128. a construir sistemas alimentares
    sustentáveis e resilientes.
  129. Mesmo que não possamos contar
    com uma boa quantidade
  130. de agricultores caseiros vegetarianos
    para fazê-lo por si mesmos
  131. desde o início.
  132. Vamos começar com
    a inteligência artificial e a robótica.

  133. Jorge Heraud é um engenheiro peruano
  134. que agora mora em Silicon Valley.
  135. A empresa dele desenvolveu
    um eliminador de ervas daninhas robótico
  136. chamado See and Spray.
  137. Fui ao Arkansas para ver
    a viagem inaugural do See and Spray.
  138. De certa forma, esperava
    um batalhão de robôs ao estilo C3PO
  139. a marchar nos campos com mãos-pinça
    a arrancar as ervas daninhas.
  140. Em vez disso, encontrei isto.
  141. Um trator com uma saia de aro
    grande e branca na sua parte traseira.
  142. Dentro dessa saia de aro
    há 24 câmaras
  143. que usam visão computacional
    para ver o solo por baixo
  144. e para distinguir entre
    as plantas e as ervas daninhas.
  145. E para distribuir,
    com uma precisão de atirador,
  146. uns jatos minúsculos
    de fertilizante concentrado
  147. ou herbicida,
  148. que incineram as pequenas ervas daninhas.
  149. Aprendi como a robótica
    pode acabar com a prática

  150. de espalhar produtos químicos
    em milhões de hectares de terra
  151. e como podemos reduzir
    o uso de herbicidas até 90%.
  152. Mas o panorama geral
    é ainda mais emocionante.
  153. Máquinas inteligentes
    podem tratar plantas individualmente,

  154. aplicando não só herbicidas,
  155. mas também fungicidas e inseticidas
  156. e fertilizantes, planta a planta,
    em vez de campo a campo.
  157. Assim, a seu tempo,
  158. este tipo de agricultura hiperespecífica
  159. pode permitir mais diversidade
    e plantação mista nos campos.
  160. E as grandes quintas podem começar
    a imitar os sistemas naturais
  161. e a melhorar a saúde do solo.
  162. Heraud é a personificação
    do pensamento de terceira via, certo?

  163. "Os robôs" disse-me ele,
  164. "não têm que nos tirar da natureza,
  165. "podem aproximar-nos dela,
    podem restituí-la."
  166. Aumentar a diversidade de cultivo
    será crucial
  167. para construir
    sistemas alimentares resistentes.
  168. E o mesmo sucederá
    com a agricultura descentralizada
  169. de modo que, quando os agricultores
    de uma região são prejudicados,
  170. os outros ao redor
    podem continuar a crescer.
  171. O aumento das quintas verticais,

  172. como esta quinta, dentro de uma antiga
    fábrica siderúrgica em Newark, New Jersey,
  173. pode desempenhar um papel fundamental
    na descentralização da agricultura.
  174. Quintas aeropónicas usam
    uma pequena fração da água
  175. em comparação com
    a que é usada em quintas de solo.
  176. Conseguem cultivar alimentos mais rápido,
    cerca de 40% mais rápido.
  177. E quando estão localizadas
    nas cidades e arredores,
  178. onde a comida é consumida,
  179. eliminam uma enorme quantidade
    de transporte e desperdício alimentar.
  180. No início, pareceu-me assustador,
  181. do género de "Silent Running",
  182. que estaríamos a cultivar
    as frutas e vegetais do futuro
  183. dentro de portas, sem solo ou sol.
  184. E depois de passar semanas
    nestas fábricas,
  185. estranhamente, comecei a ver,
    como quase perfeitamente natural,
  186. oferecer às plantas apenas
    e exatamente o que elas precisam,
  187. com zero herbicidas
    e eficiência radical.
  188. De novo, vemos aqui os inovadores
    a ir buscar — e talvez até a elevar —

  189. a sabedoria dos ecossistemas naturais.
  190. Os desenvolvimentos em carnes
    de origem vegetal e alternativas
  191. são também
    grandes motivos de esperança.
  192. E seguem uma tendência semelhante
  193. na direção da produção de proteína local,
    resiliente e baixa em carbono.
  194. Os consumidores
    estão animados com isto
  195. e, durante a pandemia,
  196. vimos um aumento de 250%
  197. na procura de carnes alternativas.
  198. Um estudo da revista
    Journal of Clinical Nutrition
  199. descobriu que os participantes
    que comiam proteínas vegetais
  200. tiveram uma queda
    nos níveis de colesterol,
  201. no seu peso,
  202. e, por fim,
    no risco de doenças cardíacas.
  203. Os potenciais benefícios ambientais
    das carnes vegetais são surpreendentes.
  204. Há até potencial em carnes cultivadas
    em laboratório ou baseadas em células.
  205. Uma Valeti deu-me o meu primeiro prato
    de peito de pato produzido em laboratório,

  206. colhido de fresco de um biorreator.
  207. Foi desenvolvido a partir
    de uma pequena amostra de células
  208. de tecido muscular e gordura
    e tecidos conjuntivos,
  209. que é exatamente o que comemos
    quando comemos carne.
  210. Esta carne de pato cultivada
    em laboratório ou baseada em células
  211. tem muito poucas hipóteses
    de contaminação bacteriana,
  212. tem cerca de 85%
    menos emissões de CO2 associadas
  213. Finalmente, pode ser cultivada
  214. como as colheitas, em quintas verticais
    em instalações descentralizadas
  215. que não são vulneráveis
    a perturbações na cadeia de abastecimento.
  216. Valeti começou como cardiologista,

  217. que entendeu que os médicos
    têm desenvolvido
  218. tecido humano e animal
    em laboratórios há décadas.
  219. Ele foi inspirado tanto por isso,
  220. como por uma citação de 1931
    de Winston Churchill que diz:
  221. “Havemos de fugir do absurdo
    de criar o frango inteiro
  222. "para comer o peito ou a asa,
  223. "desenvolvendo-os separadamente
    em meios adequados."
  224. Como Heraud, Valeti é um pensador
    de excelência da terceira via.
  225. Ele reimaginou uma ideia antiga
    usando uma nova tecnologia,
  226. para introduzir uma solução
    cujo tempo chegou.
  227. Encontrei-me com dezenas
    de agricultores, empresários e engenheiros

  228. que rivalizam no pensamento
    da terceira via, em todo o mundo.
  229. Estão a usar ferramentas modernas,
    de criação, como o CRISPR
  230. para desenvolver colheitas nutritivas
    que podem resistir à seca e ao calor.
  231. Estão a usar IA para tornar
    a aquicultura sustentável.
  232. Estão a encontrar maneiras de eliminar
    o desperdício de alimentos.
  233. Estão a aumentar
  234. a agricultura de conservação
    e o pastoreio administrado.
  235. E estão a reviver plantas antigas,
  236. e a reciclar esgotos e água suja
  237. para desenvolver um abastecimento
    de água à prova de seca.
  238. O resultado é este:

  239. A inovação humana
    que combina abordagens antigas e novas
  240. na produção de alimentos
  241. pode inaugurar esta terceira via
    — e acredito que o vai fazer —
  242. e redefinir alimentos sustentáveis
    em grande escala.