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← Como uma árvore pode ter 40 variedade de frutos

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26 llengües

Showing Revision 8 created 11/27/2019 by Margarida Ferreira.

  1. Há 100 anos,
  2. existiam 2000 tipos de pêssegos,
  3. quase 2000 variedades de ameixas
  4. e cerca de 800 variedades
    de maçãs nos EUA.
  5. Hoje, resta somente
    uma amostra deste número,
  6. e encontram-se atualmente ameaçadas
    graças à industrialização da agricultura,
  7. às pragas e à alteração climática.
  8. Entre as variedades ameaçadas,
    encontramos a Blood Cling,

  9. um pêssego de polpa vermelha, introduzido
    na América por missionários espanhóis,
  10. e posteriormente cultivado
    pelos povos nativos durante séculos;
  11. um alperce introduzido
    por imigrantes chineses
  12. que vieram trabalhar
    na Ferrovia Transcontinental;
  13. e inúmeras variedades de ameixas
    originárias do Médio Oriente,
  14. e introduzidas por imigrantes
    italianos, franceses e alemães.
  15. Nenhuma destas variedades é autóctone.
  16. A maioria das nossas árvores de fruto
    foram cá introduzidas,
  17. incluindo as maçãs,
    os pêssegos e as cerejas.
  18. Para além de alimento,
  19. a nossa cultura está embutida
    nestas peças de fruta.
  20. Falamos de quem as cultivou
    e delas se ocupou,
  21. que tanto as valorizava
    que resolveu trazê-las consigo
  22. como elo de ligação às suas origens,
  23. refletem o modo como foram
    transmitidas e partilhadas.
  24. Estas frutas fazem parte
    da nossa história.
  25. E eu tive o privilégio de a poder estudar
  26. através de uma obra da minha autoria,
    "A Árvore de 40 frutos".
  27. A árvore de 40 frutos
    trata-se de uma árvore

  28. capaz de dar 40 variedades diferentes
    de frutos com caroço.
  29. Falamos de pêssegos, ameixas,
    alperces, nectarinas e cerejas,
  30. todos eles a crescer numa só árvore,
  31. feita de modo a parecer uma árvore normal
    durante a maior parte do ano,
  32. até à época da primavera, quando floresce
    em tons de rosa e branco,
  33. para depois no verão
    dar uma panóplia de diferentes frutos.
  34. Comecei este projeto
    puramente por razões artísticas:
  35. queria alterar a realidade do quotidiano,
  36. e, para dizer a verdade,
  37. criar um momento brilhante,
    onde podemos ver uma árvore
  38. a dar flores de diferentes tons
  39. e frutos de diferentes variedades.
  40. Criei a árvore de 40 frutos
    através de enxertos.

  41. Colhi enxertos no inverno, guardei-os,
  42. e enxertei-os na primavera.
  43. Na realidade, quase todas as árvores
    de fruto são enxertadas,
  44. porque a semente é geneticamente
    diferente da árvore mãe.
  45. Quando encontramos
    uma variante de que gostamos,
  46. a maneira de a propagarmos
    é cortar uma estaca duma árvore
  47. e enxertá-la numa outra árvore
  48. — parece loucura
  49. que cada maçã Macintosh
    venha da mesma árvore
  50. que foi enxertada uma e outra vez
    durante gerações.
  51. Mas também significa que as árvores
    não podem ser preservadas pela semente.
  52. Conheço os enxertos
    desde que me lembro.
  53. O meu bisavô ganhava a vida
    a enxertar pomares de pêssegos
  54. no sudeste da Pensilvânia.
  55. Apesar de não o ter conhecido,
  56. sempre que o seu nome era mencionado,
  57. era reconhecido
  58. pela capacidade quase mística
    ou mágica de enxertar.
  59. Escolhi o número 40
    para a árvore de 40 frutos

  60. porque, nas religiões ocidentais,
  61. este número é visto não como
    a dúzia quantificável ou o infinito,
  62. mas como um número
    impossível de contar.
  63. É uma multitude de valor ou um prémio.
  64. Mas o problema, quando comecei,
  65. é que não encontrei
    40 variedades desses frutos,
  66. apesar de viver em Nova Iorque,
  67. que, há um século,
  68. era um dos principais
    produtores desses frutos.
  69. Enquanto acabavam com
    os pomares de investigação
  70. e os antigos pomares,
  71. eu colhia amostras
  72. e enxertava-as nas minhas árvores
    no meu viveiro.
  73. Isto é como a árvore de 40 frutos
    era quando foi plantada,

  74. e isto é seis anos depois.
  75. Não é um desporto
    de gratificação imediata.
  76. (Risos)

  77. Leva um ano até sabermos
    se o enxerto foi bem sucedido;

  78. dois a três anos para frutificar;
  79. e leva até oito anos
    a criar apenas uma árvore.
  80. Todas as variedades
    na árvore de 40 frutos

  81. são ligeiramente diferentes
    na forma e no sabor.
  82. Percebi que ao fazer uma tabela
    da floração das variedades
  83. de umas em relação a outras,
  84. poderia modelar ou desenhar
    o aspeto da árvore na primavera.
  85. Isto é a árvore durante o verão.
  86. Produzem fruto de junho a setembro.
  87. Primeiro as cerejas,
    depois os alperces,
  88. ameixas asiáticas,
    nectarinas e pêssegos,
  89. e penso que me esqueci
    de algum, algures...
  90. (Risos)

  91. Apesar de ser uma obra artística
    no exterior de uma galeria,

  92. enquanto o projeto continua,
  93. tem sido tema de conversa
    no mundo da arte.
  94. Fui convidado para recriar
    a árvore em vários locais,
  95. o que faço é estudar as variedades
  96. que são originárias
    ou históricas dessa região,
  97. recolho-as localmente
    e enxerto-as na árvore
  98. para que seja um pedaço
    de história agrícola da região.
  99. Depois o projeto teve projeção "online",

  100. o que foi uma coisa horrível
    e me deu humildade.
  101. A parte horrível foi
    todas as tatuagens que vi
  102. nas fotos da árvore dos 40 frutos.
  103. (Risos)

  104. Pensei: "Quem faria isso ao seu corpo?"

  105. (Risos)

  106. E a parte que me deu humildade
    foram todos os pedidos que recebi

  107. de pastores, rabinos e padres
  108. que me pediram para usar
    a árvore como parte do serviço religioso.
  109. Depois passou a "meme".
    [O teu casamento é como essa árvore?]
  110. A minha resposta a esta pergunta
    é "Espero que não".
  111. (Risos)

  112. Como todos os bons "memes",

  113. este levou a uma entrevista
    na "Edição de Fim de Semana" da NPR
  114. e como professor de colégio,
    pensei ter atingido o auge
  115. — como se fosse o pináculo
    da minha carreira —
  116. mas nunca se sabe
    quem está a ouvir a NPR.
  117. Semanas após a minha entrevista na NPR,
  118. recebi um "email"
    do Departamento da Defesa.
  119. A Administração de Projetos
    de Pesquisa Avançada de Defesa
  120. convidou-me a fazer uma palestra
    sobre criatividade e inovação,
  121. uma conversa que rapidamente
    mudou para segurança alimentar.
  122. Vejam, a nossa segurança nacional
    depende da nossa segurança alimentar.
  123. Atualmente temos várias monoculturas
  124. que cultivam apenas
    algumas variedades de cada cultura.
  125. Se algo acontecer com apenas
    uma dessas variedades,
  126. isso pode ter um efeito dramático
    no fornecimento alimentar.
  127. A chave para manter
    a nossa segurança alimentar
  128. é preservar a nossa biodiversidade.
  129. Há 100 anos isto era feito
    por quem tinha um jardim
  130. ou algumas árvores no seu quintal,
  131. e cultivavam variedades que eram
    passadas de pais para filhos.
  132. Estas são ameixas de uma só árvore
    de 40 frutos, numa semana, em agosto.

  133. Anos após o começo do projeto,
  134. fui informado que tinha uma
    das maiores coleções de ameixas
  135. da zona este dos EUA,
  136. que, como artista,
    é completamente aterrador.
  137. (Risos)

  138. Mas de certa forma,
    não sabia o que tinha.

  139. Descobri que a maioria
    das variedades que tinha
  140. eram variedades herdadas,
  141. tinham sido cultivadas antes de 1945,
  142. ano que é visto como o nascimento
    da industrialização da agricultura.
  143. Algumas das variedades
    datavam de há milhares de anos.
  144. Ao descobrir o quanto eram raras,
  145. fiquei obcecado em protegê-las,
  146. e a arte foi o veículo utilizado.
  147. Fui a pomares antigos
    antes de serem arrancados
  148. e removia a secção do tronco
  149. onde se encontrava o enxerto original.
  150. Comecei a colecionar
    flores e folhas prensadas
  151. para um herbanário de amostras.
  152. Comecei a sequenciar o ADN.
  153. Propus-me preservar a história
  154. através de gravuras e descrições.
  155. Contar a história do pêssego de George IV,
  156. que ganhou raízes entre dois
    edifícios em Nova Iorque
  157. — alguém passa, prova-o,
  158. e torna-se a variedade comercial
    de maior sucesso do século XIX,
  159. por causa do seu ótimo sabor.
  160. Quase desaparece,
  161. pois não aguenta o transporte marítimo
  162. e não obedece aos requisitos
    da agricultura moderna.
  163. Mas como história,
    tinha de ser contada.

  164. E ao contar essa história,
  165. temos de incluir a experiência
    de poder tocar,
  166. cheirar e saborear essas variedades.
  167. Então propus-me criar um pomar
  168. onde esses frutos pudessem
    estar disponíveis ao público,
  169. e estivessem na zona
    de maior densidade populacional
  170. que pudesse encontrar.
  171. Comecei a procurar meio hectare
    de terra em Nova Iorque
  172. o que, em retrospetiva,
    parece demasiado ambicioso,

  173. provavelmente a razão pela qual
    ninguém respondia aos meus telefonemas
  174. (Risos)

  175. até que, por fim, quatro anos mais tarde,
    tive resposta de Governor's Island.

  176. A Governor's Island
    é uma antiga base naval

  177. que foi doada à cidade
    de Nova Iorque no ano 2000.
  178. Toda esta terra ficou acessível
  179. a uma viagem de 5 minutos
    de Nova Iorque.
  180. Fui convidado a criar um projeto
    a que chamaram "Pomar Aberto"
  181. que visa recuperar antigas
    variedades de frutos
  182. que existiam em Nova Iorque
    no século passado.
  183. Atualmente em marcha,
  184. o Pomar Aberto vai ser composto
    por 50 árvores com múltiplos enxertos
  185. de 200 variedades de frutas
    variadas e antigas.
  186. São variedades originárias
    ou que fazem parte da história da região.
  187. Variedades como a maçã morango,
  188. que é originária da 13.ª Rua
    e da 3.ª Avenida.
  189. Visto que uma árvore de fruta
    não pode ser mantida pela semente,
  190. o Pomar Aberto visa ser
    uma base genética viva,
  191. ou um arquivo desses frutos.
  192. Tal como a árvore dos 40 frutos,
    vai ser uma experiência;
  193. e também vai ser simbólico.
  194. Mais importante, vai ser um convite
    ao debate sobre a conservação
  195. e melhor conhecimento da comida.
  196. Através da árvore dos 40 frutos,

  197. recebi milhares e milhares
    de "emails" de pessoas,
  198. a perguntar várias coisas sobre
    "Como plantar uma árvore?"
  199. Com menos de 3% da população
  200. com um vínculo direto à agricultura,
  201. o Pomar Aberto vai convidar as pessoas
  202. a participarem no programa público
    e a fazerem formações,
  203. para aprender a enxertar, manter,
    podar e colher uma árvore;
  204. participar em provas de frutos
    e passeios de floração;
  205. trabalhar com cozinheiros locais
    para aprender a utilizar a fruta
  206. e recriar receitas antigas
  207. para as quais muitas destas variedades
    eram especificamente cultivadas.
  208. Ir além do espaço físico do pomar,
  209. será um livro de receitas
    que irá juntar todas essas receitas.
  210. Será um guia prático
  211. das características
    e particularidades dessas frutas,
  212. da sua origem e história.
  213. Tendo crescido numa quinta,
    pensava saber de agricultura

  214. e não queria ter nada a ver com ela.
  215. Então, fiz-me artista.
  216. (Risos)

  217. Mas tenho de admitir
    que faz parte do meu ADN.

  218. E penso não ser o único.
  219. Há 100 anos, todos nós estávamos
    mais ligados à cultura,
  220. ao cultivo e à história da nossa comida,
  221. e fomo-nos desligando dela.
  222. O Pomar Aberto cria a oportunidade,
  223. não apenas de voltar a conectar
    com este passado desconhecido,
  224. mas também uma maneira de pensar
    como será o futuro da nossa comida.
  225. Obrigado.

  226. (Aplausos)